Desigualdade e Eficiência

Sim, este é o tema central de todo capítulo inicial de livro-texto de Economia. Continua válido. Aí uns pesquisadores resolveram brincar com os dados. Eis o que relatam:

Theory and empirical data contest the direction of causality in the relationship between economic performance and income inequality – a relationship that is of great political importance. This column uses evidence from OECD countries to show that the relationship is not linear. While some countries can improve economic performance only at the cost of increasing economic inequality, other countries can improve both economic performance and equality without such a trade-off.

Honestamente? É um exercício legal para sala de aula, mas não me convenço muito deste resultado e o que me atrapalha a comprar esta conclusão é o fato de que não sei se esta é a melhor divisão amostral dos países que podemos ter. Sei que é uma questão um tanto quanto ad hoc: você divide os países em dois grupos de forma arbitrária – o que é um critério válido, como todo critério – e segue em frente.

Mas será que a conclusão de não-linearidade persiste, por exemplo, caso eu divida os países em, digamos, “latino-americanos” e “resto do mundo”? Ou entre “ex-colônias soviéticas” e “resto do mundo”? Ou entre: “países da Ásia”, “países da Europa”, “países da América”, etc?

Agora, ao lado interessante do artigo: os autores têm um ponto muito legal que é o de questionar se os países estão em alguma fronteira de possibilidades de produção ou se estão abaixo dela. Trata-se da velha pedra no sapato dos alunos de graduação: a diferença entre movimentos na curvamovimentos da curva. O trade-off só se verifica se você estiver na curva (veja a figura dos autores).

Aqui eles oferecem um ótimo conselho para se começar a discutir o trade-off:

This insight leaves one important message. In cross-country comparisons it is important to make a distinction between countries at (or close to) the frontier and countries well inside the frontier before drawing any conclusions on the relationship between economic performance and income equality available for policymakers. Essentially, differences in the distance to the frontier should be accounted for in the comparison.

Em seguida, os autores indicam o método que é conhecido por vários de nós, economistas: o da fronteira de produção estocástica (a irmã estocástica da famosa análise de dados em envelope ou, em inglês, data envelopment analysis).

O mais legal é pensar que esta pergunta continua a atrair estudantes. Há alguns anos, um ex-aluno, Rodrigo Silésio, procurou-me com pergunta similar. Queria saber se o trade-off entre desigualdade e eficiência existia entre os municípios de Minas Gerais. O resultado acabou se transformando em um artigo científico. As conclusões a que chegamos? Bem, veja o resumo do texto.

O artigo busca verificar a existência de trade-off entre políticas municipais voltadas para o bem-estar e desigualdade através do uso de programação linear, método conhecido como DEA (Data Envelopment Analysis) ou “Análise por Envoltória de Dados”. A análise foi feita num corte transversal com dados de 2000 e, para levar em conta especificidades regionais, foram consideradas as diferentes regiões de planejamento do estado, resultando na construção de dez fronteiras estocásticas de bem-estar (cuja proxy foi o IDHm) e dez fronteiras para a igualdade (cuja proxy foi construída a partir do índice de Gini). Os resultados sugerem a existência de trade-off.

Pois é. A pergunta continua e deve assombrar muitos e muitos alunos por muito tempo ainda.

Economia do crime: estupro na Suécia, Jamaica, Bolívia…

Não, não há tal coisa como “cultura do estupro” (ou então devemos parar de elogiar a Suécia…ou os defensores do conceito podem tentar explicar o que há de comum entre a Jamaica, a Suécia e a Bolívia, para começo de conversa). Existem estatísticas de estupro e, na minha opinião, uma falta de esforço de gente bem-intencionada na busca de melhor compreeensão sobre este sério problema.

Vários preconceitos têm prejudicado a existência de estudos (como a desconsideração do problema do estupro de homens por homens em cadeias nos debates populares). Há também o problema de dados não reportados (por motivos óbvios e, neste caso, talvez o gráfico acima seja menos informativo ainda…) e, caso alguém queira, de fato, entender o problema do estupro para, portanto, combatê-lo, deve começar o trabalho por aqui.

Há esperança? Pesquisando um pouco, vejo que há material para se estudar. Por exemplo, eis um trabalho aqui, sobre o pós-crime. Alguns outros trabalhos em que nós, economistas, tratamos do tema? Um exemplo está aqui. Outro está aqui. Veja também esta apresentação.

Nos outros fronts, claro, existem os policiais e as autoridades. Neste blog, obviamente, refiro-me aos pesquisadores (p.s. a fonte do gráfico é esta).

