Os números de 2014: um resumo feito pelo WordPress…

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2014 deste blog.

Aqui está um resumo:

O Museu do Louvre, em Paris, é visitado todos os anos por 8.5 milhões de pessoas. Este blog foi visitado cerca de 91.000 vezes em 2014. Se fosse o Louvre, eram precisos 4 dias para todas essas pessoas o visitarem.

Clique aqui para ver o relatório completo

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Grupos de interesse causam esclerose econômica?

Olson disse que sim e eu e o Leo Monasterio checamos o resultado para o Brasil em um dos meus artigos mais interessantes (para mim). Entretanto, eis que surge um artigo com novas conclusões para um grupo de países. Ele foi publicado na edição de Outubro do Southern Economic Journal (não tenho o link, mas é fácil de achar). Eis seu resumo:

Interest Groups and the ‘‘Rise and Decline’’ of Growth
Jac C. Heckelman and Bonnie Wilson

Interest groups are known to exert a sclerotic impact on mean growth, à la Olson (1982). It is unknown, however, what impact (if any) groups exert on the volatility of growth—an important hindrance to development. In this article, we first consider what impact we should expect Olson groups to have on the volatility of growth. We then estimate the relation between groups and growth volatility in a cross-country panel, using system generalized method of moments. The findings indicate that groups are associated with growth stability. In addition, the findings suggest that interest groups may be a source of the stability observed in democracies.

Tudo depende, então, de se os benefícios menos os custos da estabilidade são ou não, em termos líquidos, positivos. O texto levanta novas questões sobre este – sempre polêmico – tema. Sobre os dados: são 824 observações de um painel não-balanceado (164 países nos períodos: 1973–1977, 1980–1984, 1985–1989, 1995–1999, 1999–2003, 2002–2006).

É, tenho que ler mais. Assim que tiver tempo.

Momento R do Dia

happy2015

Ok, eu apenas copiei os comandos deste ótimo postEntretanto, é preciso carregar os pacotes primeiro. Bem, são eles: ggplot2, animation e colorspace. De forma que temos, então:

library(ggplot2)
library(animation)
library(colorspace)

# since here, a simple copy 
# from: http://rforpublichealth.blogspot.com.br/2014/12/animations-and-gifs-using-ggplot2.html
#create dataset
happy2015<-data.frame(x=rnorm(500, 0, 1.5), y=rnorm(500, 0, 1.5), z=rnorm(500,0,1.5))

#create objects to hold the letters, colors, and x and y coordinates that we will scroll through
sign<-c("H","A","P","P","Y","2","0","1","5","!!")
colors <- rainbow_hcl(10, c=300)
xcoord<-rep(c(-2, -1, 0, 1, 2),2)
ycoord<-c(2, 1.7, 2.1, 1.5, 2, -.5, 0, -1, -.8, -.7)

#set up the theme in an object (get rid of axes, grids, and legend)
theme.both<- theme(legend.position="none", 
                   panel.background = element_blank(),
                   axis.ticks = element_blank(),
                   axis.line = element_blank(), 
                   axis.text.x = element_blank(), 
                   axis.text.y = element_blank(),
                   plot.background = element_rect(fill = "black"),
                   panel.grid.major = element_blank(), 
                   panel.grid.minor = element_blank())

#plot the first letter (set index=1 to get the first element of color, letter, and coordinates)
index<-1
ggplot(happy2015, aes(x, y, alpha = z, color=z)) + 
  geom_point(alpha=0.2) + labs(title="", x="", y="") + 
  theme.both + 
  scale_colour_gradient(low = "white", high="lightblue")+
  annotate("text", x=xcoord[index], y=ycoord[index], size=15, label=sign[index], color=colors[index])

#set up function to create a new dataset, plot it, and annotate it by an index argument
draw.a.plot<-  function(index){
  
  #make up a new dataframe
  happy2015<-data.frame(x=rnorm(500, 0, 1.5), y=rnorm(500, 0, 1.5), z=rnorm(500,0,1.5))
  
  #plot according to the index passed
  g<-ggplot(happy2015, aes(x, y, alpha = z, color=z)) + 
    geom_point(alpha=0.2) + labs(title="", x="", y="") + 
    theme.both + 
    scale_colour_gradient(low = "white", high="lightblue")+
    annotate("text", x=xcoord[index], y=ycoord[index], size=15, label=sign[index], color=colors[index])
  
  #print out the plot
  print(g)
}

#set up function to loop through the draw.a.plot() function
loop.animate <- function() {
  lapply(1:length(sign), function(i) {
    draw.a.plot(i)
  })
}

#save the images into a GIF
saveGIF(loop.animate(), interval = .5, movie.name="happy2015.gif")

Gostou?

