Uncategorized

A campanha do medo…e das mentiras: a taxa de câmbio em outubro de 2002

Foi dada a largada para a campanha eleitoral recentemente. Adicionalmente, sabemos agora as verdadeiras motivações dos políticos para aprovarem o tal fundo partidário: usá-lo para pagar advogados. A sociedade, por sua vez, nem estranha mais o mau uso dos recursos.

Mas vamos aos fatos. Algum militante que ignora os fatos (e as relações de causa e efeito das variáveis políticas e econômicas), mas que tem tanta disposição quanto a de um jovem maoísta em plena Revolução Cultural, criou esta imagem (não pude checar a veracidade da mesma, pois não sou assinante do jornal).

10313986_624384890976782_6712388704936355355_nPercebe-se a intenção facilmente – sutileza não é seu forte – de fazer uma comparação bem superficial entre o que ele quer vender para a sociedade: a concepção de que o mundo se divide em dois: antes da administração da Silva e depois da mesma (incluindo a presidenta, imagino).

Obviamente, o que me salta aos olhos, caso esta imagem não tenha sofrido manipulações, é que a imprensa não era governista. Se ele queria me mostrar isto, conseguiu. Como assim o jornal de Roberto Marinho fazer campanha contra FHC? Bem, é o que ele mostrou.

Ou não? Talvez a notícia não seja suficiente para que eu chegue à esta conclusão. Razoável imaginar que não exista apenas um jornal, não é?  A não ser que exista um controle social da imprensa, o que nos levaria à uniformização (palavra querida destas pessoas que desejam ser donas da verdade, já que os outros viram um só – o mal – e ele, claro, o bem) das opiniões alheias, é um fato compreensível, até para o sujeito que fez a imagem acima, que a mesma não vale mais do que mil pesquisas científicas sobre o papel da imprensa na economia política.

É engraçado como as pessoas se esquecem da história. Apesar de, supostamente, o governo investir tanto no ensino de História e Geografia nos colégios públicos (e na rede privada, já que a regulação brasileira está a anos-luz de qualquer exemplo liberal de educação), ainda há quem se esqueça da história. E olha que é da história do Brasil em 2002. Nem é algum evento relacionado à escravidão ou ao ciclo da cana.

O leitor que imagina que uma capa de jornal seja apenas uma foto – portanto estática – de um processo que tem começo, meio e fim percebe que outubro de 2002 não foi um mês qualquer. O então candidato que se denomina “Lula” jogou no lixo o histórico de bravatas do seu partido – por anos ratificadas por votações de militantes (que sequer se incomodaram com isto, o que nos diz muito sobre o valor da participação popular…para os populares) – e mudou suas promessas de campanha.

Obviamente, ele fez isto porque tinha motivos eleitoreiros – como todo candidato a presidente, vale ressaltar – e, no lugar dele, você provavelmente faria o mesmo, como nos ensina o Teorema do Eleitor Mediano. Por que? Porque você quer maximizar as chances de ganhar a eleição.

As bravatas do candidato e de seus aliados eram tantas, que a taxa de câmbio havia se descolado de sua trajetória normal e parecia apresentar um comportamento conhecido como overshooting (para mais detalhes, ver também este artigo e também este artigo de Stanley Fischer sobre Dornbusch, que foi o primeiro a explicar o fenômeno). Obviamente, eu não espero que o sujeito que fez a imagem acima: (a) leia os artigos citados (ou o original, de Dornsbusch); (b) entenda-os parcial ou totalmente e (c) esteja disposto a aprender com seus erros. Seria demais esperar tanto de uma pessoa tão preocupada em fazer a história ao invés de compreendê-la (ah, Feuerbach…).

Poderiam haver argumentos sólidos contra a política cambial da era FHC, embora eu não me lembre de nenhum no momento. Mas, como pesquisador de Economia, sei que a imagem acima não diz nada do que seu autor pretende, senão o oposto. É meu dever social buscar diminuir a ignorância alheia – mesmo diante de analfabetismo funcional em idades avançadas – e muitos leitores podem ser enganados pelo falso argumento. Como a internet não é – ainda – censurada pelo governo, posso ajudar a melhorar a qualidade do conhecimento das pessoas (das que estão dispostas a ler, entender ou aprender com os próprios erros e com os erros alheios, como eu disse acima).

Então, meus caros seis leitores, façam como dizia a vovó: pensem com a cabeça, não com os punhos (ou com o coração). A única coisa que o autor da imagem acima conseguiu me passar foi a suspeita de que a imprensa não era submissa ao governo FHC. Ele não estudou, não pensou, então atirou no que viu, acertou no que não viu e, provavelmente, não poderá se sentar por uns dias.