Quebras estruturais e preços do boi gordo: mais um artigo publicado

Acabo de ser informado – não pela revista, mas por um colega – que meu artigo com o Ari e com o Guilherme (meu ex-aluno) foi finalmente publicado na Economia Aplicada. Eis o endereço e eis o resumo:

O objetivo deste artigo é analisar a existência de quebras estruturais na série do preço do boi gordo (por arroba) no estado de São Paulo entre 1954 e 2012. Devido às especificidades do preço do boi gordo (sazonalidade e ciclos) e também à importância da bovinocultura na agropecuária brasileira, a série foi anteriormente utilizada para discussão e estudo de testes econométricos, como análise de raiz unitária sazonal, modelos de transferência e cointegração. Neste trabalho, testam-se se quebras estruturais apresentam origem em determinados eventos históricos, inclusive intervenções governamentais. A principal metodologia utilizada para identificação e estimação das quebras é a desenvolvida por Bai & Perron (1998, 2003). Os resultados sugerem que as intervenções governamentais, especialmente os planos de estabilização, levaram a mudanças significativas no comportamento do preço do boi gordo.

Meus co-autores ajudaram um bocado, mas destaco o empenho do Guilherme em estudar um assunto que, na época, era-lhe novo. Sobre o Ari, não preciso comentar, é um dos melhores co-autores que tenho em várias empreitadas científicas.

Moxlad em novo endereço…e com bases de dados ampliadas!

Lembram da Moxlad? Pois é. Vou ter que atualizar os links laterais. Mudaram de endereço mas a boa notícia é que expandiram a base. Agora é de 1870 a 2010. Sabem quem vai gostar disto? O Leo Monasterio (que, se bobear, já deu a notícia antes de mim).

moxlad

O que o vinho tem a ver com o algodão…e com a história econômica brasileira?

Descubra aqui. Eis o resumo do texto.

Abstract: When and why did Brazilian cotton become important to the Industrial Revolution? After 1780, Brazil increased substantially its trade share relative to other cotton suppliers. Between 1791 and 1801, Brazilian cotton represented 40 percent of raw cotton imports in Liverpool, rivalling the West Indies. Using archival data between 1760 and 1808, this paper shows that Brazil benefited from increasing British demand for a new variety of cotton staple that emerged with mechanized textile production. Previous explanations for the rise of Brazilian cotton trade attributed it to the revolutions in the Caribbean in the 1790s, and the American Revolutionary War, which ended in 1783. Evidence, however, suggests that these explanations are incomplete or incorrect. The United States did not export cotton to Britain before 1790, and British imports from the West Indies did not fall after the revolutions. The increase in cotton trade between Brazil and Britain can be explained by four parallel stories: 1) how diplomatic conflicts between Portugal and Britain involving the wine trade increased Brazilian cotton importance in the Portuguese trade balance; 2) how cotton plantations in Brazil managed to respond to Britain’s increasing demand after the 1780s; 3) why the West Indies were not a viable alternative to Brazilian cotton; 4) why the Brazilian cotton staple had natural advantages over initial alternatives for new textile machines in Britain.

Gostou? Pois é. Eu também.

Falhas de governo: o caso dos livros

Novamente o britânico Dalrymple nos dá outro exemplo de que fiz bem em comprar o seu O Prazer de Pensar da É Realizações, 2016. Desta vez, ele fala sobre um curioso caso de uma biblioteca pública que resolve se desfazer de parte do acervo porque se mudara para uma sede menor. Iriam simplesmente jogar vários livros fora e um bibliotecário procura um livreiro para lhe dar alguns livros, não para vendê-los.

Aí você – como eu (e como o autor) – não resiste e pergunta: por que não vender os livros? A biblioteca não poderia ganhar algum dinheiro com isso? A dica para entender o que acontecia está na economia política que gera esta imensa falha de governo:

Há uma regra na Câmara que diz que se algo a ela pertence for vendido por mais de cem libras, a venda tem que ser previamente aprovada. Evidentemente, isso seria impossível quando se trata de centenas, talvez milhares, de itens. A Câmara logo não faria mais nada a não ser aprovar a venda de seus livros. [Dalrymple, T. (2016) O Prazer de Pensar, p.34]

Não é tragicômico?

“Por que balcões em restaurantes (só) existem no Japão?” ou “O que há em comum entre o sushi, a venda de produtos e a política monetária?”

