Bra-Pel: a econometria do clássico de Pelotas

Pois é. Construí um banco de dados de confrontos Bra-Pel, pensando no grande Lobão, meu time em Pelotas. Tenho ali 362 clássicos, no período 1913-2014. Segui o livro de Éder (2010) [Éder, J. BRAPEL: A rivalidade no sul do Rio Grande, Editora Livraria Mundial, 2010] e os jogos de 2011 em diante foram coletados por mim (novamente, é impressionante como é difícil obter dados de jogos organizados em bases de dados no Brasil. Neste sentido, o Éder (2010) só tem um defeito: não ter a base de dados online, mas tudo bem).

Em resumo, temos: 487 vitórias gols do Lobão e 503 do Xavante. Temos também 109 gols vitórias do primeiro e 129 do segundo. Gostaria mesmo era de ter um banco de dados maior, com todos os jogos do Esporte Clube Pelotas, mas por enquanto minha base de dados é tudo o que tenho.

Alguns dados adicionais: os confrontos entre os dois times ocorrem desde 1913, exceto nos anos 1917, 1920, 1926, 1974, 1983, 1989, 1990, 1999, 2000, 2002, 2007, 2008, 2009 e 2010. O último confronto que tenho registrado ocorreu em 2014, o Bra-Pel n.362.

Antes de mais nada, alguns gráficos interessantes. Primeiro, a correlação entre os gols dos times (agrupados anualmente) é positiva (0.6439). Como sempre digo aqui, correlação não é causalidade, mas apenas uma visão inicial dos dados. O gráfico abaixo apenas nos diz que o total anual de gols de cada time é relacionado positivamente com o total anual de gols do outro time. Pode – atenção para o condicional! – ser que isto tenha algo a ver com alguma competitividade entre ambos os times, mas aí o melhor seria verificar se existe algum tipo de inércia nos dados, algo que não fiz aqui.

corr_gols

De forma similar, calculei a correlação entre as vitórias anuais dos times, que é negativa (-0.0977).

corr_vitorias

Desnecessário dizer que também há uma correlação positiva entre as vitórias de um time e o seu número de gols (ou mesmo o saldo de gols), não é?

Dito isto, vejamos o ditado popular – e óbvio – de que, quem não marca, toma. Trata-se de um logit simples e a classificação dos campeonatos ainda é precária. De qualquer forma, o leitor chegado em Econometria pode constatar a importância dos gols no aumento da probabilidade de vitórias. Note que, entre as variáveis independentes (as “covariadas”), incluí as primeiras defasagens das vitórias de ambos os times, para ver se há algum tipo de inércia.

Cabe destacar que, para as regressões, usei os dados desagregados, ou seja, dados de cada partida e não os agregados anuais.

brapel2

Algumas observações importantes: alguns pequenos campeonatos foram classificados como “amistosos” e o leitor pode se reportar a Éder (2010) para esclarecimentos (por isso eu disse lá em cima sobre uma certa “precariedade”…). A idéia de incluir este tipo de variável era controlar para tipos de campeonatos (eu esperaria que alguns campeonatos pudessem ser mais importantes que outros). Eu poderia ter seguido o autor, e incluído os pequenos campeonatos mas: (a) são poucas observações, (b) algumas observações nem possuem o atributo “campeonato/torneio” associado.

Além disso, os resultados acima me mostraram que, em relação aos campeonatos, apenas o Gauchão parece ser um determinante importante nas vitórias em Bra-Pel, mesmo assim, com sinal oscilante (negativo para probabilidade de vitórias do Brasil e positivo para o Pelotas). Talvez algum leitor que conheça melhor a lógica dos campeonatos e a história dos times possa me ajudar a entender a importância de cada um no suposto empenho dos times. Mesmo assim, as evidências que veremos adiante mostrará que talvez isto não seja assim tão importante. Mas vamos em frente.

O número de gols do Pelotas, claro, tem impacto positivo nas vitórias do Lobão e negativo no número de vitórias do adversário. Eu poderia trocar a variável por gols do Brasil e, sim, logo mais mostrarei o que acontece. Aguarde.

Outros fenômenos testados foram os períodos de guerras (1914-1918, 1939-1945) e o da ditadura (1964-1985). Nas especificações (1) e (2), há o curioso efeito, quase simétrico, da ditadura nas vitórias dos dois times (positivo, no caso do Lobão e negativo no caso do Xavante). Mas este efeito desaparece se eu considerar dummies anuais.

As vitórias defasadas – o efeito “inercial” – parece apontar um impacto positivo apenas na probabilidade de vitórias do Lobão. Seria este resultado associado ao fato de eu estar usando apenas os gols do Lobão nas especificações? Para tirar esta dúvida, fiz mais alguns logits similares aos anteriores, mas trocando os gols do Pelotas pelos do Brasil nas equações em que a variável dependente é a dummy de vitórias do Xavante.

Os resultados não mudam muito no que diz respeito à inércia, mas vemos que o Gauchão deixa de ser significativo (talvez porque a inércia capture este efeito?) e a dummy de ditadura perde significância, embora ainda pareçam existir traços de sua influência nas duas primeiras especificações. Por que será que a inércia não aparece no caso do Xavante? Esta fica em aberto.

brapel3

Bem, estes são resultados preliminares. Com um pouco mais de informações (sim, preciso de ajuda na construção da base de dados), talvez seja possível fazer algo mais interessante. O que seria mais bacana?

Ora, os times poderiam investir em algo simples que é construir bases com as fichas técnicas de todos os seus jogos, resgatando, inclusive, dados do passado. Afinal de contas, se queremos estudar o desempenho de um time, não basta olhar para “clássicos”. O interessante seria olhar para todos os jogos ao longo dos anos.

Claro que isto foi somente um exercício e as especificações são muito preliminares. Em outras palavras, não devemos tentar inferir muito sobre as estimações. Elas só valem para os clássicos Bra-Pel e, mesmo assim, eu gostaria de ter mais variáveis para incluir na pesquisa. Mesmo assim, espero que o leitor tenha apreciado um pouco da Economia dos Esportes (veja também, por exemplo, este e mais este).

O espaço dos comentários está à disposição.

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5 respostas em “Bra-Pel: a econometria do clássico de Pelotas

  1. O GEB possui em seu acervo um livro contendo todas as suas partidas realizadas – com placar, escalações, local, etc. – como resultado de extensa pesquisa pelo sr. Nilvio Severo, com título de Guardião da História Xavante.

  2. O GEB possui em seu acervo um livro contendo todas as suas partidas realizadas – com placar, escalações, local, etc. – como resultado de extensa pesquisa pelo sr. Nilvio Severo, com título de Guardião da História Xavante.

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