Não deixe o governo te enganar com uma suposta discriminação racial de negros por parte dos médicos

Antes, preocupe-se com professores mentirosos e militantes desinformados que ajudam a criar um clima de ódio racial (útil a quem?) por aí. Eduque seu filho e sua filha antes que algum pedófilo gramsciano o pegue com seu sedutor papo de injustiças fantasiosas.

Não, gente.Tem limite para a ignorância. Gabam-se de investir em ciência, mas não conseguem entender o que é uma evidência empírica? Ou entendem, mas escondem, propositalmente, os resultados, para contar meias-verdades?

O último recurso

Julian Simon, economista, é famoso por ter criado o termo o último recurso que, na verdade, é o que nos lembra que nem só de demanda vive a economia, mas também da oferta e, claro, do último recurso que somos nós, especificamente, nossa capacidade criativa.

Assim, por exemplo, eu me pergunto o quanto o inventor disto não fez pelo bem da humanidade. É, tem um pouco de bom humor, mas tem um fundo de verdade nisto. ^_^

Preferências podem ser afetadas por divulgação de “rankings”?

Duvido um pouco disto, mas com algum fundamento empírico, a gente pode discutir, não é mesmo? Então, uns pesquisadores resolveram olhar para a grande loja Amazon e:

Our society is increasingly relying on digitalized, aggregated opinions of individuals to make decisions (e.g., product recommendation based on collective ratings). One key requirement of harnessing this “wisdom of crowd” is the independency of individuals’ opinions; yet, in real settings, collective opinions are rarely simple aggregations of independent minds. Recent experimental studies document that disclosing prior collective ratings distorts individuals’ decision making as well as their perceptions of quality and value, highlighting a fundamental discrepancy between our perceived values from collective ratings and products’ intrinsic values. Here we present a mechanistic framework to describe herding effects of prior collective ratings on subsequent individual decision making. Using large-scale longitudinal customer rating datasets, we find that our method successfully captures the dynamics of ratings growth, helping us separate social influence bias from inherent values. Leveraging the proposed framework, we quantitatively characterize the herding effects existing in product rating systems and promote strategies to untangle manipulations and social biases.

Pois é. O problema destes trabalhos de “big data” é que, às vezes, a tentativa de tentar descobrir tudo a partir dos dados (inclusive para se construir teorias), a gente fica perdido. Eu sei, você vai dizer que estou pensando muito em termos da Methodenstreit que ocorreu na economia no passado. Na verdade, a grande lição daquele debate, para mim, é que sempre há uma teoria oculta em nossa coleta de dados.

Posto isto, não jogue fora estudos no estilo big data só porque não tem um modelo de otimização dinâmica. Afinal, o problema pode ser que não temos um bom modelo ainda e, bem, olha o nó de novo…

De qualquer forma, enquanto não temos o conhecimento final (nunca o teremos) sobre o comportamento do consumidor, eu diria que vale a pena continuar pesquisando com todas as metodologias possíveis. Algumas, de tão ruins, serão deixadas de lado – se o ambiente científico for competitivo, claro! – e teremos sempre um entendimento mais rico, marginalmente falando, do comportamento do consumidor. Aliás, creio que o pessoal que curte economia comportamental aqui no Brasil já percebeu que, sem dados, nada feito.

Bom, sobre o artigo…bem, dê uma lida. ^_^

Preferência intertemporal: qual sua origem?

