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Momento R do Dia – Penn World Tables 8.0 e a Propensão Média a Consumir de cada país

Fazia tempo, heim? Mas hoje um aluno me perguntou sobre algo que falei no início do semestre (é…alguém não prestou atenção…): consumo. Mais especificamente, sobre a propensão média a consumir.

Eu acredito que o bom aluno não tem apenas que perguntar, mas também pesquisar e pensar nas implicações do que pergunta. Para ajudar, vou fazer um cálculo simples e rápido que ilustra dois pacotes do R, um que apenas tem a base de dados (“pwt8”) e o outro que aplica uma função para calcular a propensão média a consumir média para cada país.

Explico: a base de dados tem 127 países e cada qual tem variáveis para o período 1950-2011. Nem todas as variáveis estão, entretanto, registradas, para todos os países. Assim, por exemplo, a propensão média a consumir que calculo para o Brasil a seguir é a média das propensões médias deste período (uma propensão média “média” a consumir, por assim dizer). Já para Angola, que não tem os dados para todo o período, eu também calculo esta mesma variável, mas excluindo os períodos em que não há valores para uma, outra ou ambas as variáveis.

O código abaixo possui as explicações mais ou menos detalhadas.

# como sempre...você só instala uma vez. Ou seja, depois não precisa mais destas duas linhas de
# comando. O pacote plyr tem o famoso conjunto de comandos "apply" (lapply, sapply, etc).

install.packages("pwt8")
install.packages("plyr")

# carregamos o pacote, carregamos a base de dados do pacote.
library(pwt8)
data("pwt8.0")
names(pwt8.0)
# como exemplo, eis o pib per capita calculado para todos os anos, todos os países
pwt8.0$cap <- pwt8.0$rgdpe / pwt8.0$pop

# agora calculo a propensao media a conumir. Primeiro, calculamos o consumo, pela multiplicacao
# da participação do consumo sobre o PIB vezes o PIB. Veja a documentação de pwt8 para ver
# a definição de csh_c e cgdpe. Note que, na primeira linha, gero o consumo e, em seguida,
# na segunda linha, a Propensão Média a Consumir (C/Y) para cada ano. 

pwt8.0$cons<-(pwt8.0$csh_c)*pwt8.0$cgdpe
pwt8.0$pmec<-pwt8.0$cons / pwt8.0$cgdpe

# agora vamos criar um data.frame com a base e vamos chamá-la de "dta.
# Para ter uma idéia, usamos "head" para ver as primeiras linhas do arquivo.

dta <- data.frame(pwt8.0)
head(dta)

# tudo parece ok. Repare que, como indexei "cons" e "pmec" pela pwt8.0 lá em cima, agora elas
# fazem parte da base de dados pwt8.0 que, nestes comandos acima, transformei em uma estrutura
# de data.frame (não precisava, mas é útil fazê-lo para outras coisas...).
# Agora carregamos os comandos de plyr

library(plyr)

# vamos usar "ddply" (leia a documentação do pacote ou veja as dicas mais adiante no post)
# repare que o comando utiliza a base "dta", organiza por código de país ("isocode"),
# pede um sumário, por país da variável "pmec_media" que é a media das pmec calculadas
# anteriormente, ignorando os anos em que houve algum dado faltante ("na.rm=TRUE"). 

ddply(dta, ~ isocode, summarize, pmec_media = mean(pmec, na.rm=TRUE))

Agora, vejamos o resultado. Para ver mais detalhes, veja a documentação de pwt8 e plyr. Outras dicas são esta e esta.