UPDATE: (a) Diogo Costa e Ari F. de Araujo Jr chamam a atenção para um problema destes dados agregados que é o de que não sabemos se a ONU usa a mesma definição para todos os países (o “estupro” é homogêneo nas definições legais dos países?). (b) Um leitor comentou, no FB, que o gráfico não mostra que não há cultura de estupro, mas que apenas não haveria correlação com, digamos, PIB per capita. Não é bem assim. O gráfico não mostra correlação alguma com nada (e, ok, não vamos inferir, como diz o leitor). Não sabemos se é o PIB per capita que não está correlacionado com os crimes e minha aposta é que a tal cultura do estupro também não está, com um agravante: o PIB é definido, a suposta cultura, não. Por isto é que continuo muito cético quanto ao argumento de “textão de facebook”: ele não se baseia em nada cientificamente sério (obviamente, há textos bons por aí, mas refiro-me aos que são propositalmente escritos sem qualquer definição mínima de seu conceito central, a suposta “cultura do estupro”. (c) Lucas Mafaldo fez uma observação importante: o problema é da impunidade. “Cultura” da impunidade ou não, o fato é que ele tem razão e temos aqui um problema importante a ser tratado: como instituições formais e informais podem ser melhoradas para diminuir os graus de impunidade no Brasil?

Venderam picolé por um preço diferente do sugerido no cartaz!!

Enquanto pseudo-professores falam por aí que estudar microeconomia é perda de tempo, vamos aos fatos: comprar picolé (ou cigarro, ou refrigerante, etc) pelo “preço sugerido” não é necessariamente um bom negócio. Sim, tem algo mais interessante para aprender aqui.

Primeiro, há um papo aí sobre “lealdade” e tudo o mais e tem gente que se perde em um conundrum sem sentido de “vamos respeitar a lei” e se esquece do problema básico dos incentivos que produtores de picolé vendem (vamos nos lembrar que leis também são geradas por meio de incentivos, nem sempre os melhores do ponto de vista do consumidor, embora alguns bem-intecionados defensores dos chamados “interesses dos consumidores” não percebam o problema). Limpe sua mente: esqueça esta questão contratual. Vamos entender o âmago do problema: por que, raios, um comerciante “sugere” um preço? Onde já se viu isto? Qual o objetivo dele?

Ok, digamos que um fabricante sugira um preço para um produto qualquer. Suponhamos que seja um picolé de chocolate. Você chega ao bar e vê o preço do picolé de chocolate no cartaz anunciado como: “preço sugerido: R$ 5,00”. O que significa isto? Primeira ponto para sua reflexão: pode não ser o que você está pensando.

Preço sugerido não é esmola (nem bondade com seu bolso), cara!

Geralmente isto significa que o fabricante conhece sua demanda em nível nacional e este é o preço que maximiza seu lucro. Mas aí você, que já está com vontade de comprar o picolé, descobre que o dono do bar o vende a R$ 6,00. Pronto. Caso você nunca tenha estudado direitinho a Ciência Econômica, provavelmente fará um textão no Facebook discorrendo sobre a malvadeza (ou a avareza?) do ser humano, etc. Muito bonito, ganhará muitas curtidas, talvez até gere um abaixo-assinado, mas mostrará que não entendeu muito do problema.

Sim, é preciso compreender o mundo antes de sair por aí querendo mudá-lo e quem disser o contrário mostra um desprezo pela sua capacidade de raciocínio (sim, eu acredito que você entenderá melhor o problema, né?).

É um problema que envolve elasticidade? Sim. Você não faltou à esta aula, né?

O dono do bar, veja bem, trabalha com um mercado local. Digamos que o dono do bar trabalha em Pelotas-RS. Ele não vende picolé em São Paulo. Nem vende em Porto Alegre. Muito menos em Aracaju. Ele vende, vou repetir, picolés em Pelotas.

É óbvio que a demanda de picolés em Pelotas não é a mesma demanda nacional. Ela pode ser – vamos nos lembrar das aulas de Economia!!! – mais ou menos elástica naquele trecho (vamos nos lembrar também que a elasticidade-preço da demanda é um conceito pontual, ok?). Digamos que ela seja menos elástica do que a demanda nacional. Isso significa que, enquanto uma queda de preço de x% na demanda nacional gera um aumento de y% (y > 1) na quantidade vendida, no mercado local, uma queda do mesmíssimo x% na demanda local gerar um aumento de z% (z < 1) na quantidade vendida.