A preferência intertemporal é endógena? Bem, em um modelo mais amplo, é. Como é que a gente investiga isto? Empiricamente há como testar isto? Perguntas difíceis, eu sei, mas vejam que legal este texto para discussão de Galor & Özak (2014). Eis um trecho (notem que não estou seguindo a ABNT, mas, enfim…):

As hypothesized and established theoretically, the inherent rate of return associated with crop yield, conditional on the crop growth cycle, might have had a persistent positive effect on the rate time preference. In particular, the theory predicts that the rate of time preference had gradually declined in societies in which the ancestral population was exposed to a higher crop yield (conditional on the crop growth cycle), as the representation of individuals with higher long-term orientation had gradually increased in the population. In order to test the proposed hypothesis, this research constructs measures of historical potential crop yield and crop growth cycles across the globe and examines their persistent effect on a range of existing proxies for time preference, at the individual, regional, and national levels, accounting for continental as well country fixed effects. [Galor & Özak (2014) – texto citado – p.14]

Pois é. Interessante, não? O estudo fala de tudo o que é interessante: dotações, valores culturais, enfim, tudo o que deveria chamar a atenção de estudiosos do desenvolvimento econômico. Vou salvar para ler depois porque, afinal, é um belo material para se usar em sala de aula (problemas de econometria) e também para se pensar em novas possibilidades de pesquisa.

Ah sim, vejam esta figura (retirada do texto) sobre os grãos potenciais nas Américas, pós-1500. Na região da América do Sul, antes do início da colonização, era tudo azul (não estou brincando, falo da legenda ao lado do mapa. Clique na figura para ampliar).

crops2

De volta para o futuro e a restrição orçamentária não-rígida

Eis um texto para discussão interessante. Diz o resumo:

The rise and fall of De Lorean Motor Cars Limited (DMCL) has been raditionally interpreted as the result either of John De Lorean’s psychological flaws or as confirming the supposedly inherent weaknesses in activist industrial policy. However, when the episode is examined in more detail, neither of these interpretations is compelling. This paper’s reinterpretation draws on a range of archival evidence, much of it previously unreleased. The concept of Soft Budget Constraints (SBCs), as pioneered by Kornai, is applied to this evidence. The roles of both government and market failure and the contents of the original contractual agreement are highlighted. The soft budgets promoted by the agreement were in turn traceable to the institutional environment under which industrial policy operated in Northern Ireland. This institutional environment had itself been distorted by the Troubles and the fears policymakers had that a cumulative causation situation existed. Kornai’s framework helps us piece all the evidence together.

A síndrome da restrição orçamentária não-rígida (ou frouxa) tem consequências? Tem. Na verdade, ela nos ajuda a entender melhor a importância dos incentivos negativos oriundos da intervenção do governo na economia. Segundo o autor:

Kornai concludes that while market-orientated economies tend to create innovative results, the outcome is a far from inevitable. He has argued that capitalism’s tendency for
entrepreneurship, innovation and dynamism is merely an inclination rather than a scientific law. His analysis indicates that other factors, such as the social, political and legal environment, are crucial in economic explanation (Kornai, 2010) [Graham (2014) – o texto acima – p.6]

Penso no trabalho de Kornai como um complemento às teorias de Escolha Pública (acho até que é apenas uma aplicação das mesmas), com a vantagem de nos mostrar o canal de transmissão pelo qual uma intrusão política pode acabar com o dinamismo econômico do setor privado.

A gente fica pensando um pouco e vê como as coisas são, não? Todo mundo que lê o Schumpeter adora a história da destruição criativa, mas não é difícil perceber que empresários que não são favorecidos neste processo correrão pelo socorro do governo. O que nem sempre se percebe é que os que vencem o processo também são assediados pelo governo (ou eles mesmos se adiantam e correm por um subsídio).

O autor do texto levanta a questão central: em discussões de políticas industriais, geralmente se esquece da síndrome da restrição orçamentária não-rígida e, claro, a omissão desta variável pode alterar terrivelmente as conclusões sobre o bem-estar social gerado porque, na verdade, os custos podem estar incrivelmente subestimados.

Você sabe que a inflação voltou quando…

Fullscreen capture 12212014 102804 AM-001Preciso dizer mais alguma coisa? Acho que não, né? Olhem aí, amigos, o anúncio do guia de cervejas do Estadão para IOS e Android. Eles poderiam ter colocado o valor em reais, mesmo que as lojas de aplicativos façam a conversão, claro.