isocode pmec_media
1 AGO 0.2698527
2 ALB 0.5749997
3 ARG 0.7098281
4 ARM 0.7371243
5 ATG 0.5383594
6 AUS 0.5989834
7 AUT 0.6242973
8 AZE 0.4728226
9 BDI 0.8484496
10 BEL 0.5939900
11 BEN 0.6626455
12 BFA 0.7358716
13 BGD 0.8368961
14 BGR 0.5891358
15 BHR 0.5313741
16 BHS 0.6305308
17 BIH 0.8930009
18 BLR 0.5099687
19 BLZ 0.7110097
20 BMU 0.9430771
21 BOL 0.6384951
22 BRA 0.6557681
23 BRB 0.9176295
24 BRN 0.1783046
25 BTN 0.4300709
26 BWA 0.5208991
27 CAF 0.6800754
28 CAN 0.6121375
29 CHE 0.5868197
30 CHL 0.6855206
31 CHN 0.5494199
32 CIV 0.7488742
33 CMR 0.7527335
34 COD 0.6749305
35 COG 0.4382671
36 COL 0.7529843
37 COM 0.5984154
38 CPV 0.6978079
39 CRI 0.8358405
40 CYP 0.5574062
41 CZE 0.5002645
42 DEU 0.5809886
43 DJI 0.6269397
44 DMA 0.6015103
45 DNK 0.5624745
46 DOM 0.7318125
47 ECU 0.6132193
48 EGY 0.6695550
49 ESP 0.6522298
50 EST 0.5297069
51 ETH 0.7811232
52 FIN 0.5024147
53 FJI 0.6368589
54 FRA 0.5974393
55 GAB 0.4527526
56 GBR 0.6328932
57 GEO 0.7129032
58 GHA 0.7278015
59 GIN 0.7263120
60 GMB 0.8160562
61 GNB 0.8856748
62 GNQ 0.4649407
63 GRC 0.6865936
64 GRD 0.7845137
65 GTM 0.8610200
66 HKG 0.5691085
67 HND 0.7746579
68 HRV 0.5953630
69 HUN 0.5360931
70 IDN 0.5866937
71 IND 0.7005359
72 IRL 0.6487952
73 IRN 0.4866217
74 IRQ 0.3241603
75 ISL 0.5204941
76 ISR 0.5020997
77 ITA 0.5891751
78 JAM 0.7392437
79 JOR 0.7085971
80 JPN 0.5370400
81 KAZ 0.5876354
82 KEN 0.8001836
83 KGZ 0.6266033
84 KHM 0.8267202
85 KNA 0.6442140
86 KOR 0.5968393
87 KWT 0.2970611
88 LAO 0.5390379
89 LBN 0.8995980
90 LBR 0.8636384
91 LCA 0.8534209
92 LKA 0.6632201
93 LSO 1.2219911
94 LTU 0.6099957
95 LUX 0.5703499
96 LVA 0.5631248
97 MAC 0.3930121
98 MAR 0.6934141
99 MDA 0.7019827
100 MDG 0.8074133
101 MDV 0.1832236
102 MEX 0.7255086
103 MKD 0.7062246
104 MLI 0.7376391
105 MLT 1.3556602
106 MNE 0.5621934
107 MNG 0.5627013
108 MOZ 0.9719093
109 MRT 0.6465644
110 MUS 0.7040063
111 MWI 0.7647157
112 MYS 0.5356852
113 NAM 0.6724800
114 NER 0.5999834
115 NGA 0.6010883
116 NLD 0.5312290
117 NOR 0.4914107
118 NPL 0.7126890
119 NZL 0.6175504
120 OMN 0.3364292
121 PAK 0.7486567
122 PAN 0.6806284
123 PER 0.7052688
124 PHL 0.6864944
125 POL 0.5937320
126 PRT 0.6926333
127 PRY 0.6934128
128 QAT 0.2613939
129 ROU 0.5638809
130 RUS 0.4876037
131 RWA 0.7233076
132 SAU 0.3245511
133 SDN 0.9571723
134 SEN 0.7633639
135 SGP 0.4474048
136 SLE 0.8428216
137 SLV 1.2248291
138 SRB 0.6809770
139 STP 1.1072268
140 SUR 0.6335978
141 SVK 0.5602101
142 SVN 0.5883688
143 SWE 0.5505727
144 SWZ 0.7613371
145 SYR 0.6650626
146 TCD 0.2787636
147 TGO 0.7384517
148 THA 0.5818592
149 TJK 0.5880398
150 TKM 0.3464478
151 TTO 0.6275485
152 TUN 0.6485752
153 TUR 0.6332986
154 TWN 0.5346673
155 TZA 0.4372538
156 UGA 0.6687535
157 UKR 0.5639214
158 URY 0.7252260
159 USA 0.6825835
160 UZB 0.3869788
161 VCT 0.7430303
162 VEN 0.4057366
163 VNM 0.7126157
164 YEM 0.6690849
165 ZAF 0.6422902
166 ZMB 0.7610378
167 ZWE 0.6292824

Bonito, heim? Repare que um ou dois países deveriam ter seus dados analisados com cautela e não é difícil entender o porquê.

