A Miséria da Crítica Heterodoxa em duas partes (clássicos da História do Pensamento Econômico Brasileiro)

A Miséria da Crítica Heterodoxa, em duas partes: aqui e aqui. Não, não, não é igual à panfletagem usual de quem não lê, mas replica chavões. São textos de leitura árdua. Fazia um tempo que queria reencontrá-los. O autor é o ex-economista da era Lula, o Marcos Lisboa.

Belo Horizonte continua muito pouco eficiente: o caso da lei do preço único

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Carlos Góes, que também é do ótimo Mercado Popular, tem um trabalho interessante (é um working paper do FMI). A idéia é bem simples (o que não quer dizer que o trabalho seja fácil): testar a famosa lei do preço único para as regiões metropolitanas brasileiras.

Na figura acima, um de seus achados. Ele mesmo, e seu co-autor, explicam:

Figure 3 shows how the persistence of price level deviations varies across cities. Tradable price divergences range from a maximum of 17 months in Belo Horizonte to a minimum of 10.8 months in Curitiba. By contrast, non-tradable price divergences vary from 23.8 months in Salvador to 15.5 months in Belem. The standard deviation of half lives averages between cities is and months for tradables and non-tradables, respectively. There seems to be no overarching pattern in the distribution of half lives, suggesting a potential avenue for further research.

Como você pode imaginar, leitor, quanto mais lenta a convergência, maiores as suspeitas de que os mercados não funcionam de forma eficiente. Belo Horizonte – meu local de nascimento – aparece em primeiro lugar. Por conta de todas as anedotas que me passam pela cabeça (sem falar no path dependence detectado no importante artigo do Rodrigo Soares, Juliano Assunção e Joana Naritomi), eu não consigo imaginar como isso não estaria uma evidência da pouca eficácia do funcionamento dos mercados na capital da terra do pão de queijo. ^_^

Juiz Dredd nos deixa novamente: obrigado, Nova Matriz Econômica.

Triste, não? A Mythos Editora anunciou, com o 24o número de “Juiz Dredd”, o fim da edição da revista no Brasil. O motivo? A crise econômica.

Eis um trecho do editorial: “Infelizmente, a crise também nos alcançou. Nossas vendas chegaram a um ponto em que não será mais possível manter a viabilidade da revista”.

Pois é. Um clássico dos quadrinhos, lamentavelmente, interrompido pela segunda vez. A primeira foi na década dos 70, quando eu ainda era menino. Na época, a revista era traduzida diretamente do título original britânico, 2000 AD (não peguei a época intermediária, em que algumas histórias foram publicadas por outras editoras).

Você talvez se lembre do vídeo que fiz sobre a inflação nas revistas quadrinhos. Bem, reproduzo-o após a imagem abaixo das duas últimas capas que pude comprar com o Juiz Dredd no Brasil. Só nos resta assistir – várias e várias vezes – os dois filmes do Dredd para o cinema (o clássico com Stallone e o mais recente, ambos facilmente encontráveis em lojas).

dreddvencido

Momento R do Dia: Keynes vs Friedman e outras batalhas entre acadêmicos no mundo das citações

Hoje a idéia é usar o pacote scholar para reproduzir um divertido exemplo lá da Física. Antes de mais nada, achei curioso o Google Scholar ter Karl Marx, mas não ter Adam Smith (tem muitos outros “Adam Smith”, mas não o original).

Ok, já é curioso que Karl esteja lá, mas como Isaac Newton também está, eu esperaria algo similar. Reproduzindo o exemplo, temos os seguintes comandos.

library(scholar)
# Comparando Friedman e Keynes
ids <- c("KvUWA_kAAAAJ", "viLe5BEAAAAJ")
df2<-compare_scholar_careers(ids)
library(ggplot2)
ggplot(df2, aes(x=career_year, y=cites)) + geom_line(aes(linetype=name)) + theme_bw() 

As identidades foram obtidas previamente, por busca simples. Em seguida, um gráfico para ilustrar o desempenho de nossos colegas.

miltao_e_joazinho

A comparação é dada pelo comando compare_scholar_careers. Basicamente, este comando nos dá a possibilidade de comparar diferentes acadêmicos porque o cálculo é feito relativamente ao primeiro ano de citações de suas publicações.

