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Instituições e Estado Leviatã, em tempos imemoriais

The form Fune no Fuhito (or Fune no Fumibito, etc) in the Nihon shoki reading tradition was originally a hereditary title granted to Oo Shinni to designate his role as recorder of ships’ taxes (…). [Seeley, Christopher (1991). A history of writing in Japan. University of Hawai’i Press, p.7, footnote 15]

Nihon Shoki (talvez seja melhor aqui) é um destes antigos registros japoneses sobre os quais se debruçam os historiadores e estudiosos da língua japonesa.

Agora, neste trecho de Seeley (1991), temos uma daquelas evidências milenares de que governos sempre se preocuparam em coletar tributos. Nada muito estranho a quem estuda história, eu sei, mas é algo que, muitas vezes, escapa à percepção das pessoas, acostumadas a imaginar que governo existem para proverem alguns bens que o setor privado não provê.Isto pode ser verdade, mas não porque governos sejam benevolentes.

Pois é. o Nihon Shoki é um dos textos mais antigos do mundo, mas não nega a importância do capital humano para a expropriação. Interessante, não?

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Brasil emporiofóbico e nada liberal…e quem diz isto são os mercados!

Cultura importa?

Como assim? Por causa disto. Vejamos o resumo deste interessante texto (a ser publicado em breve no Journal of Financial Economics):

Consistent with predictions from the psychology literature, we find that stock prices co-move more (less) in culturally tight (loose) and collectivistic (individualistic) countries. Culture influences stock price synchronicity by affecting correlations in investors’ trading activities and a country’s information environment. Both market-wide and firm-specific variations are lower in tighter cultures. Individualism is mostly associated with higher firm-specific variations. Trade and financial openness weakens the effect of domestic culture on stock price comovements. These results hold for various robustness checks. Our study suggests that culture is an important omitted variable in the literature that investigates cross-country differences in stock price comovements.

Eu, Pedro e Ari já havíamos encontrado evidências da importância de valores culturais em instituições (como a qualidade de um Estado (governo)), embora os autores dos artigo acima não nos citem. Sim, instituições informais importam, já disse Douglass North dentre outros.

O ponto dos autores é argumentar que a “cultura” seria uma importante variável omitida (meus alunos de Econometria III sabem isso de cor…) em regressões que comparam desempenho do mercado de ações entre países. Por que?

The literature suggests that individualistic investors are likely to be more confident in their ability to acquire and analyze information and less concerned about having different opinions from others (Markus and Kitayama, 1991; Heine, Lehman, Markus, and Kitayama, 1999; Chui, Titman, and Wei, 2010). Therefore, one would expect to observe less herding behavior and more firm-specific information being incorporated in stock prices, which would be likely to lead to lower stock price comovements in individualistic countries. [p.2]

Há algo muito interessante nos achados empíricos do artigo. Pensemos no Brasil, aliás, citado pelos autores em um trecho “exclusivo”:

A closer look at the data suggests that the insignificance of the tightness coefficient is due to Brazil. Brazil’s culture is both loose and collectivistic, which offer conflicting predictions for information opaqueness. [p.20]

Quando a presidente reclama dos mercados, ela reclama demais!

Ora, estamos completando 12 anos de um governo de esquerda – que se orgulha de ser anti-individualista (logo, orgulha-se de ser coletivista e não estou sendo irônico, leia qualquer documento produzido por seus simpatizantes) – e estamos em uma eleição no qual nenhum candidato mostra consistência na defesa de valores menos coletivistas: na melhor das hipóteses, um ou dois deles poderiam, com alguma boa vontade, serem caracterizados como social-democratas.

Este mesmo governo se queixa das oscilações de mercado porque está claro para a sociedade – da qual o mercado é apenas a sua expressão econômica – que a reeleição significa a continuidade de um modelo de política econômica que não gera prosperidade. Isto não é sinônimo – como querem nos vender os profissionais da publicidade que trabalham para o governo – de uma demanda por menos intervenção governamental na economia.

Embora, obviamente, o grau de individualismo/coletivismo de uma cultura possa variar entre países, é razoável supor que ela varie relativamente menos em um mesmo país. Assim, estamos falando de uma sociedade brasileira extremamente coletivista, caracterizada, não por coincidência, com um alto grau de atividade rent-seeking (veja o livro do Lazzarini ou o do Musacchio com ele, para exemplos mais recentes desta literatura) e, portanto, queixa-se de forma muito seletiva.

Ou você viu a sociedade se manifestar fortemente na época do mensalão, por exemplo? A mobilização da esquerda, que até fugiu ao controle dos seus líderes na véspera da Copa do Mundo, por exemplo, sequer foi ativada novamente com a saída lenta e gradual de mensaleiros da prisão. Ainda prevalece uma visão emporiofóbica (compatível com valores culturais que valorizam a perpetuação de traços culturais coletivistas) na sociedade brasileira, ora bolas. É este “mercado” que reclama da presidente. Uma mistura de acionistas e empresários e poupadores que não está se lixando para algum “liberalismo”, muito menos para algum “neoliberalismo”.

Concluindo….

No dia em que os mercados reclamarem de excesso de rent-seeking e a sociedade sair às ruas pedindo menos intervenção do governo em suas vidas, aí sim, poderemos falar de um eleitor mediano liberal ou libertário. Até lá, meus amigos, não, não estamos diante de um “mercado neoliberal que deseja acabar com o bolsa-família”.

Estamos, isto sim, diante de um mercado que opera sob altos graus de ineficiência econômica desejado por muitos de seus supostos empresários “liberais” que, por sinal, só financiam idéias liberais que não incentivem o uso da econometria para não terem seus poderes monopólicos ameaçados (já se vê, por aí, alguns jovens entusiastas deste discurso liberal que se diz pluralista, mas não aceita qualquer divergência de opinião e, sim, muitas vezes defende o fim do bolsa-família, do banco central, etc).

É o Brasil uma sociedade cheia de empresários jovens e realmente empreendedores, que arriscam seu capital para criar produtos novos? Não. É nossa cultura uma cultura que valoriza o indivíduo e, portanto, vê com bons olhos a liberdade de consumir? Não. É nossa sociedade caracterizada por um desejo de se livrar das intervenções governamentais em sua vida? Não.

Então, você, que reclama dos mercados “neoliberais”, engole o choro/não perca a cabeça e pára de reclamar tanto. Ou você vive no mundo que te vendem na propaganda governamental?