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Inferno macroeconômico

Sempre há quem, em sala, pergunte sobre como interpretar a realidade brasileira com um pobre e inocente IS-LM. Bem, eu simplifiquei um bocado e elaborei esta “questão” que, em uma prova, poderia levar horas, horas, horas e, claro, horas para um aluno resolver. Aqui está.

Claro, tem também esta outra prova, que encontrei escondida, dobrada, em uma etiqueta de uma blusa…(clique na bonequinha para ampliar).prova_escravo

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Povo nas ruas…dá comício ou não?

20141115_144714Questão difícil, não? Os cientistas políticos, outrora, eram todos favoráveis – ficavam até assanhados! – à participação popular. Agora, alguns deles acham que participação só é boa para quem lhes paga bolsas. Tá, é um critério. Mas é ruim.

De qualquer forma, há algo interessante na participação popular em eventos como estes. Afinal, o evento é um bem público e, como tal, pode sofrer de incentivos para sua existência. Alunos de Ciências Econômicas deveriam esperar que não existissem comícios ou passeatas. Já os alunos de outros cursos dizem que os eventos devem existir. Quem tem razão?

Acho que a pergunta é outra. A pergunta é se existe capital social (no sentido de Putnam) suficiente para integrar interesses de pessoas distintas na oferta de um bem público. Já estudou bens públicos? Não? Pois é…

 

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A natureza humana, segundo Adam Smith, e sua conta de água

Diz-nos Roberts (2014) em seu estudo informal sobre a Teoria dos Sentimentos Morais de Adam Smith que nosso patriarca teve ótimos insights que poderíamos usar como pequenas dicas para nos tornarmos pessoas melhores. Há quem veja neste livro um Adam Smith diferente daquele que escreveu A Riqueza das Nações, mas, honestamente, lendo o resumo de Roberts, não vejo traços de esquizofrenia ou mudança de opinião tão radicais.

Aproveitando minha recente exposição às palestras apresentadas no encontro entre psicólogos e economistas lá na USP, repare neste interessante trecho de Smith citado por Roberts:

“There is, however, this difference between grief and joy, that we are generally most disposed to sympathize with small joys and great sorrows” [Adam Smith, obviamente, apud em Roberts, Russ (2014). How Adam Smith Can Change Your Life, Penguin Books, 134]

Em outras palavras, Smith acreditava que as pessoas tinham uma reação assimétrica em relação a eventos que ocorrem a terceiros. Algo mais ou menos assim: se o evento lhe causou uma desgraça grande, sou-lhe simpático. Agora, se você obteve algum sucesso, sou-lhe simpático se este não foi um “grande” sucesso.

Seria isto uma curiosidade ou apenas um bom insight? Não. Há mais sabedoria aí. Sabedoria que podemos usar para melhorar o mundo à nossa volta. Tome-se o caso relatado por Alex Laskey, sobre como um bom incentivo para tornar o consumo de água mais racional não precisa ser um apelo para sua economia, mas sim um apelo para seu desempenho ‘inferior’ ao de seus vizinhos (video com legendas aqui).

Gosto de pensar neste incentivo citado por Laskey como um exemplo de aplicação desta idéia de Adam Smith, ainda que possa não ter sido diretamente inspirado nos escritos do celebrado pai da economia. Já que existem evidências de que o sucesso alheio nos afeta, por que não utilizar isto em nosso favor?

No caso relatado por Laskey, a queda no desperdício de água de uma família é atribuído à forma como a conta de água é entregue, com comparações relativas de desempenho, mostrando, ao consumidor, que seu desempenho é melhor ou pior do que seu vizinho/bairro/famílias de tamanho similar, etc. Ou seja, ao saber que tenho um desempenho pior que o seu, tento me sair melhor no próximo mês, economizando mais água. Um pouco de competição, claro, baseado no fato de que seu desempenho melhor me deixa incomodado.

