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O papel do indivíduo e a diversidade da realidade frente aos planos governamentais

Entrevistado pela Nabuco, Antônio Risério tem uma resposta interessante a uma pergunta que, resumidamente, deseja saber do entrevistado se ele pensa que cidades planejadas por governos não estimulariam a população à passividade, no Brasil.

Diz ele (vou reproduzir trechos):

“Não acredito, a menos que a gente generalize isso para toda a humanidade. Em primeiro lugar, cidades ‘ideais’, cidades planejadas (…) pelo poder, existem no mundo inteiro (…), não é uma especificidade brasileira. Em segundo lugar, mesmo que fosse, eu não conseguiria nunca ter uma visão assim determinista. A esse respeito, sempre dou o exemplo do frevo: tínhamos bandas de músicas e capoeiristas no Rio de Janeiro e em Salvador, assim como no Recife. Mas por que só no Recife a capoeira e música se fundiram na configuração do frevo (…)? Sociologismo nenhum dá conta disso. Como sempre digo, condições sociais, econômicas, políticas e culturais não são por si mesmas suficientes (…). Em terceiro lugar, no caso das cidades citadas (Salvador, Rio, São Luís do Maranhão), o modelo estatal foi simplesmente abandonado, recusado até, pela população (…)”. [Nabuco, n.4, Maio/2015, p.42]

Ótimo, não? Bem, não sei nada sobre o frevo, mas o exemplo, supondo que o autor esteja correto, é interessante: os mesmos elementos básicos, em distintos territórios geográficos (será?) de um mesmo país dão origem a diferentes resultados. O leitor que me conhece sabe que já fico pensando em como instituições (micro-instituições, já que no mesmo país) e dotações geográficas poderiam nos ajudar a entender este problema, né?

Não dá mesmo para não pensar em história. Aliás, sobre isso, o mesmo autor é bem crítico. Digo, ele é bem crítico do que se faz na história brasileira, principalmente nas escolas. Para ele, a antiga história oficial foi substituída por outra, tão ruim quanto. Vou reproduzir, novamente, breves trechos:

“A velha história é a que cristalizou um discurso celebratório da colonização portuguesa. (…) Em seu lugar, impera hoje uma nova história oficial do Brasil – nova, mas igualmente oficial. (…) Tomou de assalto as salas de aula de colégios públicos e particulares, onde hoje professores se dedicam a contestar a idéia de um ‘descobrimento’ do Brasil, ao mesmo tempo em que capricham na retórica para denunciar um suposto ‘genocídio’ dos índios no Brasil, coisa que nunca aconteceu por aqui – as pessoas parecem se esquecer que guerras não são sinônimo de ‘genodício’, que significa extermínio étnico, coisa que a coroa portuguesa jamais aceitou nem praticou. (…) Para dizer de modo sintético, substituímos mentiras antigas por mentiras novas, tratando agora a história brasileira como um filme de bandido e mocinho que nada pode ter a ver com a complexidade do real histórico”. [idem, p.47-8]

Como se vê, estamos diante de alguém que não se curva a maniqueísmos. Parece-me que professores de História de colégio continuam praticando os mesmos erros do passado, o que é péssimo porque, ao chegarem à faculdade, os alunos têm um trabalho duplo. Afinal, não é só estudar o material que lhes passamos, mas também são obrigados a se livrarem dos preconceitos que aprenderam.

Parte disso é assim mesmo: nem todo professor de colégio faz um mestrado ou doutorado (ou um mestrado e um doutorado de qualidade, tanto faz, embora não exatamente). Mas poderiam pelo menos facilitar a vida dos colegas das universidades/faculdades que se esforçaram um pouco mais para entender a realidade antes de sair por aí falando sobre ela.

Para encerrar: este é um dos motivos pelos quais eu acho que você deveria assinar a Nabuco. ^_^

Um comentário em “O papel do indivíduo e a diversidade da realidade frente aos planos governamentais

  1. Parece bacana mesmo. Morando em BSB, eu desconfio cada vez mais daquele simplismo cidade-> ações dos indivíduos. NO fim das contas, os indivíduos contornam todo o planejamento dos urbanistas.
    Vou procurar!

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