Falta de conversas? Meus dois centavos sobre a falta de multidisciplinaridade

Em seu último capítulo do livro de 2015 [“Nem céu nem inferno”], que é um ensaio sobre o debate proposto por Piketty [“Intuições sobre a ausência do Brasil em O capital no século XXI“], diz Caldeira:

Ao longo das últimas quatro décadas, prevaleceu por aqui a tradição das disciplinas rigidamente separadas pelas paredes dos departamentos universitários. Os principais cursos de história do país formam profissionais que cultuam um solene desprezo pela estatístia; as faculdades de economia mantêm o amor pelos teoremas matemáticos e o desdém pelas narrativas; os estudantes de estatística com um mínimo de talento acabam contratados por bancos ou seguradoras antes de poderem se exercitar com números históricos; nas escolas de ciências sociais, que misturam formação em estatística com estudos institucionais, poucos se interessam em enfrentar as barreiras já postas para a multidisciplinaridade. [Caldeira, J. (2015): 281]

Ok. Eu mesmo já devo ter dito algo parecido e não é de hoje que ouço desabafos similares. Caldeira está, digamos, 95% correto na descrição da nossa falsa multidisciplinaridade. Acho que foi McCloskey que disse algo similar (foi ela, mas não me lembro o livro). Algo como: “Adam Smith nos ensinou sobre os benefícios da divisão do trabalho, mas ela não é um fim em si. Seu objetivo são as trocas”.

Faço a paráfrase porque não me lembro das palavras exatas, mas McCloskey, nesta bela frase, lembra-nos da importância da multidisciplinaridade. Ok, estamos todos de acordo quanto a este ponto. Mas a crítica ainda parece uma queixa de um velho mal-humorado. Por que não existe mais muldisciplinaridade? Já falei sobre isso aqui neste blog (e em bares, aniversários, reuniões de amigos, etc) diversas vezes. Vou tentar recapitular e dar uma resposta melhor para Caldeira.

a) Existe um problema em se gerar multidisciplinaridade de cima para baixo. Trata-se de um fenômeno essencialmente privado. São trocas de conhecimentos. Apenas interesses próprios farão florescer parceria duradouras. Não adianta baixar um decreto em Brasília ou escrever um plano nacional de educação dizendo que o “Rei-Sol” (ou a “Rainha-Sol”) deseja muldisciplinaridade. Nem adianta forçar a barra porque parcerias que nascem sem interesses privados alinhados morrem. Não é segredo para mim que multidisciplinaridade de sucesso será, inevitavelmente, criada por mecanismos como a ordem espontânea ou por incentivos que partam da mesma.

b) Dito isto, vamos nos lembrar da velha intuição de Ronald Coase já citada neste blog: não existe esta coisa de interesse da ciência, mas de cientistas (outra paráfrase porque estou sem o livro aqui). Caldeira certamente sabe dos interesses que se encastelam em departamentos e recusam a multidisciplinaridade por motivos ligados à perda de prestígio potencial que um talentoso colega de outro departamento pode gerar. A multidisciplinaridade é um empreendimento e empreendimentos não se fazem com equipes, novamente, com interesses desalinhados.

c) No caso específico da Economia, eu me vejo dividido quanto à frase ao dito de Caldeira. De fato, conheço muito economista que torce o nariz para “narrativas”. Mas também conheço vários economistas que buscam, à sua maneira, fazer história econômica de forma que eu e Caldeira concordamos (digamos, em 95%). Aliás, o maior problema não são os “teoremas matemáticos”, mas sim os que pretendem jogar a economia fora porque defendem uma ciência plural desde que não exista matemática ou estatística. Estes sim, são os maiores adversários de trabalhos históricos que usam dados.

c.1) Aliás, que raios seria uma história econômica sem análise de dados? Só mesmo um maluco para me convencer que conhece mais o passado do que eu sem nunca ter feito um teste estatístico simples. Repare que até mineração de dados com textos e discursos vale para mim, não sou preconceituoso quanto a métodos estatísticos, embora goste mais de uns do que de outros.

Resumindo, compartilho da decepção de Caldeira quanto aos preconceitos de vários pesquisadores, mas acho que precisamos entender os incentivos que geram estes preconceitos. Eles não são dados, exógenos, mas fruto de um certo alinhamento de incentivos individuais. Ainda assim, acho importante que um autor como ele deixe registrado em um livro esta decepção. Quem sabe alguém se sente incomodado e resolve tentar melhorar um pouco a qualidade de sua pesquisa?

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