Alguns outros economistas, com escala logaritmica para comparabilidade mais simples.

logaritmos_emiltao

É, eu gosto muito do pessoal da George Mason University, como vocês podem ver. Para o Brasil? Vejamos alguns, aleatoriamente escolhidos.

brazucas

Eu, obviamente, estou bem abaixo desta patota toda. ^_^

Gostou do exercício? Ah sim, o comando para introduzir cores é simples.

ggplot(df2, aes(x=career_year, y=cites, colour=name)) + geom_line(aes(linetype=name)) + theme_bw() 

Eis aí um momento R do dia simples, mas interessante.

p.s. Nota importante: pesquisando por professores do Insper, descobri que alguns deles têm mais de um perfil no Google Scholar (provavelmente porque se esqueceram e se cadastraram mais de uma vez). Assim, para pesquisas, é bom fazer uma limpeza nos dados previamente.

Sugestão de roteiro para um curta feito e estrelado por estudantes

Um sírio refugiado chega ao Brasil e tenta ganhar sua vida. Descobre que seu diploma de médico tem que ser validado e que leva um tempo danado. Aí parte para a estratégia de abrir um negócio próprio. Claro, vai para o ramo de alimentação. Abre um boteco e descobre que tem impostos, taxas de licenciamento e pixuleco para o fiscal.

Ele insiste!

Contrata três funcionários e começa o negócio. Em uma semana, um deles falta diversas vezes. O refugiado sírio o demite e tem que responder na Justiça Trabalhista porque o funcionário abre um processo.

Ele ainda insiste!

Passa o primeiro mês e ele vê que a tal “Nova Matriz Econômica” gera inflação com recessão o que é, claro, péssimo para seus negócios. Ele lê em um grande jornal paulista a coluna escrita por um comediante que se aventura como intelectual que diz que a culpa é dos empresários.

Ele desiste! Pega a mulher, os filhos e volta para a Síria. Prefere morrer lá do que viver aqui.

Notas: (a) aqueles que quiserem dar cabo do projeto do curta devem pesquisar os dados e usá-los no vídeo, indicando a fonte; (b) lembrar sempre de dizer que qualquer semelhança é mera coincidência; (c) fazer um vídeo legal, bem-humorado é importante; (d) tendo como usar um bom figurino e alguma técnica básica de filmagem, melhor e, (e) que o vídeo não tenha mais do que 5 ou 6 minutos, indo, no limite, a 10 minutos.

Eu daria ponto extra para aluno meu que fizesse algo decente. Sério. Seria divertido ver um vídeo destes no YouTube.

Negócios com Pedro Alves (geram externalidades negativas)

Negócios com Pedro Alves
Eu não quero mais;
A couve da minha horta
O gado dele comeu;
E, pagando arrendamento,
Que lucro é que tiro eu?
Fui justar contas com ele,
E nenhuma conta fiz;
Negócio com Pedro Alves
Eu não quero mais…

[“Negócios com Pedro Alves” (Rio de Janeiro). In: Romero, Sílvio. Cantos Populares do Brasil, p.219-220]

A externalidade cantada em prosa e verso pela sabedoria popular carioca, estupendamente salva por outro que nos resgatou o folclore brasileiro, Sílvio Romero. O cantor, que aluga a terra para plantar, tem sua horta destruída pelo gado do vizinho. Vale dizer, com direitos de propriedade não cumpridos, efetivamente, não tem jeito.

Mais um exemplo de que a economia está presente nos recantos mais inesperados da literatura…

p.s. Serve para explicar a estudantes de ensino médio o que é uma externalidade, não serve?

Por que a multa do sushi que sobra? Uma velha questão que me assombra…

Leitores mais antigos (ainda da época do blog Economia Everywhere) devem se lembrar do e-book que fizemos sobre a temática: “por que a multa do sushi (que sobra no prato)?”.