Pensando em Adam Smith, teríamos algo mais ou menos assim: recebo a conta de água e percebo que fui muito pior do que os vizinhos. Isto me incomoda e, sem fazer alarde, faço de tudo para subir no ranking. Não parabenizo tanto o vizinho que foi muito melhor do que eu, mas começo a me esforçar para economizar mais água. No caso em que fui melhor que os outros, provavelmente, tentarei comparar explicitamente minha conta com o vizinho, lamentando que ele não tenha conseguido e lhe desejando melhor sorte da próxima vez.

Claro, pode ser que seja possível verificar estas assimetrias empiricamente e talvez alguém já o tenha feito. Não sei. Mas achei interessante esta relação entre pensamentos de Adam Smith e a moderna Ciência Econômica (ou a moderna Ciência Comportamental, caso você prefira…). Claro, vale a pena destacar a diferença entre normativo e positivo aqui.

“Smith’s observations on how we interact with others in grief and in joy are mainly about how we are made – the nature of human nature – and not so much about how we should behave”. [Roberts, R. (2014). idem, p.141]

Nunca é demais lembrar esta diferença essencial e, claro, Economia é, sim, algo muito legal, não?

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Produção em Equipes, Teoria dos Jogos e, claro, Os Trapalhões

Quem não se lembra de Didi, Mussum, Dedé e Zacarias? Pois os mais velhos sabem que houve uma época em que eles estiveram separados – e a fascinante história empresarial por trás disto pode ser encontrado no livro que cito a seguir – por problemas de divisão de lucros. Há quem diga que uma matéria na revista Veja teria sido a causa, mas, na verdade, foi a gota d’água (*).

Um tempo depois, graças à astúcia de Beto Carrero, a amizade prevaleceu e os Trapalhões voltaram a ser um único grupo. Foi neste momento que eles adotaram um procedimento exemplar – uma intuição econômica ímpar! – para evitar que fuxicos viessem a atrapalhar, novamente, a relação entre eles.

A partir da retomada, nenhum dos integrantes falaria com qualquer veículo de comunicação isoladamente. Todos os pronunciamentos sobre o programa de TV ou sobre os próximos lançamentos para o cinema seriam feitos com os quatro comediantes juntos. [Barreto, J. (2014) Mussum Forévis: samba, mé e Trapalhões, p.281]

Por que eu digo que é uma intuição econômica? Vamos nos lembrar de suas aulas de Teoria dos Jogos. Lá, em algum momento, você deve ter passado por um problema clássico que é o de como fazer com que uma equipe gere um produto. Geralmente, o exemplo é da produção em equipes, grupos (production with teams). Claro, o esforço individual é importante, mas um produto como o programa dos Trapalhões é um bem público e, assim, o problema é que, via de regra, a tendência é que pessoas “joguem o trabalho nas costas dos colegas”.

O livro de Barreto nos dá várias pistas de que isto acontecia quando relata as diferenças entre a empresa de Renato Aragão e a DeMuZa dos outros três: percebe-se que, de fato, Aragão tinha um trabalho extremamente mais intenso e uma gerência bem mais controladora do que a empresa de Dedé, Mussum e Zacarias. Logo, queixas entre eles sobre a suposta desigual divisão de lucros iriam surgir mesmo.

Mas e o jogo? O jogo a que me refiro está resumido, por exemplo, em Shy (1996), cap.15, um livro-texto que penso ser um dos mais didáticos em termos de jogos aplicados à organização industrial. O jogo tem “n” membros que trabalham como uma equipe para gerar um produto de valor V. Cada qual coloca um esforço “ei” e a função de produção de valor é dada por V = ∑√ei. Obviamente, a utilidade de cada indivíduo “i” é dada por Ui = wi – ei. Assim, cada indivíduo maximiza sua função de utilidade.

