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Como a descarga da privada do shopping pode nos dizer algo sobre a omissão dos indivíduos diante da perseguição a analistas de bancos?

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A foto acima é, realmente, a cara do Brasil. “Boulevard Shopping” é um shopping de Belo Horizonte. No banheiro masculino, todas as descargas estavam assim. Dá para adivinhar o porquê disto?

Para ser honesto – e eu sempre digo que no longo prazo somos todos otimistas (não é difícil ver o porquê, mas aqui está um resumo) – nem todo grande estabelecimento de lojas assina suas descargas. Há outras formas de se controlar isto como, por exemplo, colocar um funcionário nos banheiros para a limpeza e…checagem.

Há vários aspectos nesta foto, mas um deles é o da importância das instituições formais e informais para o bom funcionamento dos mercados. Este é um tema mais do que recorrente neste blog como bem o sabem os leitores sobreviventes. Obviamente, o tema não é originalmente meu, mas uma construção de vários anos de pesquisa aos quais devemos associar os nomes de alguns ganhadores do Nobel como Douglass North, Ronald Coase, Oliver Williamson e Elinor Ostrom, dentre outros.

De novo este papo?

Na verdade, não. Não há muito o que acrescentar. Os leitores que usaram a caixa de “busca” no alto da página podem encontrar textos positivos ou normativos (fortemente opinativos) que escrevi neste blog ao longo dos anos. Mas vale a pena lembrar, novamente, a relevância do tema. Eis um resumo rápido.

Outro ponto importante é a relação entre governo e setor privado. Digo, a relação incestuosa.

Mas um problema importante que decorre da má formatação das instituições é o (sub)desenvolvimento dos mercados. Disse Adam Smith – na tradução mais famosa, devida a George Stigler – que a divisão do trabalho é função direta da extensão dos mercados (o prof. Bodreaux conta como a vida de seu filho foi salva por isto aqui).

Voltemos à foto

Pergunte-se novamente sobre a foto acima. O que ela mostra? Uma imensa falta de confiança nas pessoas. Melhor dizendo, uma falta de confiança entre as pessoas: ninguém confia em ninguém. Todos pensam que serão roubados. Esta visão preconceituosa contra as pessoas tem a ver, obviamente, com a verificação empírica de que muitas coisas já devem ter sido roubadas naquele shopping ou em outros lugares.

Como boa parte dos roubos no Brasil não resultam em atuação eficiente da polícia (é até difícil obter estatísticas simples como a do percentual de recuperação de objetos roubados), as pessoas tentam se defender de algum jeito, no caso, tentando “marcar” a peça para diminuir seu valor ao potencial ladrão.

Agora, voltemos ao Adam Smith. Para que mercados funcionem bem, é necessário que haja uma divisão de trabalho digna do nome. Esta somente se desenvolve se a extensão do mercado atinge um certo tamanho (não me perguntem qual é o tamanho, não sei). Para que isto aconteça, dentre outros fatores, é importante que acreditemos que nosso trabalho será recompensado e, portanto, devemos contar com uma sociedade na qual não existam muitos incentivos ao roubo.

Aí eu te pergunto: qual é a visão sobre “mercados” que você tinha quando estava no colégio? Caso você não se lembre, vou ajudar: assista isto aqui. Pois é. No caso do Brasil não é apenas a desconfiança com a eficiência da segurança pública que faz com que tenhamos que assinar descargas, amarrar canetas com correntes ou algo assim. Há também a visão de que mercados são jogos de soma zero (“se eu ganho, você perde”).

A politização do ensino é tal que predomina a unilateralidade de uma única visão sobre o funcionamento dos mercados. Até mesmo futuros empreendedores, quando entram nas faculdades, espantam-se ao descobrir que mercados não são jogos de soma zero (aliás, nunca foram). Educar, no Brasil, também é um árduo trabalho de desfazer preconceitos…

O ocaso do Santander e o capitalismo de compadres: um reflexo da nossa sociedade e história?

Você viu algum porta-voz de algum “conselho”, “ordem” ou “sindicato” se manifestar sobre a bizarra demissão da analista do Santander? Não. Por que? Porque existe uam significativa parcela da sociedade brasileira que realmente não acredita no funcionamento dos mercados. Tendo vivido sobre um capitalismo de compadres (crony capitalism) por séculos, crê que esta é a regra.

Só pode ser contra as trocas voluntárias (outro nome para mercado) quem é contra a democracia, não é? Provavelente.  Pois veja o Brasil no ranking do Latinobarometro. Quem dá nome de rua a ex-ditador (Getúlio Vargas) pode não saber o que está fazendo exatamente, mas ao fazer pouco caso da demissão da analista do Santander, percebe-se que a sensação é a de que não vale a pena se preocupar com um desconhecido, não é?

Mas não é este o fundamento das trocas que faz mercados crescerem? Não é a confiança de que quem vendeu vai te entregar a mercadoria?  Não é na base da confiança com desconhecidos que você entra em um táxi, em um ônibus ou em uma farmácia? 

Há aí, sim, um pouco de história sobre liberdade de trocas, liberdade civil ou econômica. Embora o discurso ideologizado, politizado, não-científico tente negar, os dados não dão espaço a tanta descaso com a liberdade de expressão.

Não, não me venha falar, subitamente, de seu amor às leis. Você e eu sabemos que você (e eu) passamos boa parte de nossas vidas reclamando de leis irreais ou sem sentido. Aliás, nem houve qualquer apelo legal para a demissão (só para deixar claro, nem faço idéia de quem seja a demitida, ok?).

O campo que estudo, na História Econômica, está praticamente repleto de estudos mostrando que nem todos os sistemas legais são pró-prosperidade (ou, se você quiser, pró-pobre, embora saibamos que haja alguma controvérsia no uso de ambos como sinônimos, mas duvido que entre os polemicistas haja algum defendendo o fim da liberdade de expressão). Leis também são dinâmicas, meus amigos leitores, e mudam com o tempo. Mudam com a ação dos homens, os mesmo que, agora, estão se calando diante da demissão citada. 

Conclusão inconclusa…

Talvez este seja um aspecto esquecido neste episódio negro na história da democracia brasileira: o fato de que muitos de nós se satisfazem com a demissão de uma desconhecida. Afinal, desconhecido não é digno de confiança e confiança, como vimos, é um dos pilares do desenvolvimento dos países e os países desenvolvidos, ensinam-nos nas escolas, só o são porque nos exploram (alguém precisa estudar com calma a inexistência, na língua portuguesa, da distinção entre exploitation exploration…acho que foi Pedro Sette quem me chamou a atenção para isto há anos…).

Pois é. Você não confia na analista econômica, mas confia em um político. Pela mesma lógica, deveria abandonar seu médico e se consultar com um qualquer eleito para a Câmara Municipal. Não sei o resultado, mas sei que você faz parte de uma sociedade doente mesmo…

Desculpem-me pelo texto tão longo e algo desorganizado. Prometo tentar algo melhor, ainda que você, meu caro, provavelmente não me conheça pessoalmente…

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