Pois é. Agora vejam isto (em japonês, aqui). O vídeo, sem legenda, segue abaixo.

Uma outra notícia (aparentemente os blogueiros se aproveitaram um bocado do texto) sobre o restaurante, aqui. A explicação “oficial” do restaurante pela multa é:

According to the explanation in the menu, the working conditions for fishermen are harsh and so dangerous that it’s not unknown for lives to be lost. To show our gratitude and appreciation for the food they provide, it is forbidden to leave even one grain of rice in your bowl. Customers who do not finish their tsukko meshi must give a donation.

Os comentários sob a notícia são tão sofríveis e ignorantes que não merecem…ser comentados. Tentei achar algum que fosse mais investigativo em termos do puzzle da multa do sushi que eu os meus amigos buscamos desvendar no e-book citado, mas não consegui encontrar nenhum. Obviamente, não compro muito a idéia das “perigosas condições de vida (ou morte) dos pescadores”, embora seja uma boa idéia investigar o tema.

Continuo achando a idéia um bom marketing, contudo. Vende-se um custo de oportunidade (“pescadores quase morreram para te trazer este peixe”) como um valor adicionado ao prato. Mesmo assim, o tema continua me perseguindo ao longo dos anos.

Pois bem, há uma pista interessante nesta outra notícia sobre outro restaurante em Manhattan. Leia o trecho abaixo, mas note, já de antemão, que são situações distintas:

According to Hayashi Ya’s manager Ben Lin, the motivation behind adding a surcharge was twofold. First, it’s an incentive for customers to only take what they can eat, thereby cutting down on waste. Second, it prevents the eatery from obtaining a surplus of ingredients, which hurts the restaurant’s profitability.

A primeira parte, sobre fazer o sujeito se educar, acho bobagem. Já a segunda, sobre a lucratividade, parece interessante. Na verdade, parece que os dois motivos se resumem a um só: a lucratividade do restaurante. No caso deste último, o restaurante tinha um preço fixo, independente do peso sobre o qual se adicionou a multa. Aparentemente, é mais fácil ver que o restaurante perdia mesmo na lucratividade caso houvesse desperdício de ingredientes.

Uma solução seria adotar a estratégia de preço por quilo, mas sua não-adoção é uma evidência de o custo de se adotar esta estratégia não compensavam (ou porque os concorrentes faziam isto e/ou porque o custo de colocar balanças e funcionários pesando não justificariam…pense por exemplo no custo de alocar tempo de gente para pesar, filas, etc). Ah sim, mais sobre restaurantes do “tudo o que você puder comer” e regras que, no fundo, tentam manter a lucratividade aqui e aqui.

No caso do restaurante japonês, por outro lado, ainda não está claro para mim o porquê da multa. Afinal, o prato é individual, não é “pague X e coma o quanto quiser”. Minha aposta é que uma boa explicação para estes casos surge da aplicação da teoria dos custos de transação.

Nosso ebook é de 2007 e quase todas as notícias que encontrei e referenciei aí em cima são de 2008 em diante o que me leva a crer que a questão continua merecendo mais atenção de economistas. Gostaria de ouvir novos palpites. Ah sim, relendo o ebook, tive boas recordações (e vejo que o Leo Monasterio usa a mesma explicação para o fenômeno de food trucks, mas não achei a referência…pode ter sido em uma troca de mensagens).

Palpites?

Confiança e Crescimento do Governo: um modelo teórico interessante

Artigo simples e interessante. Apenas teórico, mas com derivações interessantes. Eis uma delas:

“(…) bad government induces rent seeking that erodes trust and social capital, with the latter reducing the productivity of private enterprise relative to rent seeking, prompting further rounds of rent seeking and mistrust. Thus, we may observe the paradox of growth in both the size and mistrust of government”. [Garen & Clark (2015), Cato Journal, Winter/2015, aqui]

Ou seja, aumento no tamanho do governo não gera só um problema fiscal, como sabemos, mas também gera erosão do capital social (no sentido de Putnam), afetando uma das bases informais da prosperidade econômica.

