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A condição de Dorfman-Steiner, os choques tecnológicos e a sua cozinha

Choques tecnológicos existem e não são exclusividade de nenhum setor da economia. Considere, por exemplo, o caso da The San Paulo Gaz Company, empresa britânica que começou a operar no Brasil em 1872. Segundo Oliveira (2013), foi graças a esta empresa que a cozinha – até então, um anexo externo da casa – ganhou um novo formato.

Mas não foram apenas os pedreiros, engenheiros e arquitetos que tiveram novas perspectivas. Afinal:

Se, por um lado, o fogão a gás acenava com a possibilidade de adequação aos parâmetros higiênicos e de modernidade propagados no início do século XX, por outro, assustava e demandava novos serviços. Os tempos diferentes de cocção, bem como tamanhos e tipos de panelas requeriam uma técnica de preparo para os alimentos bastante diversa da utilizada no fogão a lenha. (Oliveira. D. 2013, Dos cadernos de receitas às receitas de latinha. Senac, p.104)

A companhia, relata-nos, a autora, era praticamente um monopólio privado. Mesmo assim, tinha de investir em propaganda (ah, o velho modelo do monopolista que investe em propaganda, tão pouco entendido por alguns alunos cabeçudos que não querem pensar, mas apenas zap-zap no celular…). Óbvio, não? Já que o produto muda tanto assim a vida das pessoas, não dá para ganhar dinheiro assim, como se você estivesse vendendo bananas a um preço mais baixo.

O papel da propaganda, portanto, é informativo. Era necessário

“(…) vencer as resistências às novidades como a eletricidade e o gás (…). O esforço publicitário também seria realizado para fazer com que o consumidor aderisse à rede de abastecimento de gás (…). No final dos anos 1920, a Companhia do Gás passa a oferecer cursos de culinária em São Paulo e no Rio de Janeiro. (Oliveira. D. 2013, Dos cadernos de receitas às receitas de latinha. Senac, p.104)

Interessante, não? Quanto investir em propaganda? Ora, esta é a pergunta que o modelo que citei busca responder. Você, com algum treino em Economia, pode facilmente entendê-lo neste resumo. O resultado do modelo, ou o seu principal resultado, é a chamada Condição de Dorfman-Steiner. Basicamente:

A condição de Dorfman-Steiner

Firms can increase their sales by either decreasing the price of the good or persuading consumers to buy more by increasing advertising expenditure. The optimal level of advertising for a firm is found where the ratio of advertising to sales equals the price-cost margin times the advertising elasticity of demand. The obvious result is that the greater the degree of sensitivity of quantity demanded to advertising and the greater the margin on the extra output then the higher the level of advertising. (Wikipedia)

Viu só? Monopolistas também investem em propaganda. Aliás, eu nem preciso dizer que este modelo tem forte apelo empírico porque, ao contrário do que fazem alguns de meus colegas, eu comecei este texto exatamente com o exemplo empírico. É certo que não tenho os dados, mas a citação do texto de Oliveira é suficiente para nos dar uma idéia do que acontecia. Sim, se eu tivesse os balanços da dita companhia, eu brincaria com algumas simulações só para ver um pouco da condição de Dorfman-Steiner em ação.

Lendo livros que nem sempre são de Economia – na intenção inicial ou no escopo principal – é uma forma de se aprender Economia. Eu sempre digo isto. Mas você tem que estar pensando como economista para que a “mágica” funcione. Não adianta nada fazer cara de trouxa, reclamar que a matéria está difícil e ler o livro buscando apagar de sua mente qualquer conceito econômico. Aí não funciona. Ou melhor: aí não tem choque tecnológico.

Neste pequeno resumo, vimos como um choque tecnológico interage com a estratégia empresarial e como isso tudo mudou a cara da casa em que seus bisavós moravam, bem como seu almoço, lanche ou janta. Divertido, não?

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Burlar o fisco: uma questão de gênero ou de raça? E a racionalidade? É limitada? Mas é a sua ou a minha?

Introdução raivosa

Brasileiro simplório adora acreditar que tudo é uma questão de gênerou ou de raça. Mesmo diante de montanhas de estudos científicos mostrando que o buraco é mais embaixo (no pun intended), há quem tente doutrinar crianças e adolescentes com esta conversa.

Deixemos de lado minha diatribe inicial. Ok, eu comecei a ler Oliveira (2013) e já vi que, infelizmente, há uma sobrecarga de conceitos marxistas e afins no livro. Mas isto não desmerece sua obra (não sou destes que acham que todo marxista é desonesto, burro ou algo assim), apenas torna-a mais interessante. De certa forma, como bom economista mainline, absorvo muito facilmente narrativas distintas e as transformo em Ciência Econômica padrão. Ou em humor.