O pessoal do jornal Nikkey Shimbun – da colônia nipo-brasileira – tem feito um trabalho interessante ao publicar alguns volumes chamados Cultura do Japão com coletâneas de artigos em português e em japonês (ótimo para praticar, mas excessivamente otimista quanto às qualidades de meus ancestrais em alguns casos…).

No segundo volume publicado, há um texto de autoria de Masaomi Ise (originalmente publicado em 2006 (o livrinho é de 2016) entitulado: Por que balcões em restaurantes só existem no Japão?. A pergunta diz respeito, claro, não a balcões em geral, no qual se entregam os produtos, mas àqueles que vemos em restaurantes japoneses, nos quais as pessoas se sentam e se servem por ali.

O interessante no artigo de Ise é a história e, como tentarei destacar, também o aspecto econômico (teórico) dos balcões. Assim, não sei se é correto que não existam balcões deste tipo em outros lugares do mundo e as evidências empíricas do texto – que é apenas um texto jornalístico, sejamos justos – não são lá grandes coisas, mas o texto vale toda a leitura.

Primeiro, vejamos algumas curiosidades sobre o tema.

Consta que, no Japão, a posição social de cozinheiro era antigamente ainda mais elevada que hoje em dia. O primeiro a iniciar no Japão o balcão em restaurantes foi Yasuzo Shiomi. Ele nasceu em 1895 e viveu até 1971. Na época, ao que parece, os cozinheiros de primeira categoria formavam duplas e passavam pelos restaurantes mais famosos do país. [p.49]

Vários pontos merecem reflexão, não? Numa sociedade com escassez de alimentos – como era o Japão – um bom cozinheiro realmente tinha que ser valorizado. Lei econômica básica. Agora, interessante é a viagem em “duplas”. Seria algum tipo de cláusula concorrencial entre eles? Esta pergunta vai me assombrar por um tempo, eu sei.

Outra informação do texto é que o sr. Shiomi era uma evidência viva de que talentos geram rendas específicas (outro ponto básico da teoria econômica). Consta que ganhava algo como 500 ienes o que contrasta com 100 ienes para cozinheiros que o texto chama de “experientes” e 70 para professores de universidades públicas. Ou seja, antes de sair por aí dizendo que no Japão o professor é endeusado, estude um pouco de Ciência Econômica e, por que não, História.

Claro, o aspecto que mais salta à vista sobre balcões é o reputacional. Deixemos o próprio jornalista introduzir este complexo conceito de Teoria dos Jogos de forma intuitiva.

E foi ele [Yasuzo Shiomi] quem iniciou em 1924 um restaurante com balcão em Osaka – o restaurante Hamasaku. Esse restaurante ganhou enorme notoriedade, porque se podia ver diante dos olhos a habilidade do cozinheiro top star da época. [p.50]

Arrisco supor que a qualidade top star do sr. Shiomi é que era derivada da existência do balcão. Digo, após viajar a ganhar experiência, ele descobriu uma bela estratégia para adicionar valor ao seu produto: mostrar suas habilidades diretamente ao cliente.

Funcionava? Bem, o próprio texto sugere que os preços não eram os de um restaurante comum. A reputação, como sabe qualquer aluno que tenha estudado Teoria dos Jogos, é um dos conceitos mais importantes para se entender desde aspectos competitivos de mercados à boa execução da política monetária.

Uma nota à parte é que muitos brasileiros aproveitam mal o conceito de balcão ao instalarem seus restaurantes de comida japonesa por aqui. Um mesmo, muito bom, em Pelotas, tem parte de seu balcão ridiculamente coberta pelo freezer transparente que permitem ao cliente ver as peças de peixe, mas não o preparo do prato.

Ah sim, a referência: Ise, Masaomi (2016) Por que balcões em restaurantes só existem no Japão? In Ise, Masaomi & Kishimoto, Koichi (2016). Cultura Japonesa, vol.2, Biblioteca Jovem de São Paulo/Editora Jornalística União Nikkey Ltda, 2016.

p.s. vale a pena, também, ler o artigo clássico do falecido Sherwin Rosen, The Economics of Superstars.

A União Européia não acabou e nossa imprensa carece de boas análises: assim, vamos divulgar um comentário sensato sobre o tema!

Lucas Mafaldo é um amigo muito querido e inteligente e a página dele está bem bacana agora (embora me pareça desatualizada…).

