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Bons momentos…

Eu gosto muito desta tabela que peguei lá do livro-texto de Economia Monetária do Ronald Hillbrecht (Editora Atlas). Trata-se do custo do PROER e de planos similares em outros países. Mostra o porquê de eu reafirmar sempre que a melhor assessoria econômica é a do candidato tucano (nada contra a assessoria do falecido candidato Eduardo Campos, claro).

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Quem viveu esta época sabe bem o que foi aquilo tudo. Quem estava no berço ou achando que sabia economia porque decorava frases feitas de 147 caracteres, bem, espero que um dia aprendam.

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O que parece ser…não o é. Ou algo assim – o caso da Lei do Mercado Livre de 1953

Estamos em 1953 e o governo Vargas resolve fazer a maior piada da história econômica brasileira do pós-guerra (até aquele momento): cria a Lei do Mercado Livre. Aí você vai me dizer: nossa, o super-neoliberal Getúlio Vargas teve um acesso de loucura e liberou?

Bem, veja o que dizem estes autores sobre esta lei, conhecida como Lei 1.807:

“(…) [A] Lei do Mercado Livre (Lei 1.807) promulgada em janeiro de 1953, exatamente no contexto em que o governo parecia afirmar sua ideologia nacionalista (…) permitia liberdade cambial e afrouxava as condições de reinvestimento ao capital estrangeiro, mas introduzia um sistema cambial bastante heterodoxo de taxas múltiplas de câmbio, tanto para importações como para exportações, sistema este que antecipa as faixas cambiais da Instrução 70 da SUMOC, de outubro do mesmo ano. A adoção destas taxas múltiplas de câmbio representou, na prática, uma desvalorização cambial, mas procurando minimizar os prejuízos do setor industrial, pois privilegiava a importação de bens de capital e insumos essenciais, administrando ganhos e perdas decorrentes da crise cambial segundo um critério nitidamente político e pró-desenvolvimentismo.

É, rapaz. O homem enganou todo mundo! Vou liberar o câmbio, mas vai ser com mil e uma traquinagens! Não vai ser livre, vamos ter vários preços, etc, etc. Claro que a história nos ensina que não deu certo (sentiu a doce ironia?).

Bem, fica aí a curiosidade.

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Eu sou um neoliberal! Sou um neoliberal! Eu li Mises, Rothbard e sou anarco-capitalista! Mas, na hora que me falam de não me meter na vida alheia, eu crio taxas múltiplas de câmbio e ai daquele que reclamar!
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Equipare a razão à paixão inicial e você será um bom economista

20140814_210202O trecho acima é do falecido Simonsen, em Inflação: Gradualismo x Tratamento de Choque, em sua 2a edição de 1970, pela APEC Editora. Acho um trecho sensacional. Por que? Porque Simonsen faz o comentário que eu gostaria de ouvir de 15 em cada 10 alunos (isso mesmo) de Economia que já pensaram, alguma vez em sua vida, sobre a aplicação da teoria à prática.

Não, não precisa ficar naquela chatice da discussão metodológica (importante, merece respeito, etc, mas é um campo que facilmente se enche de gente pedante que não leu o que diz ter lido e aí cansa). Basta pensar no que lê, no que estuda.

Simonsen – numa época em que regressões eram calculadas à mão – faz uma regressão simples a partir de um modelo simples e qualifica seus resultados com uma elegância que raramente se vê. Claro, parte do meu encanto está no termo renda permanente, conhecido dos leitores deste blog.

Convenhamos: quantos alunos você tem que, após fazerem uma crítica apaixonada por alguma medida de política econômica, partem para o computador para fazer um teste e depois pensam sobre o que estimaram (e diagnosticaram)? Tem uns que até estudam o método para fazer o teste, tamanha a vontade de entrar na discussão com a razão equiparada à paixão. Aliás, isto é o que caracteriza um bom economista (ou aluno de).

Quer um exemplo? Olha este cara aqui.

 

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Ainda a discussão da função consumo – a importância da teoria (com um exemplo relativamente simples)

Voltando à função consumo

consumo33Vocês sabem que sou simpático àquela história de deixar os dados falarem, ao invés de torturá-los para dizerem o que desejo que digam, certo? Pois bem. Ontem eu continuei um assunto que volta e meia me incomoda: a função consumo. Começou com um post para ajudar a audiência do Nepom e continuou aqui com este outro.

Aproveito para reafirmar que estou, simplesmente, seguindo o que um aluno de Economia interessado no tema faria: tento explorar a teoria com dados do Brasil. Para fazer isto de forma organizada, uso um exemplo de um bom livro de Econometria, no caso, o Basic Econometrics de Gujarati & Porter (sim, existe em português).

