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Momento R do Dia – Dados macroeconômicos

O PPGOM é um lugar muito bom de se trabalhar. Agora mesmo, um dos professores, o Regis, publicou um pacote novo para R, de sua autoria. Vai ajudar muitos e muitos alunos e pesquisadores. Descubra mais sobre o pacote aqui.

p.s. O PPGOM estará de site novo em breve. Por enquanto, está aqui.

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Herança portuguesa?

Como poder independente, o Parlamento é, em primeiro lugar, muito mais antigo do que o Executivo: funciona com regularidade no país desde 1826. (…) Então, para o Brasil, é uma experiência única, que com certeza não é herança portuguesa; basta examinar a história de Portugal para se constatar que o Parlamento do país funciona para valer depois da Revolução dos Cravos, no século XX. [Caldeira, J. Nem céu nem inferno, Ed. Três Estrelas, 2015, 199-200]

Caso Caldeira esteja correto no que diz neste trecho, então temos que ter muito cuidado antes de cair na conversa fácil de que o que está errado aqui é culpa de Portugal, ou do Reino Unido, ou dos EUA. Citei um trecho, mas Caldeira surra este ponto várias vezes ao longo do livro.

Acho interessante porque me lembro do argumento de Brender e Drazen em um artigo muito bom, no qual eles conciliam duas hipóteses sobre o comportamento do eleitor, por meio de um raciocínio engenhoso. Mais ou menos, a coisa é assim: existem duas hipóteses importantes sobre o comportamento dos eleitores: ou são racionalmente ignorantes (são facilmente enganados e, assim, políticos geram ciclos político-econômicos desviando-se dos desejos dos eleitores nos níveis das variáveis-meta das políticas fiscais ou monetárias) ou racionais (os eleitores não são bobos e punem os políticos que se desviam, etc, etc).

caldeiraOs autores, então, mostram que, ao separar a amostra de países em “novas” e “velhas” democracias, obtém-se que: nas “velhas” democracias, o comportamento dos eleitores corrobora a hipótese do eleitor racional e, nas “novas democracias”, a hipótese corroborada é a de ignorância racional. Assim, conclui-se que é a prática política que diminui o viés de ignorância dos eleitores. Ou seja, mais democracia tenderia a gerar cidadãos mais e mais vigilantes quanto aos comportamentos dos políticos.

Eu gosto deste artigo e acho a argumentação bacana mas o problema está nesta definição de “nova” e “velha” democracia que não é independente da disponibilidade de dados. Em outras palavras, a extensão do período de tempo analisado pode alterar o que os autores chamam de “nova” ou “velha” democracia.

Por um lado, não é um problema porque a definição dos autores é basicamente funcional: não há uma ambição exagerada de criar uma nova taxonomia de regimes políticos. Mas fico com aquela sensação de que se o modelo do artigo para períodos mais recuados no tempo (pode ser que existam dados, mas não afirmo de maneira inequívoca…), talvez o Brasil se saísse até melhor.

Quando eu e o Leo fizemos um teste da hipótese de Olson sobre grupos de interesse e rent-seeking, tivemos que lidar com um período de tempo que incluía, ao mesmo tempo, democracia e ditadura. Não sei se nossa solução foi a melhor possível, mas foi a melhor que conseguimos fazer na época. De qualquer forma, uso meu artigo como exemplo apenas para chamar a atenção para possíveis interessados em incursar neste campo interessante de estudos de Economia Política (no sentido moderno do termo).

p.s. Sobre a história de Portugal eu pesquisei há algum tempo e meu conhecimento gira em torno disto.

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Falta de conversas? Meus dois centavos sobre a falta de multidisciplinaridade

Em seu último capítulo do livro de 2015 [“Nem céu nem inferno”], que é um ensaio sobre o debate proposto por Piketty [“Intuições sobre a ausência do Brasil em O capital no século XXI“], diz Caldeira:

Ao longo das últimas quatro décadas, prevaleceu por aqui a tradição das disciplinas rigidamente separadas pelas paredes dos departamentos universitários. Os principais cursos de história do país formam profissionais que cultuam um solene desprezo pela estatístia; as faculdades de economia mantêm o amor pelos teoremas matemáticos e o desdém pelas narrativas; os estudantes de estatística com um mínimo de talento acabam contratados por bancos ou seguradoras antes de poderem se exercitar com números históricos; nas escolas de ciências sociais, que misturam formação em estatística com estudos institucionais, poucos se interessam em enfrentar as barreiras já postas para a multidisciplinaridade. [Caldeira, J. (2015): 281]

Ok. Eu mesmo já devo ter dito algo parecido e não é de hoje que ouço desabafos similares. Caldeira está, digamos, 95% correto na descrição da nossa falsa multidisciplinaridade. Acho que foi McCloskey que disse algo similar (foi ela, mas não me lembro o livro). Algo como: “Adam Smith nos ensinou sobre os benefícios da divisão do trabalho, mas ela não é um fim em si. Seu objetivo são as trocas”.

