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Bons tempos (algo off-topic)

2014-05-25 21.27.51

 

Pois é. Houve um tempo em que o bairro da Liberdade, em São Paulo, foi um centro de cultura cosmopolita. Digo, ele ainda o é, mas não há nada mais interessante do que o imaginário da minha juventude.

Em minhas memórias, aqueles eram os anos de muito dinamismo. Obviamente, a tecnologia melhorou de lá para cá. Não há como comparar a qualidade das gravações musicais de hoje, por exemplo, ainda que lá impere um comércio, digamos, bem mais informal do que o dos anos 80 (e olha que nossa economia era menos globalizada).

Alguém precisava fazer uma tese sobre a economia daquele bairro. Falar sobre a demografia dos imigrantes, as experiências de indústrias fonográficas de pequeno porte com músicas pouco conhecidas do nosso povo, as importações de fitas K-7, etc. Caso alguém tenha alguma referência, eu agradeço (comentários, por favor).

Caso bem feita, acredito, daria uma ótima tese sobre um pedaço importante de São Paulo. Já falei aqui (já?) do outro livro interessante, sobre os cinemas da Liberdade, que lançaram há algum tempo (caso eu não tenha falado, depois eu falo). Pois é. Bateu um saudosismo. Minha esposa sempre me olha feio quando eu paquero (calma!) aqueles aparelhos que reproduzem discos de vinil e fitas cassete (K-7). Mas tem algo naquilo que me atrai. Devem ser os feromônios da indústria fonográfica…

Esta garotada que acha que tudo é Pikachu ou J-Pop não sabe o que perde ao não ouvir um bom Enka (演歌). Aquilo sim era (e é!) música! Eu até era um sujeito pluralista: se entendia pouco de japonês, nada de coreano ou chinês.

Mesmo assim, como o leitor pode perceber na foto acima (pode?), eu comprava músicas dos três grandes países do sudeste da ásia. Veja por exemplo a capa da fita com o Cho Yong Pil, o coreano com um copo de whiskey na mão: com uma capa desta, não pode ser ruim! O Thomas Kang é quem deve saber disto (da música, não do whiskey).

Por que será que eu insisto nesta grafia britânica se prefiro Jack Daniel’s? Não sei. Deve ser meu DNA azul, oculto entre uma hemoglobina ou outra. Ah, bons tempos…

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Momento R do Dia – O que Claudia Leitte, Paris Hilton, Ivete Sangalo e Lady Gaga têm em comum?

Este post sobre o R e o Twitter. Viu só? As pessoas reclamam da internet, mas qualquer um que quiser aprender a analisar dados tem, hoje em dia, muito mais recursos do que em qualquer outra época da história humana.

“Eu vou aprender a estimar modelos no R. Quer aprender também?”
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Sobre o Pluralismo – pergunta simples

Introdução à esquerda, sem chopp

Para os que gostam desta discussão esotérica, eis um ponto que sempre ouço: “Ah, mas Marx gostava de Sudoku”. Não é bem assim que falam. É mais como esta longa justificativa do Nemchinov:

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Sim, eu sei. Você está maravilhado e confuso: quão inteligente era este homem, tal de Karl Marx! Sabia de tudo! Um verdadeiro conhecedor de vinhos, mulheres, charutos, história, filosofia, medicina, mecânica, matemática e sociologia!

Mas, ao mesmo tempo, você se depara com uma página inteira de um soviético tentando justificar o porquê de a Matemática ser importante na Economia. Repare que o autor, Nemchinov, não entendeu, realmente, o que seria a Austrian ‘marginal utility’ school. Ele é daqueles que enxergaram dois lados no debate do cálculo econômico no socialismo. Mas podemos dar-lhe um desconto aqui. Afinal, ele estava entrando em luta duríssima. Uma luta que custou ao Nobel de Economia, Kantorovich (que também tem artigo nesta coletânea) o ostracismo na URSS: o uso da matemática em problemas econômicos.

Reparou na ironia? Muitos indivíduos (outra ironia: eu deveria dizer “classe”, ou algo assim, mas vamos lá) que se dizem insatisfeitos com a “teoria econômica dominante”, querem pluralismo. Mas o pluralismo deles, já destaquei aqui, é um pluralismo preguiçoso, que não vê lugar para a álgebra no curso de Ciências Econômicas. Diante da necessidade de entregar uma lista de Cálculo, desprezam até seu patrono, Marx, e comportam-se como tiranetes, mimetizando o cruel Stalin.

A pergunta em si (com consciência de si)

A pergunta simples é: por que ninguém da patota marxista pede mais matemática no curso? Eu nem vou falar de equações diferenciais. Pode ser só somar, multiplicar, dividir, subtrair e, digamos, derivar e integrar. A resposta, eu sei, tem a ver com os incentivos. Indivíduos respondem a incentivos e, se os incentivos lhes mostram que a lista de cálculo é difícil, eles preferem fazer discursos sobre a irrelevância dos indivíduos ante a classe social, xingar os professores de fascismo, questionar a didática (a culpa é da sociedade, não minha, e o professor de Macro/Micro/Econometria/História/Ciência Política/etc é um instrumento da dominação totalitária neoliberal), etc.