Os leitores que acham que tenho preconceito contra não-economistas – acho que ninguém que passou por aqui pensa assim, mas não custa avisar – vão se supreender. Ah sim, como o texto é longo, ao invés de usar o modo de citação deste WordPress, usarei o itálico. Deguste!

Ninguém duvida que a votação de ontem foi histórica. Porém, minha impressão é que a mídia brasileira está — como sempre — espantada demais. Parece que a cultura brasileira realmente virou uma grande torcida organizada, onde o importante é escolher o lado certo ao invés de explicar o que está acontecendo.

Primeiro, vamos aos motivos para ter calma: nada maluco demais vai acontecer. O Reino Unido já dominava a arte de fazer acordos antes do Brasil existir. Além disso, o RU nunca esteve dentro demais da UE. Ele tem a própria moeda, o próprio exército, um sistema político forte e participa da economia global. Sem falar que a saída da UE irá durar DOIS ANOS contados após a formalização do pedido — que ainda não aconteceu — de modo que será uma pequena mudança feita com calma.

A saída também não é nada misteriosa. Todo mecanismo internacional segue uma trilha perigosa: ele é apenas um fórum para nações soberanas ou um novo poder que controla efetivamente seus membros? Na medida em que a UE foi se transformando no segundo, cada país se viu diante de um dilema: vale a pena perder a soberania para participar de uma unidade política maior?

Essa questão não tem nada de radical. É questão que passava pela cabeça de Isócrates, na Atenas do período clássico. É a questão das colônias americanas após a independência. O tamanho das “politéias” mudam e diminuem com o tempo. Parte da resposta está em cálculo simples de custo-benefício (“o quanto ganho e quanto perco com essa aliança?”) misturado com insondáveis motivos psicológicos (“qual é minha IDENTIDADE? será que eu realmente SOU parte desse povo?”). A votação de ontem entra no ciclo histórico de dilatação e contração das unidades políticas.

No lado psicológico-cultural, há realmente um fenômeno histórico interessante: o retorno do nacionalismo. Mas é um erro identificá-lo com xenofobia ou racismo. Nações construídas em torno de identidades subjetivas — sejam governadas de modo independente sejam como parte de impérios maiores — sempre existiram. Aliás, desclassificar todo instinto nacionalista como imoral apenas torna o debate mais violento. O nacionalismo pode ser o prenúncio de governos autoritários, mas pode também ser um saudável desejo de auto-governo contra a subjugação de um poder estrangeiro.

Porém, tudo indica que o pesou mesmo nessa votação foi o cálculo utilitário: o quanto o Reino Unido ganha em participar da União Européia? O que é outro modo de dizer: será que o parlamento inglês consegue tomar decisões melhores do que o parlamento europeu? Eles acham que sim.

As grandes questões são proteção das fronteiras e acordos comerciais. Ausência de fronteiras para quem quer trabalhar é ótimo, mas para quem quer cometer crimes é péssimo. Depois da crise dos refugiados, dos ataques terroristas e da possível entrada de novos países na UE, o UK começou a pensar que faria um trabalho melhor sozinho.

Acordos comerciais são um assunto mais complicado. Não vivemos realmente na era do livre-comércio, mas na era dos complicadíssimos acordos comerciais entre governos. Alguns esperavam que a UE acabasse com a burocracia, mas ela se tornou ela mesmo uma super-burocracia. Porém, sair é difícil: o Reino Unido terá que renegociar uma quantidade gigantesca de acordos nos próximos anos. A dúvida sobre sua capacidade de fazê-lo vai causar bastante instabilidade nos mercados nos próximos meses.

Em certo sentido, os efeitos dessa decisão sobre a Europa me parecem maiores do que sobre a própria Inglaterra. Os ingleses possuem um sistema de governo tão eficiente que, me parece, vão aproveitar os próximos dois anos para construir acordos melhores do que os atuais.

Porém, isso vai enviar um sinal pesado para a União Européia: foi um voto de não-confiança. Se ela não conseguir se reformar rapidamente, pode ser o começo de uma debandada.

Pronto. Nada como divulgar um texto de qualidade para os cinco leitores deste blog. Como já sabemos, existem economistas que falam muita bobagem por aí e há filósofos que não seguem a tradição de papo furado que lhes traz uma triste fama.

Espero que tenha gostado.