Outro resultado interessante é similar ao idea trap do Caplan. Ou seja, uma vez atingido um nível ruim de confiança…

We show how interactions of trust with rent seeking and government growth may lead to a low trust/high rent-seeking/big government equilibrium that is not readily reversed. This occurs when we have multiple equilibria, leading to discrete jumps in the equilibrium and a trust trap at a bad equilibrium. [idem]

Creio que não é muito difícil pensar na aplicação empírica do modelo para o caso brasileiro, não é mesmo? Quem se aventura?

rentseeking_teorico

Direitos de propriedade, conflito e trocas

Na época da minha tese tomei contato com um economista cujo trabalho é pouco conhecido por aqui: John Umbeck. Recentemente, encontrei esta entrevista com ele que é muito bacana. Você que me acompanha há mais tempo sabe que este papo de freakonomics não era novidade para mim. Bem, Umbeck é um destes economistas que deveriam ser mais lidos. Curiosamente, parece não ter muitos artigos publicados (mas um outro artigo legal dele é este).

Bastiat era lido e usado em debates no Brasil há 134 anos, mas você não sabia disto, não é?

Pois é. Houve um jornal chamado (pasmem!): Jornal dos Economistas, surgido em 1882 no Brasil. Você pode ler vários de seus artigos na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional (sim, online). Existe um artigo algo crítico sobre o jornal aqui (aliás, curiosamente, o artigo não discute muito a posição anti-escravocrata dos economistas, compatível com a origem moderna da Ciência Econômica).

O que eu acho mais interessante nisto é que, mais uma vez, nossos jovens que se auto-proclamam liberais, libertários, etc, continuam investindo muito tempo em panfletagem e quase nenhum tempo em pesquisas sobre o liberalismo brasileiro.

Não adianta querer mudar um país citando Milton Friedman ou Benjamin Franklin ou dizendo que tal política funcionou em Wisconsin. O brasileiro quer saber sobre soluções liberais (não apenas a retórica papuda) para os problemas…do Brasil. Eu diria: “não venha me falar de Bastiat. Ele já era citado desde o século XIX na capital intelectual do império. Fale-me de propostas concretas e de análises empíricas”.

Voltando ao periódico, acho engraçado e interessante que o nome tenha sido Jornal dos Economistas. Também acho que vale a pena ler as primeiras quatro páginas de seu primeiro número (1, 2, 3, 4). Afinal, lá está o manifesto do jornal, com seu viés liberal na linha das idéias de Bastiat.

Ah sim, como estou numa fase de leituras sobre escravidão, eis um belo trecho da segunda edição do Jornal dos Economistas sobre o tema, mostrando o que os economistas liberais pensavam (e continuam pensando) sobre a escravidão mesma.

p.s. Acho que vou anotar a data da primeira edição do Jornal dos Economistas como um marco comemorativo em minha agenda. Anote você também: 05/02/1882. Ano que vem fazem 1935 anos (estou contando 2015 na contagem… para que 2016 nos dê, ao final, 135 anos)! Boa data para comemorar. ^_^

jornaldoseconomistas_n2

Capital Humano importa? Escravos no Brasil

A se conferir a veracidade do verbete…mas a resposta seria: sim.

O capital humano de um escravo dobrava seu valor. Ainda bem que não temos mais escravos, mas eu me pergunto sobre o diferencial do retorno à educação hoje em dia. Continua sendo aproximadamente o dobro? Minha intuição diz que não, mas não sou especialista no tema.

Quem tiver alguma referência, nos comentários, por favor.

O governo deveria intervir na mídia em geral?

A pergunta, para aqueles que acreditam que indivíduos não queimam dinheiro e são, portanto, racionais, é relevante. Neste sentido, este texto para discussão é bem interessante.

