Uncategorized

Capital Humano: patrimônio único seu, de transmissão intergeracional não trivial…

Acerca do último post aqui, reforço meu ponto: aprendemos, sim, como fazer política econômica. Eu sei que existem restrições e tal, mas mesmo isto já aprendemos a tratar. Por que, então, como lamentou o Samuel, fizemos tudo errado nos últimos anos?

Creio que há dois fatores: má-fé e a ignorância. Poderíamos até enquadrar ambas no conceito de irracionalidade racional introduzido pelo prof. Bryan Caplan há alguns anos (clique na figura abaixo para entender um pouco mais sobre isso).

samueldesiludido

Assim, duas coisas: (a) não é porque Mansueto, Samuel, Lisboa ou Alexandre entendem bem de políticas econômicas boas para o país (mesmo sob restrições terríveis que limitam o alcance das políticas…) que toda nossa geração (de economistas e não-economistas) acha racional acreditar nestas teorias.

Em alguns casos, sai barato dizer por aí que você acredita em duendes. Por exemplo, uma criança se importa pouco se sua apresentadora de TV favorita diz isto, talvez até goste. Mas um cliente de um banco não vai se sentir muito confortável se seu gerente disser o mesmo… e; (b) mesmo que acreditemos ser possível aumentar o custo da irracionalidade, ainda assim, existe o fator dinâmico, intergeracional. Em outras palavras, todo este problema em (a) pode piorar ou melhorar (ou não mudar) quando novos economistas substituem os anteriores no mercado e na burocracia governamental.

Acho que a poesia de Cecília Meireles que se segue expressa melhor do que eu o significado do aprendizado e o quão difícil é transmitir a tecnologia da boa política econômica. Leia-a pensando na dificuldade que é, na prática, traduzir o bom ensino e o bom aprendizado. Com vocês…Cecília Meireles.

Com as minhas lições bem aprendidas (Cecília Meireles)

Com as minhas lições bem aprendidas,
com meus exercícios bem feitos,
estudante empírico,
autodidata aplicado,
tenho todos os sofrimentos aceitos
pela minha e por outras vidas.

Com o peso da minha humildade,
montanha enorme nos meus ombros,
estudante empírico,
autodidata aplicado,
vou com meus olhos de vastos assombros
pelas ruas novas da nova Cidade.

Meu nome não sabes, nem é necessário,
e de família e nascimento,
estudante empírico,
autodidata aplicado,
ficaram os dados perdidos no vento,
aéreas letras de registro vário.

Minha aprendizagem é uma calma conquista,
para as provas de qualquer instante:
estudante empírico,
autodidata aplicado,
em alma e corpo sou memória de diamante,
vida sem pálpebra, disciplinada vista.

Mas decerto o que aprendo é meu somente,
meu patrimônio incomunicável,sem herdeiro;
estudante empírico,
autodidata aplicado,
professor meu sou e único aluno verdadeiro,
e, a minha, é a escola comum da humana gente.

Apenas meu esforço ultrapassa noite e dia,
torna-me em aula constante o tempo do mundo,
estudante empírico,
autodidata aplicado,
desvalido, em mim mesmo, e para além, me aprofundo,
para o curso já sem palavras da sabedoria.

[Meireles, Cecília. Poesia Completa (organizado por Antonio C. Secchin), Nova Fronteira, 2001, Vol.II, p.1444-1445]

Anúncios
Uncategorized

Sobre o Roda Viva de ontem

Um rápido comentário. Lembro de ter ouvido o Samuel falar que “achava que tínhamos aprendido a fazer política econômica”. Pois bem, este é um ponto que cito de quando em vez aqui no blog. Mas eu também já disse que, embora os economistas tenham a tecnologia para fazer boas políticas econômicas, é fato que a transferência intergeracional de tecnologia de política econômica não é igual à transferências similares de tecnologias físicas.

Exemplifico: não é porque passaram-se gerações de ministros pela área da energia que os mais novos desaprenderam a usar tecnologias poupadoras de energia. Entretanto, na área econômica, basta um ministro novo assumir que o temor de que o mesmo destrua a economia do país não pode ser desprezado.

Ou seja, sim, sabemos como resolver o problema mas, não, não há garantias de que vamos usar esta tecnologia. Por que? Porque o custo político de se usar uma tecnologia anti-inflacionária não é igual ao seu custo econômico. Novamente: se eu digo que vou aumentar os juros para combater a inflação, a minha base de eleitores pode ser violentamente contra, mesmo que a população como um todo não o seja.

Não é de hoje – mesmo – que, neste blog, fala-se de incentivos políticos interferindo na economia. Então, o que estou tentando dizer é que o melhor seria criar instituições sólidas para que boas políticas econômicas prevaleçam.

Eu entendo a tristeza do Samuel – sinto o mesmo – mas também entendo que nossos economistas sérios demoraram muito a dar a devida importância ao problema dos incentivos políticos. Não é que não perceberam a sua importância, mas sim que não tivemos uma discussão frutífera – no sentido de gerar resultados – sobre como resolver o alinhamento de incentivos (veja o Nobel do Al Roth, dentre outros…).

O futuro, meus caros, é sombrio.