A verdade não é relativa: os custos de buscá-la é que a relativiza (ou: mecanismos de transmissão da irracionalidade racional)

Capa_Frente_O Prazer de PensarDe Theodore Dalrymple, “O Prazer de Pensar”, É Realizações, 2016, temos este ótimo trecho para reflexão:

Nossa imaginação não precisa se esforçar muito para entender a mágoa – aquelas mágoas que acabam sendo ocorrências da própria vida – para a qual o espiritismo é uma resposta. Não significa que a verdade se torna relativa, é a importância da verdade na existência humana que faz isso [p.18]

Em primeiro lugar, sim, o autor não é simpático ao espiritismo, o que não o impede de fazer uma ótima observação sobre a suposta relatividade da verdade. Assim, esqueça a questão espiritual.

O último trecho é que é o mais interessante: “é a importância da verdade na existência humana que faz isso”. De fato, todos nós, em geral, gostamos da idéia de que exista uma verdade que se adequa à nossa experiência de vida. A tentação de torná-la relativa é muito forte porque, como dizem por aí, pensar dói (o que é uma boa maneira de dizer que existem custos de busca pela nossa suposta verdade universal).

Pense no caso da política e nos vieses que ela vende como corretos, a despeito da universal lei da oferta e da demanda. Políticos, como nos ensina Bryan Caplan, sempre tentam nos vender verdades relativas que não respeitam as leis econômicas básicas. É a famosa irracionalidade racional já citada neste blog tantas e tantas vezes.

O autor citado nos oferece uma bela forma de pensar em como isto funciona em nossa mente: estamos sempre em busca da verdade, mas se os custos forem muito altos, acomodamo-nos na versão isso é válido para mim, não para você. Talvez por isso a irracionalidade racional exista e continue afastando as pessoas das soluções eficientes e permitindo as mais bizarras falhas de governo que vemos por aí.

Eu sempre me lembro do amigo Diogo Costa que gostava de introduzir o tema em suas aulas perguntando aos alunos se eles concordavam que toda verdade é relativa e, após o imediato – e entusiasmado, previsível – “sim” dos seus alunos, prosseguir: até mesmo esta frase? Sim, dá um nó na cabeça. Outro que talvez possa comentar mais sobre estas questões filosóficas é o amigo Lucas Mafaldo. Quem sabe algum deles não aparece para um café nos comentários, mesmo na era do fêissibúki?

Oferta e demanda

Eis um exercício simples para se fazer em sala de aula com seus alunos: o aumento da oferta de feijão, por meio da liberação das importações do produto, tenderão a diminuir/aumentar/não terá impacto algum sobre o preço e a quantidade do feijão?

Basta esboçar curvas de oferta e demanda para se responder a esta pergunta. Claro, elas podem ter inclinações distintas e a resposta será, qualitativamente, a mesma (exceto, claro, pelos casos extremos).

Em seguida, você pode se perguntar sobre as elasticidades, sobre a diferença entre tarifas menores e cotas maiores para a importação, sobre o bem-estar, etc.

Diz que não é um exercício legal?

p.s. isso tudo só com equilíbrio parcial, heim?

Pausa para o café

2016-06-22 06.54.24

Esta mocinha aí sempre me deixa feliz. Melhor produto sul-coreano de todos os tempos (e, não, ele não é fruto de uma “política industrial” visando “setores estratégicos ao nacional-desenvolvimentismo” sul-coreano, tal como costuma aparecer em manifestações escritas de alucinações de alguns verborrágicos pouco chegados em coleta e análise de dados).

Viva o café!

p.s. voltaremos à programação normal em breve.

Por que você tem que aprender os conceitos de média e mediana? Para entender melhor as políticas públicas no seu país. Sim, isso mesmo!

Eis uma belíssima observação do livro de Alston et al (2016)do Bernardo Mueller e do Lee Alston,“Brazil in Transition: Beliefs, Leadership, and Institutional Change”:

“In Brazil, the ratio of median to mean income has gone up from 0.45 in 1976 to 0.59 in 2009. This data suggests that important changes have taken place in the political equilibrium. They also indicate that the fall in inequality in Brazil over the past two decades is not a temporary fluctuation but rather the result of deep systematic changes in the country’s social contract”. [p.136]

A distância entre as rendas mediana e média, também nos lembram os autores, é uma contribuição do clássico artigo de Meltzer e Richard (o famoso Meltzer & Richard (1981)). Digo, eles não inventaram a medida de distância mas, até onde sei, foram eles que atribuíram à dita cuja a interpretação intuitiva, mas poderosa de ser uma boa ‘proxy’ da pressão política por redistribuição em uma sociedade.