O problema é, então, evitar o problema do carona. A solução, neste caso, é fixar o salário individual em uma descontinuidade: ou o grupo atinge um produto de nível V* e cada um recebe V*/N (N = número de envolvidos) no qual V* é o fruto da soma das funções de esforço individuais (no caso, V* = ∑√ei) ….ou ninguém recebe nada se não se atingir V*. A sacada é fazer com que o esforço marginal de cada um seja realmente o esforço marginal social.

Shy também nos lembra que este resultado funciona perfeitamente em um jogo de um único período. No caso de Os Trapalhões, claro, o jogo é dinâmico e pode surgir o problema de inconsistência intertemporal. Diz ele:

“(…) even if some deviation has occurred, it look as if the workers would be able to negotiate with manager or among themselves a redivision of the output, given that the manager will renegotiate the contract, the workers may not take this contract too seriously”. [Shy, Oz. Industrial Organization (1996), p.407]

É por isto que acho que a idéia da entrevista coletiva tem algo de intuição econômica e me lembra um pouco este jogo da produção em times. Afinal, eles trabalham e o programa só funciona com o conjunto inteiro (o que eles percebem quando do curto período de separação). Após a briga – causada por diversos motivos, mas todos geralmente ligados à divisão desigual de lucros e potencializada pela matéria da Veja – eles se uniram e se auto-regularam.

Sim, o jogo é dinâmico, mas não há um gerente como no jogo: são todos eles co-responsáveis (é o que também se depreende da leitura do livro de Barreto). Assim, para que continuassem a “jogar o lucrativo jogo”, após o desentendimento, seria necessário criar algum tipo de instituição, contrato, que minimizasse o problema de “fofocas” e fizesse com que eles mesmos resolvessem problemas (“lavassem a roupa suja em casa”, por assim dizer) antes de sair por aí reclamando.

Como aprendemos com vários autores – inclusive com a falecida Nobel, Elinor Ostrom – muitas vezes grupos privados desenvolvem soluções ótimas para problemas de bens públicos. O caso da entrevista em grupo não foi a única medida que eles tomaram para garantir estabilidade para suas carreiras, mas, creio, foi uma boa idéia.

p.s. Não sei se a analogia com o jogo é a melhor, mas foi a que me ocorreu e prefiro deixar a idéia de se pensar em outros jogos para os eventuais leitores do blog.

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Calibragem…lá no início…

20141111_203540Eu sempre uso um termo que vai/pode desagradar aos meus colegas mais desprovidos de bom humor (na minha opinião magnânima e, claro, definitiva) ao me referir à calibragem. Chamo-a de “economia playmobil”.

Na verdade, eu falo isso para explicar aos alunos que nunca viram calibragem a diferença entre econometria e este método. Penso no contexto histórico e tento mostrar a sensação que os economistas tiveram, lá no início, quando todo mundo ainda usava Econometria e o Lucas veio estragar a festa com sua crítica.

Obviamente, a expressão não precisa ter um aspecto negativo. De fato, não acho que tenha mas, como usuário de Econometria, sou obrigado a fazer esta comparação ou o aluno não entende bem a diferença. Antes de se explicar a diferença entre conceitos é didaticamente importante firmar bem a idéia de que são conceitos distintos.

Claro, hoje temos modelos DSGE e ninguém fica mais fazendo cara feia porque o amigo faz calibragem (que mudaram para ‘calibração’ nas últimas traduções, talvez para não dar margem a piadas com rimas mais, digamos, sacanas).

Dito isto, qual não foi minha surpresa ao encontrar a loira acima. Ela me confidenciou que adora uma calibragem mas, como sou um homem sério, nem espiei o generoso decote de seu vestido rosa de coraçõezinhos brancos. Afinal, eu sou ainda um usuário viciado em Econometria…

 

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Quando o salário mínimo é menor do que o de equilíbrio…

…o próprio mercado tem incentivos para levar o salário ao equilíbrio, certo? Errado. Ou melhor, depende. No modelo de livro-texto, do primeiro período de Economia, sim, é isso que acontece. Mas aquilo mal é um modelo, né? Super-simples, hipóteses nem sempre claras e você tem que acreditar no professor.

