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O povão, ah, o povão!

Ontem tive o prazer de ir ao centro da cidade, para uma consulta odontológica. Costumo fazer o percurso caminhando porque gosto de observar a dinâmica das pessoas naquele ambiente estranho que é o centro da cidade. Fazem anos que comprei meu automóvel e, hoje, raramente vou ao centro por meio das solas dos meus cansados sapatos.

Notei algumas mudanças. Primeiramente, a confusão gerada pelas “revitalizações” da área central é notável: nada mudou. Não notei qualquer melhoria no tráfego de pedestres ou de automóveis. Em segundo lugar, os eternos problemas de bem público continuam. 20140506_144615

Sindicatos contratam pessoas para fazer barulho na área central, compram copos de água – imagino que seja parte da remuneração (e também imagino que não haja, no caso dos sindicatos, fiscais do trabalho reclamando, multando, etc) da galera – e, ao final, despejam tudo em frente ao Parque Municipal da cidade, um local que já foi mais bonito e saudável para famílias. Típico exemplo de bem público: “a rua não tem dono, então podemos jogar lixo porque, sabe como é, a culpa é do neoliberalismo que privatizou tudo”.

A economia cresceu desde o Plano Real. Graças à equipe econômica da administração Cardoso (das duas administrações dele), o poder de compra do trabalhador aumentou. A competição foi estimulada e, apesar do retrocesso da administração da Silva (também das duas…onde estou com a cabeça hoje que não acerto uma!) com seu crescente desprezo pela competição – que culminou na eleição da presidenta para avançar o modelo nacional-inflacionista defendido pelo ex-presidente, discretamente, no final de seu mandato – o fato é que a gente vê mais diversidade nas ruas.

Entretanto, como a classe média cresceu pela base, o que temos nas ruas são pessoas que não falam: gritam. Não, não são italianos e não é nada “cultural’. É falta de educação mesmo. O pessoal teve menos acesso à educação até agora e acha que conversar é gritar. Então, existe uma imensa poluição sonora no centro da cidade que não é causada pelos vendedores com suas caixas de som, mas pelas pessoas, que gritam quando dizem estar falando.

O centro está mais policiado? Mais ou menos. Vi fiscais da prefeitura e um ou outro guarda aqui e acolá. Deu-me a impressão de que a proximidade da Copa do Mundo tem trazido uma discreta, mas crescente presença de policiais no centro.

As ruas continuam com as calçadas das cidades brasileiras que parecem planejadas para que pessoas idosas tropecem. O poder público nunca foi lá muito bom em melhorar a qualidade dos seus serviços. Foi só a população crescer e a economia se diversificar que o governo mostrou-se mais e mais lento para responder às demandas sociais. Não se trata do prefeito atual apenas. Ele teve antecessores. O problema é mais geral.

Agora, nem tudo é calçada suja ou gritaria. Fiz uma coisa que não fazia há anos e, para ser sincero, acho que fiz poucas vezes mesmo na época de estudante: entrei no McDonald’s mais central da cidade, o da Praça Sete, e fiz meu pequeno almoço (e não falo de Portugal…): mandei para o estômago uma promoção de Quarterão com Queijo sem remorso. Sim, ali, na cidade que ainda é minha, apesar da gritaria. Quase desci em busca da Agência Riccio para comprar umas revistas em quadrinhos, mas acho que não existe mais esta grande banca de jornais.

A paisagem mudou um pouco, é verdade. A gente vê uns chineses (de onde é que eles saem, ninguém sabe…) andando por aqui e por ali, fruto da abertura R$ 1.99 promovida pelos últimos governos (que, infelizmente, não abriu mais a economia…poderíamos chamá-la mesmo de “abertura R$ 1.99”).

E os livros antigos que se podia comprar no centro? Bom, depois que a Livraria Alfarrábio fechou, perdi a grande referência em sebos da cidade. Claro que há outros sebos, mas os que já vi têm donos que não conseguem ir além de uma conversa superficial. São sebos de gente que vende mas não conhece o que vende. A maior parte vende livros escolares, mas eu gosto mesmo é daquele sebo no qual você encontra uma coleção do Monteiro Lobato ou do Machado de Assis e o dono conversa sobre literatura ou política, rememorando o passado. Ainda não encontrei um novo sebo para relaxar procurando alguns livros (ou mesmo para descobrir o que procurar…).

Quem morrerá antes? O centro ou eu? Sabemos a resposta e, portanto, só me resta esperar que o custo-benefício tenha valido a pena.

 

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