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Emporiofobia e locadoras

Viva o Spotniks, mas vale um ponto para a reflexão

O pessoal do Spotniks fez um ótimo trabalho neste artigo. Neste blog, como os leitores já sabem, chamamos isto de emporiofobia. O argumento do autor do artigo do site, contudo, fala de “competição” de “destruição criativa”. Não me entendam mal, mas não acho que é por aí.

A ênfase nos aspectos competitivos da dinâmica do mercado – por sua vez, um nome mais bonito para “trocas voluntárias” – deixa de lado o ponto central de Adam Smith e Schumpeter: as locadoras que não sobreviveram são justamente as que foram incapazes de cooperar com os consumidores. Mercados são eficientes quando vendedores cooperam com consumidores. Os que não conseguem dar conta do recado, são, claro, excluídos.

Apenas quero destacar que a emporiofobia se alimenta de um discurso no qual “coxinhas com a vida ganha” maltratam “pobres empresários do bairro” e “roubam os consumidores”. Tudo errado, nós sabemos (refiro-me ao autor do artigo e, claro, a mim mesmo). Mas considere repensar no texto do Spotniks sobre este aspecto. A diferença é sutil, mas acho que faz toda a diferença para alguns leitores, que ainda confundem mercados com jogo de soma zero (erro básico, geralmente desmentido em cursos do primeiro ano de Economia).

Ora, trocas voluntárias não poderiam ser jogos de soma zero porque ninguém, voluntariamente, entra em uma troca com alguém para que seu ganho seja exatamente igual à perda do outro. Pode até tentar, mas a troca não ocorrerá. Não voluntariamente. Assim, você pode até querer forçar alguém a lhe dar o que deseja e você pode fazer isto com uma arma. Contudo, isto não é mercado.

Portanto, eu diria…

O que disse Schumpeter então? Bem, ele disse exatamente o que o autor do artigo descreveu: em uma sociedade de indivíduos que interagem de forma totalmente não planejada (do ponto de vista de uma autoridade central), é possível que nem todos sejam igualmente dotados das virtudes necessárias para a cooperação. Como assim?

Digamos que sou um dono de locadora e que não gosto de internet. Trato bem as pessoas, mas não quero saber de internet. Pronto. Você já sabe. Provavelmente minha locadora não vai durar muito tempo. Por que? Porque não sou um sujeito suficientemente adaptado aos novos tempos. É a vida, pessoal. Nem todos vão ser donos de locadora e serão ricos. Graças a Deus, né? Afinal, se todos fossem donos de locadora e fossem igualmente bons, não haveriam atores, atrizes, médicos, soldados, etc.

Adam Smith? Também nada muito diferente. Claro, você pode ter aquela imagem do filme de Chaplin, Tempos Modernos, e achar que a divisão do trabalho é algo maligno. Errado. A divisão do trabalho, novamente, em uma sociedade com indivíduos que agem segundo seus próprios desejos, terá o grau necessário de especialização para atender…a estes mesmos indivíduos.

Conclusão

Gostei do artigo do Spotniks. Mas gostaria que a ênfase do texto fosse mais nos pontos cooperativos do mercado. Por que? Porque ajuda as pessoas a entenderam corretamente o que é o mercado. Podem até não gostar dele, mas pelos motivos certos, não por uma caricatura que, sim, nós, economistas, vendemos por anos e anos, e que não é a mais fiel ao conceito. Afinal, são trocas voluntárias.

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História Econômica de Portugal

A profa. Leonor F. Costa é uma das historiadoras portuguesas que mais gosto. Os textos de história econômica são sempre muito ricos em teoria e dados, sem falar, claro, da história (os fatos). Este é um mais recente do qual acabo de tomar conhecimento.

Money Supply and the Credit Market in Early Modern Economies: The Case of Eighteenth-Century Lisbon

Leonor F. Costa, M. Manuela Rocha, Paulo Brito

URL: http://d.repec.org/n?u=RePEc:ise:gheswp:wp522014&r=his

In this paper, we address the partial equilibrium functioning of the shortterm credit market in the Eighteenth-century Lisbon and its response to three major events: massive gold inflows from Brazil, a catastrophic destruction of capital caused by the 1755 earthquake and the enactment of a 5% legal ceiling on interest rates 1757. We build a time series for the market interest rate, and a regression shows money stock and real estates as two significant variables. Interest rates were affected negatively by the former and positively by the latter. We conclude that changes in the money stock tended to operate through the supply of loanable funds. The wealth effect, measured by the stock of real estate, operated over demand and tended to be the most significant effect among several other possible countervailing effects (e.g., the impact of wealth effects on supply, the informational effects of collaterals). The inflow of gold clearly generated a liquidity which by itself explained the downward trend in interest rates up until around 1780. However, the huge variations experienced by the stock of capital after the earthquake also explains the steadiness of interest rates in a period when the inflow of money started to recede. For the whole period during which the 5 % ceiling on interest rates was in force we do not find any evidence to confirm the existence of disequilibrium credit rationing: the notional interest rate predicted by our model was very close to the 5% legal ceiling.

É um grande resumo, eu sei, mas é um artigo que vale a leitura, principalmente se você curte Macroeconomia, História Econômica e Econometria. Ei, fala sério, não é tudo o que você queria para discutir com seus amigos que também curtem Economia?

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