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Dia dos Finados: lembrando Olavo Rocha

Foi mais ou menos em um destes outubros que Olavo Rocha decidiu que não iria mais viver conosco e tirou sua própria vida. Seus vídeos ajudaram muitos a aprenderem um pouco de Economia e também sobre o Liberalismo. Tudo de uma forma muito engraçada.

Sentimos sua falta, Olavo. Talvez este seja um de seus vídeos mais emblemáticos.

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Cultura e o Saci-Pererê: seja criativo e pare com a xenofobia, mané!

O Saci-Pererê não precisa de lei para aparecer, seu estúpido!

Na Wikipedia menos viesada, que é a de língua inglesa, Cultura aparece assim:

The term “culture,” which originally meant the cultivation of the soul or mind, acquires most of its later modern meanings in the writings of the 18th-century German thinkers, who were on various levels developing Rousseau‘s criticism of ″modern liberalism and Enlightenment″. Thus a contrast between “culture” and “civilization” is usually implied in these authors, even when not expressed as such. Two primary meanings of culture emerge from this period: culture as the folk-spirit having a unique identity and culture as cultivation of waywardness or free individuality. The first meaning is predominant in our current use of the term “culture,” although the second still plays a large role in what we think culture should achieve, namely the full “expression” of the unique or “authentic” self.

Pois é. Complicado, não? Eu gosto da dicotomia apontada porque, na verdade, ela nos aponta uma síntese do que realmente é a cultura: algo que emerge da ação não-planejada das pessoas. Vá atrás de nosso folclore, por exemplo, com as obras de Luís da Câmara Cascudo, e você verá o quanto nossa cultura não é geograficamente determinada, mas fruto de uma interação anárquica de “culturas” várias, relativas às várias tribos de índios que tínhamos, os vários africanos e as culturas portuguesas das diversas regiões de Portugal.

Neste blog, muitas vezes, apresentei – e apresento – evidências de que “cultura” seja algo importante no estudo do Desenvolvimento Econômico, sempre ressaltando que: (a) é necessário definir uma variável como esta operacionalmente, o que implica abrir mão de sua complexidade até algum grau, (b) é um conceito dinâmico, não estático.

Os coxinhas intervencionistas querem matar nossa criatividade? Querem. Mas como são habilidosos…

Então, neste sentido, eu vejo com desdém uma manifestação que poderíamos chamar de manifestação coxinha, no sentido que alguns infelizes resolveram dar ao delicioso salgadinho. Estes mesmos infelizes, ocorre, também são, via de regra, fortemente xenófobos com relação a alguns países (ou seja, são hipócritas neste aspecto porque xenofobia vale para todos, não?). A manifestação coxinha atrai também alguns incautos que não compram este discurso, mas, no caso da cultura, sentem-se bem consigo mesmos pela sensação de que estariam “defendendo a cultura nacional”.

Que manifestação é esta? É a guerra cultural – ainda de proporções infantis – contra o halloween. Ora bolas, se as pessoas gostam da festa norte-americana, vamos aproveitar! É bom para a economia, é bom para a família, é bom para a cultura! Os adeptos do nacionalismo tacanho, contudo, protestam: “e o folclore nacional”? Simples, né? Fantasie-se de Saci, Bumba-meu-Boi, Aiocá, Ipupiara, Jurupari, Kilaino, Boitatá, Minhocão. Crie um grupo de Caboclinhos, vá cantar e dançar no estilo Cururu, ou dance a Marrafa. Como? Você não conhece metade do que eu disse? Então pára de xenofobia, meu caro! Muito de nossa cultura desapareceu, modificou-se ou sobreviveu (modificada ou não). Simples assim. Vou repetir: cultura não é um conjunto congelado/fossilizado de figuras que você conheceu quando era criança. Acorda, cara! Estamos no século XXI!

Cultura é mais do que pensam (sic) os coxinhas intervencionistas! Viva a Ordem Espontânea!

O conceito de ordem espontânea de Hayek é, creio, o ideal para se entender meu ponto. Embora muita gente queira que o governo comande suas vidas até no que podem ou não manifestar, culturalmente (olha o tamanho da contradição nesta frase!), o certo é que a cultura é uma manifestação espontânea, leitor(es). Surge e sobrevive conforme os usos e costumes do povo, não de cima para baixo. Trata-se, portanto, de um conjunto de valores, crenças que surge espontaneamente e, se aceita por todos, prevalece, não sem modificações, ao longo do tempo. Como diria meu amigo Burian: “- É a vida”.

O que me enerva nestas queixas é a confissão de que o povo brasileiro, famoso por sua criatividade, sua capacidade de mesclar culturas, hábitos, etc, empobreceu. Vai ver recebeu tanto subsídio do governo e tanta ordem de cima para baixo que perdeu sua vibrante capacidade de criar. Estamos mesmo reduzidos a xenófobos ranzinzas que não podem ver uma influência “estrangeira” que já ficamos incomodados? Justamente este país que não existiria sem japoneses, chineses, libaneses, judeus, portugueses, alemães, italianos, ingleses, norte-americanos, etc? Sério mesmo?

Provavelmente é exagero meu, mas é o que sinto ao ler certas manifestações por aí, na internet.

Ofensa educativa: deixa de ser Papangu!

Quer saber? Deixa de ser Papangu! Parece até que quer ver o Pinto Piroca!! Calma, leitor(a). Pinto Piroca é uma ‘visagem’ amazônica. Como nos explica Cascudo em seu etern(izad)o dicionário do nosso folclore:

Um habitante de Jocojó assim o descreveu: – Ninguém ainda viu o Pinto Piroca, mas de vez em quando a gente ouve o seu pio. Dizem que ele se parece com um pinto gigante com o pescoço pelado, mas ninguém sabe direito. Nossos pais é que contavam assim. A gente repete o que eles diziam. Os velhos sabem melhor que a gente. O Pinto Piroca é tratado como as outras ‘visagens’, o melhor é evitar a sua aproximação, fazer qualquer zoada ou provocação. As crianças aprendem desde cedo a comportar-se diante das ‘visagens’ para não atrair a sua malignidade (…). [Cascudo, L.C. Dicionário do Folclore Brasileiro, 12a ed, 2012, Global Editora, 564]

Pois é, leitor. Cuidado para não confundir nosso Pinto Piroca com a festa da fertilidade japonesa lá de Kawasaki. Estamos falando de outra(s) cultura(s).

Concluindo: seja mais empreendedor e menos passivo. Transforme o halloween – que veio para ficar – em uma festa divertida. Crie novas tradições! Momentos vibrantes na história de um país são aqueles nos quais seu povo trata sua cultura como uma criação constante, que se renova, modifica e que é tudo menos uma tradição ou, como talvez diria Hayek, a única tradição aqui seria a de potencializar ao máximo a quebra das tradições conforme a ação desordenada e criativa das pessoas.

Eis porque sou liberal, a despeito de tudo. Ah sim, viva o Saci-Pererê!