Epílogo

Eu não poderia deixar de homenagear meu amigo Adriano Gianturco com seu italiano “favorito”. É, eu tenho alguns livros antigos.

20140525_11381620140525_113827Bonito, heim? Além de ter lido “O Capital”, eu segui o conselho dos meus professores marxistas e desenvolvi um pensamento crítico. Tão crítico que li a crítica de Pareto ao livro. Já se vão lá uns 20 anos, eu sei. Obviamente, eu comecei com a “Crítica à Crítica Crítica a Bruno Bauer e Consortes” do jovem Marx, pois, de maneira crítica, achava meus colegas de Economia muito pouco versados em Marx. Depois, obviamente, continuei minha crítica crítica ao Marx que, a bem da verdade, não usou nem uma linha da tal matemática que – dizem – ele tanto sabia em seus livros.

Bom, não precisava usar soma ou subtração. Bastava usar a mesma hipótese sobre a composição orgânica do capital no livro I e no livro III e teria se safado da maior inconsistência (ou da inconsistência safada?) de sua obra. Quem leu, sabe do que falo.

O custo de oportunidade, claro, é que eu poderia ter estudado mais matemática na graduação. Ironicamente, se meus professores marxistas tivessem lido Nemchinov, Kantorovich, Lange, etc, teriam feito um favor maior ao meu conhecimento. Ou não?

Olha, vou contar um segredo: não acredito muito neste poder do planejamento que os que pedem pluralismo visando transformar a economia em uma singularidade marxista (fazendo os tolos de massa de manbora no caminho mas, que importam as preferências de uns poucos sobre as necessidades de muitos na interpretação dos líderes do movimento revolucionário?) e acho que tudo isto aconteceu por acaso.

Afinal, calhou de eu ler um livro aqui, outro ali, sempre querendo aprender mais. Deu no que deu. Hoje, os pterodoxos da ala marxista me odeiam. Bom, é só mudar de canal. Há uma pluralidade de blogs por aí. O controle social da mídia ainda não prevaleceu e, portanto, há opções. Não gostou? Muda de blog. Ficou nervosinho? Vai pescar. Simples assim.

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Inflação estrutural: um conceito em busca de um sentido (mas com muita platéia)

Gustavo Franco, hoje, no Estadão, fala sobre a malandragem conhecida como “inflação estrutural”. Alguém poderia querer levar isto a sério e, para estas pessoas, eu indico sempre o estudo do Fernando Holanda Barbosa: A inflação brasileira no pós-guerra: monetarismo versus estruturalismo, publicado pelo falecido PNPE junto ao IPEA, em 1983. Poucos estruturalistas leram o livro (basta ver que ele nunca é citado nos supostos debates “plurais” promovidos pela patotinha) e há fortes indícios de que isto se deva ao fato de eles acharem econometria um instrumento maligno, de tons neoliberais.

Sobre o texto de Franco, temos esta importante constatação:

O legado mais duradouro e popular da “teoria da inflação estrutural” era tão simples quanto devastador: a (suposta) inutilidade das políticas de estabilização convencionais, argumento que ainda soa como poesia para os amigos da inflação.

Poucos se dão conta da importância e da contundência desse drible dado pelos “estruturalistas”: nunca se fazia uma defesa aberta da inflação, mas um ataque às políticas monetárias ortodoxas e à austeridade. Em retrospecto, deveria ser claro que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” e os “estruturalistas” estavam trabalhando a favor da inflação, às vezes admitindo “expropriar os rentistas” ou “tributar a riqueza ociosa”, um argumento que frequentemente se associava a lord Keynes.

Não há como negar. Alguém que se dê ao trabalho de ler os argumentos verá que a descrição de Franco está correta. Aliás, um estruturalista sincero não negará que sempre foi contra as assim chamadas políticas monetárias ortodoxas. Junte-se a isto o debate sobre a existência da curva de Phillips (salvo engano, nas páginas da PPE, no início da década dos 80), e você tem um caldeirão de idéias nem sempre logicamente conectadas para jogar o combate à inflação no lixo.

Obviamente, a curva de Phillips pode ser bastante instável e tudo o mais, mas não é disso que este pessoal falava. Como o texto acima destaca, a malandragem consiste em dizer algo como: “a curva de Phillips não existe e, além disso, a gente escolhe o eixo horizontal como cavalo de batalha”. Infelizmente, para este pessoal – alguns dos quais chegaram a dizer que a convivência com a inflação já era parte da cultura do brasileiro – o Plano Real veio com medidas convencionais (ou, se preferir, ortodoxas) e mostrou algo óbvio em qualquer ciência: o que os testes empíricos mostraram (e a história, e a teoria, etc) funcionava. A inflação se foi. Nem doeu tanto, doeu?