O governo no Brasil escravocrata, sempre corrigindo externalidades e gerando bens públicos…só que não

Para começar, já aceita a escravidão, o que é um dos exemplos básicos que você ensina para qualquer moleque de que o governo está sendo bem anti-liberal, garantindo que algumas pessoas não tenham direito de propriedade sobre seu próprio corpo. Mas o “melhor” está por vir. Vamos ao contexto: Corte imperial (Rio de Janeiro), século XIX, com a prisão famosa, o chamado “Calabouço”, lotado de escravos que lá foram deixados para serem punidos ou foram presos.

Há um excesso de presos porque muitos dos escravos já tiveram seus nomes anunciados e não apareceram seus supostos donos. Isto sem falar nos sérios problemas legais que envolvem negros que não eram escravos como se escravos fossem. O cenário é dantesco, não? De longe, o maior antípoda de uma filosofia baseada nas idéias de Adam Smith que se pode observar. Fosse hoje em dia, seria exemplo de livro-texto de não-liberalismo.

Mas o Calabouço tem um problema: tem presos que lhe custam caro pois estão lá sem perspectiva de saída porque não há quem os reclame. A lei, bem, a lei, não parece ser eficiente para averiguar os casos de negros que não são escravos e as pessoas passam mais tempo encarcerados do que deveriam. Qual a solução? Como diriam alguns políticos hoje, quando tiveram a idéia do “Mensalão”, olhemos para Minas Gerais! Por que?

O chefe de polícia sugeria que se adotasse na Corte o que se fazia na província de Minas Gerais, onde escravos anunciados e não reclamados num prazo de trinta dias ficavam à disposição do juízo de órfãos para serem arrematados como bens do evento. [Chalhoub, S. (2012), p.234]

Belo exemplo, não? O que foi feito?

O ministro concordou com a medida, que resultou no aviso de 12 de agosto de 1834. Nele, mandava-se publicar ‘todos os meses uma relação geral dos escravos recolhidos à prisão do Calabouço durante o mês, e não reclamados’, providas as informações necessárias à identificação dos supostos cativos. [Chalhoub, S. (2012), p.234]

É, o livro do Chalhoub é o A Força da Escravidão  – Ilegalidade e Costume no Brasil Oitocentista, da Companhia das Letras, 2012.

Podemos dizer que, do ponto de vista de quem achava que negro bom era negro preso, o governo até corrigia uma externalidade, mas não seria este o caso para outros. Aliás, a hipótese mais simples, neste caso, é a mais razoável: minimização de custos pura e simples.

A discussão institucional, bem, fica para outro dia.

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Liberalismo e Escravidão: Um Exemplo De Um Antigo Movimento pelo Brasil Livre

José Bonifácio radicou o seu discurso nas premissas do direito natural, parecendo às vezes argumentar tendo diante de si o folheto de Domingos Barreto, ou algum símile dele. Por conseguinte, se ‘os negros são homens como nós e não formam uma espécie de brutos animais, se sentem e pensam como nós’, a razão e a humanidade mandavam que se lhes reconhecesse a condição inata de liberdade. Sofismavam os que diziam que favorecer ‘a liberdade dos escravos’ era ‘atacar a propriedade’; a propriedade teria sido ‘sancionada para o bem de todos’, não havendo como supor que os escravos se beneficiassem ao perder ‘todos os seus direitos naturais’, tornando de ‘pessoa a coisa’, na frase do jurisconsulto. A propriedade escrava consistia no ‘direito da força, pois que o homem, não podendo ser coisa, não pode ser objeto de propriedade’; ‘se a lei deve defender a propriedade, muito mais deve defender a liberdade pessoal dos homens’. [Chalhoub, S. A força da escravidão: ilegalidade e costume no Brasil oitocentista, Editora Schwarcz, 2012, p.40-41]

Entre o bolivarianismo e o andradismo, fico com o último.

Desarmamento ajudou a conter crimes? Não sabemos.

O Estadão afirma, em manchete, que sim. Mas não vi, entre os especialistas, nenhum que tenha feito algum trabalho empírico (posso estar enganado). Especificamente, o trabalhos empíricos sobre o estatuto submetidos a periódicos científicos (ou seja, que passam pelo crivo acadêmico antes da publicação), eu vi poucos.