Trechos assim nos lembram que, muitas vezes, é podemos obter muita intuição do básico. Aí o aluno me pergunta: por que eu aprendo média e mediana no curso? Não tá de bom tamanho fazer umas contas com uma amostra de bolinhas vermelhas e verdes ou com umas cartas de baralho?

Como você percebe do trecho acima, não, não basta. Um economista tem que entender o conceito, não apenas aplicá-lo. Veja como aprendemos um bocado sobre pressões por políticas redistributivas usando apenas a distância entre as rendas média e mediana!

Uma coisa é uma coisa, outra coisa…

Eis algo que aprendi hoje:

A Confounded effect of X on Y is real, but the association arises because another (omitted) variable causes both X and Y. A new study of X on Y is expected to find that association again.

A False-positive effect of X on Y, in contrast, is not real. The apparent association between X and Y is entirely the result of sampling error. A new study of X on Y is not expected to find an association again.

Por que isto é importante? Faz uma visita no link acima.

Breves Reflexões sobre o atentado em Orlando: instituições, liberdades, emporiofobia e violência (UPDATED)

Começo este triste texto lembrando que o fato é que, no século XXI, a religião campeã de intolerância contra os gays é…bem, provavelmente há um empate entre o Islã e o Cristianismo, mas não tenho dados sobre citações religiosas pró e anti-tolerância com homossexuais para apresentar aqui. Contudo, uma boa proxy do discurso (in)tolerante pode ser a prática social em favor da liberdade individual. Neste quesito, os dados sobre liberdades individuais nos mostram que o 41o (dentre 142 países) no ranking deste subíndice do índice de prosperidade é o Brasil, por exemplo. Já o Afeganistão é o 133o…

homicides_gunDe qualquer forma, não sei não, mas me parece que os seguidores do Islã vencem os cristãos em termos de homicídios (ou seriam “feminicídios”, Brasil?) de gays e lésbicas, pelo menos nos anos recentes (estes dados eu não procurei, mas devem existir e agradeço qualquer dica a respeito). Uma breve visita à página do Gunpolicy.org já é suficiente, contudo, para se ter uma idéia que, considerando-se que homossexuais e heterossexuais são, ambos, parte da população, o total de homicídios, por uso de armas de fogo, é bastante alto no Brasil, comparando-se com os EUA (ou, pior ainda, com o estado da Florida). Acredito (no sentido de “aposto”) – sem ter os dados – que dificilmente o padrão geral verificado acima mudaria em caso tivéssemos apenas homossexuais: o Brasil seguiria campeão.

Aliás, o gráfico é interessante também por mostrar a evidência – para os que gostam de termos nunca claramente definidos – de que “cultura das armas” parece ser um patrimônio do Brasil (cuja primeira medalha em Olimpíadas foi em…), não dos EUA.

Com todos os problemas de comparabilidade internacional de dados, ainda assim vale a pena ver o comparativo de total de homicídios.

homicides_total

Pois é. Já está claro que É, você já desconfiou, escrevo este pequeno texto inspirado no triste massacre de Orlando, certo? Aliás, antes de começar, pela mesma lógica que diz que nem todo negro é pobre, é óbvio que nem todo praticante de religiões islâmicas é assassino (a questão passa pela discussão das raízes do terrorismo), ou seja, pelo chamado radicalismo, um tema que, em si, vale um curso inteiro (Joseph Humire falou sobre isso na imprensa dos EUA recentemente: o problema é o islamismo radical).

Tá, mas quero ver alguns dados…correlacionados!

Claro, correlação não é causalidade e, portanto, não direi, inequivocamente, que Obama está errado ou que Sanders está errado. Provavelmente nem Trump está com a razão, claro, embora a cultura individualista – que Trump, sem entender muito bem o porquê, provavelmente defende – seja compatível com o modo de vida tolerante (veja também isto).

Quero mais! Dê-me pesquisas econométricas ou lhe dou um tiro!

