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A cultura e o cronismo – qual é mesmo a definição de “tigres asiáticos”?

tigres_asiaticos

As pessoas gostam de falar dos “tigres asiáticos” como se os mesmos fossem bons exemplos de países “heterodoxos” (melhor seria: “pterodoxos”). Mas será que a causa da pujança destes países está em regimes fortes, com gerentões na presidência, com políticas industriais que escolhem “perdedores” (você não pode escolher um “vencedor” sem escolher “perdedores”, certo?) e com a contabilidade criativa em ação? Talvez não.

Veja, por exemplo, o gráfico acima. Temos a posição do país no ranking de cronismo (rent-seeking) da The Economist no eixo horizontal. No eixo vertical, a variável de cultura que mostra valores compatíveis com sociedades que privilegiam a alocação de recursos por meio do sistema de mercado. Ah, ok, as escalas são logaritmicas.

Então, veja, quanto mais à direita, no eixo horizontal, menos sujeito ao cronismo é o país. Já no eixo vertical, quanto mais para cima, mais a cultura do país privilegia aspectos (valores) que favorecem as trocas voluntárias entre as pessoas (isto, apesar do discurso errado que você ouviu do militante, é exatamente o que define o mercado).

Observe, no gráfico, onde estão Japão, China e Coréia do Sul. Os “tigres” não são tão tigres assim, não é? Repare em Taiwan e Cingapura, por exemplo. O caso da Rússia e da Ucrânia é mais interessante – já que o Putin resolveu brincar de Hitler agora – e você vê que sociedades com capitalismo com menor ênfase no mercado – como é o caso destes dois países – também são países caracterizados por alto índice de cronismo. Quem já estudou os incentivos que operam no socialismo real sabe que este não é um resultado surpreendente (leia qualquer artigo/livro do Janos Kornai, por exemplo).

O Brasil, claro, mostra um índice de cultura muito baixo e minha observação anedótica me diz que isto dificulta a evolução do país em direção à construção de instituições que privilegiem trocas voluntárias: as pessoas gostam de um ditador ou um presidente gerentão, autoritário, que lhes diga o que fazer e lhes dê de comer. Troca voluntária é vista como jogo de soma-zero (um erro grosseiro, mas repetido goebellianamente por supostos professores todos os dias…).

Minha observação anedótica é que brasileiro adota ditadores como nomes de praças, avenidas, ruas e fundações, como é o caso de Getúlio Vargas, não protesta para mudar este nomes e nem chama o golpe de Getúlio de golpe, mas de “revolução”. Somente quando alguns grupos de interesse agem é que você vê alguma mudança, mas repare que esta só diz respeito a ditadores que estes grupos não curtem como os da revolução (ou golpe?) de 1964.

Pois é. Então, se há algum aspecto “tigre” nos países do sudeste asiático, ele passa pela adoção de valores pró-mercado nestas sociedades. Dá o que pensar? Creio que sim. E olha que nem comentei o capital humano, também presente no gráfico.

Antes que você me pergunte sobre os dados, lembro que já os usei diversas vezes aqui, neste blog, anteriormente. Então, a “cultura” vem de trabalhos da Claudia Williamson (que também usei com Pedro e Ari neste artigo) e o índice de cronismo vem da The Economist. O capital humano, obviamente, é da famosa base de dados de Barro & Lee. Faça sua pesquisa neste blog e encontre as fontes. Ou vá pelo google mesmo.

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