O leitor mais acostumado à Econometria sabe que as estimações que fiz podem ter muitos problemas potenciais (digamos que o método de mínimos quadrados ordinários usado para calcular os parâmetros nas estimações pode até não ser o melhor método…). Mas eu me dirijo aqui, principalmente, ao leitor que está angustiado, perguntando-se sobre a utilidade da teoria, o porquê da econometria, etc.

Bom, vamos seguir com o capítulo 17 do Gujarati [Gujarati & Porter (2009), ou seja, trata-se da 5a edição]. Veja que discussão interessante ele faz em seu exemplo 17.10. Vou reescrever o texto, adaptando-o ao nosso problema que é estimar a propensão marginal a consumir com dados anuais do Brasil (para detalhes, veja o texto do Nepom, que foi o primeiro nesta discussão).

Duas Alternativas Teóricas…Mesma Especificação Econométrica

Econometria é uma ferramenta útil, mas não se pode ir para a banheira apenas com ela. É preciso ter teoria (ou você trocará o sabão pela esponja, o que pode trazer consequências terríveis para sua pele) também. Veja só que excelente ponto para pensarmos!

Digamos que o consumo siga a teoria da renda permanente. Como já vimos, isto significa que devemos ter uma hipótese sobre como a renda permanente varia no tempo. Juntando esta hipótese à equação principal que é a função consumo, obtém-se uma forma reduzida que é a última equação aí embaixo.

Ct = β1 + β2X*t + ut

X*t – X*t-1 = λ(Xt – X*t-1)

Ct = λ β1 + λ β2 Xt + (1- λ) Ct-1 + [ut – (1-λ) ut-1]

Repare que, de forma ligeiramente distinta do que fiz antes, a função consumo inicial carrega um intercepto, β1, que é uma concessão que faço a Gujarati & Porter (2009) porque, a rigor, não precisaríamos dele já que a história da teoria da renda permanente é ligada ao fato de que as estimações de Kuznets não encontravam significância estatística para o intercepto. Foi, aliás, o que eu fiz ontem, aqui.

Mas seja bonzinho e deixe o intercepto lá. Faça como alguns e diga para si mesmo: vou desconsiderar o intercepto caso ele não seja significativo (uma justificativa meio post hoc, mas útil no momento).

Obviamente, esta função pode ser estimada com uma equação do tipo:

Ct = a + b1Xt + b2Ct-1 + vt

Bonito, não? Mas e se eu te disser que podemos ter outra teoria que seja compatível com esta equação a ser estimada? Pois é. Digamos que o consumo, no longo prazo, é uma função da renda corrente. Ou melhor, o consumo permanente é função da renda corrente. Podemos então, fazer como fizemos para a renda permanente e supor um modelo de ajuste para o consumo ao longo do tempo. Eis o modelo:

C*t = β1 + β2Xt + ut

Ct – Ct-1 = λ(X*t – Xt-1)

Ct = λ β1 + λ β2 Xt + (1- λ) Ct-1 + λ ut

Repare que, novamente, a última equação é o resultado (ou a redução) das duas primeiras equações. Esta também pode ser estimada como:

Ct = a + b1Xt + b2Ct-1 + vt

Bonito, heim? Mas muito bonito mesmo.

Digressão Metodológica

Ensina-nos, dentre outros, Pasquali (1997) que a Ciência tem destas coisas. Ainda mais no caso de ciências humanas. Refiro-me ao problema da medição dos fenômenos. Pela dificuldade inerente à obtenção de medidas exatas dos atributos do objeto de estudo, recorremos às “leis científicas”. Em sua tipologia temos:

1) Medida por lei: quando uma lei for estabelecida empiricamente entre duas ou mais variáveis, a(s) constante(s) típica(s) do sistema pode(m) ser medida(s) indiretamente pela relação estabelecida entre essas variáveis, como é o caso da viscosidade em física e a lei do reforço em psicologia.

2) Medida por teoria: quando nem leis existem relacionando variáveis, pode-se recorrer a teorias que hipotetizam relações entre os atributos da realidade, permitindo assim a medida indireta de um atributo por meio de fenômenos a ele relacionados via teoria. O importante nesse caso é garantir que haja instrumentos calibrados para medir (fundamentalmente ou de outra forma válida) os fenômenos com os quais o atributo em questão esteja relacionado pela teoria. [Pasquali, L. Psicometria: Teoria e Aplicações, Editora da UnB, 1997, p.37]

Não é que o que estamos discutindo aqui parece muito com alguma mistura de (1) e (2)? Afinal, podemos partir da teoria microeconômica e estabelecer a relação entre consumo e renda sem muita dificuldade, como também podemos partir da “intuição” de Keynes e falar de leis psicológicas ad hoc. Pessoalmente prefiro a primeira opção, mas, em ambos os casos, podemos refinar o raciocínio com inspiração que não é nem empírica e nem teórica, exclusivamente falando, ao, por exemplo, estabelecermos que “defasagens são importantes”.