Veja bem. Qual é a situação do dono do bar? Para que ele tenha algum lucro, terá que aumentar o preço em relação ao preço sugerido. Por que? Porque a queda de receita que será derivada da queda das vendas será menor do que o ganho que terá com o aumento do preço do picolé.

Claro, poderíamos imaginar a situação oposta, ou seja: e se a demanda local de picolé for mais elástica do que a nacional? Neste caso, o melhor para o dono do bar é diminuir o preço porque o ganho que ele terá com o aumento na quantidade vendida será maior do que o que perderá na margem com a queda do preço (ou seja, a receita total dele aumentará com a queda do preço).

Implicações disto? Acho que a mais divertida é pensar em quantas vezes pessoas se revoltaram de forma errada. Este é o lado engraçado do ponto de vista do consumidor. Do lado dos vendedores, é simples e mais cruel: quem não entende os incentivos criados pelas diferentes elasticidades-preço das demandas nacional e local perde dinheiro e pode acabar falido. Em outras palavras: entender Economia é sempre bom. Principalmente microeconomia. A quem interessa dizer que “microeconomia não serve para nada”? Esta fica para você refletir.

p.s. o conceito de elasticidade-preço da demanda? Explico. Trata-se da resposta à seguinte pergunta: “caso eu aumente (diminua) o preço do produto em x%, de quanto cairá (aumentará) a quantidade vendida do produto”? Veja, a elasticidade-preço da demanda, em valor absoluto, estará em um dos três casos: (a) unitária, (b) maior do que um e (c) menor do que um. Analisemos o caso (a): uma elasticidade unitária da demanda (em valor absoluto, já que o número é negativo, né?) nos diz que o aumento de x% no preço do produto gera uma queda de exatamente x% no valor da quantidade demandada. Isso significa que a receita total com a venda deste produto não se altera: o que você ganhou com o aumento no preço (x%), perdeu com a queda de demanda (x%). Para mais detalhes, consulte um bom estudante de economia ou um professor.

Consumidores e especialistas

Vi que o Banco Central do Brasil tem um novo working paper de Gaglianone, Issler e Matos. Eis o resumo.

In this paper, we investigate whether combining forecasts from surveys of expectations is a helpful strategy for forecasting inflation in Brazil. We employ the FGV-IBRE Economic Tendency Survey, which consists of monthly qualitative information from approximately 2,000 consumers since 2006, and the Focus Survey of the Central Bank of Brazil, with daily forecasts since 1999 from roughly 250 registered professional forecasters. Natural candidates to win a forecast competition in the literature of surveys of expectations are the (consensus) cross-sectional average forecasts (AF). In an exploratory investigation, we first show that these forecasts are a bias ridden version of the conditional expectation of inflation. The no-bias tests are conducted for the intercept and slope using the methods in Issler and Lima (2009) and Gaglianone and Issler (2015). The results reveal interesting data features: consumers systematically overpredict inflation (by 2.01 p.p., on average), whereas market agents underpredict it (by -0.68 p.p. over the same sample). Next, we employ a pseudo out-of-sample analysis to evaluate different forecasting methods: the AR(1) model, the Granger and Ramanathan (1984) forecast combination (GR), the consensus forecast (AF), the Bias-Corrected Average Forecast (BCAF), and the extended BCAF. Results reveal that: (i) the MSE of the AR(1) model is higher compared to the GR (and usually lower compared to the AF); and (ii) the extended BCAF is more accurate than the BCAF, which, in turn, dominates the AF. This validates the view that the bias corrections are a useful device for forecasting using surveys.

O que eu acho legal neste resumo é ver que há uma diferença entre especialistas e não-especialistas no que diz respeito à previsão da taxa de inflação. Lembra um pouco aquela lição de que a existência de professores de Economia deve ter algum efeito, ceteris paribus.

Claro que, saindo um pouco do tema do artigo, eu fico pensando naqueles pontos que Caplan sempre levanta sobre viés de crenças irracionais, mas este é outro assunto…

Táxis (e Uber) novamente…no Japão

Este é um interessante artigo sobre táxis no Japão. Táxis e Uber, claro. Há algumas interessantes informações sobre detalhes do sistema atual de regulação de táxis no país. Por exemplo:

(…) while taxis are regulated by the transportation ministry, individual companies have managed to adapt to dwindling ridership by coming up with their own means of indirectly increasing fares. For instance, in crowded urban areas where traffic congestion is common, meters in some taxis charge for time as well as distance. When the speed of the vehicle drops below 10 km/hour, the meter changes to a system that charges for time regardless of the distance traveled, usually ¥90 for every 110 seconds.