Então, vou apenas recordar alguns resultados mais gerais, não necessariamente sobre o estatuto, mas sobre o problema que realmente é o foco: a violência gerada pelas armas de fogo na forma de crimes.

Bem, lá vai: (a) não parece haver, (b) parece que há, mas há problemas nos dados segundo alguns, (c) depende do tipo de crime, (d) o buraco é mais embaixo, (e) sim, reduz.

Vale ainda lembrar: existe sempre o problema dos dados. Qual? O número de armas irregulares não entra na contagem dos supostos efeitos do estatuto. Como os especialistas tratam este problema? O repórter do Estadão poderia começar com esta pergunta: como podemos afirmar que é o estatuto que gerou o estacionamento das taxas de crime, ceteris paribus, se não temos dados coletados de armas ilegais?

Outra pergunta: qual é o efeito do crescimento econômico sobre os crimes? Imagino que uma lei no papel tenha menos efeito sobre a vida das pessoas do que o crescimento econômico (que gera menos desemprego). Por que? Porque este deve diminuir a criminalidade (e existe a questão de que o ciclo econômico pode ser assimétrico neste aspecto, com o do desemprego gerando mais crimes enquanto que queda no desemprego gera uma queda mais fraca nos crimes).

Uma amostra do que eu já fiz em sala de aula ao longo destes ‘quinze e poucos anos’ e que me deixou feliz

Bateu aquela saudade…Estou em um momento de jogar fora a falsa modéstia. Trata-se de um desabafo positivo e quero aproveitar para relembrar os nomes de meus ex-alunos que honraram a camisa da faculdade cumprindo tarefas inusitadas. Então, com licença, mas quero que fique bem claro o quanto de valor ajudei a gerar para cada um dos alunos.

Primeiramente, os alunos que, voluntariamente, candidataram-se, juntamente com outras pessoas, sem qualquer ligação com a faculdade, a analisar o problema do pagamento pela sobra dos sushi.

Em segundo lugar, a turma que topou o desafio de analisar a concorrência imperfeita na história economica mundial, especificamente, entre duas gigantes do mercantilismo. Neste trabalho, eu bem me lembro, a turma percebeu que o trabalho em grupo é sempre duro, difícil, e é preciso alinhar muito bem os incentivos.

Em terceiro lugar, a turma que resolveu estudar a questão dos custos na – hoje inexistente – cadeia Blockbuster. Eu me recordo deste trabalho como um dos mais interessantes que já consegui gerar em uma turma de alunos. Lembro-me de algum professor, acho que de Administração, de São Paulo, que me pediu para usá-lo como um case.

Em quarto, a turma que enfrentou todos os problemas de relacionamento – foi quase um reality show – para estudar os determinantes da eleição da Dilma em 2014. Ninguém desta turma esquecerá as eleições ou o trabalho. Foi exaustivo e, novamente, vimos que gerar bens públicos (como é o caso do trabalho) é algo extremamente complexo.

Em quinto, não podemos nos esquecer, houve aquele desafio que gerou os vídeos mais divertidos da faculdade, o Quadro Negro dos Fundos. Este desafio foi distinto dos outros, pois envolvia a confecção de vídeos. Vejo, até hoje, alguns dos alunos orgulhosos dos vídeos. Foi uma sensação na faculdade. Eu levei a idéia de um concurso para os chefes, mas nunca foi para frente. Uma pena.

Não vou nem falar do extinto Nepom, porque todos já o conhecem. Tenho muita alegria em ter ouvido uns dois alunos me dizerem que a participação no grupo os ajudou a arrumar um estágio. Houve outro que foi entrevistado e selecionado em uma apresentação. Quantas vezes na vida a gente vê isso?

Ah, claro, um dos meus favoritos, o Projeto 42. Foi ali que uma aluna calada, tímida, de repente, revelou-se uma das melhores escritoras da turma. Era um trabalho de Técnicas de Pesquisa em Economia, para treinar os alunos na escrita. Foi, provavelmente, um dos meus primeiros experimentos com alunos e blogs. Não seria demais dizer que me influenciou a fazer o blog do Nepom. Acho até que foi este o caso.

Quantas vezes na vida a gente tem a oportunidade de ajudar na compreensão científica do mundo de nossos alunos? Pode ser que seja uma aula, um momento de uma aula, ou, quem sabe, em trabalhos como estes.

World Order

A função de produção do grupo está mudando, como você pode perceber ao final da entrevista.