Veja que não importa muito. O ponto é que os dois modelos podem ser justificados de uma forma ou de outra (ou, dirão alguns, por uma combinação convexa de ambos…).

Voltando ao laboratório…

Voltando ao problema econométrico, repare que uma a mesma estimação poderá nos dar duas interpretações ligeiramente distintas dos parâmetros. Lembra da estimação que fizemos?
Coefficients:
Estimate     Std. Error      t value    Pr(>|t|)
(Intercept)     0.0005092     0.0001490   3.418    0.00115 **
pib[, 1]           0.2188254     0.0501393   4.364    5.21e-05 ***
cons[, 2]        0.6154625    0.0877814    7.011    2.59e-09 ***

Signif. codes: 0 ‘***’ 0.001 ‘**’ 0.01 ‘*’ 0.05 ‘.’ 0.1 ‘ ’ 1

Residual standard error: 0.0003554 on 59 degrees of freedom
Multiple R-squared: 0.9871, Adjusted R-squared: 0.9867
F-statistic: 2259 on 2 and 59 DF, p-value: < 2.2e-16

Com a nova intepretação de Gujarati & Porter, o que era a estimação da função consumo keynesiana com defasagens distribuídas da renda virou uma estimação do modelo de renda permanente (com este exótico intercepto na função consumo de longo prazo) e, portanto, a PMgC de longo prazo será 0.569061. Note que, em relação à renda permanente, a PMgC é β2 e este tem que ser obtido pela seguinte conta: .(1-0.6154625) β2 = 0.2188254. Ou seja, 0.569061! Faz todo sentido, não faz? Afinal, no longo prazo, a renda permanente é a única renda relevante para o consumidor, na teoria desenvolvida por Friedman.

No caso do segundo modelo acima, repare que 0.2188254 é, agora, a estimativa de λ β2, além de, novamente, ser a PMgC de curto prazo. Por sua vez, 0.6154625 é a estimativa de (1- λ). Assim, λ = 0.384538 e, portanto, a PMgC de longo prazo seria dada pela solução de: 0.2188254 = 0.384538β2. Ou seja, β2 = 0.569061.

Viu o que aconteceu? Estamos exatamente com as mesmas PMgC de curto e de longo prazo para ambos os modelos. Mas existe uma diferença, não é? No primeiro caso, o termo de erro da forma reduzida representa uma média móvel de erros do modelo estrutural, o que implica em uma interpretação distinta da dinâmica entre consumo e renda.

Uma pequena qualificação…

Na minha opinião, Gujarati & Porter (2009) não estão tão corretos ao dizerem que há uma “grande diferença” entre os modelos, no que diz respeito ao aspecto teórico do mesmo. O que cada modelo faz é considerar ora a renda permanente no longo prazo, ora o consumo permanente no longo prazo. A interpretação dos coeficientes não é tão distinta assim.

A diferença está, isto sim, na questão dos resíduos do modelo reduzido e aí nós temos um bom ponto que os autores levantam com propriedade: como distinguir entre as expectativas adaptativas e o ajustamento parcial? No caso da função consumo, eles dizem:

If habit or inertia characterizes consumption behavior, then the partial adjustment model is appropriate. On the other hand, if consumption behavior is forward-looking in the sense that it is based on expected future income, then the adaptative expectations model is appropriate. [Gujarati, D.N. & Porter, D.C. (2009), p.645]

O curioso deste trecho é o seguinte. É verdade que a teoria nos diz que “hábitos” ou “inércia” no consumo devam ser modelados com modelos de ajuste parcial. Mas não é muito correto dizer que o modelo de expectativas adaptativas é adequado quando o sujeito se comporta olhando para o futuro (forward-looking). A bem da verdade, inicialmente, era assim que se pensava em Economia. Achava-se que o modelo de expectativas adaptativas era uma boa forma de se pensar na formação de expectativas do consumidor. Contudo, este modelo de expectativas é backward-looking. Ele não tem nenhum componente futuro na fórmula.

Talvez Gujarati esteja pensando naquilo que Maddala [Maddala (1998), 2a ed] nos ensina (cap.10, seção 10.11 ou, para quem comprou a última edição, Maddala & Lahiri (2010), cap.13) sobre os testes de racionalidade (falei disso aqui) que envolvem algum tipo de equação similar a estes modelos de defasagens. Dê uma olhada no meu post ou na bibliografia indicada para ter uma noção de como implementar o teste.