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O mundo maravilhoso da Econometria e as grades curriculares que não ajudam…

Não é por nada não, mas depois que comecei com o R, minha vida teve uma segunda reviravolta econométrica (a primeira foi na graduação). Curioso que, desta vez, tudo começou com a vontade de aprender a fazer estimações com mais controle sobre o que fazia (e, claro, com algumas ferramentas mais novas ou melhor apresentadas, visualmente falando).

Hoje experimentei um pouco mais de robustez para uns modelos e gostei do que vi. Por outro lado, fico pensando em quanto os alunos perdem quando seu curso não tem mais do que um curso de Econometria obrigatório. A formação de um aluno de graduação não precisa ser tão pobre a ponto de deixá-lo à deriva no mercado de trabalho.

Sei que há várias sugestões diferentes de grades curriculares. Eu participei da formatação de algumas ao longo da minha vida e posso dizer que, no mínimo, um bom curso deveria ter três cursos de Econometria (com pelo menos dois prévios de Estatística).

No mundo de hoje, eu incluiria um curso básico de programação (linguagem de programação), mas não com o foco na beleza abstrata da linguagem. Que seja um curso de Python, R ou Matlab (ou um pouco de cada). Não tive este privilégio na graduação e sei o preço que pago até hoje.

Pode-se discutir como seria esta grade, mas acho que não dá para negar o fato: há pouca econometria na graduação brasileira nos dias de hoje e isso não é uma questão ideológica. Trata-se do básico para começar a trabalhar com dados.

Bom, eu pretendia fazer um Momento R do Dia, mas os devaneios me levaram para outras terras…

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Por que você deve dizer não à emporiofobia? Porque sociedades pró-mercado também são as mais tolerantes.

Porque você quer mais tolerância na sociedade (ah, sim, emporiofobia foi definida aqui). Mas, voltando ao tema, Berggren & Therese (2012) [a versão final foi publicada, creio, em 2015], têm uma veja a ótima explicação acerca da relação causal entre instituições pró-economia de mercado e tolerância:

“(…) the basic idea is that economic freedom entails both market institutions of a certain kind – in particular an equal and predictable legal system that, among other things, de facto protects private property – and market processes that affect the way people think and feel about others. Market institutions offer a framework under which it becomes less risky with good faith in unknown members of various groups different from one’s own. Market processes imply interaction and exchange with people different from oneself, which, under equal and predictable institutions, can lead to a realization that differences need not pose a threat and to increased understanding; they also make intolerance come at a cost, in that rejection of groups of people for other reasons than low productivity lowers profits for firms and the well-being of consumers. These are, we propose, the main mechanisms that speak in favor of a positive relationship. However, there is also the possibility of a negative relationship, if markets bring about greed and a perception that certain groups benefit in an unfair way from market exchange (see Hirschman 1982)”. [Bergreen & Therese (2012), p.5]

Repare no final do trecho acima. Vamos repetir:

However, there is also the possibility of a negative relationship, if markets bring about greed and a perception that certain groups benefit in an unfair way from market exchange (see Hirschman 1982).

Não sei se você notou, mas este último trecho é uma descrição compatível com a de uma sociedade rent-seeking que eu e o Leo descrevemos, há anos, em um artigo publicado na Dados. Hoje em dia, a moda é falar de capitalismo de laços ou capitalismo de compadres. Essencialmente, é a mesma coisa.

Posso imaginar que a percepção de que sou explorado (exploited) por um grupo da sociedade aumenta quando vejo que o governo adota políticas que tributam a todos mas concentram benefícios. Pode ser um capitalismo de laços sim. Pode ser que empresários ganhem câmbio desvalorizado por apoiarem o partido do governo. Pode também ser que o cara da associação de bairro ganhe bolsa-XXX apenas por garantir votos para o neo-coronel populista (eu sei, também pode ser a simples maldade de uma pessoa querer ver a outra morrer de fome, embora eu ache que isto ocorra em menos frequência, mas concedo o argumento).

Os autores partem para o teste empírico e, aparentemente, juntam-se a mais um conjunto de evidências que mostram que o medo dos mercados (a emporiofobia) anda junto com a intolerância.

