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Momento de alegria: quando os estudos sobre a política monetária se embebedam de Douglass North

Quando a gente, que mexe com Econometria, vê um texto do Charles Plosser citando Douglass North, não tem como não ficar feliz, né? Mas já tomei minha cerveja hoje, em comemoração ao meu 43o artigo publicado. Agora é hora de comemorar, mas com saúde.

Diz Plosser:

Douglass C. North, co-winner of the 1993 Nobel Prize in Economics, argued that institutions were deliberately devised to constrain interactions among parties—both public and private (North1991).

(…)

Central banks have been around for a long time, but they have clearly evolved as economies and governments have changed. Most countries today operate under a fiat money regime, in which a nation’s currency has value because the government says it does. Central banks usually are given the responsibility to protect and preserve the value or purchasing power of the currency.

Mas, espera aí, não é o mesmo Plosser que nos trouxe para o mundo dos ciclos econômicos reais? Exatamente. Vejam como são as coisas. Como eu disse mais cedo, aqui, não tenho problema nenhum em ler um artigo do Plosser sobre ciclos reais (bom, tenho problema com a matemática, que é complicada e me toma tempo porque sou bem burrinho, como sabem meus amigos mais próximos), mas não tenho preconceitos. Afinal, se você é um economista, pensa a Ciência Econômica como algo parecido com a Medicina: sempre em evolução, nunca com as respostas prontas.

Aceitamos, como já falei aqui hoje, o “pluralismo”, mas sempre com seriedade. Não vale a palhaçada que se vende por aí como “pluralismo” (veja meu post anterior, no qual faço um exercício simples de retórica política).

Plosser cita instituições e fala sobre Banco Central. Nada mais óbvio. Ele pode até estar errado aqui ou ali. Você pode até não concordar com ele. Mas repare que a trajetória intelectual do autor nos sinaliza para a importância de estudarmos a política monetária de forma mais, digamos, microfundamentada. Ronald Hillbrecht fala isso na minha cabeça há anos. Por conta dele, estudei o livro do Allan Drazen no doutorado. Não me arrependo.

Pronto. Eis aí meu exemplo de como o mainline é muito mais sofisticado do que dizem seus detratores ou os que ignoram a literatura. Você pode falar de ciclos reais, fazer uns testes de raiz unitária, aplicar um DOLS a uma matriz de séries de tempo e falar da evolução institucional na Grécia antiga (ou na Grécia atual, como nos lembra Mundell, lá, nos anos 90, quando, em um pequeno artigo, já falava do probleja fiscal do país…). Isso é ser economista.

Como diria o pastor: regozijai-vos, manés que me seguiram até aqui!

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Como pedir pelo pluralismo de forma desonesta

Basta seguir o pequeno opúsculo de Jean-Marie Domenach, A Propaganda Política (coleção Saber), de 1963, publicado pela Difusão Européia do Livro, em São Paulo. Quem seria melhor que um francês para falar do tema?

Em seu capítulo V, Leis e técnicas, temos as cinco leis importantes (e a técnica, na verdade, resume-se à contrapropaganda), que podemos adaptar para um pedido de pluralismo na Ciência Econômica. Antes de prosseguirsmos, note que não estou acusando os honestos de não o serem (para um bom debate sobre o tema, ver isto e isto). Meu alvo são os pterodoxos, aqueles que desejam impor suas agendas sob o manto de um vago “pluralismo” que, de tão vago, é capaz de desaparecer à primeira brisa.

Lei de simplificação e do inimigo único

Não há novo-keynesianos, novo-clássicos, monetaristas, etc. Não. Só há um inimigo: o neoclássico. Neoclássico é o sujeito malvado. Se professor, então é o que mais reprova porque pede mais do que contas: quer explicações de procedimentos algébricos. E fala de preços flexíveis no longo prazo. Veja, se ele falar de retornos de escala crescentes, ele será neoclássico se usar o conceito algebricamente. Caso contrário, pode ser um dos nossos.

Lei de ampliação e desfiguração

Não há uma planilha errada no trabalho de Reinhardt e Rogoff. Não senhor! Há uma clara manipulação para denegrir a ação dos bons burocratas! Aliás, quem financia estes autores? Há interesses maiores! Não são estes dois parte da aliança neoclássica com o complexo militar industrial estadunidense para derrubar Obama e impor a ordem mundial capitalista?

Ah, sim, tem uns errinhos no livro do Piketty, mas nada demais.

Lei de orquestração

Falar mal dos neoclássicos (já juntamos Keynes e Friedman no mesmo saco) é fácil…mas é monótono. Temos que variar. Então, estamos todos juntos contra o equilíbrio econômico, a matemática, a falta de “social” e o excesso de “números” (menos os do Piketty, claro). Somos contra o ensino de teorias com pouca prática e somos contra a prática das consultorias de estudantes porque…são capitalistas. Somos contra os retornos decrescentes de escala ou contra as vantagens comparativas. Pronto, já ficou divertido.

