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Momento Reflexão do Dia – Veia tenebrosa

Dia destes eu estive em um laboratório, para fazer exames de sangue. Geralmente é a mesma moça que colhe meu sangue mas, neste dia, foi outra.

– O senhor me desculpa, não estou achando a veia…
– Imagina, fique à vontade.
– Está difícil…nossa…o senhor é vampiro, morto-vivo ou algo assim?
– Quase. Sou professor.
– Ah, entendi.

A moça desistiu. Entregou para Deus, chutou o balde, enfim, cansou. Pediu mil desculpas e chamou uma outra que parecia ser a oficial sênior do pedaço.

– Muito prazer. A agulha está esterilizada…
– Ok, tudo bem. Mas é que tenho que trabalhar, quer dizer, dar aula.
– Vou achar. Ah, aqui está.

Neste momento, vem outra moça – é, já eram três assistindo – e me cumprimenta.

– Ora, tudo bem?
– Tudo bem! Como vai?
– Bem, e o senhor, novamente aqui…

Virou-se, então, para as outras, e disse:

– Ele sempre vem aqui. A veia dele é tenebrosa.

E a outra arrematou:

– Difícil de ver.

E a terceira, assustada, quase em pânico:

– É verdade…professores, eles não têm coração…onde está o sangue??

Tive que assumir o leme da nau:

– Ora, não se preocupe. Meus alunos sempre me perguntam se tenho coração. Óbvio que já tive. Algum dia. Com tantas mentiras e dissabores que vivenciei e vivencio na faculdade, o coração endureceu. Não bombeia mais nada. Acho que se procurar, acharemos um pouco de sangue. Tomara que dê para fazer os exames…

– E não dá para trocar? – Perguntou uma delas.

– Nada. Passou da validade. Além disso, os alunos adoram. É um motivo a mais para usarem como justificativa: “o professor não tem coração, ele derrubou o avião do Eduardo Campos, ele matou Kennedy, etc, etc”. É um festival de besteiras. A gente se diverte. De uma forma triste, eu acho, mas é divertido.

– Deve ser difícil ensinar, não? – Disse-me outra.

– Olha, é. A gente dá o sangue. Quer dizer. Eu já nem tenho mais sangue para dar. Cutuca aí para ver se sai algo.

Foi quando alguma delas percebeu.

– Não precisa mais apertar a mão. Acho que encontrei uma veia. Parece que ainda tem sangue. Será que posso?

– Claro, claro. Mas cuidado. Caso ainda haja um coração em mim, ele poderá precisar do sangue. Se bem que vou dar aula a manhã inteira. Não, não, pode tirar tudo.

Veia tenebrosa…é, estou na profissão certa. Tiram-me o sangue de todos os lados. Pagam-me o valor correto por ele? Talvez. Vai saber.

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