Mas, honestamente, é mais legal com o consumidor que vive no país da política econômica esquizofrênica atual que gera inflação e diz que não o faz colocar o preço em dólares mesmo, né?

A lei do trabalho de Tavares Bastos e o custo de oportunidade (e um pouco sobre o Estado-Leviatã)

Qual é a grande lei do trabalho? É o progresso, isto é, o aperfeiçoamento do trabalho, seja publico, seja privado, se mede pela sua economia, economia de serviço pessoal que corresponde á economia de tempo, economia de tempo que redunda em economia de dinheiro.

Pois bem: nossa administração parece mover-se por uma lei inversa. Nella o tempo não é dinheiro; o tempo é remedio. [Tavares Bastos, A.C. Cartas do Solitário, (1863), p.4-5, segunda edição]

É, gente, ele já sabia o conceito de custo de oportunidade. O que dizer da ineficiência de nosso Estado Brasileiro (sim, em maiúsculas, para que não tente se esquivar…)?

Mas, poderei em vão recordar aos contribuintes que a sua posição de reclamante, no thesouro e nas suas filiaes, é ainda mais desigual? A avareza do fisco e a sua sem-ceremonia, atropellando até os proprios regulamentos, quando trata de receber, correspondem perfeitamente á sua insupportavel lentidão quando trata de pagar. [Tavares Bastos, A.C. idem, p.6-7]

Pois é. Nossos historiadores do pensamento econômico brasileiro até hoje não se debruçaram sobre Tavares Bastos. Por que? Não sei. Só sei que é uma tarefa promissora, na pior das hipóteses, uma visita ao estudo das instituições (no sentido de North) de nosso passado.

Nos tempos que correm

Este é um longo texto de Eugênio Gudin, originalmente publicado em 04/06/1962 e reproduzido no livro Para um Brasil Melhor, da (falecida) APEC Editora. Achei que valia a pena reproduzí-lo aqui porque tem algo muito irônico em ler este antigo texto e pensar na situação atual. Somente no último parágrafo tive que usar os tradicionais “sic” para indicar dois prováveis erros (creio que certos…) de grafia.

Antes de começar a ler, lembre-se que em 1962 não existiam muitas defesas contra a inflação (a indexação, que de remédio passaria a doença, só seria inventada depois, ainda na década dos 60). O texto é longo, mas vale para refletir sobre o que vivemos hoje.

Nos tempos que correm

Encontrai há dias o meu jovem amigo Josué, que não via há muito tempo. Josué tem agora três rapazes, todos cursando o primário.

Disse-me que o mais velho é um menino de boa saúde, ambicioso e pouco dado aos estudos; destinava-o à carreira de estivador, onde poderia fazer fortuna e chegar talvez a presidente do sindicato; o segundo também não gostava de estudar, mas tinha excelente disposição para a natação e para as lides do mar; destinava-o à Marinha Mercante, onde começaria como taifeiro, com remuneração equivalente à de capitão-de-corveta, podendo até chegar a cozinheiro de bordo ou a mestre de lancha, onde faria fortuna. Preocupava-o mais o terceiro, que puxara ao avô materno; vivia com o nariz metido nos livros e pedia explicações de tudo; para êsse êle não via futuro; acabaria talvez como estudante de engenharia, carreira sem futuro…

Aventurei algumas tímidas ponderações e indaguei da formação moral dos meninos e de suas tendências. Declarou-me Josué que isso eram considerações ‘superadas’ e que só os ‘inadaptados’ nos tempos que correm lhes dariam qualquer primazia. Em apoio do que dizia passou a mão em um folheto que estava sôbre a mesa e leu-me o seguinte trecho de uma entrevista do Sr. Zulfo de Freitas Mallman, presidente do Centro Industrial.

Nos últimos 25 anos têm-se avolumado no País modos de proceder inimagináveis. E é espantosa a tolerância, a transigência e a quase aceitação da desonestidade e da apropriação, principalmente, dos dinheiros públicos. O sistema de agir desonestamente vem-se generalizando de forma assustadora. De um lado, o regime de irresponsabilidade dos atos lesivos praticados; e do outro, a nossa capacidade impressionante de votar êsses atos ao esquecimento.

