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Momento R do Dia – Escravos e História Econômica

Cotas? Escravos? Racismo?

Estava com saudades, né? Pois é. Andei sem tempo – e até um pouco desestimulado – para fazer “Momentos R” aqui. Mas aí o Fernando Holiday fez um vídeo  que causou muita polêmica (assista com calma porque ele, propositalmente, exagera no discurso e fica bem pouco educado) e eu fiquei pensando se não poderia tirar algo de útil de tudo o que vi na internet. Assim…

Melhor aproveitarmos para aprender R (o que ajuda a diminuir a desigualdade…se você estudar, claro!)

…não deu outra: fui até a livraria e, por acaso (mesmo), encontrei o primeiro volume do História de Minas Gerais, organizado por Maria E. L. de Resente e Luiz C. Villalta. Parece que é produto de duas editoras: Autêntica e Companhia do Tempo. Livro de 2013, parece-me.

Há lá um capítulo de Douglas C. Libby, sobre escravos em Minas Gerais. Mas o melhor é que ele tem um levantamento de escravos por estados do Brasil. Na verdade, ele apenas o reproduz. Trata-se de uma tese de doutorado da USP (o nome do autor é Tarcísio R. Botelho).

O fato é que eu já tinha alguns dados de outro trabalho e pensei logo naquela história do Acemoglu e co-autores, de olhar o PIB atual com algum tipo de instrumento colonial. Mas a idéia não avançou muito por conta de meus rascunhos que, bem, são a base deste rápido Momento R do Dia.

Usando o comando “plot” 

Claro, eu sou muito devagar e lento. Logo, pesquiso muito para aprender. Numa destas, encontrei este site. Meu objetivo era simples: fazer gráficos dos PIBs per capita dos estados brasileiros em 2011 (a preços de 2010) contra a razão escravos/população total do estado para os anos de 1808, 1818, 1854 e 1872.

Sei que dá para fazer isto usando o ggplot2, mas eu queria algo rápido, básico. Então, após carregar os dados e alterar alguns nomes…

par(mfrow=c(2,2))
plot(proporcao_escravos_pop_estadual_1872,pib_capita_estadual_2011,ylim=c(0,40), pch=18, col="blue")
text(proporcao_escravos_pop_estadual_1872,pib_capita_estadual_2011,dados1$Sigla, 
     cex=0.6, pos=1,col="red")
plot(proporcao_escravos_pop_estadual_1854,pib_capita_estadual_2011,ylim=c(0,40), pch=18, col="blue")
text(proporcao_escravos_pop_estadual_1854,pib_capita_estadual_2011,dados1$Sigla, 
     cex=0.6, pos=1,col="red")
plot(proporcao_escravos_pop_estadual_1818,pib_capita_estadual_2011,ylim=c(0,40), pch=18, col="green")
text(proporcao_escravos_pop_estadual_1818,pib_capita_estadual_2011,dados1$Sigla, 
     cex=0.6,pos=1, col="red")
plot(proporcao_escravos_pop_estadual_1808,pib_capita_estadual_2011, ylim=c(0,40),pch=18, col="green")
text(proporcao_escravos_pop_estadual_1808,pib_capita_estadual_2011,dados1$Sigla, 
     cex=0.6, pos=1,col="red")

É, monótono, né? Mas se você quer entender o que eu fiz, basta olhar para a sequência de comandos sempre aos pares. Sim, exceto pela divisão da tela em uma matriz 2 x 2 (par(mfrow=c(2,2))), repare que os comandos vem em pares. Sempre peço o “plot” e depois insiro um texto com o “text”.

Olhe o link que mencionei para entender os parâmetros (por exemplo, por que “pos=1”?). As cores são auto-explicativas e acho que apenas o comando “cex” não está mencionado lá, mas pode ser entendido neste link do mesmo site.

