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A passagem na fita do chapéu…e o desenvolvimento econômico

Eis um texto do inigualável Barão de Itararé. O nome é: A passagem na fita do chapéu. [coletânea organizada por Afonso Félix de Sousa, ed. Record, 4a edição, 1987,p.136-137]. Note como, de forma bem-humorada, o notável cronista deixa-nos um belo exemplo para se entender a importância das instituições para o desenvolvimento econômico. Lá vai o texto:

A passagem na fita do chapéu

Os povos que progridem são aqueles que observam e assimilam todos os bons costumes de outros povos.

O povo inglês, por exemplo, tem coisas admiráveis. Basta dizer-se que o súdito britânico, quando viaja de trem, coloca calmamente o bilhete na fita do chapéu, senta-se com a maior naturalidade deste mundo no lugar que lhe foi destinado, abre o jornal sem precipitação, começa a ler fleugmaticamente e deixa o barco correr. O barco, neste caso, é o trem.

Dentro de algum tempo, então, o chefe do trem, sem molestar os passageiros, vai de chapéu em chapéu, apanha os bilhetes, picota-os e torna a colocá-los na fita do chapéu do freguês, que, por sua vez, continua a ler calmamente, sem nenhuma vibração, as notícias mais sensacionais, que abalam os nervos do mundo…

Esse detalhe, da passagem na fita do chapéu, aparentemente sem nenhuma importância, vale, entretanto, para um espírito observador, por uma verdadeira epoéia de bom senso, por um magnífico poema de conforto e por um entusiástico hino ao comodismo. E um povo de bom senso, com conforto e comodismo, é, sem dúvida, um povo progressista.

O brasileiro é um patriota que entende muito de futebol e de carnaval, mas que nunca sabe, quando viaja de trem, em que bolso guardou a passagem. É natural que, quando chega o chefe de trem, sempre haja cena extremamente desagradável entre o passageiro que procura nervosamente o bilhete em todos os bolsos e não o encontra e o chefe de trem que espera inutilmente, de cara amarrada, porque tem mais o que fazer.

Infelizmente, nós já observamos o que se passa na Inglaterra, mas por desgraça não podemos adotar o sistema inglês de colocar o bilhete na fita do chapéu por dois motivos principais:

1.o – porque a maioria dos brasileiros não usa chapéu; e
2.o – porque a maioria dos que viajam não compra passagem.

É por isso que não vamos adiante.

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Bando de pobres preguiçosos! Ou…

Estes latinos vagabundos…mesmo?

Em “Microeconomia & Comportamento”, de Robert Frank, um trecho muito legal que vale ser citado:

“Os colonialistas que empregavam mão de obra não qualificada em países menos desenvolvidos antigamente viam como um sinal de atraso o fato de os funcionários trabalharem menos horas toda vez que seus salários aumentavam. Mas (…) esse comportamento é consistente com a busca racional de um objetivo perfeitamente coerente”. [Frank, R.H. “Microeconomia & Comportamento”, 8a ed, Bookman, 2013, p.466]

Dá para entender como muitos preconceitos são falaciosos quando se pensa de maneira científica, i.e., com a Ciência Econômica na cabeça? O ponto, simples, é que muitas vezes o sujeito é tão pobre que, para um dado nível de salário não tão alto quanto o de um europeu colonizador, ele já consegue viver confortavelmente.

Faz sentido? Pense: se você é pobre e mora em um lugar igualmente pobre, um salário que não precisa ser o de um executivo de Wall Street já é suficiente para te dar uma vida muito boa, dados os padrões locais.

Aliás…

Quando nos lembramos que, no Brasil, um escravo liberto comprava outro escravo para sinalizar seu novo status social, você percebe que a lógica econômica é a mesma: uma vez escravo, sem direitos e sem salário, não faz sentido trabalhar muito (e daí o preconceito de que “negro tem que apanhar para trabalhar como gente”). Uma vez que ele ascende nesta sociedade que pouco valoriza o trabalho assalariado de negros, ele adquire outro escravo.

Conclusão

Estudar economia liberta a gente de muitos preconceitos, heim?