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Privadas e bicicletas não são como economistas inteligentes dialogando com humoristas

Tenho muito orgulho de ter tido meu primeiro artigo científico escrito com o Leo Monasterio. Aliás, devo dizer que este breve texto dele demoliu a filosofia de boteco de um certo colunista de jornal que, bem, acha que entende de muita coisa, mas só sabe fazer rir e olhe lá.

Nada contra o seu direito de falar besteira, mas nada contra o direito de alguém mostrar a todos que o que você falou era, de fato, besteira, e não o que você disse ser. Entendeu?

Dados, um pouco de seriedade e teoria, estas coisas não fazem mal. Parabéns ao Leo por mais este bem público gerado para todos.

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Você sabe que comprou o livro certo quando…

Existe uma piada, na verdade, um caso engraçado, que Deirdre McCloskey, a economista, conta sobre seu orientador, o famoso Alexander Gerschenkron (os mais antigos, como eu, já leram algo dele em cursos de desenvolvimento econômico arcaicos).

Segundo McCloskey, ela já achava seu orientador um cara inteligente, mas descobriu que ele era realmente um cara nota dez quando, ao visitar seu escritório, encontrou, num canto, uma pilha de revistas MAD.

Bom, de forma similar, posso dizer que acertei na compra do R in Action de Robert I. Kabacoff (a segunda edição) porque, primeiro, já estava impressionado com a quantidade de material interessante nos vinte e um primeiros capítulos. Mas quando cheguei ao vigésimo segundo, eu me deparei com o seguinte trecho, na abertura do mesmo e, creio, esta foi o momento em que descobri que, realmente, havia comprado o livro certo para aprender mais sobre o R.

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Tenho razão, né?

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Mais “big data”

Meu aluno Gabriel Sallum me envia esta dica interessante. Curiosamente, muita gente que é contra o big data analysis não percebe que, tal como uma broca, o big data nada mais é que uma ferramente e não é “má” ou “boa” em si.

Como diriam: guns don’t kill people, people kill people. Da mesma forma, você é quem sabe para que deseja obter dados. Questões éticas são, obviamente, interessantes (e importantes), mas o ser humano não pode se deixar vencer pelo obscurantismo.

Bela dica.

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E a escravidão, heim?

Este ótimo texto da profa Bertocchi tem um resumo que é útil para responder minha descontraída pergunta:

Within a county-level analysis of the state of São Paulo, the largest in the country, Summerhill (2010) finds that the intensity of slavery has a negligible effect on income in 2000. Moreover, a measure of agricultural inequality for 1905 exerts no negative influence on long-term development. He therefore concludes that neither slavery nor historical inequality have a discernable economic effect in the long run. However, a negative influence of past slavery emerges in other studies that concentrate on human capital formation. Across Brazilian federal units, Wegenast (2010) uncovers a negative correlation between past land inequality, which was strongly correlated with the presence of crops suitable for the use of slave labor and thus with slavery, and quantitative and qualitative measures of contemporary education, such as secondary school attendance in 2000 and school quality in 2005. In the latifundia system based on slave labor, landlords historically had no incentive to develop mass educational institutions, and this attitude persisted even after abolition in 1888, with consequences still visible today.

Pois é. Evidências mistas, né? No mínimo, para começarmos a discussão, é preciso estudar um pouco os dados e sair do mundo fácil e (potencialmente) enganador das correlações parciais. Mais adiante, no mesmo texto, a autora afirma (e eu concordo):

These mixed results may be due to the confounding influence of other interacting factors common to the South-Central America experience, such as the generally slow expansion of mass education – irrespectively of race – on the one hand (see Mariscal and Sokoloff, 2000) and a culture of assimilation favoring integration and racial mixing on the other.

Sei que tem gente que não gosta disto, acha que só há um tipo de escravidão e que tudo é igual aqui ou nos EUA, mas, infelizmente – para esta galera – a realidade é muito mais rica no que a análise das evidências nos mostra.

Uma característica bacana do texto é o uso simples e despretencioso de regressões simples, estimadas pelo MQO (o famoso OLS, em inglês). Há quem não entenda que mesmo regressões simples podem ser extremamente úteis desde que corretamente adequadas à argumentação do autor. A profa Bertocchi faz isto muito bem. Recomendo a leitura do texto, mesmo sendo apenas um texto para discussão.

escravoobediente

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Você acha aquele cara rico e arrogante um porre no seu ônibus, toda manhã? Apóie o Uber.

Pois é. Em 2013, a galera foi para as ruas, supostamente porque havia um problema de mobilidade urbana no país. Notadamente, claro, em São Paulo. Claro que o livro do Morgenstern já mostrou que não era bem assim.

Mas o discurso tem algum fundamento: problemas de mobilidade urbana existem e há muito mérito em se buscar novas soluções de transporte. Muita gente já falou de vários deles aqui. Eu acho, por exemplo, que a disposição a pagar dos usuários deveria ser levada em conta: quem está disposto a pagar mais pode pagar mais.

Ora bolas, quantas vezes já ouvi a história de que neguinho rico estuda em universidade pública quando poderia pagar e blá blá blá? A mesma coisa vale para o transporte coletivo. O cara mais pobre tem que pegar ônibus ou metrô com mais frequência do que um rico, que pode pagar por um táxi (ou um Uber).

Assim, eis um argumento antipático para se apoiar o Uber contra os grupos de interesse encastelados em nosso capitalismo de compadrio: fique livre do rico chato que pega ônibus lutando pela manutenção do Uber. Sabe aquele cara chatinho, com papo intelectual e roupa de marca? Pois é. Você pode ficar livre dele se ele usar mais táxis ou o Uber.

Claro, o rico também quer ficar livre do pobre chato do ônibus que mal sabe falar e não entende sua sofisticada conversa sobre ciclofaixas ou vinhos. Assim, ambos têm interesse em que soluções inovadoras de transporte urbano sejam permitidas.

Sim, eu poderia expor este argumento de forma simpática, mas no fundo é só uma questão de disposição a pagar e eu gostaria mesmo de enfatizar o lado feio de todos nós que, mesmo assim, é funcional. Veja, se pensarmos do lado “bom”, ainda assim, ambos deveriam ser a favor do Uber.

Eu sei que temos que discutir isto e aquilo mas, tudo bem, não estou propondo quebradeiras ou paralisações que impedem até ambulâncias de chegarem aos hospitais. Estou propondo que pensemos no problema da mobilidade urbana com a mente aberta, sem preconceitos.

p.s. Sabem que nunca usei o Uber? Não tenho dinheiro para gastar com este meio de transporte (estou com vontade de experimentar) e, dado o que a dupla Mantega-Augustin fez nos últimos anos, nem dinheiro tenho para ir a um restaurante de luxo em São Paulo para jantar. Ou seja, vaiar ou aplaudir políticos em locais assim é privilégio de ricos graças à política econômica adotada nos últimos anos, não algo que eu possa fazer, mesmo que quisesse.