Ah sim, o mais engraçado, ainda no início da entrevista, é a pergunta da repórter sobre a tatuagem de um dos membros, em uma das mãos: ela é escrita em inglês. A resposta é ótima.

Quanto mais eu penso em grupos musicais, mais eu penso nos aspectos gerenciais que existem por trás dos mesmos. Não é à toa que um dos livros-mangá de explicação para leigos de Economia que existem em japonês usa um grupo de adolescentes que desejam montar o próprio grupo musical como exemplo.

Os efeitos de longo prazo da escravidão…na Georgia, USA

Contrafactuais, experimentos aleatórios, enfim, termos que assustam os estudiosos da História Econômica. Certamente dá muito trabalho não só pensar nisto, como imaginar formas de se fazer um bom estudo, ainda mais quando o tema é escravidão.

Eu diria que um exemplo de boa tentativa é este artigo.

Slavery, Path Dependence, and Development: Evidence from the Georgia Experiment

Tyler Beck Goodspeed
Abstract –  From 1735 to 1751, the Board of Trustees of the Province of Georgia imposed the only ban on slavery among the North American colonies. Exploiting the historical boundary between the 88 counties of Trustee Georgia and the 71 counties that were appended to the colony after 1751, I analyze the effects of this initial institutional difference on subsequent differences in slave dependence, land inequality, income, and poverty. I find that counties that had been covered by the initial Trustee ban subsequently had lower slave population density, fewer farms holding more than 10 slaves, and higher income and lower poverty rates today. I further find that while counties affected by the ban did not have significant differences in pre-Civil War land inequality, productivity, industrial development, or educational investment, their economic output was significantly more diversified and less reliant upon the production of cash crops. Finally, I demonstrate that controlling for pre-war output diversification significantly reduces the estimated relationship between Trusteeship and current income. Results therefore suggest that the effects of initial differences in labor institutions can persist even where those differences are not determined by geography, and that a primary channel of persistence is the path-dependence of early economic specialization.

Legal, heim?

Gustavo Franco na faculdade

Inscrições abertas (veja o link a seguir). Iniciativa do DCE que apóio. Caso você não conheça o Gustavo Franco (acho difícil, mas vamos lá), eis um perfil dele na Wikipedia e eis um artigo acadêmico antigo dele aplicando a causalidade de Granger-Sims a dados macroeconômicos históricos do Brasil. Sua página pessoal está aqui.

Discriminação de cor ou de riqueza: o caso do Brasil escravocrata

Questão antiga e não menos polêmica, eu sei. Então, vamos à história brasileira. O século é o XIX e estamos falando da época em que a escravidão era a regra.

Para desagrado de muitos brancos, indivíduos com outra origem étnico-racial (negros e mestiços libertos) também foram senhores de escravos e muitas vezes compartilhavam com os brancos a visão de mundo destes.

(…)
Além disso, mesmo entre os brancos, existiam ‘brancos’ e ‘brancos’. Estes eram por excelência os senhores de escravos, mas isso não significava que todos os indivíduos desta cor tivessem o mesmo poderio econômico, político e social. [Soares, L.C. O “Povo de Cam” na Capital do Brasil: A Escravidão Urbana no Rio de Janeiro do Século XIX. 7Letras, 2007, p.69]

É, ficou mais interessante, não? Não é algo desconhecido – embora pouco divulgado – que ex-escravos tenham tido escravos. Existe, obviamente, o fato de que poucos escravos conseguiam sua liberdade (pouco em relação ao total de escravos, não estamos falando de seis pessoas apenas…), o que dificulta a pesquisa e divulgação do tema. Mas também é interessante que, segundo a narrativa do autor, a questão da discriminação pode ter muito mais a ver com a pobreza (e, claro, como a correlação entre ser “ex-escravo” e “ser pobre” é alta, há quem confunda uma coisa com a outra).

Por isso é que se deve ter muito cuidado antes de sair por aí de “heranças históricas”. Cada qual tem a sua herança e se alguém é filho de um ex-escravo que tinha escravo, melhor tomar cuidado.

Educando os pais

Na biografia do Mussum (vários momentos aqui), um trecho que me chamou a atenção, logo no início do livro, é quando o autor descreve como o famoso sambista se alfabetizou e, quase ao mesmo tempo, alfabetizou a mãe. É um dos trechos mais bonitos do livro.

