Venderam picolé por um preço diferente do sugerido no cartaz!!

Enquanto pseudo-professores falam por aí que estudar microeconomia é perda de tempo, vamos aos fatos: comprar picolé (ou cigarro, ou refrigerante, etc) pelo “preço sugerido” não é necessariamente um bom negócio. Sim, tem algo mais interessante para aprender aqui.

Primeiro, há um papo aí sobre “lealdade” e tudo o mais e tem gente que se perde em um conundrum sem sentido de “vamos respeitar a lei” e se esquece do problema básico dos incentivos que produtores de picolé vendem (vamos nos lembrar que leis também são geradas por meio de incentivos, nem sempre os melhores do ponto de vista do consumidor, embora alguns bem-intecionados defensores dos chamados “interesses dos consumidores” não percebam o problema). Limpe sua mente: esqueça esta questão contratual. Vamos entender o âmago do problema: por que, raios, um comerciante “sugere” um preço? Onde já se viu isto? Qual o objetivo dele?

Ok, digamos que um fabricante sugira um preço para um produto qualquer. Suponhamos que seja um picolé de chocolate. Você chega ao bar e vê o preço do picolé de chocolate no cartaz anunciado como: “preço sugerido: R$ 5,00”. O que significa isto? Primeira ponto para sua reflexão: pode não ser o que você está pensando.

Preço sugerido não é esmola (nem bondade com seu bolso), cara!

Geralmente isto significa que o fabricante conhece sua demanda em nível nacional e este é o preço que maximiza seu lucro. Mas aí você, que já está com vontade de comprar o picolé, descobre que o dono do bar o vende a R$ 6,00. Pronto. Caso você nunca tenha estudado direitinho a Ciência Econômica, provavelmente fará um textão no Facebook discorrendo sobre a malvadeza (ou a avareza?) do ser humano, etc. Muito bonito, ganhará muitas curtidas, talvez até gere um abaixo-assinado, mas mostrará que não entendeu muito do problema.

Sim, é preciso compreender o mundo antes de sair por aí querendo mudá-lo e quem disser o contrário mostra um desprezo pela sua capacidade de raciocínio (sim, eu acredito que você entenderá melhor o problema, né?).

É um problema que envolve elasticidade? Sim. Você não faltou à esta aula, né?

O dono do bar, veja bem, trabalha com um mercado local. Digamos que o dono do bar trabalha em Pelotas-RS. Ele não vende picolé em São Paulo. Nem vende em Porto Alegre. Muito menos em Aracaju. Ele vende, vou repetir, picolés em Pelotas.

É óbvio que a demanda de picolés em Pelotas não é a mesma demanda nacional. Ela pode ser – vamos nos lembrar das aulas de Economia!!! – mais ou menos elástica naquele trecho (vamos nos lembrar também que a elasticidade-preço da demanda é um conceito pontual, ok?). Digamos que ela seja menos elástica do que a demanda nacional. Isso significa que, enquanto uma queda de preço de x% na demanda nacional gera um aumento de y% (y > 1) na quantidade vendida, no mercado local, uma queda do mesmíssimo x% na demanda local gerar um aumento de z% (z < 1) na quantidade vendida.

Veja bem. Qual é a situação do dono do bar? Para que ele tenha algum lucro, terá que aumentar o preço em relação ao preço sugerido. Por que? Porque a queda de receita que será derivada da queda das vendas será menor do que o ganho que terá com o aumento do preço do picolé.

Claro, poderíamos imaginar a situação oposta, ou seja: e se a demanda local de picolé for mais elástica do que a nacional? Neste caso, o melhor para o dono do bar é diminuir o preço porque o ganho que ele terá com o aumento na quantidade vendida será maior do que o que perderá na margem com a queda do preço (ou seja, a receita total dele aumentará com a queda do preço).

Implicações disto? Acho que a mais divertida é pensar em quantas vezes pessoas se revoltaram de forma errada. Este é o lado engraçado do ponto de vista do consumidor. Do lado dos vendedores, é simples e mais cruel: quem não entende os incentivos criados pelas diferentes elasticidades-preço das demandas nacional e local perde dinheiro e pode acabar falido. Em outras palavras: entender Economia é sempre bom. Principalmente microeconomia. A quem interessa dizer que “microeconomia não serve para nada”? Esta fica para você refletir.

p.s. o conceito de elasticidade-preço da demanda? Explico. Trata-se da resposta à seguinte pergunta: “caso eu aumente (diminua) o preço do produto em x%, de quanto cairá (aumentará) a quantidade vendida do produto”? Veja, a elasticidade-preço da demanda, em valor absoluto, estará em um dos três casos: (a) unitária, (b) maior do que um e (c) menor do que um. Analisemos o caso (a): uma elasticidade unitária da demanda (em valor absoluto, já que o número é negativo, né?) nos diz que o aumento de x% no preço do produto gera uma queda de exatamente x% no valor da quantidade demandada. Isso significa que a receita total com a venda deste produto não se altera: o que você ganhou com o aumento no preço (x%), perdeu com a queda de demanda (x%). Para mais detalhes, consulte um bom estudante de economia ou um professor.

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3 respostas em “Venderam picolé por um preço diferente do sugerido no cartaz!!

  1. Parabéns pelo belo Post sobre os encantos (renegados muitas vezes) da Microeconomia! Eu mesmo quando cursei as cadeiras de Micro, confesso que não me despertaram tanto o brilho quando Macro, Monetária, Econometria… Mas é uma matéria fundamental para a formação de um bom economista! Parabéns pelo blog, foi um feliz achado que tive na internet, acompanho sempre as postagens.
    Cumprimentos, Ricardo.

  2. Pingback: Retrospectiva 2016? | De Gustibus Non Est Disputandum

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