Receitas em Narrativas: transformando um salgado marxista em um quitute ortodoxo

É, você leu direitinho. Humor. Agora sim, voltemos à minha diatribe inicial. Sabe este papo furado de que tudo é discriminação e que o mundo é injusto e que a violência é justificável quando é em nome apenas da revolução socialista? Pois é. Imagine um tribunal racial (com o melhor juiz do mundo para ele: Roland Freisler) ou de gênero diante desta narrativa:

Retrocedendo ao século XIX, é possível encontrar parte da história dessas mulheres que viviam de seu ofício. Viúvas brancas empobrecidas sobreviviam por meio do labor de ‘negras de ganho’, vendendo quitandas nas ruas da cidade de São Paulo. Segundo Maria Odila Dias (1995), era uma atividade tipicamente urbana e razoavelmente difundida em que pese seu caráter anônimo, já que não rendia dividendos ao fisco. (Oliveira, 2013, p.29)

Mas vejam só! Viúvas brancas empobrecidas vivendo “do trabalho” de negras? Neste caso, a autora está correta, pois se refere ao trabalho escravo (pelo menos, assim me parece, pelo que veremos a seguir). E ambas burlando o fisco? Como assim? A nota de rodapé número 12 nos esclarece:

Segundo a autora, um dos recursos utilizados para driblar as taxas de licença para a comercialização de alimentos era a alternância de escravos nas ruas. (idem)

Então, embora o Estado seja o “nosso salvador, amigo de todos”, ele era enganado por viúvas brancas e suas escravas negras. Espere! O Estado era também o maior incentivador da escravidão, já que a mesma não era ilegal, a despeito dos crescentes protestos do governo inglês e também dos abolicionistas (sabia que a Economia é rotulada de “ciência lúgubre” justamente porque os economistas eram contra a escravidão? Muita gente não sabe disto…).

Pois é. Agora, cá para nós, não fossem as negras escravas, aposto, também iriam trabalhar como ambulantes nas ruas para fugir do fisco. Ou você acha que, após a abolição, elas passaram a amar o Estado e saíram por aí falando do bem que a República fazia ao corrigir externalidades e gerar bens públicos? Não, meus caros, o Estado é mais próximo da descrição de James Buchanan e Gordon Tullock do que destas visões românticas de contos de fadas.

Ei, e a racionalidade limitada citada no título? Era só para chamar a atenção?

Claro que não (embora eu tenha pensado nisto).

Pois repare também em outro ponto importante do trecho acima: as viúvas e as escravas não estão nada perto das visões paternalistas – tão caras ao chauvinismo machista – que dizem que as pessoas são burrinhas, que sua racionalidade é falha e que, portanto, elas não sabem o que querem (os autores destas teses nunca nos respondem a pergunta básica: como é que você consegue dizer esta frase sem cair em contradição?).

Pelo contrário: a escrava está circulando nas ruas ao invés de pedir emprego porque ela sabe o que é melhor para si mesma! Não tem nada de estupidez. Não é questão de educação. É uma óbvia questão de incentivos econômicos. Simples assim.

Conclusão: tem mais sobremesa a caminho

Eu apenas comecei o livro. Minha esposa jurava que ia ganhá-lo de presente mas, não desta vez. Desta vez, o livro sobre culinária é para minha diversão pessoal. Livros interessantes merecem ser lidos e analisados sob a ótica da teoria econômica. Sempre dá para aprender algo sobre a história, exercer a auto-crítica, a crítica e, claro, o raciocínio econômico. Depois eu conto mais para vocês, ou seja, vem sobremesa aí. Digo, mais sobremesa…

Bibliografia?

Oliveira, Débora. “Dos cadernos de receitas às receitas de latinha: indústria e tradição culinária no Brasil”. São Paulo, Ed. Senac, 2013.

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Marketing da Moça

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Oliveira, Débora. “Dos cadernos de receitas às receitas de latinha: indústria e tradição culinária no Brasil. Editora Senac, 2013, p.127

Quem nunca tentou acabar com uma lata de leite condensado? Ainda mais se fosse Leite Moça? Pois é. Já deu vontade de ler o livro todo (que é até pequeno), mas temos trabalho a fazer.

Agora, interessante a interpretação da autora sobre a evolução dos rótulos da lata. Será que foi isso mesmo?