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“Eu sou um gato” e direitos de propriedade

“Eu sou um gato” é um clássico da literatura japonesa (do meu autor favorito: Natsume Souseki). Ainda não terminei de ler o livro, mas retomei a leitura após alguns anos e eis que em algum momento, o gato – nosso personagem principal – reflete sobre os direitos de propriedade ao discutir com o leitor sua invasão de uma casa alheia. O trecho é muito interessante.

Levantar cercas ou piquetes em terras vastas, delimitando o espaço, é como dividir o firmamento: esta parte é minha, aquela é sua. Se a terra é dividida e se comercializam os direitos de propriedade, nada mais natural do que dividirmos também o ar que respiramos e vendê-lo por unidades cúbicas. Se não podemos vender o ar e é improvável fracionar o céu, não seria a posse da superfície terrestre também uma irracionalidade? Esta é minha convicção, e com base nela entro onde melhor me aprouver. [Souseki (Soseki) Natsume, “Eu sou um gato”, Estação Liberdade, 2008, p.144 (original em japonês de 1905-6)]

O gato espertalhão mostra ter uma noção básica dos direitos de propriedade e tenta ludibriar o leitor colocando a dificuldade de se medir um bem (em contraposição à facilidade de se medir o outro) como um obstáculo ao estabelecimento efetivo dos direitos de propriedade…e tudo isto só para poder invadir as casas que quiser.

Divertido, não?