Não sei quanto a você, leitor, mas achei a explicação dos autores muito didática e convincente. O mecanismo pelo qual se supõe que as instituições que suportam os mercados mais livres também gerem mais tolerância está bem claro. Não achou? Bom, dá uma lida novamente. Vale a pena.

Epílogo

Uma vez fui fortemente criticado em uma discussão por uma pessoa que não aceitava que minha defesa da tolerância com minorias fosse baseada na minha crença nas instituições pró-mercado (reforçada por evidências empíricas, mas a pessoa em questão não é lá muito conhecedora da inferência estatística, então, não era um argumento que ela considerava). Talvez ela leia este texto (acho pouco provável) e perceba, espero eu, que a questão é muito mais interessante e rica do que preconceitos ideológicos: não se trata de fé cega em livre mercado.

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Variáveis de controle: como manuseá-las? (Breve)

Aí o aluno pergunta: professor, devo usar vários controles diferentes? A resposta? Seguimos com Leamer (1985), aliás: Leamer EE (1985) Sensitivity analyses would help. American Economic Review 75: 308–313. Eis um trecho:

One thing that is clear is that the dimension of the parameter space should be very large by traditional standards. Large numbers of variables should be included, as should different functional forms, different distributions, different serial correlation assumptions, different measurement error processes, etcetera, etcetera. [Leamer (1985), p.311]

Claro, há um aviso útil:

An epidemic of overparameterization debilitates our data analyses. We need strong medicine to combat this disease. I know a global sensitivity analysis is a bitter pill to swallow. But try it, I think it’s going to make us all feel much better. Maybe not entirely well, but better anyway. [Leamer (1985), p.312]

Ou seja, sim, você deveria testar a validade interna do modelo (lembre-se do que aprendeu em minhas exposições sobre Econometria em Econometria III) e, portanto, deveria testar a robustez do coeficiente estudado sob diversas configurações de variáveis de controle.

Sabedoria de Leamer!

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Altura, peso…e o desenvolvimento econômico: o caso da revolução cardiovascular

Não, não vou falar de antropometria histórica de novo. Só para falar de doenças degenerativas. Diz o Matizes Escondidos:

Barker (1998) propõe uma interpretação alternativa da origem das doenças degenerativas. Aquele autor, médico epidemiologista, comparou mapas ingleses retratando a mortalidade infantil por distritos administrativos com outros que indicavam a incidência de doenças cardiovasculares, detectando que havia elevada coincidência entre eles. Isso o motivou a realizar estudos comparando registros de nascimentos em coortes inglesas, chinesas e finlandesas que possibilitassem o seu acompanhamento décadas depois. Barker constatou que a baixa estatura e o baixo peso ao nascer eram fatores de risco bastante fortes para o posterior desenvolvimento de doenças degenerativas.

Mais adiante ele fala de revolução cardiovascular. Para mim, tem toda a cara de que economistas da saúde estão atentos ao problema, mas posso estar enganado.

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É um inferno este país, mas nem tudo tem piorado

Por exemplo, desde um pouco antes do Plano Real, há uma variável que vem em contínua queda e todos gostamos muito disto.

notallisbad

Sim, estamos falando de trabalho infantil. Aliás, este é um gráfico de um trabalho da professora Ana Kassouf. O tema do trabalho infantil é multifacetado: ninguém tem nada contra meninos venderem limonadas em barraquinhas (eu mesmo trabalhei por satisfação pessoal, quando criança, aos domingos, em uma banca de jornal, por um tempo) ou inovem criando aplicativos simples para celulares.

Mas existe uma discussão entre isto e trabalhos sistemáticos. Por exemplo: o que dizer de um menino cuja família recebe uma transferência do governo (via nossos impostos) para colocá-lo na escola, mas ele, ao sair da escola, fica no semáforo trabalhando? Para saber um pouco mais sobre isto, você pode ler este artigo.

Vejo muito estudante que se diz libertário reclamando do trabalho infantil regulamentado. Contudo, sempre a discussão é vaga, na melhor das hipóteses. Afinal, que dados estamos analisando? Qual a definição de trabalho que estamos adotando? O ponto de partida deveria ser a discussão dos custos e benefícios econômicos não apenas individuais, mas sociais do (tipo de) trabalho infantil discutido.