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O que nosso folclore pode nos ensinar sobre as instituições informais que (não) sustentam uma economia de mercado? O caso do “divino”.

Vejam só o que eu encontrei, por acaso, lendo o bom e velho folclorista:

87. “Trocar” a imagem – As imagens de Cristo, Nossa Senhora, Santas e Santos, não são vendidas mas trocadas. “Troquei o Crucifixo por cem cruzeiros”. É pecado empregar o verbo vender em cousas que não se vendem, como entidades do Reino do Céu. Serão permutadas por dinheiro. (…). [Cascudo, Luís da Câmara. Locuções Tradicionais no Brasil. Itatiaia/USP, 1986, p.78]

Quando eu falo do problema da emporiofobia, talvez não fique tão claro quanto neste interessante trecho. A idéia de “vender” e “comprar” está ligada, no achado do folclorista, a uma imagem negativa. Não se faz isto com imagens religiosas se você é um cidadão de bem. Talvez até alguém diga que indulgências eram “trocadas”, não vendidas. Pudores demais, não? Quem vende e troca é…sujo (lembrei até da briga de Mauá com Dom Pedro II no romance de Jorge Caldeira…).

Outro aspecto do trecho, que eu acho igualmente interessante, é a ênfase no fato de que a moeda é pouco importante nesta mentalidade. Quase posso ver alguém me dizendo que é uma economia de trocas sendo analisada (como nos livros de Microeconomia) e que moeda não é importante. De certa forma, é algo que me ocorre ao ler este trecho. Na tentativa de negar a “compra/venda”, transforma-se a moeda em uma mercadoria como outra qualquer.

Debate-se sobre…

Muitas vezes eu vejo pessoas debatendo (ou se debatendo…) com esta questão de se a religião católica é ou não é anti-capitalista. Meu pitaco é bem mais modesto: cuidado com a igreja católica. O catolicismo brasileiro não é igual ao catolicismo grego, ou é? Tenho minhas dúvidas. As evidências empíricas, por exemplo, acerca da tese de Max Weber são, no mínimo controversas e não é diferente para o catolicismo. Leia lá o Sacred Trust do Ekelund, Tollison e co-autores para ver um exemplo do quanto o debate é mais interessante.

Conclusão…

Pensando no leitor que conhece Economia, acho que o trecho do Cascudo nos lembra que a microfundamentação das instituições informais é mais importante do que uma simples dummy de religião em modelos econométricos. Melhor dizendo: análises macro e micro se complementam (o que não quer dizer que vão sempre nos dizer a mesma coisa, penso mais no avanço do conhecimento…).

Mas o mais legal, para mim, é a tentativa de não vender ou comprar o que, no final do dia, é uma mercadoria desejada, logo, trocada, seja qual for a moeda que você use. Olha, leitor, não sei não, mas acho que quando se tenta condenar o trabalho honesto de vendedores, com desculpas religiosas (ou outras), estimula-se a emporiofobia

Além disso, mas digo só de palpite, sem investigar evidências, mas apenas levantando a hipótese, acho que esta é uma forma de se estimular a prática do rent-seeking na sociedade. Afinal, já que o vendedor não passa de um animal, quem melhor para lhe “vender” honra e status do que um burocrata?

Um comentário em “O que nosso folclore pode nos ensinar sobre as instituições informais que (não) sustentam uma economia de mercado? O caso do “divino”.

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