Ok, Bergreen e Nilsson (2012) têm evidências de que a liberdade econômica é um fator pró-tolerância. Aqui está um trecho do resumo:

Stable monetary policy and outcomes is the area of economic freedom most consistently associated with greater tolerance, but the quality of the legal system seems to matter as well. We furthermore find indications of a causal relationship and of social trust playing a role as a mechanism in the relationship between economic freedom and tolerance and as an important catalyst: the more trust in society, the more positive the effect of economic freedom on tolerance.

Mais mercado…maior felicidade gay?

Quem quer que tenha visto os links anteriores perceberá que, com uma base de dados um pouco diferente, construí correlações que não atrapalham, de forma alguma, os resultados dos autores. Aliás, eles têm mais modelagem e as conclusões são essencialmente as mesmas (apenas quero dizer que se simples correlações nos mostrassem o oposto do que eles encontram, teríamos motivos para pensar em problemas, não que correlações sejam poderosas, ok?).

Mas há mais! Em 2015, os mesmos autores nos deram outro estudo, cujo resumo reproduzo.

Tolerance is a distinguishing feature of Western culture: There is a widespread attitude that people should be allowed to say what they want even if one dislikes the message. Still, the degree of tolerance varies between and within countries, as well as over time, and if one values this kind of attitude, it becomes important to identify its determinants. In this study, we investigate whether the character of economic policy plays a role, by looking at the effect of changes in economic freedom (i.e., lower government expenditures, lower and more general taxes and more modest regulation) on tolerance in one of the most market-oriented countries, the United States. In comparing U.S. states, we find that an increase in the willingness to let atheists, homosexuals and communists speak, keep books in libraries and teach college students is, overall, positively related to preceding increases in economic freedom, more specifically in the form of more general taxes. We suggest, as one explanation, that a progressive tax system, which treats people differently, gives rise to feelings of tension and conflict. In contrast, the positive association for tolerance towards racists only applies to speech and books, not to teaching, which may indicate that when it comes to educating the young, (in)tolerant attitudes towards racists are more fixed

Viu só, leitor? Aí você me pergunta dos EUA. Afinal, foi lá que ocorreu o triste fator que gerou este pequeno texto. Bem, não quero te deixar triste, mas me parece que, a despeito da polêmica sobre o uso de armas de fogo em atentados terroristas (e também da polêmica sobre se aquilo foi um ato terrorista ou não), não me parece que o Brasil seja um paraíso (você viu as evidências no início do texto). Pode até ser que não se matem pessoas por religião aqui (ainda) mas, em medidas internacionais, quem “ganha” em estatísticas de assassinatos? Brasil ou EUA? Já vimos no início do texto, mas eis outra dica de dados sobre o tema aqui (dica: você continuará tristenão ficará feliz).

A despeito do que aconteceu na Florida, ainda é melhor para um homossexual viver nos EUA ou na Suíça do que no Brasil ou no Quênia, não é? Sim, a discussão tem a ver com tolerância e esta é um exemplo cabal do que Douglass North chama de instituições informais. É por aí que a discussão passa e, de cara, não dá para aceitar argumentos bizarros que jogam a culpa no “mercado” ou no “capitalismo” pela intolerância contra homossexuais, como nos lembra o sempre recomendável blogueiro Guy Franco e, creio, este meu breve texto sobre a emporiofobia.

O p-valor não é mais recomendado: atenção professores de Ciências Econômicas!

Não adianta achar que seu modelo estimado é o melhor do mundo porque os “p-valores” estão todos “bonitinhos”. Acabou a festa. Mais um pouco:

What we know is that the ASA statement itself opens with George Cobb’s wonderfully succinct complaint about the vicious cycle we are caught in: “We teach [significance testing] because it’s what we do; we do it because it’s what we teach.” The ASA then cites deep concerns in the literature, with quotes such as “[Significance testing] is science’s dirtiest secret” with “numerous deep flaws.”

O que faremos agora? No mínimo, temos que repensar os artigos que avaliamos para submissão em nossos pareceres – e também os que fazemos em nossas pesquisas.

Por isso, como sempre, a teoria é importante (tanto a econômica, claro, quanto a estatística). A ela temos que recorrer para pensar no que estamos fazendo ao dizer que estamos “testando” hipóteses. Vamos ver o que mais surge nesta discussão. Ah, sim, na caixa de buscas no alto do blog você pode encontrar mais sobre o p-valor. Já coloquei alguns links aqui sobre esta discussão.