Há quem pense que a vida é melhor quando se sabe menos, porque, claro, você sofre menos. É a galera do obscurantismo fácil: dizem para você que não há que se preocupar com a matemática porque “o mundo é complexo demais para isso” e que “sua intuição é suficiente, só precisa ler uns autores que eu, sábio, vou te indicar, e que você tem que concordar sem pestanejar”.

Mas há quem pense que a vida é mais interessante do que a repetitiva fotossíntese. O prof. Shy, então, fez-se a mesma pergunta e fez algumas mudanças no modelo básico, pensando, creio eu, naquelas perguntas que alguns alunos lhe fizeram por anos e anos nas salas de aula, ainda que inconscientemente. Eis o resultado.

When Do Firms Prefer Low Minimum Wage Over No Minimum Wage?
Oz Shy

Federal Reserve Banks – Federal Reserve Bank of Boston
Abstract:

I analyze labor markets where the legal minimum wage is lower than the equilibrium wages. In these labor markets, firms have incentives to collude on paying minimum wage rather than engage in wage competition in order to attract more workers. The model analyzes firms competing simultaneously in their product and labor markets to identify how varying the degree of competition affects firms’ incentives to collude on paying minimum wage. I find that more intense labor market competition makes collusion on paying minimum wage less likely. In contrast, more intense product market competition makes collusion more likely. (grifos meus)

Fascinante, não? Sabe, isso tem a ver com gorjetas. É, isso mesmo.

Shelkova (Forthcoming) provides the main empirical support for this paper. Using 1990–2002 data on service occupation workers, she shows that on average 19.3% and as much as 31% of service occupation workers who earned minimum wage or less could be affected by collusive wage-setting during this time period. Relatedly, looking at labor markets where service workers collect tips, Shy (Forthcoming) explains why restaurant owners may collectively benefit by encouraging their customers to follow the “social norm” of leaving tips. This is because the long-term (over a century) increase in tipping rates resulted in lower wage rates. (p.1-2)

Coalizão? Fixação de salários? Como assim? Pois é. Tem que ler o artigo. Mas repare que tudo começa com um mercado de trabalho imperfeito e o reconhecimento de que não se pode analisar o mercado de trabalho sem uma análise com o mercado do produto.

Como sempre digo para os alunos – os que não estão dormindo ou que não estão (ainda) catatônicos por excesso de uso de ‘zap-zap’ no celular – a Ciência Econômica é fascinante. Diante de uma evidência empírica, desenvolve-se um modelo para se explicar o evento. Obviamente, isso significa que é preciso muito cuidado para se dizer que a evidência empírica é, de fato, uma regularidade ou um “fato estilizado” com o qual valha a pena investir algum tempo teorizando.

Poderíamos ter o oposto, como é o caso da economia novo-keynesiana, que se iniciou, conta-nos Snowdon e Vane naquele livro-texto clássico (esqueci a referência agora), construindo modelos teóricos para, depois, buscar as evidências empíricas.

O que eu quero dizer é que, em última instância, ambos os procedimentos são válidos, falhos e necessários ou, sei lá, indispensáveis.

Bacana, né?

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Economia Comportamental: o encontro na USP (brevíssimas notas)

20141111_130541Há muito o que falar. Mas, antes, vou deixar aqui algumas das dicas que consegui, sem muita habilidade, pegar das apresentações da tarde. Primeiro, este vídeo sobre incentivos e uso da água (algo que o nosso governo poderia usar, se fosse eficiente…na verdade, é irônico que uma carta com “nossos governos vizinhos estão fazendo melhor do que você” escrito nela não nos levaria a um lugar melhor, mas…).

Outra dica são estes blogs: o da CVM, sobre economia comportamental, e o do pessoal do encontro. Este portal já deve ser conhecido de alguns e, claro, a história do Katona é uma curiosidade “arqueológica” única.

A idéia de vender o peixe como Ciências Comportamentais, discutida, parece-me legal. Não pude ficar até o fim do encontro, para o momento do debate, ou perderia meu vôo, mas imagino que esta tenha sido uma das idéias mais interessantes do encontro, para livrar as pessoas dos preconceitos e afins.

