Maravilhas do socialismo: o antissemitismo soviético na matemática

Vejamos como o antissemitismo soviético no campo da matemática teve efeitos provavelmente inesperados para os próprios antissemitas. Falamos da MGU (Moscow State University, em inglês), que recusa Frenkel em uma prova de vestibular absolutamente montada para reprová-lo, levando-o a procurar outra faculdade.

Como o destino escolheu Kerosinka (apelido do Instituto de Petróleo e Gás) como repositório de tanto talento? A resposta não é fácil. Sabemos que existiam outras instituições que se beneficiaram da exclusão dos judeus da MGU. Também sabemos que o estabelecimento dessa política de exclusão era uma ação consciente, que provavelmente encontrou alguma resistência inicialmente. Talvez tivesse sido mais fácil para algumas instituições continuarem a aceitar estudantes judeus do que instituir uma nova política. No entanto, depois que o fenômeno cresceu e havia um núcleo de estudantes judeus em Kerosinka, por que isso foi tolerado? Existiam boatos tenebrosos a respeito de uma conspiração da polícia secreta (KGB) para manter os estudantes judeus sob vigilância em um ou dois lugares. No entanto, parte da motivação pode ter sido mais positiva: a administração do instituto pode ter percebido um bom departamento se desenvolvendo e ter feito o possível para preservar o fenômeno. [Mark Saul, citado em Frenkel, Edward (2014) Amor e Matemática. Casa da Palavra, p.56-57]

Frenkel relata no livro que acreditava haver a tal conspiração da KGB, mas sim uma visão condizente com o desenvolvimento de pesquisas na faculdade por parte do diretor da ‘Kerosinka’.

Mas a ironia deliciosa desta história é pensar em como uma política antissemita – disseminada na URSS, a despeito do discurso oficial – gerou consequências inesperadas, como a criação de um grupo de matemáticos brilhantes em outras faculdades. Para quem acredita em planejamento central, isto é um insulto. Para quem defende a ex-URSS como modelo de planejamento, é um insulto duplo…

Claro, você leu nos livros do colégio que a URSS era uma “aliada” que ajudou a libertar judeus de campos de concentração nazistas, o que é uma visão parcialmente verdadeira dos fatos, já que esconde a existência dos campos de trabalho soviéticos na mesmíssima época. Veja aqui um pequeno trecho terrível para você ter noção do que foi a ditadura soviética:

Lenin’s metaphor, like Hitler’s, was of cleansing: ‘the cleansing of Russia’s soil of all harmful insects, of scoundrel fleas, of bedbugs’. It was a programme he initiated soon after, in 1918, to be continued first by his successor Stalin (…). The classic instance was Katyn. Fifty years after the Katyn massacre of April 1940, to the very month, the Soviet government in one of its last acts admitted something that few Poles had ever doubted: that it was the Soviets and not the Nazis who, during their joint occupation of Poland, exterminated some 15,000 Polish officers at Katyn in Bielo-Russia and elsewhere. [Watson, G. (1988). The Lost Literature of Socialism, p.89]

Ah sim, voltando ao tema central, o antissemitismo vivenciado por Frenkel, claro, não é desconhecido dos pesquisadores da História. Não, meus caros, a ciência soviética estava longe de ser um exemplo de sucesso e, usando a métrica da galera que gosta de falar de discriminação, gerou custos desnecessários para muito pesquisador talentoso…

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Uma resposta em “Maravilhas do socialismo: o antissemitismo soviético na matemática

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