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Ficou tão bom que reproduzo

O problema de ler pouco

 
O ex-ministro do Trabalho Antônio Magri disse que só tinha lido dois livros na vida . “Ler muito confunde as ideias”, teria dito. Ele estava certo. A leitura realmente deixa o cara confuso. Só que isso é bom, porque nos faz menos cheio de certezas e prontos para julgar melhor.
Tomemos o caso de quem só leu “Formação Econômica do Brasil” do Furtado  e “A Economia Brasileira em Marcha Forçada” do Barros de Castro. Ainda mais se o cara fez uma leitura rasteira, ele sai seguro que crises são oportunidades [bip! bip! Alerta de clichê] e que, via gasto público, é moleza garantir a demanda agregada ou superar o gargalo externo “levando a economia brasileira para outro patamar” (seja lá o que isso queira dizer).
Contudo, quem também leu Suzigan, Peláez, Bonelli, Malan, Fishlow – só para ficar na geração que produziu sobre tais temas nos anos 70 e 80 – aprende que tudo é bem mais complicado do que contam as histórias reconfortantes da bibliografia básica das disciplinas de Economia Brasileira.

Não vou dizer mais nada.

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Efeito Mozart: não existe, mas persiste (irracionalidade…racional?). Pelo menos você vai melhorar no Origami!

Por que a gestante não ouve sertanejo?

Todo mundo tem um amigo que já disse ter ouvido falar que mulheres grávidas deveriam ouvir música clássica para aumentar a inteligência dos futuros bebês. Certo? Pois é. Como não poderia deixar de ser, este é um assunto diretamente ligado à Econometria.

Em seu ótimo livro-texto – Introduction to Econometrics, 3rd ed, 2012 – Stock & Watson comentam sobre este resultado. Crianças submetidas às sessões de música clássica teriam QI aumentado e, portanto, melhor desempenho em testes nas escolas.

O ponto é que o efeito não existe. Como dizem, podem haver variáveis omitidas nesta história como a habilidade inata da criança ou a qualidade da escola.

Acho mais engraçado ainda porque não sei de onde veio esta história de ouvir Mozart. Por exemplo, uma grávida chinesa, ouvindo uma ópera chinesa, também teria, supostamente, o mesmo efeito? Por que esta preferência por música clássica ocidental?

Mas por que persiste o mito do efeito Mozart?

Já outros autores fazem perguntas diferentes. Por exemplo, dado que sabemos que o suposto efeito não existe, por que a “lenda urbana” persiste? Para Heath & Bangerter (citados aqui), a prevalência do mito tem a ver com a qualidade da educação nos estados.

To test their hypothesis that the legend of the Mozart Effect grew in response to anxiety about children’s education, Heath and Bangerter compared different U.S. states’ levels of media interest in the Mozart Effect with each state’s educational problems (as measured by test scores and teacher salaries). Sure enough, they found that in states with the most problematic educational systems (such as Georgia and Florida), newspapers gave the most coverage to the Mozart Effect.

Pode até ser que o teste deles também tenha problemas, mas a pergunta é interessante.

Usando a Teoria Econômica!

Talvez possamos recorrer à irracionalidade racional de Caplan, já citada aqui. Não é tão custoso acreditar no mito do efeito Mozart porque a média da população não é muito afeita à leitura e discussão de artigos científicos (suponho, inclusive, que isto seja pior no Brasil do que nos EUA, ou seja, o efeito deve ser o mesmo, mas a magnitude deve ser maior aqui do que lá). Como acreditar neste mito não diminui muito sua riqueza (ou sua renda permanente, ou ambas), então você pode manter a crença sem muito custo.

Ah sim, Stock & Watson fazem um alerta: aparentemente, verifica-se um efeito positivo de se ouvir música clássica durante a gravidez.

For reasons not fully understood, however, it seems that listening to classical music ‘does’ help temporarily in one narrow area: folding paper and visualizing shapes. So the next time you cram for an origami exam, try to fit in a little Mozart, too. [Stock & Watson (2012) : 225]

Pois é, gente. Para origami, dá certo. ^_^

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Sobre Gordon Tullock

Acho que, como todo mundo, conheci a Escolha Pública por meio dos livros do prof. Jorge Vianna Monteiro, lá nos anos 90. Eram aulas de Economia Mundial Contemporânea, ou algo assim, e o prof. William R. de Sá (não confundir com a cantora) falou-me entusiasticamente dos livros do prof. Monteiro. Resolvi pesquisar na biblioteca. Lembro-me de ter ficado absolutamente confuso e encantado.

Depois, larguei o tema e fui estudar outras coisas para a monografia. Fui ao mestrado e, novamente, por outro acaso, voltei à Escolha Pública. Era a aula de Microeconomia, com o prof. Kadota, e o professor passou um tempo falando de bem-estar social (eu sei, boring) e, lá pelas tantas (acordei!), bum! Eis que surgiu o Teorema de (Im-)Possibilidade de Arrow. Não teve jeito. Apaixonei-me pela Escolha Pública. Com a maravilhosa biblioteca da FEA-USP à minha disposição, inteirei-me do assunto.

O nome de Buchanan já era comum e surgiu, então, um nome mais exótico, Tullock, Gordon Tullock, que me remetia ao Comissário Gordon, de Gotham City. Tullock, por sua vez, era um nome, em si, inesquecível. As conversas com um – então entusiasmado – Giacomo B. Neto ajudaram-me a fixar o nome do grande teórico da Escolha Pública em minha cabeça.

