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Nos tempos que correm

Este é um longo texto de Eugênio Gudin, originalmente publicado em 04/06/1962 e reproduzido no livro Para um Brasil Melhor, da (falecida) APEC Editora. Achei que valia a pena reproduzí-lo aqui porque tem algo muito irônico em ler este antigo texto e pensar na situação atual. Somente no último parágrafo tive que usar os tradicionais “sic” para indicar dois prováveis erros (creio que certos…) de grafia.

Antes de começar a ler, lembre-se que em 1962 não existiam muitas defesas contra a inflação (a indexação, que de remédio passaria a doença, só seria inventada depois, ainda na década dos 60). O texto é longo, mas vale para refletir sobre o que vivemos hoje.

Nos tempos que correm

Encontrai há dias o meu jovem amigo Josué, que não via há muito tempo. Josué tem agora três rapazes, todos cursando o primário.

Disse-me que o mais velho é um menino de boa saúde, ambicioso e pouco dado aos estudos; destinava-o à carreira de estivador, onde poderia fazer fortuna e chegar talvez a presidente do sindicato; o segundo também não gostava de estudar, mas tinha excelente disposição para a natação e para as lides do mar; destinava-o à Marinha Mercante, onde começaria como taifeiro, com remuneração equivalente à de capitão-de-corveta, podendo até chegar a cozinheiro de bordo ou a mestre de lancha, onde faria fortuna. Preocupava-o mais o terceiro, que puxara ao avô materno; vivia com o nariz metido nos livros e pedia explicações de tudo; para êsse êle não via futuro; acabaria talvez como estudante de engenharia, carreira sem futuro…

Aventurei algumas tímidas ponderações e indaguei da formação moral dos meninos e de suas tendências. Declarou-me Josué que isso eram considerações ‘superadas’ e que só os ‘inadaptados’ nos tempos que correm lhes dariam qualquer primazia. Em apoio do que dizia passou a mão em um folheto que estava sôbre a mesa e leu-me o seguinte trecho de uma entrevista do Sr. Zulfo de Freitas Mallman, presidente do Centro Industrial.

Nos últimos 25 anos têm-se avolumado no País modos de proceder inimagináveis. E é espantosa a tolerância, a transigência e a quase aceitação da desonestidade e da apropriação, principalmente, dos dinheiros públicos. O sistema de agir desonestamente vem-se generalizando de forma assustadora. De um lado, o regime de irresponsabilidade dos atos lesivos praticados; e do outro, a nossa capacidade impressionante de votar êsses atos ao esquecimento.

E ainda me tapou a bôca com a citação do caso que eu próprio contara, de um indivíduo que depois de grandes falcatruas fêz-se fotografar com o Presidente da República no Palácio do Govêrno.

O essencial, prosseguia o meu amigo, é não deformar a personalidade das crianças, que deve se expandir pela lei da natureza. Porque o homem não pode pretender corrigir a obra de Deus. Olhe, dizia-me êle, não sei se você já notou que aqui em casa está tudo quebrado: cadeiras, pratos, copos, objetos. Mas isto não tem a menor importância; são desgastes materiais; o que importa é que a personalidade dos meninos não foi atingida. Não se sacrificaram valôres humanos a postulados empíricos do convencionalismo burguês!

Veja você, por exemplo, continuava Josué, o caso do Nélson, o segundo menino, que é afilhado do nosso amigo Tobias, professor da cadeira de Estabilidade Social na Faculdade de Filosofia. Todos os anos o padrinho presenteava o afilhado, em seu aniversário, com uma quantia depositada na Caixa Econômica. Quando o menino completou 7 anos, cursando o primeiro ano do primário e sabendo assinar o nome, fiz-lhe entrega da caderneta da Caixa com uma meia dúzia de contos de réis. O menino torrou, sem mais demora, essas economias em um jantar no Restaurante da Peteca, para o qual convidou os colegas e em que se quebrou muita louça. Você pode imaginar a minha satisfação de constatar não só a capacidade de iniciativa e de decisão do menino, como a sua visão inflacionista de que êsse dinheiro, no ano seguinte, já não daria para pagar a metade sequer do jantar! Além do que, a retirada do dinheiro é uma reação contra as explorações que os bancos praticam com o dinheiro da gente!

Devo dizer-lhe, aliás, acrescentou Josué, que já tive notícias de que o menino está com boas possibilidades de ser escolhido para a presidência do sindicato estudantil do curso primário. Essa indicação parece ter partido dos que o ouviram nesse mesmo jantar, tecer comentários elogiosos ao discurso do Brizola e à política ‘independente’ do Jânio e do San Tiago Dantas. Você já sabe de certo que dora em diante os estudantes vão ter maioria nas congregações das faculdades e dos ginásios.

É só esperar mais alguns anos, e você verá como essa nova geração vai acabar com os preconceitos da hierarquia, no País e no estrangeiro, e dar cabo da política caudatária que temos seguido e de que se aproveitam os americanos para nos espoliar…

Você não imagina, seu Gudin, como eu tenho aprendido de uns anos para cá com êstes meninos. Aquêle preconceito de nosso tempo, do ‘saber de experiência feito’ e de acatamento convencional aos ditames de pais e professôres, era uma balela, hoje completamente superada; um simples pretexto para impedir que o vigor e as energias da nova geração dominassem e orientassem o progresso da Nação. Outra não é a razão por que vocês economistas, hoje lamentam que o Brasil ainda seja, nesta altura dos acontecimentos, um país subdesenvolvido.

Felizmente, isso vai mudar; na verdade, já está mudando. Repare como o Juscelino meteu os pés nos famosos tabus da inflação e do tal Fundo Monetário e como êle reclama agora o direito de metermos o pau no dinheiro dos americanos nas obras da ilha do Bananal, sem lhes dar satisfações…

E isto é só um comêço. O Juscelino, o Brizola, o Corbisier, são apenas os primeiros rebentos da Nova Mentalidade; ainda não são protótipos do Brasil nôvo. Você vai ver daqui a alguns anos, quando êstes meninos crescerem…

Confesso que voltei para casa impressionado como (sic) a dissertação filosófica de Josué. O fato é que daquele dia para cá não voltei a pegar em livro de Economia. Tenho a sensação de tôda a Civilização Ocidental, desde Aristóteles até Newton e Einstein está ‘superada’. O futuro é da Bossa Nova, encarnada nos filho (sic) do Josué…