Sobre Nash, o equilíbrio de Nash e o filme

Loira? Que loira?

O ótimo livro Michael Baye é muito bom para quem gosta de microeconomia, com viés para modelos de competição. Há, no capítulo 10, um texto muito bom explicando porque o ótimo filme de Ron Howard, o Uma Mente Brilhante, está errado em seu exemplo do equilíbrio de Nash.

Embora divertido, o exemplo mostra, justamente, uma situação de desequilíbrio. Citemos o autor.

No jogo de Hollywood, os homens são jogadores e suas decisões são relativas a que mulher paquerar. Se os outros homens optassem pelas morenas, a loira ficaria sozinha esperando para dançar. Isso significa que a melhor resposta dos demais homens, dadas as decisões dos outros, é perseguir a loira solitária! A cena de dança de Hollywood não ilustra um equilíbrio de Nash, mas exatamente o oposto: uma situação em que qualquer um dos homens pode, unilateralmente, ganhar ao mudar para a loira, dado que os outros homens estão dançando com morenas! [Baye, M.R. (2008) Economia de empresas e estratégias de negócios, McGraw-Hill/Bookman, p. 358]

Pena que um bom filme tenha errado em um tópico tão simples. Afinal, estamos falando de Hollywood, que é um lugar de onde não se espera a falta de um bom trabalho de consultoria, não?

p.s. Sei que não é um tópico novo, mas eu sentia que devia um tópico sobre isto.

Momento R do Dia – Chocolate!

Fazia tempo que não tínhamos um “Momento R do Dia”, né? Pela falta de pedidos, sei que ninguém estava com saudades. Bom, vamos aos fatos. Voltando ao tema do “chocolate”, o Gabriel Sallum, meu ex-aluno, provocou: “- Faz com dieta no Google Trends (ou o Google Correlate)”. A idéia do Gabriel é o sujeito se empaturra com o chocolate em um dia, tem crise de consciência e tenta fazer dieta depois.

A idéia, aliás, era para ser com dados diários. Infelizmente, não os temos para o Brasil lá no Trends. De qualquer forma, conversamos rapidamente (ele estuda ferozmente para as provas da ANPEC e não tem mais tanto tempo quanto antes…quando assistia às minhas aulas, famosas por serem muito fáceis e óbvias).

Como sempre, a provocação surtiu efeito. Eis o código.

dat <- read.table(file="clipboard", header=TRUE, sep="\t", na.string="NA",
                  dec=".")
temp<-ts(dat, start=c(1))
plot(temp)
library(astsa)
lag2.plot(dat$dieta,dat$chocolate,max.lag=12)
lag2.plot(dat$chocolate,dat$dieta,max.lag=12)

Sim, a idéia é que você faça o download dos dados a partir do site do Google Trends e depois copie as colunas e cole no R. Eis uma dica de como obter sua planilha.

chocolate2

As séries? Bem, estão aqui e você já percebe que existem alguns problemas.

dieta_choco

Primeiramente, há um pico na série “dieta”. Em segundo lugar, “chocolate” começa a subir (apresenta algo como uma tendência a partir da observação 400, algo que já comentei antes).

Mesmo assim, em nome da brincadeira, resolvi seguir adiante. Eis o resultado.

dieta_choco2

dieta_choco3

Ok, as correlações não são tão boas, não é? Sem falar que os outliers devem estar atrapalhando. A conclusão de que a correlação seria muito forte entre, digamos, as buscas envolvendo “chocolate” na semana “t” e as que envolvem “dieta” onze semanas antes (a correlação é 0.15, e nem testamos sua significância estatística…) pode não significar nada (análise similar no segundo conjunto de gráficos sofreria da mesma crítica).

Estaria Gabriel errado? Talvez sim, talvez não. Além dos outliers, há o problema de se refinar melhor esta busca lá no Google Trends. Outro ponto importante diz respeito ao fato de que seria interessante filtrar as séries (tendência, sazonalidade…).

De qualquer forma, o desafio do Gabriel continua de pé.

 

 

 

Busca de “chocolate” no Google Trends – Brasil

chocolate

A figura acima diz respeito à busca da palavra “chocolate”, no Brasil, pelo Google, iniciando-se na semana “2004-01-04 – 2004-01-10” até “2016-05-29 – 2016-06-04”. Obviamente, há uma sazonalidade que, imagino, tem a ver com feriados. Curioso, contudo, é a tendência de aumento, observada a partir de meados de 2011. Será que o uso do Google tem aumentado desde então? O acesso à internet não parece ter mudado tanto de 2011 para cá.