Outro ponto legal é ouvir que lá, na Psicologia, o pessoal não tem preconceito ou problema com a racionalidade. Há quem ache que as pessoas agem irracionalmente, mas não é a leviandade que ouço da boca de gente que critica sem ler. Claro, ainda há muito o que ser feito antes de sair por aí dizendo que pessoas são estúpidas.

Ah sim, a idéia de que elasticidade-preço da demanda e a própria demanda são mais do que conceitos exclusivos da humanidade é algo que sempre achei interessante e, claro, aparece em experimentos com animais (sim, isso mesmo). Bom, eu nunca vi dialética marxista entre formigas, mas lei de demanda…(fascinante, não?).

Pela manhã, alguns painéis foram apresentados e eis um resumo visual.

20141111_123810 20141111_123754 20141111_123744 20141111_123736Pois é. Muita coisa, não? Espero que o pessoal do encontro publique algo lá no blog (vídeos, fotos ou mesmo transparências apresentadas, quando possível) porque, quem já conhece um pouco, vai adorar.

 

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Ignorância Racional existe?

O Lucas Mafaldo (este minimalista aqui) enviou-me a informação sobre um texto muito interessante. Eis o resumo.

Lopez de Leon, Fernanda Leite, and Renata Rizzi. 2014. “A Test for the Rational Ignorance Hypothesis: Evidence from a Natural Experiment in Brazil.” American Economic Journal: Economic Policy, 6(4): 380-98.

Abstract

This paper tests the rational ignorance hypothesis by Downs (1957). This theory predicts that people do not acquire costly information to educate their votes. We provide new estimates for the effect of voting participation by exploring the Brazilian dual voting system- voluntary and compulsory- whose exposure is determined by citizens’ date of birth. Using a fuzzy RD approach and data from a self-collected survey, we find no impact of voting on individuals’ political knowledge or information consumption. Our results corroborate Downs’ predictions and refute the conjecture by Lijphart (1997) that compulsory voting stimulates civic education.

Ou seja, segundo o artigo, a hipótese do eleitor que não se informa racionalmente possui corroboração empírica. É interessante, contudo, pensar no que disse o Allan Drazen, em um artigo, há alguns anos (curiosamente, Drazen não aparece na revisão de bibliografia das autoras), sobre o tema. De forma resumida, ele dizia o seguinte: com o passar do tempo, a ocorrência das eleições altera a forma como os eleitores se comportam diante dos políticos. Como as autoras analisaram apenas uma amostra coletada (quanto trabalho, heim???) em um corte transversal (alunos, 2010), não dá para fazer inferências sobre a dinâmica dos votos.

Assim, eu me pergunto se a análise deste ótimo artigo poderia ser complementada por outros trabalhos que analisassem a dinâmica das eleições procurando testar se existe, mesmo, algum impacto sobre a forma como os eleitores buscam se informar sobre os políticos.

Acho que este artigo vai fazer parte da bibliografia básica do curso de Econometria III no próximo semestre.

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Ele quer cometer suicídio ritual em nosso jardim…deixamos ou não?

HARA-KIRI -Death of a SamuraiDescobri o que me agrada neste filme (comentei aqui ontem): tem um jogo de reputação, central em toda a trama. Em resumo muito rápido, no início do filme vemos um jovem samurai sem senhor (o tal “Rounin”), pobre, que se apresenta na casa de um outro senhor feudal pedindo para usar o pátio para se suicidar (mais sobre o filme nos links do post anterior sobre o tema).

O problema é que outros – em situação similar – faziam o mesmo com os senhores feudais, mas claramente jogando com a piedade. Ou seja, o objetivo era fingir se suicidar para ganhar uns trocados ou, com sorte, um emprego.

Lembra, exatamente, o clássico jogo do sequestrador quando ensinamos equilíbrio perfeito em subjogos para os alunos, né? Pois é. A situação, no início do filme, é exatamente esta.

