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Mais calorias, mais “grandes” religiões no mundo?

Mais sanduíches, mais missa?

Vi na banca de revistas uma tal de Mente e Cérebro com uma chamada bombástica: Estudo associa surgimento de religiões modernas ao acúmulo de calorias. Achei que leria umas cinco ou seis páginas mas, infelizmente, só duas.

Mas a idéia é a seguinte: alguns autores, em um artigo (cujo título a matéria não cita, né, redator?) na Current Biology, parecem afirmar que a maior oferta de alimentos é um fator causador do crescimento de “grandes” religiões.

Ok. Aí eu parei de ler a revista, já que nem o título do artigo era citado e pesquisei. Eis o autor, Nicolas Baumard. Agora, eis o artigo (dentre outras publicações interessantes), com os links originais da página do prof. Baumard:

Baumard, N., Hyafil, A., Morris, I., and Boyer, P., (2015) Explaining the Axial Age: How Energy Capture Favored Ascetic Wisdoms and Moralizing Religions, Current Biology (Supplemental Information) See also Science’s coverage, as well as Konika Banerjee and Paul Bloom’s comment article in Current Biology.

Fiz questão de colocar em forma de citação para ver se alguém na revista desperta para a realidade. Agora, vamos fazer o trabalho informativo que a revista não fez. Vejamos o resumo do artigo, em partes.

Background: Between roughly 500 BCE and 300 BCE, three distinct regions, the Yangtze and Yellow River Valleys, the Eastern Mediterranean, and the Ganges Valley, saw the emergence of highly similar religious traditions with an unprecedented emphasis on self-discipline and asceticism and with ‘‘otherworldly,’’ often moralizing, doctrines, including Buddhism, Jainism, Brahmanism, Daoism, Second Temple Judaism, and Stoicism, with later offshoots, such as Christianity, Manichaeism, and Islam. This cultural convergence, often called the ‘‘Axial Age,’’ presents a puzzle: why did this emerge at the same time as distinct moralizing religions, with highly similar features in different civilizations? The puzzle may be solved by quantitative historical evidence that demonstrates an exceptional uptake in energy capture (a proxy for general prosperity) just before the Axial Age in these three regions.

Pronto. Entendi o problema. Existe uma questão histórica interessante sobre a convergência do que Douglass North chamaria de instituições informais, na forma de religiões. Ou seja: por que é que tantas religiões de características normativas similares, apareceram na mesma época? Bela questão. Vejamos mais um pouco.

Results: Statistical modeling confirms that economic development, not political complexity or population size, accounts for the timing of the Axial Age. Conclusions: We discussed several possible causal pathways, including the development of literacy and urban life, and put forward the idea, inspired by life history theory, that absolute affluence would have impacted human motivation and reward systems, nudging people away from short-term strategies (resource acquisition and coercive interactions) and promoting long-term strategies (self-control techniques and cooperative interactions).

Ah, agora sim. Na revista que comprei (e com a qual já antipatizo, tamanha a falta de informações básicas como a simples referência bibliográfica), nada de muito detalhado sobre isto e já entram numa de “vamos ver as outras opiniões” sem, sequer, reconhecer que muitas críticas não fazem nem sentido, já que não partem do mesmo modelo estatístico para discutir os problemas do mesmo, etc.

Esta história de “meta-crítica” que começa dizendo que o uso da estatística não pode porque eu não sei estatística, mas não vou admitir isto (tudo com hífens…) não cola nos leitores deste blog, bem mais sofisticados do que imagina a vã imaginação de certos jornalistas. Sempre que vejo algo assim, fujo. Mas vamos em frente.

Mais sobre calorias e religião…qual é o mecanismo?

A escassez/abundância de alimentos importa? Vejamos o que diz o próprio autor.

