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Cecília Meireles, os ciclos reais e a tecnologia pró-pobre

Que eu gosto de Cecília Meireles, ninguém mais tem dúvida. Desta vez, eu comprei um exemplar da Coleção Melhores Crônicas que é um volume todo dedicado à poetisa (um livro da Global, de 2003, reimpresso em 2012 pela quarta vez). O prefaciador, que também é o selecionador, Leodegário A. de Azevedo Filho, organizou as crônicas sob grandes temas. Obviamente, fui lá ver a Cecília professora. 

Veja só o que me fez a leitura de Cinema e Educação, crônica que ocupa singelas três páginas do livro (páginas 316 a 318).

Enquanto alguns passaram anos tentando ver no Pato Donald um ataque imperialista aos frágeis e inocentes valores brasileiros, Cecília Meireles foi assistir ao Fantasia de Walt Disney e gostou. Não que faça críticas. Por exemplo:

Fantasia seria mais interessante se outrsa fossem as músicas escolhidas – já que se desejavam fazer os desenhos sobre música. [p.317]

Mas, coerentemente com sua defesa do papel do educador como um sujeito que sempre se renova, ela afirma que a tecnologia não deve ser desprezada. Em suas palavras:

A técnica cinematográfica é desde muitos anos considerada auxiliar poderoso do professor, em todos os campos de ensino. [p.317]

O que ela diria do uso de video-aulas hoje? Nem preciso comentar, né?

Eu me lembro que uma professora de minha infância tinha receio de que eu não aprendesse a ler se continuasse apenas no mundo dos quadrinhos. Mas Cecília Meireles não pensava desa forma. Sobre o nosso amigo Mickey Mouse, ou melhor, sobre desenhos, ela disse:

“(…) em certos casos, só o desenho animado está em condições de tornar visíveis e compreensíveis coisas que, apenas através dos livros, parecem difíceis ou áridas”. [p.318]

Não se trata de uma visão passiva, de aceitação incondicional do desenho animado em sala de aula. Trata-se, isto sim, de aceitar os choques tecnológicos e reconhecer em que eles são ou não positivos (para fins de ensino). Em outras palavras: Cecília Meireles era simpática a choques do lado da oferta (economês puro, né?).

Vale a pena lembrar a sensibilidade social de Cecília Meireles com um longo parágrafo que, por sinal, encerra seu belo texto.

Além disso, é o cinema uma grande livro que pode ser visto, ao mesmo tempo, por um grande píublico – e uma boa coleção de filmes científicos, fortes e vivos, como essa pré-história de Walt Disney, equivaleria a uma biblioteca ambulante, indo até as populações rurais, até os iletrados, para os quais um locutor discreto, sem bizantinismos de linguagem nem de voz, serviria de explicador – ampliando a órbita de cultura das classes mais desfavorecidas. [p.318]

Os preconceitusos que me desculpem, mas inteligência é essencial e esta mulher a tinha de sobra. Cecília tinha uma visão claramente empreendedora do educador, sem dúvida. Uma visão moderna (o que ela diria do uso de computadores em sala de aula?), não necessariamente ingênua (sabemos que a tecnologia pode ser utilizada pelo aluno para não se concentrar na aula) e de um humanismo generoso!

Imagine um educador dizer que o Fantasia de Disney pode ser usado para levar cultura aos que mais dela necessitam. Hoje em dia, não duvido, surgiria alguém dizendo que tudo é relativo (exceto, paradoxalmente, esta frase), que música clássica é coisa de rico e que devemos dividir o Brasil entre pobres injustiçados e, portanto, honestos (“nós”)  e os canalhas (“eles”) e, assim, o correto seria usar desenhos feitos aqui sob a supervisão de um comitê de ideólogos, etc.

Cecília Meireles era grande demais para este Brasil mesquinho, eu sei. Mas, como sempre, eu acabo por enxergar algumas intuições econômicas muito interessantes em suas crônicas ou em suas poesias. Bem, esta é minha interpretação (outro tema que ela aborda neste texto: Fantasia como interpretação de músicas escolhidas e, como ela mesma diz: “(…) interpretação é coisa pessoal (…)”) de sua crônica.

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Outra dica de gráficos

Leo Monasterio publicou (bom, eu vi no Twitter, mas acho que ele publicou) no blog dele esta dica. Acho que nós, economistas, temos que fazer este esforço para nos comunicarmos melhor com os não-economistas, não? Veja, não me importa se o gráfico segue ou não as normas da ABNT.

Um dos objetivos das normas da ABNT é facilitar a leitura de textos científicos, certo? Então, o ponto é: com ou sem regras da ABNT, devemos nos esforçar para apresentar melhor nossos dados. Caso a ABNT queira fazer parte disto, ótimo. Caso contrário, alguma norma nova surgirá da prática científica submetida à competição pela compreensão do leigo (soou meio hayekiano, não?).