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Irracionalidade Racional e o Eleitor Mediano nas Manifestações

Fullscreen capture 6192014 75047 AMBryan Caplan criou o conceito de irracionalidade racional e fez até alguns vídeos explicando o que isto significa (procure lá no YouTube). Em resumo, há situações em que é barato, para o indivíduo, abraçar crenças irracionais. Citando direto de seu livro um exemplo sobre conhecimentos de história:

“Historical errors are rarely an obstacle to wealth, happiness, descendants, or any standard metric of success”. [Caplan, B. (2007) The Myth of the Rational Voter, Princeton University Press, p.120]

Há, claro, um contexto para esta frase. Considere, por exemplo, o sujeito que gerencia fundos de aplicação. Saber o ano da Independência do Brasil ou dizer que o país ficou independente em 1980 não o fará perder o emprego. Obviamente, se ele acreditar em duendes e usá-los como critério de desempenho de fundos, provavelmente não tardará a ser demitido.

Diferentemente do clássico conceito de ignorância racional, diz-nos Caplan, o de irracionalidade racional implica que o sujeito, deliberadamente, evita a verdade se isso não lhe custar caro, digamos, em termos de sua riqueza.

A verdade é que as discussões de boteco sobre “democracia” não valem um tostão furado quando vamos queremos, de fato, entender aspectos científicos subjacentes às imperfeições da democracia. Neste sentido, o que Caplan nos acrescenta é uma hipótese muito importante: existe demanda de irracionalidade por parte dos eleitores. Dizendo de outra forma, as falhas da democracia não são oriundas, exclusivamente, do lado da oferta de políticas públicas (burocratas, presidente, deputados, senadores, agências reguladoras, etc), mas também do lado da demanda (eleitores).

O vídeo abaixo mostra como diversos manifestantes que foram às ruas, supostamente, contra o impeachment, podem ser caracterizados como uma poderosa evidência em favor do argumento de Caplan. Repare que vários deles não parecem ter pensado muito sobre poucas conexões lógicas da situação que estão criando ao se manifestarem (as armadilhas do entrevistador não são tão sofisticadas).

A questão, note bem, não é que eu (não) acredito que (só) manifestantes anti-impeachment comportam-se assim. Nada disso. Qualquer eleitor deve apresentar maior ou menos irracionalidade em suas declarações. Basta que o custo de fazê-lo seja baixo (e políticos adoram diminuir este custo, pela lógica própria da política, independentemente da ideologia, se é que ela é relevante, de fato). O vídeo é tão somente um exemplo. Não estou emitindo opinião normativa aqui, embora o assunto seja irresistivelmente normativo. Estamos falando de uma hipótese científica sobre o comportamento humano.

Agora, veja bem, caso você acredite na hipótese da ignorância racional, interpretará os erros abaixo como, simplesmente, o reflexo de que, sabendo que a chance de mudar a situação é muito pequena, o sujeito não se preocupa em se informar muito (como diz Caplan, ele até quer buscar a verdade, mas o custo é alto). Por outro lado, acreditando na hipótese da irracionalidade racional, dirá que sai barato para o sujeito falar certas coisas sem sentido (ele não está nem aí para a verdade…ou melhor, depende do custo e ganhar camisa ou pão com mortadela só barateia o custo de ele ir para as ruas repetir slogans que podem refletir demandas que talvez nem façam sentido lógico).

Em algumas das respostas deste vídeo há reflexões aparentemente irracionais, neste sentido. Por exemplo, um senhor, que deve ter achado sua presença importante para estar nas ruas (ou então ficou barato para ele estar ali) justifica a corrupção alheia dizendo que é, ele próprio, apenas um ignorante sobre o que se faz “lá atrás das portas (do poder)”. Ou seja, é importante (para evitar um impeachment na Câmara dos Deputados) mas é, ao mesmo tempo, insignificante para saber de algo quando o assunto é a corrupção de políticos. No final, sua lógica parece ser exatamente aquela que encontramos em manuais de Public Choice: ele consente com o roubo, desde que lhe retornem algo de valor maior do que foi roubado. Quer ação mais racional que esta? Há várias interpretações para esta e outras respostas neste vídeo e, claro, a minha é apenas mais uma.

Para concluir, parece-me inegável que temos que ser mais cautelosos na discussão política e refletir melhor sobre estas bravatas que ouvimos por aí. Por exemplo, está claro para mim que o seu voto, o meu e o de qualquer um deste vídeo (entrevistado ou entrevistador) têm o mesmo valor diante da urna. Isto significa que boa parte das inconsistências observadas na política são fruto de nossas escolhas individuais. Não dá para culpar a elite porque o voto de um rico vale o mesmo que o de um pobre. No mínimo precisamos pensar um pouco, não acha?

É isso aí. Até a próxima. O vídeo está aqui embaixo. Espero que não o tirem do ar.

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Cobertura de Internet da Nigéria e Pacotes de Preços dos EUA? As Empresas Deseducam Consumidores??