Terrível, não? Mas há mais.

Also, when a rider calls for a taxi, a surcharge is added, so there is already a fare on the meter when the taxi arrives to pick up the passenger. Many taxi companies in rural areas have expanded on this idea by allowing drivers to charge the passenger for the distance between the place where he or she received the call and the passenger’s location.

Imagine o problema que isso causa – para o consumidor – por conta do envelhecimento populacional. Mas eis o mais interessante da matéria: sua conclusão.

Many years ago, the taxi business was completely open. Companies could put as many cabs as they wanted on the roads and charge whatever they wanted. They competed for fares.
Some people feel that such a system is the best way. At the very least, fares should be adjusted depending on the region, which is usually the case. What makes money in Tokyo is not necessarily going to make money in Hokkaido.

Ou seja, vários consumidores preferem um sistema desregulamentado, com várias companhias de táxi competindo em tarifas. Teoricamente é fácil ver que o preço se aproximaria bastante do custo marginal (ah, aquelas aulas…).

Para mais detalhes sobre táxis no Japão, ver, por exemplo, isto. Modelos de carros? Veja aqui. Sobre o Uber? É, eu prometi no título e, embora haja algo na matéria, veja também esta matéria. Sobre a livre concorrência no mercado de transporte feito por táxis no Japão, ver este working paper (e veja também o artigo do mesmo autor sobre gorjetas para taxistas aqui ou, em versão anterior, aqui). Uma resenha sobre pesquisas de economistas sobre táxis está no ótimo EconJournalWatch de 2006.

A globalização é este bicho-papão todo?

Ok, vamos refazer a pergunta: a globalização realmente tornou as economias mais “iguais”? Ruim ainda, não é? Parece papo de colunista de jornal de baixa qualidade (o colunista, o jornal ou, quem sabe, ambos). Então vamos deixar de lado qualquer pretensão e reproduzir o resumo do artigo (Has Globalization Really Increased Business Cycle Synchronization?) .

Abstract : this paper assesses the strength of business cycle synchronization between 1950 and 2014 in a sample of 21 countries using a new quarterly dataset based on IMF archival data. Contrary to the common wisdom, we find that the globalization period is not associated with more output synchronization at the global level. The world business cycle was as strong during Bretton Woods (1950-1971) than during the Globalization period (1984-2006). Although globalization did not affect the average level of co-movement, trade and financial integration strongly affect the way countries co-move with the rest of the world. We find that financial integration desynchronizes national outputs from the world cycle, although the magnitude of this effect depends crucially on the type of shocks hitting the world economy. This desynchronizing effect has offset the synchronizing impact of other forces, such as increased trade integration.

Agora sim, não é? Bem melhor. Acho que vale a pena ler, né?

“Trade-offs” em pesquisas econômicas: o caso do consumo de alimentos na ex-URSS

Eu sei: você achou que eu iria falar do R em comparação com o Stata. Ou achou que eu repetiria o que digo de vez em quando em sala sobre pesquisas com dados macroeconômicos comparados com estudos de séries de tempo mais longas para um único país. Ou, quem sabe, pensou que eu iria falar sobre a estimação de um vetor de cointegração pela metodologia de Johansen ou pelas alternativas existentes.

Na verdade, hoje, eu me inspirei para falar de outro trade-off, por conta de um link enviado pelo Matizes Escondidos. Trata-se deste, sobre o puzzle do consumo de alimentos na (ex-)URSS. O trade-off, neste caso, é entre você sair correndo para estimar alguma coisa com a base de dados que acabou de descobrir ou se pesquisa um pouco sobre os dados antes de correr para o computador.

O trabalho do autor do post para ter algum grau de certeza sobre a veracidade dos dados de consumo de alimentos na ex-URSS ocupa um bocado de tempo de leitura (sim, vale a pena ler com calma, mas você vai levar um bom tempo, já aviso…) e você poderia dizer para mim que basta deixar uma “nota de rodapé” que está tudo bem. Bom, isso depende do que você pretende fazer.

Digamos que eu queira fazer um post sobre o uso do R (faz tempo que não faço um, né?). Neste caso, eu concordo que seria suficiente, mas gostaria de um rodapé bem claro sobre o limite dos dados e, claro, o leitor faz o resto.