E ainda me tapou a bôca com a citação do caso que eu próprio contara, de um indivíduo que depois de grandes falcatruas fêz-se fotografar com o Presidente da República no Palácio do Govêrno.

O essencial, prosseguia o meu amigo, é não deformar a personalidade das crianças, que deve se expandir pela lei da natureza. Porque o homem não pode pretender corrigir a obra de Deus. Olhe, dizia-me êle, não sei se você já notou que aqui em casa está tudo quebrado: cadeiras, pratos, copos, objetos. Mas isto não tem a menor importância; são desgastes materiais; o que importa é que a personalidade dos meninos não foi atingida. Não se sacrificaram valôres humanos a postulados empíricos do convencionalismo burguês!

Veja você, por exemplo, continuava Josué, o caso do Nélson, o segundo menino, que é afilhado do nosso amigo Tobias, professor da cadeira de Estabilidade Social na Faculdade de Filosofia. Todos os anos o padrinho presenteava o afilhado, em seu aniversário, com uma quantia depositada na Caixa Econômica. Quando o menino completou 7 anos, cursando o primeiro ano do primário e sabendo assinar o nome, fiz-lhe entrega da caderneta da Caixa com uma meia dúzia de contos de réis. O menino torrou, sem mais demora, essas economias em um jantar no Restaurante da Peteca, para o qual convidou os colegas e em que se quebrou muita louça. Você pode imaginar a minha satisfação de constatar não só a capacidade de iniciativa e de decisão do menino, como a sua visão inflacionista de que êsse dinheiro, no ano seguinte, já não daria para pagar a metade sequer do jantar! Além do que, a retirada do dinheiro é uma reação contra as explorações que os bancos praticam com o dinheiro da gente!

Devo dizer-lhe, aliás, acrescentou Josué, que já tive notícias de que o menino está com boas possibilidades de ser escolhido para a presidência do sindicato estudantil do curso primário. Essa indicação parece ter partido dos que o ouviram nesse mesmo jantar, tecer comentários elogiosos ao discurso do Brizola e à política ‘independente’ do Jânio e do San Tiago Dantas. Você já sabe de certo que dora em diante os estudantes vão ter maioria nas congregações das faculdades e dos ginásios.

É só esperar mais alguns anos, e você verá como essa nova geração vai acabar com os preconceitos da hierarquia, no País e no estrangeiro, e dar cabo da política caudatária que temos seguido e de que se aproveitam os americanos para nos espoliar…

Você não imagina, seu Gudin, como eu tenho aprendido de uns anos para cá com êstes meninos. Aquêle preconceito de nosso tempo, do ‘saber de experiência feito’ e de acatamento convencional aos ditames de pais e professôres, era uma balela, hoje completamente superada; um simples pretexto para impedir que o vigor e as energias da nova geração dominassem e orientassem o progresso da Nação. Outra não é a razão por que vocês economistas, hoje lamentam que o Brasil ainda seja, nesta altura dos acontecimentos, um país subdesenvolvido.

Felizmente, isso vai mudar; na verdade, já está mudando. Repare como o Juscelino meteu os pés nos famosos tabus da inflação e do tal Fundo Monetário e como êle reclama agora o direito de metermos o pau no dinheiro dos americanos nas obras da ilha do Bananal, sem lhes dar satisfações…

E isto é só um comêço. O Juscelino, o Brizola, o Corbisier, são apenas os primeiros rebentos da Nova Mentalidade; ainda não são protótipos do Brasil nôvo. Você vai ver daqui a alguns anos, quando êstes meninos crescerem…

Confesso que voltei para casa impressionado como (sic) a dissertação filosófica de Josué. O fato é que daquele dia para cá não voltei a pegar em livro de Economia. Tenho a sensação de tôda a Civilização Ocidental, desde Aristóteles até Newton e Einstein está ‘superada’. O futuro é da Bossa Nova, encarnada nos filho (sic) do Josué…

Melhores do Ano – Livros

Vou contar para vocês uma coisa. O melhor do livro do ano, para mim, não foi um livro de economia, mas o Mussum Forévis da editora Leya. Não é um livro de economia, não conta a história do dono da Apple, mas acho que fala da economia brasileira como ninguém. Talvez eu faça uns vídeos comentando o livro. Vamos ver.

smithOutro bom livro, acho que em segundo lugar, foi o do Russ Roberts, o How Adam Smith Can Change Your Life. Muito legal e esclarecedor. Ajudou-me a, inclusive, pensar em algumas coisas da vida mundana em uma perspectiva mais, digamos, smithiana (se é que já não o faço quase todo o tempo…).

