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Bocó!

Bobo, palerma, abestado, boca-aberta. Bolsa de lona, couro, crosta de tatu, levada a tiracolo nas caçadas. Não tendo tampa, o bocó está sempre aberto, sugerindo a figura pacovia do bobo, de boca entreaberta numa admiração contínua. Apodo correspondente ao “Boca de aruá” nordestino. [Cascudo, Luís da Câmara (1986) Locuções tradicionais no Brasil. Itatiaia/USP, p.194]

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A análise científica requer mais do que apenas palavras ou estatística? Sim!

Tenho dito sempre aqui que uma correlação não faz verão. Recentemente, meu aluno Thomaz voltou a publicar no blog e, o que é sempre bom, o texto gerou uma saudável polêmica porque, em resumo, ele tentou sustentar sua tese com uma vaga correlação. O debate que, infelizmente, ficou no Facebook e não aqui, seguiu-se com intervenções de Pedro Sant’Anna (co-criador do Nepom), Regis (PPGOM-UFPel) e, claro, este que vos fala.

Existe, claro, uma questão de custo de oportunidade quando se fala em qualquer decisão humana (e não-humana…vide Freakonomics), inclusive a de se publicar textos em blogs. Quem me acompanha há mais tempo sabe que já cometi erros aqui, já exagerei acolá e, com o passar do tempo, tornei-me mais preocupado em esclarecer ao leitor as limitações do que coloco aqui. Não sendo perfeito, obviamente, devo sempre assumir meus erros e omissões.

Mas eu queria apenas voltar ao tema usando um exemplo prático, um case, como disse o Thomaz na polêmica. Aliás, este é um meta-case, já que vou usar um texto (case) para ilustrar o problema.

Lembremos do (mau) uso da estatística em um outrora celebrado autor das sociais, o famoso Oliveira Vianna. O trecho que vou citar a seguir tem um pouco de tudo. No caso, ele se remete não apenas às suas tabulações, mas também à literatura estrangeira. O tema em questão é o valor da ‘raça’ amarela em termos de inteligência.

O problema é o desempenho dos japoneses em testes psicométricos. A hipótese de trabalho:

Estudadas scientificamente pelo processo psycometrico dos ‘tests’, como se comportam ellas? como se comporta especialmente a [raça] japoneza em confronto com as raças brancas, especialmente a anglo-saxonia? [Oliveira Vianna (1938) Raça e Assimilação, p.208]

Não se sinta constrangido com o trecho acima. Lembre-se que a eugenia já foi muito popular entre o pessoal das sociais nos anos 30. Narloch, em um dos seus “guias politicamente incorretos”, lembra-nos mesmo que Allende era um entusiasta da eugenia (embora sua admiração viesse com uns 20 ou 30 anos de atraso…).

Então, veja, havia um contexto na Sociologia, Antropologia, enfim, em que a turma que estudava a sociedade achava ser “raça” um conceito central.

Oliveira Vianna faz mais: ele cita, então, um estudo norte-americano:

Os dois pesquisadores americanos (que visivelmente não morrem de amores pelos orientaes, principalmente os japonezes) foram forçados a concluir que as duas raças amarellas, com especialidade a japoneza, estudadas scientificamente em relação aos ‘tests’ da intelligencia e do caracter (temperamento), não são em nada inferiores a nenhuma das raças européas e – o que é mais surprehendente – em alguns dos ‘tests’ se mostraram mesmo superiores! [idem, p.208]

Repare no texto de Oliveira Vianna. A despeito do português impecável (e do bela grafia dos anos 30…), o autor não consegue disfarçar sua surpresa com o fato de que japoneses poderem se sair bem em testes psicométricos. Melhor ainda é o que ele diz ao final do pequeno capítulo:

O japonez é como o enxofre: insoluvel. E’ este justamente, o ponto mais delicado do seu problema immigratorio, aqui como em qualquer outro ponto do globo. [ibidem, p.209]

racistasA psicometria é uma ciência que, como qualquer outra, tem sua história cheia destes preconceitos que são típicos de cada época. Oliveira Vianna, desta forma, não é um homem descolado do contexto histórico. A bem da verdade, o racismo não era a única forma de se pensar a sociedade e há teses e teses sobre isto – em especial sobre este autor – no mercado.

O que temos é um raciocínio construído com base em uma estatística ruim – não se vê muito esforço do autor em fundamentar suas hipóteses de forma muito profunda. Há um ou outro cálculo de indicadores em seu texto, mas nada mais do que isso.

Assim, a análise científica dele tem de tudo um pouco. Citam-se dados, referências da literatura da época, nacional ou estrangeira, enfim, uma prática não muito diferente da que usamos hoje. A diferença, talvez, esteja em alguns pontos:

a) Nem sempre está claro quando Oliveira Vianna é normativo ou quando é positivo. Ou melhor, em seu livro, mistura-se opiniões pessoais com teses positivas. Não é estranho, portanto, que tantos o acusem de racismo enquanto outros achem que ele apenas seguia a literatura da época. É a mesma polêmica que alguns levantam ao ler o livro do Narloch ao se defrontarem com o pensamento ‘eugenista’ de Allende.

b) Oliveira Vianna busca respaldar suas opiniões em um texto que não é apenas literário. O livro tem cálculos de índices, tabelas e gráficos (como o famigerado gráfico acima) para tentar ajudar em seu argumento. É certo que gráficos são importantes, mas e a lógica?

c) Oliveira Vianna não tem um único teste estatístico para testar as hipóteses que levanta. Por exemplo, ao final do livro, ele tem o artigo que talvez seja o mais polêmico de todos: O problema do valor mental do negro. Obviamente, o nome desperta uma certa ojeriza, embora, como já disse, isso fosse popular no passado (lembre-se de Galton que, aliás, ele cita). Neste ensaio, ele cita um único estudo estatístico (com uma única amostra) para tentar mostrar suporte (ou, se quiserem: suportar (no pun intended)) a tese de que uma raça teria menos possibilidade de gerar pessoas com ‘valores mentais’ do que a outra (e adivinhe que ‘raça’ é…).  Em seguida, ele cita algumas referências sobre a história da África para sustentar a tese, desta vez, tentando mostrar que civilizações avançadas africanas não eram, originalmente, negras.

O que se conclui disso tudo? Na minha opinião, é simples: você pode seguir ‘consensos’ e pode se valer de um pouco de estatística, inclusive, criando categorias próprias (‘raças’, por exemplo). Claro que se a ciência não sofre censura estatal, existe sempre a possibilidade de outros autores contestarem suas descobertas.

A polêmica a que me referi no início deste texto enseja este debate, não é? Até que ponto o que fazemos é ‘ciência’, ‘divulgação da ciência’, ‘má ciência’ ou ‘má divulgação da ciência’? Tanto eu como o Leo Monasterio, Andre, Pedro, Thomaz, só para lembrar alguns que publicaram neste blog comigo sempre tentamos fazer os dois primeiros. Você pode sempre dizer que estamos seguindo “a mentalidade da época”. É verdade. Não como falsear esta afirmação. Mas acho que estamos no caminho certo. Usamos a Teoria Econômica, esta que não demoniza pessoas por raça, credo ou time de futebol. Esta mesma teoria que sempre esteve aberta a novos conceitos (veja até onde chegamos). Não que não existam grupos de fanáticos que desejam apenas fazer exegese ou impor seu credo político sobre outros. Eles existem. Mas a esperança é que a boa ciência triunfará.

Ah sim, para fazer uma homenagem aos racistas no futebol, vai aí uma outra tabela do mesmo livro.

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