O resultado?

painel_Escravos(clique na figura para ampliar)

Escravos, PIB…

Como se vê, os resultados não foram muito animadores (você tem que ter lidos os artigos do Acemoglu, Easterly e todo aquele pessoal de desenvolvimento para entender minha decepção) e eu resolvi parar o trabalho para ficar apenas com a peça didática para os leitores do blog que se iniciam no R.

Ok, para você não ficar no ar, eu dou uma pista. A evidência do Acemoglu e co-autores é a de que o logaritmo do PIB de 1995 tem uma correlação negativa estatisticamente significativa com a mortalidade dos colonizadores em 1500. É uma correlação espúria?

Acemoglu e co-autores – e outros – argumentam que não e o argumento é o de que mortalidade alta de colonizadores incentivaria a criação de uma sociedade extrativa, não uma sociedade de mercado.

Muito resumidamente, é este o argumento. De minha parte, eu quis ver se algo apareceria no Brasil, olhando para os estados. Será que haveria algum tipo de dependência histórica (aquilo que alguns chamam de path dependence) entre o PIB per capita estadual de hoje e o estoque de escravos em algum momento do passado? Não é exatamente a mesma coisa, mas, bem, se fosse, eu não teria motivos para escrever nada, não é?

Ok, não parece haver nem uma correlação (cálculos não reportados aqui) estatisticamente relevante. Mas o que importa mesmo é que tive a oportunidade de te mostrar um pouco mais de comandos básicos do R. Desta vez, o plot.

Pois é. Você não faz isto naquele programa bonitinho e colorido de econometria que, aliás, é pago (e é caro), né? Mas no R você faz. ^_^

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O Teste de Causalidade de Granger, o Brasil (e o Rent-Seeking?)

Vitor Wilher faz um belo exemplo de aplicação econométrica: o teste de causalidade de Granger.

vitorwilher

A fonte é esta. O que eu não vi, no trabalho dele, é se ele trabalhou com as séries I(0). Ele deve ter feito isto (mas o slide não explicitou). De qualquer forma, caso ele tenha razão neste teste, então temos um governo com um comportamento bem maroto, não?

Uma coisa é você arrecadar para, então, gastar. Outra é gastar e depois buscar receita. Ora, se você é um trabalhador privado, o segundo caso é sinônimo de mais trabalho e/ou de endividamento (creio eu, temporários). Mas se você é o governo, isso significa que você irá em busca de mais arrecadação. Usará um papo moralista de que combate a sonegação, ou que vai multar para “educar” as pessoas, mas estará mesmo atrás do bom e velho tutano.

Mas há outras questões importantes aí. Ontem, por exemplo, vi uma jornalista tentar iniciar um escândalo no Roda Viva, em torno do termo “Estado Mínimo”. Pode-se falar em raças no Brasil (conceito que a genética já descartou…), mas “Estado Mínimo” parece gerar um alvoroço danado. O entrevistado, líder do VemPraRua, saiu-se muito bem na resposta. Ele usou o termo “Estado Eficiente”.

Pois é isso que buscamos todos, não é? Um “Estado Eficiente”. Ou você quer que seus impostos sejam usados de forma perdulária? Quer? Pois é. Aí até o Cantareira (ou a Cantareira, não sei…) seca.

O debate sobre o “Estado Eficiente” nos leva ao conceito de “nível ótimo do tamanho do Estado”, coisa que eu, Ari e Ronald falamos há uns 10 anos neste artigo. Sem a pretensão de que nossa estimativa seja a melhor coisa já produzida em econometria aplicada, lá naqueles tempos, dizíamos que, em termos da percentual de arrecadação tributária sobre o PIB, o tamanho ótimo estaria em torno de 32%. Mesmo este número nos parecia excessivo.

Passe os olhos pelos jornais e olhe para este resultado do Vitor. Difícil não se revoltar, não? Enquanto isto, alguns criminosos se calam para não entregar seus chefes, sacrificando esposas e filhos no altar do crime. Em homenagem a eles, fica este trecho do clássico Harakiri (ou Seppuku, nome original, de idêntico significado).