O tempo passou e, em 2000, tive a oportunidade de conversar pessoalmente com o prof. Tullock por alguns minutos no encontro da Public Choice Society. Como já havia ouvido falarem, ele sabia de tudo um pouco. Veio me falar de Dom Pedro II, de que havia lido algo sobre ele e tudo o mais. Pena que não pude conversar muito com ele.

Tullock tinha a fama de ser incrivelmente sarcástico e sagaz (dois “s” muito admirados por este escriba). Há, pela internet, relatos de piadas que ele fazia em seminários ou congressos absolutamente impagáveis. O prof. Tabarrok publicou alguns deles em 2006:

Call me a masochist but one of the great pleasures of being at George Mason is that I am regularly insulted by Gordon Tullock.  You have to understand, however, that in my profession not to have been insulted by Gordon is to be a nobody.   


In anycase, here is one from yesterday.


“Gordon,” I asked, “do you think we should ban child labor?”  “No, keep working.”


The other day Gordon asked me to read one of his papers and I pointed out a few typos.  “Excellent,” he said, “this will surely be your greatest contribution to economics.”


Gordon is prone to pressing people with difficult questions.  One of my colleagues responded, “Gordon, I’m not that good at thinking on my feet.”  Without missing a beat Gordon pulled up a chair and said “well sit down and we’ll see how you do then.”

Comments are open if you would like to memorialize your own Gordon insults.

Eis alguns comentários sensacionais.

A classic story from the late 80s at GMU… one day Gordon saw a bunch of us then-grad students in a conference room arguing some obscure point in Austrian economics. He popped his head in and said something like “You Austrian guys are nuts, but at least you’re enthusiastic!”

(…)

My favorite Tullock insult, though, was levied at Walter Block. Block was presenting a paper at the Southerns in 1999. The paper was coauthored with Tom DiLorenzo; Walter, in his preamble to the presentation, noted that since his coauthor wasn’t there, all the errors in the piece were his. Tullock shot up, pointed at Walter, and said “DiLorenzo wrote the whole thing then, didn’t he!”

(…)

– When I was 28 I and some other young libertarians/classical liberals met him at a conference, and one of them, a French fan of Gordon, said “Professeur Tullock, I am your greatest French admirer and a big libertarien. Could you please tell me …”, to which Gordon injected, “I am a utilitarian. Freedom is highly overrated.” It cracked me up, while the poor French fellow lost his jaw.

Eu sei, eu sei. O prof. Tullock é mais conhecido por seu trabalho sobre rent-seeking. Mas não há como não morrer de rir com estas tiradas dele. Acho que rent-seeking já foi tão citado neste blog que o melhor mesmo é a gente passar um tempo rindo dos impropérios do professor Tullock.

Descanse em paz.

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Viés de seleção, na prática e a economia política da imprensa

Olha, o melhor exemplo que já vi de viés de seleção foi explicitado neste texto. Não leitor, não é uma explicação estatística. Mas é uma ótima ilustração. Veja, jornalistas de São Paulo, que, suspeito, adorariam ver o país sob os auspícios de uma ditadura, não curtem a ditadura. Como assim?

Simples. Eles se esforçam para condenar apenas um tipo de autoritarismo, mas não outro. Leia o texto e você entenderá. No Brasil há um discurso engraçado de que “instituições funcionam”, “não tem aparelhamento”, ao mesmo tempo em que se diz que “tudo que aí está precisa mudar porque não nos representa”. A mistura destes discursos – nem sempre concatenados logicamente – mostra o quão atrasados somos.

A patota diz defender a liberdade de expressão, mas não quer a publicação de biografias não autorizadas. A mesma patota fala de proibir discurso do ódio (nazista), mas abraça o socialismo. Olha, se é para contar a carnificina, os socialistas ganharam. Diante dos fatos, o sujeito parte para um exercício de dissonância cognitiva e diz que “aquilo lá não era socialismo”. No final, volta ao argumento brucutu, de que, com a porrada dos amigos, vence o debate (ou seria o “embate”?).

Bom, então vamos lá. Eu também sou contra a ditadura. Espero que você sinta a mesma repulsa pelo povo desta foto que sentiu ao ver as fotos publicadas pelos jornais paulistas.

E aí? Contra esta ditadura você também é?

Não sentiu? Ué, então, você pode até não perceber, mas fascista é um adjetivo ótimo para você. Pois é. Viés de seleção. A imprensa selecionou apenas as fotos que lhe agradavam (e também a quem mais?) para publicar a notícia.

Como sair disso? Olha, na minha opinião, quanto mais veículos de comunicação, melhor. A internet livre, não controlada, é a fonte de ótimos contrapontos. O pessoal do Spotniks cumpriu um importante papel em defesa da liberdade de expressão de todos nós. Aliás, eis, para você, economista, um ótimo exemplo de bem público gerado privadamente.

De qualquer forma, eu diria que é hora de reler o The Myth of the Rational Voter do Caplan. Mais alguns textos me vêem à mente. Que tal o Who owns the media? do Shleifer e co-autores? Ou então o The Crumbling Hidden Wall: towards an Economic Theory of Journalism de Fengler e Russ-Moll? Ah é, e a falta de debate sobre o viés da Wikipedia em língua portuguesa? No mundo civilizado, a discussão já começou.

Preciso continuar?