Neste vídeo, o youtuber Pirula mostrou um mapa que, aparentemente, mostra o que ele, apressadamente, chama de “qualidade da internet” no Brasil (ele está aqui). Fato ruim: o mapa que ele mostra não nos permite comparar o que acontece no Brasil com o restante do mundo. Suponha, para efeitos do argumento, que estejamos com um mapa parecido com o de algum país tão subdesenvolvido quanto. Suponha também que países desenvolvidos têm malhas mais densas de internet. Acho que são duas hipóteses razoáveis. Aí sim, teríamos uma boa comparação. Mesmo assim, aposto que ele tem razão: a qualidade, aqui, é, comparativamente, pior.

Pois é. Mas aí o presidente da ANATEL, em entrevista no Estadão de hoje, fala de uma situação existente que seria derivada de uma relação consumidor-empresa, no mínimo, deficiente e estranha para quem pensa em oferta e demanda. Em suas palavras:

O presidente da Anatel reconheceu, porém, que a culpa, nesse caso, é das empresas, que “deseducaram” o cliente. “Acho que as empresas, ao longo do tempo, deseducaram os consumidores, com essa questão da propaganda de serviço ilimitado, infinito. Isso acabou, de alguma maneira, desacostumando o usuário. Foi má-educação”, afirmou.
Para Rezende, é importante que a Anatel dê garantias para que não haja um desestímulo aos investimentos pelas companhias nas redes. “Acreditamos que isso [a garantia] é um pilar importante do sistema. Não podemos imaginar um serviço ilimitado.”

Ok, todo mundo sabe que não existe almoço grátis. Nada a declarar. Agora, a ANATEL passou todo este tempo assistindo as empresas deseducarem (sic) os consumidores sem fazer nada? Mais ainda: as empresas promovem a má educação dos consumidores? Posso dizer, usando o mesmo raciocínio exposto acima que: “o governo federal passou muito tempo dando Bolsa-Família para os pobres subsídio tem um preço, agora temos que cortar e a culpa é do governo que promoveu a má educação dos eleitores”? Acho que sim, não?

Este é meu primeiro ponto: acho estranho que empresas deseduquem consumidores. Até entendo que tem uma turma que acredita que tirar o sal da mesa é importante, mas acho difícil que esta mesma turma defenda que tirar a internet ajuda a educar os consumidores. Ou que tirar os livros de Economia da mesa é importante para fazer as pessoas se exercitarem mais. Combinamos assim: não tem mais download de textos para discussão e você terá que subir um morro para ir até a biblioteca pública da sua cidade para obter uma versão impressa do mesmo. Para te educar mais ainda, vamos colocar um preço alto na impressão do artigo. Combinado?

Ironias – nem estou sendo tão irônico assim – à parte, a outra pergunta é: após tantos anos de regulação, por que temos um mapa tão raso quanto o mostrado pelo youtuber? O órgão regulador não se preocupou em cuidar dos consumidores e incentivar a expansão da concorrência, o aumento da cobertura? Não vou falar dos preços porque acabei de falar, a menos de vinte palavras, sobre expansão da concorrência, ok?

anatal_internetlimitadaA teoria econômica nos fala de captura do regulador. Lembro-me de ler que a teoria é interessante mas nem sempre encontra suporte empírico. É verdade. É difícil testar se o regulador foi capturado. Peltzman, há muitos anos, ofereceu-nos um modelo simples (basicamente uma extensão da hipótese de Stigler, motivo pelo qual, acredito, o modelo é muitas vezes chamado de modelo de Stigler-Peltzman, ou vice-versa).

Neste modelo, o regulador tem preferências que se dividem entre atender (proteger) os consumidores ou atender (proteger) as empresas reguladas. Você, facilmente, encontra-o explicado na internet. Uma ilustração gráfica está aí em cima. O regulador ganha quando existem empresas (por isso o lucro deve ser positivo) e também quando ajuda os consumidores (buscando estabelecer um preço (tarifa) compatível com o apoio que estes vão lhe dar para se manter no cargo, por exemplo).

A restrição é uma combinação dos custos de produção do bem e do preço cobrado (no caso, a tarifa regulada): é o potencial de ganho das empresas reguladas. Digamos que os regulados e o regulador encontrem-se no equilíbrio inicial “B”. Então, suponha que as empresas fiquem mais eficientes (seus custos caiam). No novo equilíbrio, o ponto “A”, o regulador poderá baixar a tarifa, ao mesmo tempo em que os regulados lucram mais. Seria este o nosso caso? Não sei.

Em primeiro lugar, há vários outros modelos para explicar a regulação. Em segundo lugar, supondo que este fosse o nosso caso, acho que seriam necessárias algumas alterações no modelo, a saber: (a) o poder político do regulador quase não é função dos consumidores e, por isso, acho que as curvas de suporte político, MM são quase horizontais; (b) os nossos provedores de internet ficaram mais eficientes ao longo do tempo? Tenho minhas dúvidas. Afinal, a própria ANATEL, na figura do seu presidente, diz que as empresas deseducaram os consumidores por anos (sob sua própria regulação, o que é mais estranho de se ouvir).

Finalmente, não sei se há captura, mas acho uma hipótese que merece um bom teste (minha intuição me diz que a captura tem aumentado nos últimos anos). Também não sei se a mudança – o aumento do preço – vai, de fato, estimular a melhoria na qualidade do serviço, mas suspeito que não. Afinal, não ouvi nada sobre novas empresas no setor, aumento da concorrência. Não estou otimista.