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Há um método nisto tudo…há um método…

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Estou me sentindo motivado a estudar mais Econometria ultimamente. Coisas da vida…

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Cultura é importante demais para ser deixada nas mãos de amadores

Quantas vezes já entrei na sala de aula, comecei uma conversa de um tema da aula e alguém me veio com: “- Mas, professor, é a cultura!!”. Sempre há alguém que procura na “cultura” a resposta para o que não entende.

Mas não basta invocar a “cultura”, como se fosse uma daquelas palavras que se grita antes de se disparar um raio de luz pelas mãos. Como diria a propaganda do Gelol, “tem que participar”.

Neste blog, por diversas vezes, tive a oportunidade de divulgar trabalhos e discussões sobre a tal “cultura”. Já deve estar claro para os leitores mais antigos que o buraco, como diria o mineiro chileno, é mais embaixo. É óbvio demais que a cultura não é um conceito estático: ele muda (muito, eu diria) no tempo.

A cultura do brasileiro de 1500 não é a mesma da do brasileiro de 1700, 1800, 1900 ou 2000. Pegue aí um dicionário de folclore como o de Câmara Cascudo, o grande estudioso do gênero para ver como nossa riqueza cultural não advém da cristalização de estórias ou hábitos. Mas não é só isso.

A cultura é um complexo feixe de valores que não são necessariamente a última instância da explicação das coisas (não me venha com esta mania marxista de querer reduzir tudo a alguma condição econômica…). Pode ser, como já verificaram alguns estudiosos, que a cultura seja gerada por uma trajetória histórica mais antiga, relacionada às culturas agrícolas. Por exemplo, conforme Aoki (1988), em um comentário sobre um conjunto de estudos:

In an interesting and provocative chapter, Platteau and Hayami argued that a contrasting way of farming – farming on vast land by mobile farmers in severe ecological conditions – in Sub-Saharan Africa may have been responsible for the formation of a different type of norms of economic behaviour, the ‘sharing of ‘good fortunes’ ‘, which may have been responsible for the formation of a different type of norms of economic behaviour (…) which may in turn account for comparatively inadequate developmental performance in that region. (Aoki, M. (1988) The Role of Community Norms and Government in East Asian Rural-Inclusive Development and Institutional Building. In: Hayami, Y.& Aoki, M. The Institutional Foundations of East Asian Economic Development, MacMillan, 1988, p.532)

De certa forma, observamos que a relação entre condições econômicas e valores culturais não é tão simples assim. Dado isto, considere então este novo estudo cujo resumo reproduzo:

The persistence of cultural attitudes is an important determinant of the success of institutional reforms, and of the impact of immigration on a country’s culture. This column presents evidence from a study of European immigrants to the US. Some cultural traits – such as deep religious values – are highly persistent, whereas others – such as attitudes towards cooperation and redistribution – change more quickly. Many cultural attitudes evolve significantly between the second and fourth generations, and the persistence of different attitudes varies across countries of origin. (originalmente aqui)

Percebeu o tamanho do problema que temos que estudar? Mudanças nos valores culturais existem e não sou o primeiro a falar disto. Muita gente importante já falou disto antes (Putnam, Coleman, North, etc). Só que o pessoal continua confundindo as coisas porque pensa sob uma ótica ideológica simplista: acha que tudo é marxismo ou gramscianismo. Com estas lentes de alcance curto, senão erradas, concluem que a cultura é determinada pelas condições econômicas e ponto final.

O que temos é uma relação muito mais sofisticada e testável empiricamente e não classes sociais que se eternizam no modelo “feudal-capital-social-comunal” que alguns buscaram, esquizofrenicamente, eu diria, encontrar nas capitanias hereditárias brasileiras (na civilização, havia gente mais famosa no debate como Maurice Dobb, Paul Sweezy, Takahashi e outros).

Bem, a cultura pode ser importante, mas se você entrou na faculdade achando que ela explica tudo e saiu da faculdade pensando do mesmo jeito, há o risco de você não ter evoluído nada porque, em qualquer curso sério – de Ciências Econômicas ou não – não há como você manter seus preconceitos escolares por mais de cinco minutos de leituras. Até meus amigos marxistas (é, eu tenho um) sabem disso.

No Brasil, infelizmente, ainda é tabu entre economistas falar do tema. Há um ou outro falando, mas geralmente ele é confundido com pterodoxos – que não são um contingente desprezível de passado histórico hegeliano, se é que você me entende… – ou é desprezado porque não usou GMM em uma amostra de dados que não comporta um GMM. É uma longa caminhada até que tenhamos uma massa crítica intelectual relevante para melhorar a qualidade das nossas pesquisas. Mas chegaremos lá, eventualmente.