Um breve trecho da conclusão:

We show that, under general circumstances, political rent extraction by the media has deleterious effects on social welfare, and discuss extraordinary circumstances under which this conclusion does not hold.

Ou seja, parece que não é uma boa idéia, para o bem-estar social, que políticos se aventurem nesta intervenção. A economia política dos meios de comunicação é uma área que talvez seja promissora, desde que não se baseie apenas na retórica rocambolesca.

Modelos educacionais: mudanças na Austrália

Decisão interessante para que gerações futuras tenham condições de vida razoáveis, senão ótimas. Claro, alguns grupos perdem com isto, mas a tendência de mudança não é uma surpresa.

Tabus e preconceitos devem ser quebrados e a questão é válida: dinheiro de pagadores de impostos devem ter um fim na melhoria das condições de vida das pessoas. A polêmica certamente ocorrerá, como em toda mudança institucional.

A lei dos rendimentos decrescentes…das instituições

Institutions and Growth: A GMM/IV Panel VAR Approach

Carlos Góes
IMF Working Paper No. 15/174

Abstract:
Both sides of the institutions and growth debate have resorted largely to microeconometric techniques in testing hypotheses. In this paper, I build a panel structural vector autoregression (SVAR) model for a short panel of 119 countries over 10 years and find support for the institutions hypothesis. Controlling for individual fixed effects, I find that exogenous shocks to a proxy for institutional quality have a positive and statistically significant effect on GDP per capita. On average, a 1 percent shock in institutional quality leads to a peak 1.7 percent increase in GDP per capita after six years. Results are robust to using a different proxy for institutional quality. There are different dynamics for advanced economies and developing countries. This suggests diminishing returns to institutional quality improvements.

Então, instituições não surtem efeito de ontem para hoje e, além disso, não são desprezíveis.

instituicoes

Há algo mais belo que…? (Momento Humor)

oclamordosexo

Tá, visitei a hemeroteca da Biblioteca Nacional. Mas foi tão divertido encontrar um periódico com este nome que eu não resisti. Sem falar do início do texto, divertidíssimo. Veja como é a língua portuguesa: onde, em pleno século XXI, você imaginaria um periódico religioso com este singelo nome?

Ok, pausa humorística. Depois eu volto à programação normal.

Os índices de taxas de câmbio reais: como estamos? (seria um Momento R do Dia, mas…)

Dados do BIS, atualizados em 16 de Setembro nos mostram que, não, não basta o câmbio nominal ir a R$ 3.6. Veja a figura abaixo para o time do “Z-3 + EUA”. O que me impressiona é o dado venezuelano que, suspeito, deve estar inflado porque a taxa de câmbio oficial lá não tem a mesma credibilidade que a nossa ou a dos EUA.

Detalhe: são índices de taxas de câmbio reais efetivas, ok?

cambio_Efetivo_2015_setembro

Então, meninada, a questão não é apenas de “dólar a R$ 3.6”, certo? Precisava fazer um desenho, mas eu já fiz. Olha aí. Quer mais? Bem, vai lá pegar os dados e brincar. Para você não ficar chateado, outra figura, com o Brasil (do “Z-3” e mais uns países que geralmente as pessoas gostam de acompanhar).

cambioefetivo_2015

p.s. Na pressa errei o nome do eixo do último gráfico, mas você entendeu, né? Desculpa aí.

Qual é o cenário para o sistema bancário da Venezuela? Uma análise de “big data”

Primeiramente, um resumo do texto:

The increasing frequency and scope of financial crises have made global financial stability one of the major concerns of economic policy and decision makers. This has led to the understanding that financial and banking supervision has to be thought of as a systemic task, focusing on the interdependent relations among the institutions. Using network theory, we develop a dynamic model that uses a bipartite network of banks and their assets to analyze the system’s sensitivity to external shocks in individual asset classes and to evaluate the presence of features underlying the system that could lead to contagion. As a case study, we apply the model to stress test the Venezuelan banking system from 1998 to 2013. The introduced model was able to capture monthly changes in the structure of the system and the sensitivity of bank portfolios to different external shock scenarios and to identify systemic vulnerabilities and their time evolution. The model provides new tools for policy makers and supervision agencies to use for macroprudential dynamical stress testing. [Kenett, Dror Y. and Levy Carciente, Sary and Avakian, Adam and Stanley, H. Eugene and Havlin, Shlomo, Dynamical Macroprudential Stress Testing Using Network Theory (June 18, 2015). Office of Financial Research Working Paper No. 15-12. Available at SSRN: http://ssrn.com/abstract=2648467 orhttp://dx.doi.org/10.2139/ssrn.2648467]

