Mais diversidade de religiões, mais bem-estar…e algumas reflexões superficiais sobre o terror

Este artigo é antigo, é de 2007. Diz o resumo:

Is God Good for Trade? Matthias Helble (Kyklos, 2007)

As the world economy is integrating, trade between countries is growing rapidly. The exchange of goods not only has an economic, but also a cultural dimension. In the gravity equation literature common religion is often used as a control variable, without distinguishing between religious groups. This paper investigates the possible ways in which religion influences international trade patterns. Analyzing empirically trade flows between 151 countries, the paper finds that the five world religions, namely Hinduism, Judaism, Buddhism, Christianity, and Islam, have different impacts on trade. For inter-religious trade the study indicates that several religions have clear preferences with whom to trade or not. Furthermore, the results indicate that religious openness boosts trade performance of countries.

Ah sim, interessante pensar no que este artigo nos diz. Primeiro, ele nos diz que diversidade religiosa gera comércio e, como aprendemos em qualquer curso básico de economia, dificilmente mais comércio não significará maior bem-estar para o país (claro que a distribuição do bem-estar pode não idêntica, mas esta é outra história).

Vejamos alguns trechos da conclusão.

One of the most remarkable results of our study is that religious openness has a strong positive effect on trade. This effect is even more pronounced for differentiated goods. Countries that host panoply of religions seem to be the best traders. Being a good trader also implies stronger economic growth.[p.409]

Ótima notícia. Mais algumas.

Our results allow us to stipulate several policy recommendations. First, on the national level governments should show themselves eager to host a great variety of religions. In many countries, religious minorities still face discrimination from society, including the public administration. In other countries, the propagation of other beliefs is even suppressed by governments. Our results advocate that religiously open societies better integrate in the world economy. Therefore, governments should tolerate or, even better, foster religious variety within the country. [p.409]

Pois é. Repare que discriminar algumas religiões não é interessante para o aumento do bem-estar. Isso significa que os que promovem o preconceito contra evangélicos, católicos, judeus ou islâmicos não estão apenas ajudando a difundir preconceitos, mas estão também ajudando a diminuir o bem-estar. Interessante para começar o debate.

Seria o mesmo se falássemos de fluxos migratórios?

Outro ponto que me ocorre é o seguinte: o artigo trata de exportações de mercadorias entre países e, assim, não captura o efeito de uma importante variável econômica: o fluxo migratório. Neste sentido, a questão fica bem mais rica e desafiadora (sem falar da sua importância, como nos lembram os estupros de alemãs por islâmicos ou o atentado na França).

Mercadorias não têm preferências e portanto podem ser trocadas gerando valor. O mesmo, contudo, não é verdade para pessoas. Exportar radicais para outro país não necessariamente aumentará o bem-estar naquele país (paradoxalmente, aumentará no país de origem, já que os remanescentes são mais tolerantes e sabemos que há muitas evidências de que a tolerância ajuda na geração de bem-estar). Enfim, receber refugiados não é necessariamente uma boa idéia. A questão é bem mais complicada do que parece e governos não devem agir de forma apressada, somente porque alguns (não) querem mais imigrantes no país.

Só para refrescar a memória, tivemos os refugiados nazistas ao final da II Guerra Mundial, por exemplo, que emigraram para os EUA e para a Argentina. Não vimos o surgimento de um movimento pró-nazista forte nos EUA quanto na Argentina e isto porque talvez porque o governo dos EUA tenha priorizado o capital humano em sua importação de ex-nazistas e atraído os melhores, deixando a ditadura de Peron com menos opções (sem falar que ditadores costumam gostar de gente que curte ditaduras…).

Poderíamos também citar as migrações forçadas – por meio de sequestros – comuns em épocas de guerras ou como no terrível caso dos sequestros de japoneses pela ditadura norte-coreana. Não necessariamente estes migrantes melhoraram de vida já que, de início, foram forçados a migrarem e, portanto, os incentivos econômicos tradicionais (preços relativos e renda) não cumpriram qualquer papel em sua “decisão”. É o mesmo que uma escravidão (ou os africanos vieram para cá cantando e dançando? Claro que não! Talvez nem tivessem vindo ou talvez viessem, livremente, caso isso fosse permitido, mas este é um contrafactual desafiador para qualquer economista…).

Some-se a isto tudo a questão de uso político de crenças como no caso do terrorismo – e a idéia de infiltrar terroristas entre refugiados não é nova…basta lembrar do Cavalo de Tróia – e você se vê diante de uma realidade bem mais complicada.

Aliás, para citar o artigo que iniciou este texto, neste caso, Deus pode ser importante, mas de uma forma cruelmente distorcida. Como evitar isto? Não há uma resposta simples. Há uma vasta literatura em Economia do Terrorismo, mas usarei apenas um artigo, de 2005 (a referência completa está aqui), no qual o autor, Li, após alguma econometria, concluiu:

The findings suggest several important policy implications for the war on terrorism. Democracy does not have a singularly positive effect on terrorism as is often claimed and found. By improving citizen satisfaction, electoral participation, and political efficacy, democratic governments can reduce the number of terrorist incidents within their borders.

 

Limiting civil liberties does not lead to the expected decline in terrorist attacks, as is sometimes argued. Restricting the freedom of press, movement, and association does not decrease the number of transnational terrorist incidents. Strategic terrorists simply select alternative modes to engage in violence, as argued by Enders and Sandler (2002). [p.294]

Não é nada simples, não é? Tema complexo e importante. Uma agenda desafiadora de pesquisa, sem dúvida.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s