Bem, ele não é uma exceção. Tomando como base este artigo, para o Brasil, alfabetização é muito importante para quem é muito pobre.

Este trabalho tem por objetivo investigar a possível existência de um benefício positivo da educação das crianças em idade escolar para os adultos analfabetos, inseridos no Programa Bolsa Família, em decorrência das condicionalidades educacionais do Programa. Buscam-se sinais de externalidade da alfabetização no sentido dos filhos para os pais/adultos analfabetos, no quesito rendimento do trabalho. Utiliza-se o modelo de seleção de Heckman para corrigir o problema de autosseleção dos indivíduos em participar do mercado de trabalho. Os resultados apontam que os pais/adultos analfabetos, beneficiários do Programa Bolsa Família (PBF), e que residem com ao menos um filho alfabetizado recebem, em média, 10,96% a mais do que os pais/adultos analfabetos, beneficiários do PBF, que não residem com filhos alfabetizados.

Legal, né?

Prêmios

Olha que notícia legal! Uma competição da IAES, anual, com o que seria o melhor trabalho final (mas não precisa, pode ser um artigo derivado apenas da vontade do estudante de explorar um tema). Digo, os quatro melhores. Vou deixar em negrito o nome dos autores e os títulos dos trabalhos.

It is our pleasure to announce that the winner of the International Atlantic Economic Society’s 11th annual Best Undergraduate Paper Competition is:
Hameem Raees Chowdhury, Joint-liability in microcredit: Evidence from Bangladesh, University of Warwick, UK

Mr. Chowdhury received a $500 check and will have his paper printed in an upcoming issue of the Atlantic Economic Journal. In addition, each of the three finalists, listed alphabetically below, received $100 from the Society and will have 800-word summaries of their papers published in the Atlantic Economic Journal. All of the students also received handsome commemorative plaques to mark the occasion.

Alexander Billy, Granger-causality testing within the Eurozone: Policy analysis of the efficacy of the European Central Bank’s policy tools, St. Vincent College, U.S.

Evelina Lazareva, Do rating agencies confirm or surprise the market? Market efficiency hypothesis vs conspiracy theory, Nottingham Trent University, UK

Virginia Minni, Can greater bank capital lead to less bank lending? An analysis of the bank-level evidence from Europe, University of Warwick, UK
The IAES and the http://www.EconSources.com underwriting sponsor would like to extend our congratulations to all of the students who entered the competition and submitted so many fine papers. While it is not possible to acknowledge more than one winning entry in a competition such as this, we would like everyone to know that all of the students did an outstanding job!
In addition, we would also like to extend our appreciation to the universities and colleges that promised to provide the financial support that enabled their students to enter the competition and travel to Boston where the final stage of the competition took place. Finally, we would also like to thank all of the judges for the many hours they spent reading the many fine entries.

Acho que todo mundo que faz monografia sabe que a diversidade de temas nunca foi um problema, não é? Claro, a famosa econometria (que muitos acham que não serve para nada) está sempre presente nestes prêmios, seja diretamente, no título, ou indiretamente, no artigo.

Muito legal mesmo deve ser o cara ganhar um prêmio assim. Meus parabéns a todos.

Mais um daqueles exercícios de Introdução à Economia: o caso do número ótimo de navios no tráfico de escravos

Contexto…

Diz-nos Mattoso (1982) [Mattoso, K.M. de Q. “Ser Escravo no Brasil”. Brasiliense, 1982] sobre o transporte de escravos que, de 1612 a 1795, que o frete ficou muito barato (passou de 9600 para 6215 réis). Ok, aí a historiadora pergunta:

Como explicar essa redução no custo do transporte? O tráfico organizou-se melhor? O maior número de navios estabelece entre eles uma concorrência severa? [Mattoso (1982) : 71]

Eis a pergunta para o aluno: Explique qual é o modelo de estrutura de mercado mais adequado para fundamentar a hipótese da autora acerca da relação entre número de navios e concorrência “severa”.

Pensando em uma Resposta…

Um bom “chute” seria o ilustrado na figura abaixo, imaginando concorrência perfeita, por exemplo e uma tecnologia tal que as curvas de custos médios apresentam trechos com retornos crescentes e decrescentes de escala e apenas um ponto com retorno constante de escala.

customedio_cp_lp

Foi difícil construir este gráfico com as curvas de custo total médio de longo prazo e duas de curto prazo (em cores azul e laranja). Sei que não dá para ver direito que ambas as curvas de custo total médio de curto prazo se cortam, mas, acredite, elas o fazem (clique na figura para ampliar, acho que ajuda).