Lei de transfusão

20140524_114226Todo jovem é jovem porque…é do contra. Tem algo aí nos hormônios dos moleques que os faz assim…jovens. Pois bem. Vamos misturar o “sangue jovem” com a “mudança” necessária da Economia. Somos contra a microeconomia porque ela não é jovem o suficiente para a sociedade moderna! O edifício (note a idéia de perene e eterna existência associada à palavra) neoclássico precisa ser derrubado e substituído. É dos jovens mudar, é dos velhos e carcomidos resistir.

Lei de unanimidade e de contágio

Desde que a sociologia existe, tem-se focalizado a pressão do grupo sôbre a opinião individual e os múltiplos conformismos que surgem nas sociedades (cito Domenach no original, p.70).

Sendo assim, temos que tornar meu desejo de mudança em um desejo de todos por mudança. Não sou eu que não dou conta do exercício de maximização condicionada! Não, meus caros! É a sociedade que deseja uma nova maneira de pensar economia! Uma maneira mais livre, social, ecologicamente correta! Há unanimidade quanto à mudança! Só você, com seus velhos hábitos (ruins) arraigados é contra o pluralismo!

Não há melhor forma de expressar esta lei do que por meio de um manifesto, com muitas e muitas assinaturas.

Conclusão

Pois é. O que mais me incomoda é a falta de pluralismo na sociologia. Sério, gente. Eu já vi muitos cursos de sociologia de alta qualidade lá fora. Muito mais diversidade (= pluralismo) de autores nas ementas. Não só os mesmos de sempre. Não há apenas a visão marxista do mundo. No entanto, os cursos de sociologia recusam o pluralismo. É uma pena. Há um grande anseio por mudanças por parte da sociedade. O que os sociólogos têm feito com nosso dinheiro? O que ajudam a explicar, de fato?

Ah, sim, desculpem-me amigos sociólogos (sic). Eu falava de Economia. Pois é. Mas basta trocar as palavras aí e já estamos todos em paz novamente. Como sempre estivemos: paz beligerante.

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Nicholai Deodoro da Fonseca? Nicholai Vargas? Por que(,) Nicholai??

Prezado ex-presidente, Nicholai ______ (preencha)

O controle social da mídia é um sonho de dez entre cada dez militantes de esquerda que, sisudos como eles só porque, dizem, lutam contra a exploração que é, sim, um problema sério, não têm tempo para uma piadinha. Simples assim.

Mas aí a gente lê que a senhor Doina, na Romênia – exemplo de socialismo esquecido pelos supostos professores de História do ensino médio por algum motivo que bem pode ter a ver com doenças mentais…ou não – tinha um emprego difícil lá naquele país de língua latina (isso mesmo!). Por que?

Como revisora, sua função, quase um desafio, era verificar se os nomes de Nicolae Ceausescu e sua mulher Elena estavam grafados corretamente cada uma das 30 e tantas vezes que eram mencionados na gazeta diária (40 vezes quando ocorriam as conferências do Partido, lembrou ela). Não era uma questão sem importância. Para azar de Ceausescu, seu primeiro nome podia, com uma ligeira alteração – para “Nicholai” -, significar “pênis pequeno” em romeno. “Esse erro podia dar cadeia”. (Lewis, Ben. Foi-se o Martelo, Editora Record, Rio de Janeiro, 2014, p21)

“Que é que cê tá olhando? Faz seu xixi aí e não me espia, boiolão!”

Claro, como sou um sujeito politicamente correto, não vejo motivo para tanto. Afinal, ditadores também podem ser portadores de necessidades especiais de extensão peniana (como mostram aqueles spams que chegam para a gente de vez em quando). Qual o problema? Não é o tamanho do pênis do ditador que importa, mas sim o sofrimento, a fome, a tortura e o controle social da mídia que ele proporciona, ora bolas!

Do humor sob o controle “social”

O caso do ex-ditador romeno é apenas um dentre tantos que sobreviveram anos e anos por conta de seu aparato de repressão. O humor, no final do dia, pode ser pensado como uma última saída para a sanidade ou como uma arma de resistência contra a repressão das liberdades.

Meu humor de mau humor (ou não?)

Mas a maior ironia mesmo, na minha opinião, está com o povo mais alegre e feliz do mundo: o povo brasileiro. A patota se auto-denomina “calorosa”, “amorosa”, “amistosa” e tudo o mais. Ao mesmo tempo, adora se sentir parte da esquerda norte-americana, adotando modismos como o politicamente correto, o excesso do uso do termo “social” em qualquer conversa (não demorará para inventarem o hot dog social) e, claro, o sentimento anti-americano, que, de tão vago, é, ao mesmo tempo, anti-liberal e anti-militar.