A busca incluiu diversos termos como: “bolo de chocolate”, “receita de chocolate”, “bolo”, etc.

Google Trends merece um carinho especial dos interessados em entender séries de tempo, não merece?

O Falcão Maltês, o R e os eventos aleatórios: um estudo de caso pontual

Nunca vi o filme, mas não posso deixar de relatar este caso. Recentemente, conversei sobre o R (na verdade, sobre o RStudio) com a turma do mestrado. Até aí, tudo bem.

Mas alguns bolsistas da graduação vieram me pedir uma amigável introdução ao R, já que não puderam assistir ao minicurso (sim, você leu direito: alunos me procuraram pedindo aulas extras). Como diria Parker Lewis: “Not a problem”! Agendamos dois encontros matinais e preparei um material compacto para as sessões. Fiz até um convitezinho.

Após nos divertirmos com a função consumo (veja mais sobre ela no artigo do prof. Fabio Gomes) no primeiro encontro, fomos para o segundo encontro, no qual eu falaria sobre dois exercícios: (a) demanda de moeda (um exemplo do livro de Gujarati & Porter) e (b) uma equação dos determinantes do crescimento usando a base de dados de um dos artigos do Ross Levine sobre o tema (o exemplo é do livro de Stock & Watson).

O interessante deste segundo exercício é que há uma rápida discussão sobre outliers. Na verdade, você encontra Malta e descobre que o país tem uma economia atípica, com um altíssimo fluxo de comércio na medida ((X+M)/PIB). Até aí, nada de novo, certo? Obviamente, eu pesquisei e me preparei para contar aquela novidade para a turma.

Então, estávamos os seis (eu e mais cinco alunos) neste exato ponto do exercício quando eu respirei fundo e, com aquele ar professoral, perguntei: “- O que podemos dizer sobre Malta”?

Foi neste momento que alguém disse (usarei nomes fictícios para preservar a identidade do aluno), acho que foi Karol: “- Thyaggo sabe, professor, ele morou em Malta”.

Fez-se um profundo silêncio na sala. Por um instante senti o que deve ter sido a sensação de gregos e romanos diante de oráculos. Ou seria a sensação de John Nash ao se deparar com sua criação? Talvez DaVinci ao terminar a Mona Lisa. Não, acho que parecia com a sensação que provavelmente meu amigo Lucas Mafaldo teve diante na primeira vez em que viu um suculento bife de bode. Honestamente, não sei descrever em palavras (ou imagens) o que senti. Só sei que não sabia o que dizer e todos os alunos (o conjunto de alunos, só para constar, era composto de cinco elementos) olharam para Thyaggo que completou:

“- É verdade, professor, estudei inglês lá por um tempo”.

Antes que eu pudesse esboçar um arremedo de resposta, Nathallia completou:

“- Professor, 20% da sua turma já esteve em Malta”!

As outras alunas, Mayirah e Mharianna, apenas riam, ao mesmo tempo em que tentavam ler algo na tela do nano-notebook de Mayirah.

Give me your multiple regression or I will shoot you!

Dizem por aí, em situações similares, que “mesmo que você tivesse planejado, não seria tão bom”. Pois é. A sensação que eu tive deve ter sido a mesma do primeiro ser humano (ou primata) que balbuciou esta frase em alguma linguagem primitiva. Literalmente eu me senti dentro da frase, quase como parte integrante da mesma.

Ri por algum tempo. Tudo era muito engraçado. Era uma aula de Econometria Aplicada e um evento absolutamente (ou absurdamente) aleatório como este realizava-se naquele instante. A própria aleatoridade, ela mesma, em toda sua plenitude, ali, naquela manhã de quinta-feira!

Quase perguntei se alguém já tinha visitado Tonga ou Saint Kitts-and-Nevis, mas achei melhor não arriscar.

p.s. Esta história pode ou não ser baseada em fatos reais. Nenhum aluno ou regressão foi morto(a) ou ferido(a) na confecção deste texto. Cuidado ao ler: risadas podem causar soluços. O autor não se responsabiliza por nada do que você pense ou sinta após a leitura do texto (e nada do que você possa – ou não – imaginar após ser exposto(a) a este texto).