Os pontos indicados seriam os pontos de tangência das curvas de custo total médio de curto prazo com a curva de custo total médio de longo prazo. No caso da curva em cor laranja, repare que ponto de custo total médio mínimo é o mesmo no curto e no longo prazo. Em outras palavras, esta seria a escala ótima (ou, como diz o título, o número ótimo de navios).

Assim, o raciocínio da autora, sob o arcabouço deste modelo, diz-nos que o número de navios aumenta aproximando-se do custo total médio mínimo de longo prazo. Poderíamos, para ilustrar, supor que o aumento no número de navios levou o mercado da curva de custo total médio azul para a laranja.

Claro, você poderia supor simplesmente que o aumento no número de navios fez com que você saísse da curva de custo total médio azul para alguma outra entre ela e a curva de custo total médio laranja. A resposta estaria correta também.

Adendo (claro!)

Alguém poderia imaginar que não existe apenas uma escala de navios compatível com a minimização de custos de longo prazo. Digamos que a curva de custo total médio de longo prazo possui um formato de “U”, mas um “U” em que existem infinitas escalas compatíveis com o custo total médio mínimo. Seria um “U” mais ou menos assim: |_______|. O segmento intermediário nos dá uma infinidade de pontos compatíveis com a hipótese de retornos constantes de escala.

Uma ilustração deste caso poderia ser como a da figura abaixo, na qual se considera apenas o trecho intermediário (é como imaginamos alguns setores da economia, no qual existem firmas de diferentes tamanhos. Algumas evidências apontam para a existência de retornos constantes de escala, por exemplo, para o setor de produção de vestuário (apparel manufacturing)).

customedio_cp_lp_rconst

Neste exemplo hipotético, o custo total médio mínimo é igual a duas unidades monetárias (veja a linha pontilhada em vermelho) e são exemplificadas três escalas compatíveis com a igualdade, no curto e no longo prazo, da escala minimizadora de custos (são elas: 200, 500 e 1000, neste exemplo hipotético).

Obviamente…

Tem mais, eu sei. Poderíamos, agora que já começamos a explorar o tema, pensar em outras hipóteses, rever o meu ‘pontapé inicial’, etc. Tudo isto está correto, mas fica a cargo do leitor, ok? Até mais.

Mais Estado, mais escravos?

Vejamos Mattoso (1982) [Mattoso, Kátia de Queirós. Ser Escravo no Brasil, Brasiliense, 1982], em dois trechos sobre a África pré-tráfico internacional de escravos:

O escravo já existe nas sociedades muito hierarquizadas mas somente é numeroso no Benin e nas regiões sudano-saelianas. Mas o ‘cativo’ integra-se na família e não pode ser vendido. É uma escravidão quase patriarcal, que exclui o tráfico. No Daomé, os filhos de escravos nascem livres e fazem parte da família do senhor. [Mattoso (1982) : 25]

A despeito desta aparente visão ‘agradável’ de uma escravidão com “integração familiar”, o fato é que, sim, havia escravidão na África. Além disso, imagino que é uma questão de pesquisar um pouco para saber como funcionavam estes mercados antes da chegada dos europeus. Sabe-se que, segundo Klein & Luna (2010) [Klein, H.S. & Luna, F.V. Escravismo no Brasil, EDUSP/Imprensa Oficiail, 2010]:

Existiram escravos africanos também fora da região. Sem unidade religiosa ou política, os numerosos Estados africanos eram livres para comprar e vender cativos e até exportá-los para áreas não africanas. Rotas de caravanas pelo Saara precederam a abertura da costa atlântica da África, e cativos compuseram uma parte do comércio de exportação africano para o Mediterrâneo desde a época pré-romana até a moderna. Dado o uso disseminado de escravos em terras africanas, houve também um comércio interno de cativos muito antes da abertura das rotas do Atlântico. [Klein, H.S. & Luna, F.V. (2010), p.16].

Percebe-se que a compra e venda de escravos está longe de ter sido um ‘pecado original’ europeu, embora a maior demanda destes tenha incentivado o enforcement de uma estrutura de direitos de propriedade cruel sobre seres humanos (essencialmente, uma estrutura de direitos de propriedade bem pouco liberal).