Agora, digamos que eu queira ser conhecido como um pesquisador cuidadoso sobre alimentos na ex-URSS e, ao mesmo tempo, fazer o exemplo do R. Neste caso, acho que demoraria bem mais para publicar algo e teria que ser em partes, um pouco como o autor do inspirador post tem feito no blog dele.

Claro, você poderia imaginar outros casos e o meu ponto é que você sempre seja o mais correto (honesto) possível ao descrever seus dados, deixando claro o alcance e limitação dos mesmos. Sempre que possível, é bom não deixar o leitor no escuro (embora isso também dependa do limite de espaço que um editor te dá em um artigo científico publicado, mas é bem menos complicado quando se faz um texto para um blog pessoal).

Este é um trade-off bem em comum quando se trabalha com história econômica. Claro, eu gosto de cliometria e acho que esta é uma das áreas mais interessantes para se trabalhar. Ela envolve um esforço para se conseguir dados (é, dá preguiça, não está tudo pronto em algum site, na maioria das vezes…), você tem que entender o contexto histórico e adaptar a teoria econômica para estudar o problema (o que exige um pouco de exercício mental para saber como não fazer isto de forma a colocar tudo a perder…) e ainda tem algum tipo de teste de hipótese a ser feito.

Não é trivial fazer um artigo nesta área que seja pouco trabalhoso e é por isso que muita gente desiste e parte para um estudo de história menos rigoroso e até mais perigoso, baseado apenas na retórica e não nos dados.

Enfim, apenas algumas reflexões de quem está com problemas para dormir bem, mas não por falta de nutrientes…

“Eu” ou “Nós”?

Akerlof, há anos, vem numa agenda muito interessante de repensar a modelagem da ação microeconômica incorporando (ou importando) aspectos de outras áreas. Vai emplacar? Não sei. Mas é o Akerlof, né?

Veja a última dele.

Increasingly, economists are drawing on concepts from outside economics–such as “norms,” “esteem,” and “identity”–to model agents’ social natures. A key reason for studying such social motivation is to shed light on the conditions that facilitate–or deter–collective action. It has been widely observed, for instance, that groups are more able to engage in collective action when they have a common, group identity. This paper gives one explanation for such a link. The paper develops a new concept, “we thinking”; and it also provides a deeper understanding of the concepts of norms, identity, and esteem.

Legal, né?

A Curva de Phillips vai bem, obrigado

Blanchard em artigo curto e interessante, aqui.

Eis o resumo:

This paper reexamines the behavior of inflation and unemployment and reaches four conclusions: 1) The U.S. Phillips curve is alive and well (at least as well as in the past). 2) Inflation expectations however have become steadily more anchored. 3) The slope of the curve has substantially declined. But the decline dates back to the 1980s rather than to the crisis. 4) The standard error of the residual in the relation is large, especially in comparison to the low level of inflation. Each of the four conclusions presents challenges for the conduct of monetary policy.

Ok?

Choques tecnológicos em economia da saúde: obrigado!

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Tecnologia não é apenas uma sofisticada máquina eletrônica cheia de botões e painéis. Tecnologia está também nas pequenas coisas. A comparação de cores da água na foto acima mostra isto e, sim, eu acho que o cara que inventou este artefato de plástico com filtro fez mais pela humanidade do que muita gente que não lava um prato, mas se diz preocupado com os pobres.

Ciclos reais e instituições: no diagnóstico das boas mentes desde, pelo menos, o século XIX

A locomotiva e o telégrafo são choques tecnológicos, ninguém duvida disto. Eles facilitam a transmissão de informações? Claro e as pessoas sempre perceberam isto (e não é à toa que os economistas incorporaram estes insights em seus modelos teóricos desde há tempos…), como se percebe neste entusiasmado artigo liberal na São Paulo do século XIX.

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Claro, existe também a questão institucional. Nem tudo é choque tecnológico, certo? Pois é. Novamente, o que economistas fizeram foi trazer este insight para dentro dos modelos. Ainda que não definidas explicitamente no trecho a seguir, creio que qualquer leitor moderno de Douglass North e da tradição criada por ele concordará que o redator do trecho abaixo tinha a mesma percepção…saopaulo_liberal2

Interessante como muitas vezes somos acusados de trazer conceitos “estranhos” à realidade para nossos modelos teóricos quando, na verdade, só fazemos observar o mundo à nossa volta e tentar entendê-lo de forma cientificamente organizada. Um pouco disto é culpa nossa, por não nos expressarmos tão bem, mas um pouco também é culpa de leitores que, a despeito de seus telhados de cristal, atiram pedras na vidraça dos economistas (e, como bem diria Bastiat, desperdiçam tempo precioso fazendo isto…).

