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A Economia do Crime de “Os Originais do Samba”

Outro trecho engraçado da vida de Mussum. Após um aumento da popularidade do grupo, os cachês dos sambistas subiram. Prosperidade, alegria e…

Corumba, logo ele, o veterano e austero empresário e conselheiro do grupo, passou a cobrar o dobro pelas apresentações, mas continuou a repassar o mesmo valor de cachê para os músicos. (…) Não se sabe por quantas vezes ou por quanto tempo a manobra foi feita, mas o modo como o desvio foi descoberto entrou para o folclore do conjunto. Rubão, surdista e tesoureiro oficial dos Originais engatou um romance com a secretária de Corumba e, por métodos pouco ortodoxos de auditoria, fez a moça revelar o esquema do chefe. [Barreto, J. (2014). Mussum forévis: samba, mé e Trapalhões. Ed. Leya, p.185]

Aí está um belo exemplo de problema na relação agente-principal.

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Momento Político do Dia

Na bela biografia do Mussum, conta-nos o autor, Juliano Barreto acerca do clássico O Trapalhão no Planeta dos Macacos, que o roteiro não era apenas uma paródia do sucesso original mas…

Os tiranos do outro planeta planejavam um golpe de Estado, castigavam seu povo impedindo o uso de eletrodomésticos e bens de consumo importados e não conseguiam controlar a alta no preço da banana por conta de uma cruel inflação. Mais ou menos como outros primatas faziam em Brasília. (Barreto, J. (2014). Mussum forévis: samba, mé e Trapalhões, p. 180)

O mais irônico é que, não sei se o autor percebeu, parece que a macacada continua em Brasília. Sobre a inflação de 1976? Dá uma olhada no seu livro de economia brasileira. Ou veja este vídeo.

Ah, a inflação da banana…
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Love Machine: a música da economia que não decolou nos anos 2000

A mulherada mandava no pedaço…e no otimismo.

Em 09 de Setembro de 1999, o grupo musical pop, Morning Musume, lançou um de seus maiores sucessos: Love Machine (eu não esperava por um verbete em inglês na Wikipedia, mas…). Como era o Japão da época? Bem, a economia tinha acabado de sair da bolha econômica (バブル景気 baburu keiki) e parecia ter um futuro promissor. O otimismo? Veja este trecho da música:

No matter how bad the recession is, love is inflation
It’s indecent be treated this well
My future is bright, I hope to find a job

The world envies
Japan’s future
Let’s fall in love
Dance! Dancin’ all of the night

Ah sim, sempre tem aquele que vai querer encontrar o trecho na música. Da mesma fonte:

Donna ni fukeiki datte koi wa infureeshon
Konna ni yasashiku sarecha midara
Akarui mirai ni shuushoku kibou da wa

Nippon no mirai wa (wow wow wow wow)
Sekai ga urayamu (yeah yeah yeah yeah)
Koi wo shiyou ja nai ka (wow wow wow wow)
Dance! Dancin’ all of the night

Pois é. Cita-se explicitamente a recessão, a inflação e, claro, o mundo que “invejaria o futuro do Japão”. Bem, como sabemos, os fios da história são tecidos de modo algo desconhecido por nós, mortais. Então…

Growth slowed markedly in the 1990s during what the Japanese call the Lost Decade, largely because of the after-effects of the Japanese asset price bubble and domestic policies intended to wring speculative excesses from the stock and real estate markets. Government efforts to revive economic growth met with little success and were further hampered by the global slowdown in 2000.[2] The economy showed strong signs of recovery after 2005; GDP growth for that year was 2.8 percent, surpassing the growth rates of the US and European Union during the same period.

Pois é. Todo mundo danced all of the night… A música está aí embaixo (versão resumida do clip aqui).

Gosto desta música porque, bem, sucessos pop são terrivelmente hipnóticos. Mas, além disso, no caso deste hit, há o aspecto econômico, literalmente cantado em prosa e verso. Como não sou um conhecedor da música brasileira, não sei se existem músicas assim, tão explicitamente contextualizadas. Imagino que existam e agradeço qualquer dica que me enviem em comentário.

Uma dica boa para trabalhos com alunos de graduação (está em dois livros de teaching for undergraduates de Economia que tenho aqui) é usar músicas. Bom, a turma tem que ter interesse em aprender, senão vira bagunça. Bem, neste caso só nos resta…wow wow wow wow wow wow…

Ah sim, a economia japonesa…ei-la, resumida (dados atualizados) com minha tradicional utilização do R (no caso, RStudio, bons pacotes e um pouco de bom gosto para cores…ou não?).

new_Abenomics_GDP_dessaz
Abe, meu filho, leva esta economia para um futuro brilhante! Mais integração econômica, mais mercados flexíveis…vamos lá! Tá tudo lá, nos manuais!
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Por que (tanta) xenofobia?

Todo mundo sabe que imigração é, via de regra, ótimo para o desenvolvimento econômico. Analogamente, ninguém diz que a independência do Banco Central piora o cenário inflacionário.  O que estas duas situações têm em comum? Fácil: os interesses individuais.

Não é comum ver funcionários do Banco Central fazendo greve pela independência da autoridade monetária e também não é comum ver gente fazendo passeata para que tenhamos mais médicos espanhóis, professores de história do pensamento econômico italianos ou, sei lá, faxineiros austríacos (ou mexicanos).

Aliás, não é de hoje que vejo tanta gente fazendo comentários xenófobos. É, isto mesmo. Brasileiro, o tal cordial e atencioso que ama tudo e todos, muitas vezes, vê-se com um discurso xenófobo. Outro dia uma reportagem da TV falava de “empregos roubados” por gente que veio da Europa tentar a vida aqui.