Dito isto, vamos ao próximo trecho, na qual a autora fala dos incentivos que teriam acelerado a escravidão após o contato com os europeus:

O estado [ela se refere aos governos africanos] tem a seu cargo o recebimento dos tributos e a repartição das rendas. A atração do lucro vai, pois, orientar a maioria deles para a captura e a venda de escravos. Captura que requer exércitos poderosos equipados com armamento moderno. Então a guerra e a caçada ao homem tornam-se a indústria mais lucrativa, o que explica figurar a instabilidade política como o traço dominante dessas regiões a partir do século XVII. [Mattoso (1982) : 26]

Em outras palavras, esta descrição é compatível com a visão do Estado-Leviatã e, sim, neste caso, a escravidão incentiva a caçada de escravos pelos estados africanos para fins de maximização de receita governamental.

Concorrência de moedas hayekiana funciona?

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Acho que o melhor resumo do argumento teórico desfavorável ao otimismo hayekiano nunca foi tão bem resumido como por Hadba (1994). É, basicamente, o argumento de Milton Friedman.

Pode-se achar interessante o trabalho de Hayek sobre uma possível estrutura de mercado na qual há concorrência entre moedas (eu mesmo sempre destaquei a importância de se ler o pequeno livro dele).

Mas é fato que a lógica econômica não é tão favorável assim ao argumento hayekiano. Obviamente, qualquer crítica séria ao argumento acima precisa enfrentar a lógica simples pois: (a) não há como negar que a racionalidade econômica opere (Rmg = Cmg), (b) também não vejo a tecnologia mudando o fato de que o Cmg é praticamente zero na emissão de uma nota adicional. Logo, não há como escapar de (c). Caso haja, gostaria de ver o argumento.

Por falar nisto, como anda o tal bitcoin? Não vejo mais notícias sobre esta moeda como via antes o que, de certa forma, é supreendente para mim, já que estamos com uma inflação que, no mínimo, incentivaria seu maior uso (não vou dizer ceteris paribus a regulação do Banco Central porque sabemos que o pessoal sempre dá um jeito de burlar leis que vão contra as trocas voluntárias).

Lei de Gresham, na prática

Uma página legal para se ver evidências de que a lei funciona é esta. Gostaria muito de ver algo assim, para o Brasil. Será que temos dados públicos sobre o mercado de numismática que inclua, como informação, o valor de commodity da moeda? Tentei uma busca superficial e, bem, encontrei alguma coisa como esta.

Exemplifico como avaliar, por exemplo, um 5000 Réis da República do tipo “Santos Dumont” de 1935. Essa moeda tem 6 gramas de prata fino ( 12 gramas bruto de prata .500). A título deste exemplo tomamos o valor da prata ATUAL no mercado nacional de cerca de R$ 400/quilo. .06 x R$400 = R$2,40. Ou seja, cada moeda de 5000 Réis de 1935 vale cerca de R$2,40. E assim pode ser feito para qualquer moeda desta época contanto que se saiba o peso da moeda e o valor da prata.

No mínimo, é um passatempo interessante este o de calcular o valor da moeda metálica em seu uso alternativo e compará-lo com o valor de face.

p.s. Achei um estudo sobre a operação da lei para o Brasil, mas sem muitos dados (talvez a bibliografia indicada tenha algo).

O Calabouço monopolista também só operava no ramo elástico da demanda

Um exercício de microeconomia para os alunos de história econômica

Rio de Janeiro, século XIX. O Calabouço era uma prisão cruel. A ela recorriam senhores para punirem as mais diversas faltas de seus escravos. Como hoje, também naquela época não existia almoço grátis. O Calabouço cobrava para manter os escravos reclusos, bem como para aplicar-lhes os castigos. O capítulo IX de Soares [Soares (2007) ou: Soares, L.C. O “Povo de Cam” na Capital do Brasil: A Escravidão Urbana no Rio de Janeiro do Século XIX, 2007] descreve em detalhes a cena e nele eu me baseio para fazer este pequeno exercício.