Capa1_livro_Mae_aos_40_-_Marcia_SandyO terceiro – que ainda estou lendo – é o Mãe aos 40, da minha amiga e antiga colega de colégio, Marcia Sandy. Este é divertido pacas. O estilo lembra muito o meu Tire a Mão da Minha Lingüiça, já esgotado e sepultado. Talvez o que me deixe mais curioso é a possibilidade de que tenhamos todos, nós, os quarentões, algum estilo comum de redigir de forma bem-humorada.

O quarto – que também estou lendo – é o A Valise do Professor, de Hiromi Kawakami. Acho que só no Japão sou capaz de encontrar tantos livros que tenham, em algum momento, um personagem professor. Desde o clássico Botchan, de Souseki Natsume, até os dias de hoje, a literatura japonesa parece estar povoada de professores como nenhuma outra. Ou então é viés de seleção mesmo. Este livro me agradou muito pelo estilo: a autora é contemporânea, mas a narrativa é como a de Souseki ou de Oogai Mori, meus preferidos lá do século XIX.

Nem todos são lançamentos de 2014, mas, ei, minha lista é dos melhores livros que eu li este ano, ok?

Metodologia Pedagógica – Usando o R para organizar seus argumentos na hora de tirar dúvidas

Culturas perdidas, hábitos piorados

Há uma cultura que se perdeu com a péssima pedagogia brasileira, a despeito das boas intenções de alguns: a forma de se tirar dúvidas com o professor. Há mais de 15 anos leciono e vi piorar uma prática simples. Casos bizarros? Posso contar vários. Por exemplo, o caso mais comum e absolutamente insano é o do aluno que encontra o professor na calçada, já fora da faculdade, de maneira aleatória e antes de qualquer coisa, solta um: “- Professor, tenho uma dúvida…”. Como se isso fosse normal.

Tirar uma dúvida com o professor não é algo que surge na sua cabeça de repente, ao vê-lo. Faço idéia as dúvidas que o sujeito não tem sobre sua existência ao dar de cara com um bode, uma foto da Dilma ou um bem-te-vi. Sim, meus caros, é bizarro.

A primeira coisa que você deve fazer, neste caso, seria cumprimentar o professor e perguntar-lhe pelos horários de dúvidas. Simples assim? Nem tanto. A ocorrência bizarra descrita é sintoma de algo mais grave e profundo: a desorganização. Sim, porque quem acha que pode tirar uma dúvida no meio da rua (ou no mictório), provavelmente vai perguntar algo incompreensível para a espécie humana.

O que é a dúvida e como sair desta fria

A dúvida surge de um processo doloroso e lento chamado “estudo”. O “estudo”, bem, este você já deveria saber o que é. Você, primeiro, lê a matéria, tenta entendê-la com o livro-texto indicado ou, se necessário, complementa sua compreensão com outros livros (é sempre menos burro pensar assim, por comparação, até porque podem haver erros de tradução em alguns livros, quando for este o caso). Isto dura dias, não minutos. Além disto, há os exercícios. Ok, o resto você já conhece.

Usando a Reproduci(ti)bilidade

Mas na hora de tirar a dúvida, supondo que você já se reeducou até aqui, ainda assim a coisa pode ficar feia. Por que? Porque você não sabe por onde começar. Ora, é aí que entra o principal tema do meu texto: você deve pensar como pensam os programadores, notadamente a galera que usa o R. Você deve tentar reproduzir seu problema para o professor. Isto não é sinônimo de jogar a batata quente no colo dele, como um javali correndo que tromba na panela do guisado e derrama tudo.

A palavra é a reproducibilidade (nunca sei se a tradução correta é esta ou reprodutibilidade) e nem é um nome tão lindo assim para uma prática bem trivial. Vou adaptar os passos descritos por Wickham para nossa situação.