Por que isso? Talvez a xenofobia seja fruto de nossa desigualdade econômica. Por que? Vejamos um autor antigo e seu insight interessante.

Por maiores que sejam, porém, as vantagens econômicas de uma numerosa imigração para o Brasil, as resistências que ela encontraria e os problemas sociais que a sua presença poderia criar, provàvelmente não a tornariam desejável.
Nessas condições, não há possibilidade de outro tipo de imigração além de lavradores com capitais, ou de técnicos especialmente necessários ao país, que, em virtude do seu pequeno número, podem passar despercebidos. E, mesmo assim, é possível que o rápido desenvolvimento de uma classe média numerosa, a cujos desejos o Govêrno é especialmente sensível, venha restringir a aceitação dêsses técnicos aos setores da população em que a falta de nacionais credenciados seja indiscutível. (Lambert, J. (1970). Os Dois Brasis, 6a edição, p.72-3)

Lambert, então, achava que a desigualdade econômica gerava uma certa animosidade contra imigrantes (sua lógica lembra muito o discurso das “elites” que alguns tanto gostam) dado que os mesmos chegariam ao país em situação inicial melhor.

Eu tendo a ver nos grupos de interesse um motivo para maiores barreiras à imigração. Não creio que um noveaux riche, ou melhor, um recém-saído da pobreza, fica chateado em ver um estrangeiro ganhando mais do que ele. Tendo a imaginar o oposto: o sujeito que ascendeu adora usufruir de novos bens e um professor estrangeiro, por exemplo, é uma ave exótica sobre o qual ele adora contar aos amigos.

Então, não, eu não concordo com este aspecto da visão do Lambert. Não é uma questão de “orgulho” ou “amor próprio”, como ele insinua. É uma questão de grupos de interesse. Penso, por exemplo, na xenofobia – ironicamente falando – francesa, que me parece um problema econômico, não de “amor próprio”. Economia política mesmo: o sujeito não quer a concorrência do profissional estrangeiro.

Em outras palavras, a desigualdade pode aumentar a xenofobia e há grupos de interesse que lucram com isto. Pergunte-se a quem interessa, por exemplo, difundir discursos sobre “elite branca”, sobre “racismo”, numa tentativa de amplificar e distorcer a interpretação de problemas importantes em proveito próprio.

Eu me pergunto mesmo é se há algo a se reinterpretar na minha leitura de Lambert. Depois eu conto mais.

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Liberdade

Ela era demais, não?

Liberdade, essa palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique e ninguém que não entenda (in: Romanceiro da Inconfidência, citado por Rangel, F. & Fernandes, M. (1987) Liberdade, liberdade. L&PM Editores)

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Um herói injustiçado da abolição

Por que? Descubra aqui. É, estou repetindo um tema antigo, mas pensar em história econômica “jogando fora” a teoria porque “ela é neoclássica, e não austríaca ou marxista”, como querem alguns black blocs maoístas, é de uma ignorância terrível e eu, como professor, posso não estar qualificado para ministrar um castigo por sua falta de educação, mas sou obrigado a puxar a orelha das pessoas. 

É muito comum enfrentar este tipo de arrogância em debates. O sujeito é mais ou menos assim:

Sentado atrás de uma escrivaninha, anotando palavras e números num papel, ele tende a supervalorizar o significado de seu trabalho. Como o patrão, ele escreve e lê as coisas que outros colegas anotaram, conversa diretamente ou por telefone com outras pessoas. Muito vaidoso, imagina-se parte da elite gerencial da empresa e compara suas tarefas com as do chefe. (Mises, L. (1988). A Mentalidade Anticapitalista, p.24)

Cheio de dinheiro, herdeiro de um negócio mais ou menos bem-sucedido, ou pelo rent-seeking ou pelo empreendedorismo knightiano-kirzneriano (profit-seeking), pensa que porque leu três páginas de um livro de quatrocentas, já viu a verdade (sem sequer se questionar se faz sentido buscar alguma suposta verdade…). 

Não é muito diferente do colega intelectual do departamento de (s)ociologia (obrigado, Gaspari, por criar o termo…) que olha para o colega rico, senta-se à mesa e suspira de tristeza pensando em como a riqueza do colega não o tirou do comportamento racional, mesquinho que, aliás, crê, teoricamente não fazer sentido pois a alienação de classe…e por aí vai. 

No final do dia, eu fico com Alberto Oliva:

(…) não cabe impor ao pesquisador a tarefa de fazer inventários ontológicos que retratem fidedignamente o que a realidade é em si mesma. Sua missão deve ser a de elaborar teorias que se revelem capazes de explicar as propriedades essenciais dos entes aos quais se está conferindo primazia ontológica. (Oliva, A. (1999). Conhecimento e Liberdade, p.114)

Não que isto resolva a questão, como se vê, de quem está correto ou errado, mas creio que nos mostra a impossibilidade de fugir da liberdade que a investigação científica necessita ter. Esta liberdade, obviamente, não é sinônimo de unanimidade (nem poderia), mas é um dos pilares que nos ajuda a avançar. 

Ah sim, a tentativa de desqualificar o adversário, claro, não ajuda muito neste debate. Em última instância, a investigação científica – notadamente a da história econômica – vai nos desvelando camadas e camadas de poeira que turvam a visão. Camadas que estavam lá pelo tempo e camadas que estavam lá porque somos preconceituosos demais para percebermos que o buraco é mais embaixo.

A história econômica já sofreu demais nas mãos de pseudo-professores e também dos doutrinadores. 

Para terminar, apenas um viva. Para quem? Para Manuel Pinho de Sousa Dantas!