Dado o contexto, vamos ao modelo

Considere o Estado, o monopolista da coerção. Desde 1860, até janeiro de 1870, o Calabouço, prisão mantida pelo Estado, cobrava uma taxa que era considerada barata: 1$000 réis para despesas de enfermaria e 260 réis para alimentação e vestuário dos escravos presos. Era uma taxa barata? O autor justifica essa afirmação com a observação seguinte.

Os senhores procediam desta maneira em função dos módicos preços cobrados, que permitiam a muitos deles deixarem seus escravos presos por longas temporadas corretivas. [Soares (2007), p.213]

Ocorre que desde 1850 (por que? Lembre-se das aulas de História), a população de escravos presos vinha em queda, tornando-se mais e mais escassa. Logo, sua rentabilidade relativa passava a ser maior nas fazendas de cana, o que incentiva sua venda para estas. Logo, o contingente de escravos no Calabouço começa a diminuir, ceteris paribus. A queda de demanda pelos serviços da prisão não foi desprezível.

Por volta de 1870, só existia no Calabouço apenas um terço do número de escravos reclusos em meados dos anos 1850. [Soares (2007), p.214]

Diante desta nova curva de demanda (mais à esquerda do que a anterior), o que a administração do Calabouço faz? Aumenta o valor da diária. Os valores anteriores (1$000 e 260 réis) foram reajustados para 1$200 e 400 réis, fazendo com que os senhores diminuíssem o tempo de reclusão de seus escravos.

Como sabemos, o monopolista atua no ramo elástico de sua curva de demanda e, como também sabemos, um aumento de preço neste ramo gera uma queda mais do que proporcional na quantidade demandada. Em outras palavras, sua receita cai. Supondo que a estrutura de custos de manutenção do Calabouço seja a mesma, para simplificar (podemos simplificar mais ainda e supor custos médios iguais aos marginais, constantes, apenas para fins didáticos), o aumento de preços gera uma queda de lucro que pode, inclusive, ser um prejuízo. O que nos diz a história sobre este aumento de preço?

Entretanto, este aumento parece não ter sido suficiente para fazer frente aos gastos com a manutenção do Calabouço e, em maio de 1874, esta prisão foi desativada e os escravos que lá estavam foram removidos para a Casa de Detenção (…). [Soares (2007), p.214]

A evidência anedótica mostra indícios que corroboram o exemplo, não acha? Este é um exemplo de como poderíamos propor uma questão de microeconomia contextualizada (exige, inclusive, que o aluno aprenda a trabalhar com hipóteses, por exemplo, alterando a hipótese de custos marginais constantes que usei).

Uma pergunta que se pode fazer é: por que o monopolista racional aumentaria o preço no ramo elástico de sua curva de demanda?

Uma resposta especulativa (creio que seja uma hipótese plausível, neste caso) é que como a demanda se deslocava para a esquerda (lembre-se que o aumento se dá quando a queda relativa a 1850 havia sido de 2/3), a administração do Calabouço imaginou que o aumento do preço poderia gerar uma queda menor na receita, ceteris paribus, em relação ao que ocorreria com a demanda original. Provavelmente a esperança – que não se realizou – fosse a de que alguma mudança pudesse inverter os deslocamentos de demanda, abrindo espaço para uma posterior reversão na política de preços.

Outra hipótese é a de que, já prevendo os rumos declinantes do negócio, a administração tenha tentado extrair mais receita dos senhores (e, portanto, escravos) remanescentes antes de encerrar as atividades.

Graficamente…

Um caso possível para este exemplo é ilustrado na figura abaixo. Observe que o custo marginal (Cmg) está fixo em 3 u.m. (unidades monetárias) e o deslocamento da curva de demanda e da curva de receita marginal para a esquerda foi tal que o prejuízo foi inevitável.

calabouco1

Parece fazer sentido para você?

Estagiário no Brasil, circa século XIX

Eis o relato de rapaz que começou a trabalhar – vou chamá-lo de estagiário só para fins humorísticos – no comércio carioca no Rio de Janeiro, capital do império.

“(…) o patrão lhe pediu para levar, a uma firma vizinha, um pacote um pouco maior do que uma carta. O rapaz, depois de meditar por algum tempo, ‘saiu porta afora e (…) chamou um negro, que atrás dele levou o pacote ao destinatário” [Soares, L.C. O “Povo de Cam” na Capital do Brasil: A Escravidão Urbana no Rio de Janeiro do Século XIX, 2007 p.68]

Não é a cara do estagiário malandro? ^_^