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Mussum e o agente-principal na firma (o dia em que Mussum antecipou “The Office”)

Há muito tempo atrás, Oliver Williamson publicou um artigo que muitos interpretaram como sendo uma crítica à teoria econômica (para mim, apenas mais um modelo na caixa de ferramentas). O ano era 1963 e a revista, claro, era a The American Economic Review. O modelo era tão bom que virou capítulo de um livro de Microeconomia muito admirado por alguns, da grega Koutsoyiannis. Muito tempo depois, uma variação do modelo ficou famosa como um exemplo de possíveis comportamentos de reguladores numa visão mais crítica (algo Stigleriana) da regulação econômica.

O ponto central do artigo de Williamson era que deveríamos estudar os microfundamentos das firmas. Não sem razão, ele via a maximização de lucro da firma como uma abstração inadequada para se entender os problemas das firmas. Afinal, quem maximiza o lucro? O gerente de vendas? A secretária do chefe? O faxineiro da noite?

Williamson, então, propõe o conceito de expense preference que seria uma forma de se modelar as diferentes preferências dos gerentes (managers) por diferentes tipos de gastos. Nas palavras de Koutsoyiannis (1979):

In particular, staff expenditures on emoluments (slack payments), and funds available for discretionary investment give to managers a positive satisfaction (utility), because these expenditures are a source of security and reflect the power, status, prestige and professional achievement of managers. [Koutsoyiannis (1979). Modern Microeconomics, 2nd ed., p.371]

No vídeo acima, Mussum, personagem do show “Os Trapalhões” que virou parte da cultura pop brasileira, ilustra bem esta diferencianção de interesses em um escritório ou repartição pública que vimos nas versões britânica e norte-americana de The Office e na divertida Parks and Recreation, com Amy Poehler. Com bom humor, percebe-se que as relações de trabalho dentro de um escritório podem ser bem menos harmônicas do que pressupõe nossa vã teoria da firma.

Mas desde aquela época…

Muita gente, que não acompanha a evolução da teoria econômica, acha que modelos microeconômicos pararam na famosa “competição perfeita”. Vez por outra vejo alguém fazer críticas que ficam totalmente sem sentido por conta disto. Veja, o modelo de Williamson é de 1963 e, portanto, nem é a última novidade em modelos econômicos da firma.

Desde muito tempo incomodava bastante o fato de a teoria da firma não ser tão bem microfundamentada quanto a teoria do consumidor. Vieram estes modelos alternativos de maximização, a teoria dos jogos, a incerteza (no sentido tradicional do termo) e, claro, talvez a última fronteira tenha sido a percepção de que problemas assim são problemas que envolvem agente(s) e principal(is). Mais recentemente, mas de forma ainda precária, existem as tais idéias de economia comportamental, que ainda não são suficientemente consensuais para suplantarem os modelos padrões.

Mussum, de forma divertida, como se vê, não está nem aí para o lucro (ou para o desempenho da repartição pública, embora pareça, ao final do quadro, que se trata mesmo desta e não de uma empresa privada). Escolhe de forma discricionária como tratar seus funcionários como Michael Scott o faz em The Office. Claramente foge do trabalho e tenta prejudicar aqueles que entram em sua mira por algum tipo de incômodo.

Mussum e a Ineficiência-X

Você poderia me perguntar: mas uma firma/repartição sobreviveria assim no mercado? Tudo depende da existência de ameaça de competição ou da competição efetiva. Enfim, caso não exista qualquer ameaça à forma ineficiente pela qual a firma opera, não há motivos para a mesma mudar sua forma de funcionamento. Digamos que é uma firma privada – porque a repartição pública já tem a falta de qualquer competição por origem… – e que Mussum é o gerente.

Digamos que Mussum é preguiçoso e não quer ter muito trabalho. Os outros gerentes pensam da mesma forma. Na ausência de competição, Mussum e outros gerentes da mesma firma podem acabar gerando um nível de produto mais baixo do que o tecnicamente viável, um fenômeno conhecido na literatura econômica como ineficiência-X.

Claro que uma forma de se tentar sanar este problema – já que nenhum dono de empresa admira competir e sonha em ser monopolista – é tentar criar sistemas de incentivos para emular o mercado e fazer gente como o Mussum não gerar resultados ineficientes. O problema, neste caso, é que nem sempre é trivial criar este “mercado contrafactual” para gerar incentivos. É por isto que você observa, no mundo real, uma realidade distinta do mundo dos sonhos que alguns te vendem sobre competição.

Contudo, perceba que o problema é a falta de competição, não seu excesso. Por isto é que economias centralmente planificadas, ou que possuem governos muito intervencionistas, geralmente geram resultados inferiores aos de mercado (veja as piadas contadas no livro Foi-se o Martelo, já comentado aqui).

Finalmente…

A bem da verdade, eu não precisava ir tão longe na história dos modelos econômicos da firma. Bastava falar um pouco de principal-agente mas, por algum motivo, eu me lembrei do velho modelo de Williamson. Acho que é porque ele é simples e muito poderoso para ilustrar algumas situações interessantes e, como estou na tradição de economistas que adora um modelo de equilíbrio parcial e simples (e também porque sou um pouco preguiçoso, como diriam meus colegas e até alguns amigos), prefiro dar aos leitores deste blog – geralmente os menos familiarizados com a Teoria Econômica – referências iniciais mais factíveis e menos cansativas para a leitura.

Não é todo o dia, mas hoje é domingo, né?

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