1. Você deve ter uma lógica ao resolver um exercício. Geralmente há uma teoria por trás. Certifique-se de tê-la bem memorizada (no sentido de apre(e)ndida) ao se preparar para tirar a dúvida.

2. Exercícios específicos possuem dados/informações específicas. Não cometa o erro de entrar na sala do professor sem eles. É constrangedor para você e sinaliza ao professor que você não é um aluno que se empenha. Afinal, que tipo de sujeito reivindica a atenção do professor mostrando-se como um despreparado? Então, não se esqueça disto.

3. Mostre ao professor seu exercício, documentado. Ou seja, descreva (ou tenha por escrito, quando for o caso) a descrição de cada passo (cada passo mesmo) do que fez. Ou seja, não pule etapas. Você pode se lembrar delas, mas se você é quem tem dúvidas, deve deixar claro ao professor (que lerá seu exercício) tudo o que você fez. Ou seja, vale a pena você investir um bom tempo detalhando seus passos de maneira que qualquer um possa entender o que está escrito. Use uma simbologia simples, comum às aulas ou ao livro-texto (ou à maioria deles, claro).

4. Indique claramente onde (em que etapa) ocorreu o problema. Caso você tenha usado mais de uma fonte bibliográfica, deixe isso claro também.

Exemplo?

Olha, se você quer um exemplo, veja o texto do Wickham, aplicado ao contexto do R. Para nós, que não estamos nos preocupando exclusivamente com o R, considere este breve exercício de oferta e demanda.

D = a – bP e O = c + dP com o equilíbrio: D = O

O aluno que deseja tirar a dúvida, estaria em minha sala com o livro-texto do qual tirou a pergunta e o caderno, com sua resolução. Teríamos algo como (suponha que o que se segue em itálico é o caderno do aluno):

Da demanda e da oferta e da condição de equilíbrio, obtive: 

a – bP = c + dP 

Em seguida, encontrei P de equilíbrio, que chamei de P*: P* = (a + c)/(d + b). Mas a resposta não confere com o gabarito.

Pronto. Não tivemos muitos passos para analisar. Primeiro, temos que lembrar ao aluno que encontrar o equilíbrio, neste exercício, implica em encontrar Q* e P* e que ele está parado no meio do problema. Onde está o erro? Na álgebra elementar. Ele isolou P mas errou o sinal de “c” no meio de suas contas. Basta ele notar que se o denominador é “(b+d)”, então…

Como se corrige isto? Com prática. O aluno deveria fazer mais e mais exercícios como este, similares, para se certificar de que não cometerá um erro algébrico. Outro ponto é pensar no que se faz. Não se trata de um problema matemático apenas, mas sim de um problema econômico. Logo, não é só encontrar P*, mas Q* e interpretar o que significam.

Conclusão

Não é apenas parar o professor na rua, no banheiro ou no corredor, e sair despejando frases, né? Tem que trabalhar um pouco. Mas, convenhamos, não é tão difícil assim, é? O processo é auto-educativo. Ao buscar sua dúvida, claro, pode ser que você a resolva sozinho, o que é ótimo. Caso isso aconteça, ótimo: você usou o seu tempo de forma eficiente e também ajudou o professor a usar o tempo dele também desta forma.

hehehe

Arquétipos e o Diagrama de Nolan: Dica R do dia

profsmith2

From the Jorge Cham’s amazing “The PhD Movie”.

Olha, eu não sei não se não deveríamos parar com estes diagramas prontos e buscar um estudo mais profundo sobre os arquétipos dos indivíduos. Isto me passou pela cabeça ao ler o início deste texto do Joel Caldwell:

Carl Jung was at least partially correct. We do tend to think in terms of the extremes as shown in this archetypal wheel with rulers versus outlaws and heroes versus caregivers at different ends of bipolar dimensions. Happily, we are not required to accept Jung’s collective unconscious to explain this tendency.Metaphorical thinking works just fine. For example, why not separate all political players into two camps based on our earliest experiences with powerful others: liberals as caregivers (supportive mothers) and conservatives as heroes (demanding and punishing fathers)?