 

No apêndice A.4, após uma descrição resumida da obra bolivariana na economia da Venezuela, vem o cenário.

Briefly, that scenario will negatively evolve as follows: For each U.S. dollar of oil price reduction, exports diminish nearly U.S.$1 billion (external vulnerability). This generates an important reduction in the country’s income and heavy pressure on the fiscal budget, which is highly rigid (fiscal vulnerability). The high inflation limits freedom to apply a contracyclical monetary policy if fiscal policy has to control public expenses. Inflation and the degradation of the domestic currency value deviates liquidity to consumption of durable goods (price volatility), deepening external imbalances because internal production is suppressed. When a country is under high inflation and the currency is devaluating continuously, a rational decision is to get rid of the money (liquidity) and buy things (durable goods, not perishable, of course); and If domestic production is stagnant, imports will increase (deepening external imbalances) The deterioration increases the risk premium (country risk) for new debt with major losses for bondholders. Banks balance sheets deteriorate with the reduction of security assets values, lack of deposits, and delinquency credits. [fonte: a mesma de antes]

Nada animador, não? Será que a análise dos autores faz sentido? Leia o artigo para pensar sobre o tema.

“Lucro presumido”: versão imperial nas Minas Gerais do ouro e o Estado-Leviatã

Em alguns períodos, a parcela da produção aurífera cobrada pela Coroa, o quinto, foi calculada indiretamente com base no número de escravos do proprietário, número esse que representava a ‘produção potencial’ de cada mineiro. Era, taxada portanto, a ‘capacidade potencial’ e não a produção efetiva, que dependia de fatores diversos, entre eles a pura sorte. [Luna, F.V. & Klein, H.S. Escravismo no Brasil, Imprensa Oficial/EDUSP, 2010, p.142]

Bons tempos, heim? Parece aquela história que o Ekelund & Tollison contam no seu livro de 1997, o ótimo Politicized Economies: Monarchy, Monopoly, and Mercantilism acerca das políticas de Colbert na França de minimizar perdas de receita tributária. Naquele caso, Colbert optou por outra política: vendas de licenças monopólicas, deixando em segundo plano tentativas de minimizar a corrupção dos arrecadadores de impostos.

Já no Brasil, como se vê, a solução foi distinta. Como era difícil fiscalizar – embora a mineração tenha sido uma atividade bastante policiada pelo Império – colocou-se o “ônus” do dono dos escravos mineradores no seu nível mais alto, enfim, no produto potencial. Como assim? Precisamos de um pouco de história, certo?

Para uma boa leitura, veja esta tese, que detalha as formas distintas utilizadas para se maximizar a receita real com a mineração. Repare que ao usar o número total de escravos do proprietário, o que o governo fazia era usar uma proxy de riqueza. A tese de Costa (2013) que acabei de citar faz menção à discussão jurídica em torno da inclusão, na contagem, de escravos que faziam apenas serviços domésticos. Em outras palavras, a idéia de se usar o total de escravos mostra que o custo de fiscalizar o ouro era elevado e uma alternativa seria mirar na riqueza dos mineradores.

História econômica é algo interessante, não? Ah sim, uma outra pergunta interessante diz respeito às mudanças institucionais (por que mudar o critério de tributação do Quinto do Ouro). A aposta mais simples é que o cálculo de custo-benefício da metrópole deve ter sido alterado por mudanças econômicas, mas aí o assunto se tornaria muito extenso para um texto como este.