A especialização é um mal ou um bem? Um teste simples!

Todo mundo que assiste ao filme “Tempos Modernos” sai por aí falando mal de Adam Smith, da divisão do trabalho e da especialização. Eis um bom teste para ver até onde você mantém esta crença irracional (no sentido que lhe dá Bryan Caplan): você gostaria de se tratar com um médico como o do anúncio abaixo…

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…ou prefereria algo mais parecido com o catálogo de especializações do seu plano de saúde? Pode supor a mesma tecnologia de hoje, sem problemas, mas digamos que você está com problemas urinários. Prefere o urologista ou alguém que faz de tudo um pouco? Boa sorte com sua escolha!

p.s. sim, o anúncio está na Hemeroteca Digital e o jornal é o Radical Paulistano (10/05/1869) e agradeço ao Renato Colistete por me fazer voltar a este site ótimo após tanto tempo.

Impostos sobre Portas e Janelas: taí uma idéia bem desagradável

Famoso exemplo de um imposto que deve ter gerado mais doenças do que bem-estar em França (gostaram do “em França”? Soa bem sábio, né?) e também no arquipélago britânico. O curioso é a forma de protesto dos cidadãos: construir janelas falsas. Na verdade, a idéia não é bem “protestar”, mas tentar gerar alguma “flexibilidade” neste bem de ativo fixo que é um imóvel. Como sempre, alguém já escreveu algo sobre este tema tão interessante (aqui).

Esta turma não deve ter pago este tipo de imposto…

Fiscalismo excessivo é ruim? O caso do Império Romano

O fiscalismo excessivo do Baixo Império foi, como se sabe, uma das causas da decadência e da queda do Império Romano, tão magistralmente descritas por Gibbon.

Assim termina um artigo sobre os tributos no Direito Romano. Aparentemente, o artigo mostra uma evidência histórica interessante sobre o problema da obesidade governamental (que nunca é alvo de estudos pelo pessoal que adora falar em “nudges”, né?) que é ilustrado em bons livros de introdução à Economia quando se comenta sobre as perdas de peso morto.

É interessante, claro, mas fica a pergunta: por que um governo aumenta sua carga tributária? Segue-se do aumento da população e da demanda decorrente de bens públicos? Ou é fruto de uma irresponsabilidade do lado dos gastos e de uma incapacidade de se endividar?

Além disso, foi mesmo o fiscalismo excessivo a causa do fim do Império Romano? Não faço idéia, mas sei que gente boa já tentou estudar este período tão distante e há um verbete na Wikipedia sobre o tema.

Capitalismo de compadres

Olha o Brasil aí, gente!

Ah sim, os rankings continuam mostrando uma realidade parecida com a de 2014.

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Lamentavalmente, o índice tem poucos países e a metodologia de cálculo não parece ter sido divulgada amplamente (caso eu esteja enganado, corrija-me nos comentários, por favor). De qualquer forma, é uma iniciativa válida e interessante.

A média das previsões e o aluno que não se deixava vencer

Jogo dos “n” erros (n >0): Encontre o “monstrinho” na foto.

Quando criamos o Nepom, eu e o Pedro (na época, carinhosamente apelidado de “monstrinho” por alguns) conseguimos a atenção de alguns alunos que se juntaram a nós na primeira formação do grupo e também conseguimos a atenção dos diretores, que foram à nossa primeira apresentação.

Ao final, o Pedro, que já era um fissurado em Econometria, resolveu apresentar uma previsão, acho que era da inflação, que era, na verdade, a média de algumas previsões. A galera gostou.

Depois, eu conversava com ele, provavelmente por email porque a gente tinha um timing bom em correio eletrônico, e comentei que achava estranho a média das previsões. Ele, como sempre, retrucou: “- Não, faz sentido sim!”.

Acho que daquele momento até a manhã seguinte, ele procurou e achou, quem diria, um artigo, acho que do falecido Granger, que justificava o procedimento. Como bom professor que sou, aprendi algo ali, naquele dia. Pensei comigo mesmo: “- Este é mesmo um monstrinho…tudo para não perder a discussão…quer dizer, tudo o que é cientificamente correto. Ponto para ele”.

Aí os anos passam e um cara me lança um pacote para o R que faz…exatamente isto. O fantasma do monstrinho me assombra até hoje. ^_^