Preferências de consumidores não se restringem apenas a produtos, mas também a ideologias políticas. Também somos consumidores de fantasias, não é? No diagrama de Nolan, somos apresentados a um esquema fechado, no qual escolhemos entre algumas perguntas. Serve como brincadeira, mas não sei se é lá muito útil para descrever padrões sociais. Voltando ao R, autor do texto que citei acima resolve investigar a bipolarização política dos eleitores norte-americanos:

That is, instead of describing the two clusters using their centroids positioned near the “humps” in the two curves, archetypal analysis attempts to describe political ideology in terms of idealized liberals and conservatives. These are not necessarily the most extreme points, as the archetypes R package makes clear with displays such as the following showing both the convex hull of the most extreme data points in gray and archetypes as the vertices of the internal red triangle.

Ok, você precisa ir lá ver as figuras que ele gerou. Mas o que me chama a atenção é que sempre ouço reclamações de pessoas sobre resultados de eleições baseadas em algum tipo de “ele não sabe votar” ou “ele é cego pela ideologia”. Na verdade, este raciocínio é um pouco estranho porque todos nós temos nossos tipos ideais – que geralmente é caricaturizado (existe o verbo?) pelo diagrama de Nolan – e, portanto, somos tão “cegos” quanto eles.

Posto isto, então a questão não faz sentido. O mais interessante seria pesquisar os pontos ideais de cada um e verificar se existe um padrão. De vez em quando, alguns institutos de opinião fazem este tipo de pesquisa. Eu gostaria, portanto, de saber onde está o eleitor mediano brasileiro em um diagrama menos, digamos assim, ad hoc do que o de Nolan.

Por que alguns vendedores são mais insistentes e chatos do que outros?

Why are Some Salespeople More Aggressive than Others?
Wan-Ju Iris Franz
Abstract
Why are salespeople in certain industries (such as cars and mattresses) aggressive, while their counterparts in other industries (such as luxury boutiques) relatively customer-oriented? Using a principal-agent-customer model, this paper demonstrates that the level of salesperson aggressiveness depends on: (1) the proportion of customers with a high willingness to pay; (2) whether or not customers are well-informed and (3) repeat customers. If the proportion of customers with a high willingness to pay is relatively large, then salespeople tend to be customer-oriented. By contrast, if the proportion of customers with a high willingness to pay is relatively small, then salespeople tend to be aggressive toward uninformed customers while well-informed customers shun the store. Finally, if the proportion of customers with a high willingness to pay is relatively small, then in an infinitely repeated game, the agent can close sales with well-informed customers without being aggressive, provided that the principal is patient enough about future profit.

Este é um tópico bom para aquela galera que curte um problema de agente-principal, não? Não é um artigo grande, nem muito complicado de se ler, embora possa ser tedioso por conta das demonstrações. Entretanto, o ponto central é simples: não é apenas a comissão do vendedor, mas também a proporção de consumidores com altos preços de reserva (ou, se quiserem, high willingness to pay).

Taí uma forma de se falar de marketing como ciência sem cair no lero-lero dos livros de auto-ajuda que empesteiam a a área, né?

Olha que texto bacana.

Prediction Markets and Election Polling: Granger Causality Tests Using InTrade and RealClearPolitics Data
Christopher Duquette, Franklin G. MixonJr., Richard J. Cebula and Kamal P. Upadhyaya


Abstract

This study tests for direct causality between RealClearPolitics (RCP) polling averages and InTrade (IT) share-prices by performing Granger causality tests. These tests are applied to the 2012 U.S. presidential election campaign between Barack Obama and Mitt Romney. Three time series are considered in this analysis of causal links between RCP and IT. In all of the estimations, the null hypothesis that IT does not Granger cause RCP cannot be rejected. On the other hand, the null hypothesis that RCP does not Granger cause IT is rejected in a majority of cases. Overall, these results imply that RCP Granger causes IT. While the behavior of participants in prediction markets such as InTrade is informed by political polling, these Granger causality test results suggest that prediction markets add little to what is forecasted by the polls, particularly aggregation polls such as that from RealClearPolitics, regarding the outcome of presidential elections.

Fala a verdade: você queria ter escrito este artigo, né?