Por que é que a ironia está conosco? Bem, tivemos um ditador, Getúlio Vargas. Um sujeito que prendeu e torturou como todo bom ditador e o povo insiste em colocar seu nome em avenidas, praças, ruas, fundações, como se herói brasileiro ele fosse. É aquela mentalidade do “mata mas faz”. Acho que não existe brasileiro mais idolatrado do que este. Nem Carlos Chagas, que deveria, este sim, ter seu nome em muito mais ruas e avenidas (ou Machado de Assis, ou Euclides da Cunha, etc) tiveram tanto sucesso com o povo que pouco lê, mas marcha bem, seja com o uniforme vermelho ou o verde.

Aliás, esta é outra ironia histórica: a luta do militante contra os fatos (se preciso for, ele acusa o juiz Joaquim Barbosa de ser negro, no mais límpido dos racismos que diz combater…). Por exemplo, como já destacou Alain Besançon (em seu A Infelicidade do Século), não há porque distinguir a violência socialista da sua irmã, a nacional-socialista. Claro, você pode achar uma piada este papo de intelectuais. Então, deixemos que o cidadão comum se expresse.

Naquele inverno de 1939, um surrado recorte do Pravda chegou a um campo de prisioneiros políticos na região de Kolima, no extremo oriente da URSS trazendo a notícia sobre o pacto e uma grande foto do chanceler soviético Molotov ao lado do colega alemão, von Ribbentrop. Uma das prisioneiras russas não se espantou: “Um retrato de família encantador”, comentou. Para elas, a surpresa não foi tão grande, pois haviam sido instruídas a respeito graças à experiência de companheiras comunistas alemãs aprisionadas no mesmo campo, em que sentiram na pele as afinidades que aproximavam os dois regimes. “Isso é da Gestapo”, disse uma delas, mostrando as cicatrizes profundas que desfiguravam suas pernas e suas nádegas. “E isso”, continuou, “é da NKVD”, exibindo as unhas deformadas em ambas as mãos, nas extremidades de dedos azulados e inchados”. (Figueiredo, Cláudio. Entre sem bater – a vida de de Apparício Torelly, o Barão de Itararé, Casa da Palavra, 2012, p.300)

Não deu para rir muito, né? Ou riu sem dar? Não, é triste demais para fazer piada, eu sei. Mas é a ironia da história da qual eu falava ali no alto. Digo mais: Vargas e outros ditadores são realmente bons motivos de piada, como nos fizeram ver o pessoal do antigo Pasquim. É surpreendente que brasileiros não façam tanta piada com ele.

Aliás, brasileiros são um tanto quanto estranhos no que diz respeito às piadas. Eles são capazes de fazerem protestos contra o desenho The Simpsons quando o mesmo faz piada com o Brasil, mas acham muito feio fazer piada com presidentes de esquerda.

É ou não é de rir? O povo que levou mais de 500 anos para ter o direito de escrever biografias não-autorizadas é o mesmo que se acha muito engraçado. Tudo ofende o mameluco-caboclo que está deitado em berço esplêndido.

Ele ri do argentino e de sua arrogância, mas arroga-se o direito de decidir o que é engraçado ou não por meios legais. Biografia não-autorizada? Só pode ser crime! O indivíduo não tem capacidade de julgar o que é ou não engraçado! Que Nicholai Vargas decida por ele. Ei, eu disse Nicholai Vargas? Desculpem-me. Eu queria dizer apenas Nicholai.

Fechando o bar

Para encerrar…bom, não acho que assunto se encerre assim, facilmente. Quando se fala em controle social de alguma coisa, até uma piada pode ser pensada como um perigo porque ofende a minoria dos humoristas gaúchos que militam na esquerda e tocam saxofone. Ou ofendem a minoria de empresários branco-descendentes que ganham favores do governo e não produziram o que prometeram. Ou, sei lá, ofendem as dondocas da Matilde. Vai saber. No final, eu acho é que são todos uns recalcados e, com sua estatura, creio que precisarão de subir nos ombros uns dos outros ao menos um milhão de vezes para que possam enxergar as vielas das ruas de Mariana. Ou de Ouro Preto.

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Padrão-ouro e cliometria

Padrão-ouro? Eis o resumo do artigo:

Esta nota objetiva investigar, econometricamente, os determinantes da adoção do padrão-ouro por parte do Brasil. A literatura destaca a importância dos preços das commodities (café e borracha), dos problemas inflacionários, da credibilidade inerente ao padrão-ouro, das crises econômicas (choques externos) e internas na decisão de um governo permanecer (ou aderir ao padrão) ou abandonar o padrão-ouro. Os coeficientes estimados apresentaram os sinais esperados, com destaque para a credibilidade e a inflação, mas oposto ao esperado para o coeficiente da dummy de choques externos. Apresenta-se também uma discussão sobre o impacto marginal de cada variável ao longo dos anos da amostra.

Para ler mais, basta clicar aqui. Foi um trabalho conjunto com Clarice Sollero Lemos e Ari Francisco de Araujo Jr. Hoje vai ter cerveja para comemorar mais uma publicação.

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