Finally, the effect of affluence on religion could be understood in terms of life history theory [2], specifically focusing on the contrast between a ‘‘fast’’ strategy, with short-term investment of resources (e.g., early reproduction, more off-spring, and less nurturing), and a ‘‘slow’’ strategy, with opposite characteristics [23, 27]. Shifts of strategies are known to be triggered by environmental cues, such as the harshness or unpredictability of environments; they result in lower or higher degree of cooperation [22, 24, 28] and in investment in the self [29], a phenomenon originally described by Maslow in his ‘‘pyramid of needs’’ model [30, 31]. [Baumard, N. (2015), p.3]

O estudante de Economia que já avançou um pouco no curso reconhecerá vários elementos importantes neste trecho. Afinal, a estratégia, a natureza, a escassez, a diferença entre curto e longo prazo, a imprevisibilidade e o investimento não são termos tão estranhos assim, não? O argumento tem aquela história do Maslow que, se não serve para explicar a origem de nossas preferências (como destacam McKenzie e Tullock no cap.3 do antigo The New World of Economics, 1978, um belo livro-texto básico desconhecido por aqui), serve para ilustrar como economistas entendem (e complementam) o argumento de Baumard:

Maslow apparently has observed that people fulfill a higher percentage of their physiological needs than other needs. Our line of argument suggests that this may have been the case because the price of physiological need fulfillment is lower than the prices of fulfilling the other needs. [McKenzie, R.B. & Tullock, G. (1978). The New World of Economics – Explorations into the Human Experience, Richard D. Irwin, 1978, p.49]

Afinal, como diz Baumard:

In this life history perspective, a massive increase in prosperity and certainty during the Axial Age may have triggered a drastic change in strategies, shifting motivations away from materialistic goals (acquiring more wealth, higher social status) [23] and short-term aggressive strategies (‘‘an eye an eye’’) [24], typical of fast life strategies, toward long-term investment in reciprocation (‘‘do unto others.’’) and in self-development (variously described as the ‘‘good life’’ or ‘‘self-actualization’’ in Maslow’s original theory). This shift in priorities progressively would have impacted religious and intellectual traditions through a transmission bias, in favor of doctrines and institutions that coincided with the new values [2, 4, 32]. In a nutshell, at some point in the middle of the first millennium BCE, old ‘‘ritual’’ religions emphasizing short-term strategies would have been supplanted by new ‘‘spiritual’’ religions that emphasized long-term strategies through asceticism and self-control techniques.

Repare como o argumento é, basicamente, o mesmo de McKenzie & Tullock: a oferta de alimentos triggered (“disparou”, ou “disparou o gatilho de”, ou, simplesmente, “mudou o preço relativo de X em relação a Y”) a cooperação, tornando o custo de oportunidade de cooperar menor do que o de não cooperar.

O restante do artigo (que é bem pequeno, por sinal) especifica a amostra e os controles utilizados no modelo (que é um Poisson). Pode-se ver nos links acima que o autor deixa disponível tanto o artigo original como o mesmo complementado com algumas observações adicionais sobre as variáveis utilizadas.

Pois é. A discussão do autor é importante porque nos remete aos bons e velhos problemas que a Nova Economia Institucional levanta na discussão sobre o desenvolvimento econômico, notadamente na sua dimensão histórica (e inescapável?).

Para terminar, uma imagem que, se não vale mais do que mil palavras, deveria ao menos ensejar uma discussão séria (ou seja, que tenha, no mínimo, mil palavras…).

Reza para Deus fazer passar logo a crise, ou apenas faça a saudação à mandioca (e ao milho).

UPDATE: Antes que eu me esqueça, leitor, veja como aquela história de explicar tudo pela ética protestante (ou católica) do capitalismo não é um argumento bom. Eu tinha feito um resumo sobre isto em uma nota de aula (aqui), usando o argumento de Plateau & Hayami (1998) e, agora, vou ter que atualizar com esta hipótese das calorias. Mas o mais bacana é, como já dizem por aí, que Weber não é assim tão poderoso…na melhor das hipóteses, mais um fator potencialmente causal.