Faço a paráfrase porque não me lembro das palavras exatas, mas McCloskey, nesta bela frase, lembra-nos da importância da multidisciplinaridade. Ok, estamos todos de acordo quanto a este ponto. Mas a crítica ainda parece uma queixa de um velho mal-humorado. Por que não existe mais muldisciplinaridade? Já falei sobre isso aqui neste blog (e em bares, aniversários, reuniões de amigos, etc) diversas vezes. Vou tentar recapitular e dar uma resposta melhor para Caldeira.

a) Existe um problema em se gerar multidisciplinaridade de cima para baixo. Trata-se de um fenômeno essencialmente privado. São trocas de conhecimentos. Apenas interesses próprios farão florescer parceria duradouras. Não adianta baixar um decreto em Brasília ou escrever um plano nacional de educação dizendo que o “Rei-Sol” (ou a “Rainha-Sol”) deseja muldisciplinaridade. Nem adianta forçar a barra porque parcerias que nascem sem interesses privados alinhados morrem. Não é segredo para mim que multidisciplinaridade de sucesso será, inevitavelmente, criada por mecanismos como a ordem espontânea ou por incentivos que partam da mesma.

b) Dito isto, vamos nos lembrar da velha intuição de Ronald Coase já citada neste blog: não existe esta coisa de interesse da ciência, mas de cientistas (outra paráfrase porque estou sem o livro aqui). Caldeira certamente sabe dos interesses que se encastelam em departamentos e recusam a multidisciplinaridade por motivos ligados à perda de prestígio potencial que um talentoso colega de outro departamento pode gerar. A multidisciplinaridade é um empreendimento e empreendimentos não se fazem com equipes, novamente, com interesses desalinhados.

c) No caso específico da Economia, eu me vejo dividido quanto à frase ao dito de Caldeira. De fato, conheço muito economista que torce o nariz para “narrativas”. Mas também conheço vários economistas que buscam, à sua maneira, fazer história econômica de forma que eu e Caldeira concordamos (digamos, em 95%). Aliás, o maior problema não são os “teoremas matemáticos”, mas sim os que pretendem jogar a economia fora porque defendem uma ciência plural desde que não exista matemática ou estatística. Estes sim, são os maiores adversários de trabalhos históricos que usam dados.

c.1) Aliás, que raios seria uma história econômica sem análise de dados? Só mesmo um maluco para me convencer que conhece mais o passado do que eu sem nunca ter feito um teste estatístico simples. Repare que até mineração de dados com textos e discursos vale para mim, não sou preconceituoso quanto a métodos estatísticos, embora goste mais de uns do que de outros.

Resumindo, compartilho da decepção de Caldeira quanto aos preconceitos de vários pesquisadores, mas acho que precisamos entender os incentivos que geram estes preconceitos. Eles não são dados, exógenos, mas fruto de um certo alinhamento de incentivos individuais. Ainda assim, acho importante que um autor como ele deixe registrado em um livro esta decepção. Quem sabe alguém se sente incomodado e resolve tentar melhorar um pouco a qualidade de sua pesquisa?

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Armando cidadãos e elegendo oficiais: o que Douglass North diria?

Após confrontar-se com um motim de militares, Diogo A. Feijó…

Para garantir a ordem no Rio de Janeiro, a população foi armada para cuidar de sua própria defesa. Em todo o país, a recém-criada Guarda Nacional, formada por cidadãos, assumiria o papel dos demitidos. Naquele momento, um dos mais preciosos colaboradores de Feijó foi o major Luís Alves de Lima e Silva, futuro Duque de Caxias, que dividia seu tempo entre o Exército, o treinamento militar dos cidadãos, o controle dos motins que se sucediam e o apaziaguamento dos ânimos. [Caldeira (2015), 104]

Então, armar ou não a população não é uma questão filosófica ou humanitária para políticos. Trata-se, simplesmente, de uma questão pragmática. Primeiro ponto: defensores atuais do desarmamento dos cidadãos podem estar a serviço de uma agenda que lhes é oculta? Claro, é uma pergunta polêmica, mas a evidência histórica acima (e as milícias que Maduro incentiva na Venezuela) mostram que “desarmar ou não os cidadãos” é uma questão vista pelos governantes com muito menos, digamos, preocupações humanitárias.

Bom, esta foi a pergunta de economia política mas há também a outra pergunta: a Guarda Nacional foi mais eficaz na garantia da segurança dos habitantes do Rio de Janeiro do que a polícia (muitos policiais foram demitidos por conta do citado motim)? Como construir um experimento para verificar este impacto? Existem dados?

Ah sim, existem aspectos institucionais interessantes (há muita literatura ruim, em português, sobre Douglass North e sobre o que sejam as instituições em sua visão. Assim, sugiro apenas este texto, do próprio). Vamos a eles.

Os guardas nacionais deveriam ser repartidos pelas Câmaras Municipais em unidades dentro dos distritos de cada município. A principio, as unidades seriam da arma de infantaria, ficando a cargo do governo decidir sobre a criação de unidades de cavalaria e artilharia. [C]abia ao governo escolher os Coronéis e os Majores de Legião da Guarda Nacional. Os demais oficiais, inicialmente, eram escolhidos através de eleições em que votavam todos os guardas nacionais para exercerem um posto pelo prazo de quatro anos, porém tal fórmula foi modificada após a promulgação do Ato Adicional (1834), sendo substituída por nomeações provinciais, propostas das Câmaras Municipais e, mais tarde, por indicações dos comandantes dos corpos. [o citado verbete da Wikipedia sobre Guarda Nacional]

Eleições? Desperta a curiosidade sobre se a adoção deste mecanismo tinha algum impacto na eficiência no trabalho da Guarda Nacional, relativamente às forças militares tradicionais e, não, não penso apenas em uma conversa informal, mas em algum estudo com dados empíricos.