Caso você não conheça o jogo, aí vai uma sinopse: o sequestrador ameaça explodir uma bomba se o piloto do avião não desviar o vôo, digamos, de New York para Havana. O piloto, sabendo disso, tem que decidir se desvia ou não. Sabendo que a morte do sequestrador não o ajuda a chegar em Cuba, o equilíbrio de Nash, neste caso, é o equilíbrio perfeito em subjogos que é não desviar: trata-se de um blefe.

É por isto que um economista diria para você não negociar com terroristas. Mas como este filme não feito por economistas, a trama tem um desenrolar diferente, apelando para outros aspectos humanitário do espectador. Muito cuidado para não cair no golpe do “coração mole” e tentar jogar a teoria econômica fora por causa do filme.

Aliás, antes que você diga que não vai assistir o filme porque você curte teoria econômica, pense também em outro aspecto do roteiro. Ocorre que o pobre coitado, que tenta blefar, leva uma espada que, na verdade, é de bambu, o que é extremamente ofensivo aos que lhe oferecem o pátio para o suicídio.

Assim, ao contrário do problema simples do sequestrador, neste há um elemento adicional que torna a história mais dramática: há uma quebra de decoro imperdoável para os padrões sociais da época. Isto reforça o ódio dos vassalos que, praticamente, forçam-no a cometer o suicídio e é um elemento que não aparece na modelagem do jogo (uma curiosidade que me ocorre agora é: como será que poderíamos modelar este jogo desta outra forma?).

Claro, o drama é terrível e a história é contada de uma forma magistral, mas quem gosta de Teoria dos Jogos deveria dar uma olhada, também por conta desta curiosidade antecipação do famoso exemplo.

p.s.1. O remake de 2011 não é tão bom, há modificações na narrativa, mas vale a pena.

p.s.2. Olha, caso você goste deste tipo de conversa, sobre jogos e filmes, experimente ler um livro chamado Biblical Games, do Steven Brams. É bem divertido, mas você tem que ter algum conhecimento básico de Teoria dos Jogos o que, no Brasil, significa que você, não-economista, tem que ter cursado o mesmo curso de um economista, e não aqueles simulacros de cursos que a gente vê por aí, no qual o sujeito finge que ensina teoria dos jogos, só com lero-lero e as pessoas fingem que aprendem (e também fingem que “é muito difícil” para poder dar um tom dramático ao circo todo).

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Sentindo-se assim, um pouco bravo…fui assistir “Seppuku” (também lido como “Harakiri”)

seppuku

 

É, eu recomendo sim. Tem algo na narrativa do filme que me agradou. Não sei bem o que é, mas eu gostei. O povo da Criterion assim descreve o filme:

Following the collapse of his clan, an unemployed samurai (Tatsuya Nakadai) arrives at the manor of Lord Iyi, begging to be allowed to commit ritual suicide on the property. Iyi’s clansmen, believing the desperate ronin is merely angling for a new position, try to force his hand and get him to eviscerate himself—but they have underestimated his beliefs and his personal brand of honor. Winner of the Cannes Film Festival’s Special Jury Prize, Harakiri,directed by Masaki Kobayashi is a fierce evocation of individual agency in the face of a corrupt and hypocritical system.

De fato, tem algo de crítica a um sistema hipócrita mesmo. Mas a forma como o personagem de Nakadai narra sua trágica (bem trágica, para ser sincero) história é particularmente interessante. Comprei o filme, embora já o tenha visto por aí na “nuvem”. Valia a pena porque vinha com o remake de 2011. Este, ainda não assisti. Mas vejam estas frases “citáveis” do filme, direto do IMDB.

After all, this thing we call samurai honor is ultimately nothing but a facade.

Parece simplista, né? Mas se você assistir o filme e prestar atenção à história verá que a frase carrega uma dor incrível.

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Arrumando o escritório

É preciso determinação. Com um pouco de música, ajuda.

arrumandoescritorioPois é. Lá fui eu dar um jeito na bagunça. Aproveitando a aleatoriedade das músicas. A única coisa que salva nestas coisas da Apple, para mim, é este programa. Mesmo assim, é um porcaria quando você tenta fazer qualquer coisa com seus álbuns. Ou eu é que não me acostumei com o programa. Não importa. O negócio é rearrumar os livros.