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Insumos para a educação: maximizar o bem-estar também é educar…ou civilizar?

Pode-se produzir educação em casa ou na escola. Mas quais são os insumos importantes para aumentar o impacto marginal dos estudos? Conforme uma pesquisa a ser divulgada hoje, existem algumas características básicas.

Um aluno com nível alto de conscienciosidade (organização e responsabilidade), por exemplo, pode apresentar em Matemática mais de 4 meses de aprendizado à frente de um estudante que tenha esse parâmetro mais baixo. Essa característica, no entanto, não é tão influente em Português. Para esse domínio, competências como o chamado lócus de controle (identificado com o protagonismo) e a abertura a novas experiências são as que fazem a maior diferença: numa distância também de 4 meses a mais de aprendizado.

Organização, responsabilidade, protagonismo…palavras bonitas e que nem sempre aparecem entre alunos. A organização, talvez, seja a mais fácil de se obter. Responsabilidade e protagonismo são aquilo que gostaríamos de ver quando o sujeito, em sala, mostra que não está não apenas acordado, mas também ciente de seus deveres e participa da aula buscando reforçar seu conhecimento, não sua fama de palhaço.

 A avaliação concluiu que só esse estímulo [o papel dos pais] pode diminuir em mais de 20% a diferença entre alunos com baixa e alta conscienciosidade. Esse peso é duas vezes maior do que a diferença vista nessa habilidade entre ricos e pobres, por exemplo. A escolaridade da mãe – um atributo que apresenta forte ligação com o sucesso acadêmico – tem impacto quase nulo quando se trata da questão socioemocional.

Sempre temos a escolaridade da mãe em estudos com regressões múltiplas e microdados. Mas eis aí um ponto interessante: depende do canal de transmissão e dos controles. Então, a conscienciosidade pode ser afetada pela intervenção dos pais fazendo o seu (deles) dever de casa que é educar (embora muitos achem que não precisam se preocupar com a educação dos filhos…). Por outro lado, o papel dos pais não é tão forte quando o objetivo é melhorar outra característica da garotada: o socioemocional (algo destacado, dentre outros, pelo Nobel de Economia, o Heckman).

Na opinião do escritor e jornalista canadense Paul Tough, que estuda as habilidades não cognitivas na educação, é preciso garantir mais “proteção” para as crianças de origem pobre. “Em ambientes ricos, as crianças são superprotegidas das adversidades e sofrem porque não tiveram a oportunidade de superar os seus próprios fracassos. Em áreas pobres, porém, as crianças já tiveram muitas adversidades e precisam, mais do que tudo, de proteção.”

Então, a ciência avançou nosso conhecimento sobre os insumos da educação? Eu diria que sim. Vou aproveitar para continuar esta discussão utilizando conceitos de sala-de-aula, no caso, de Microeconomia.

Pensando com o que aprendemos em sala de aula…dois bens, uma função de utilidade…(somente para quem curte Economia)

 Primeiro, não confundimos mais estas habilidades com o falso dilema “capacidade vs conhecimento“, como aponta David Nicoll em matéria correlata, lá no mesmo Estadão. 

Em segundo lugar, Heckman aponta a indústria de testes como um indicativo de que estamos observando incorretamente o fenômeno da educação. Isto não significa que não se deva medir as coisas – não caia no papo dos falsários! – antes pelo contrário, conforme se percebe neste trecho:

Professor de Economia na Universidade de Chicago e especialista na economia do desenvolvimento humano, Heckman ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2000 por seu trabalho em provar que há efetivos ganhos econômicos quando se investe no desenvolvimento infantil, inclusive ao estimular características como cooperação e auto-controle (competências socioemocionais). Segundo ele, investir nesses aspectos durante a infância pode influenciar a economia, os aspectos sociais e de saúde de indivíduos e da sociedade como um todo, e isso pode ser avaliado com bases científicas. – See more at: http://educacaosec21.org.br/impacto-educacao/#sthash.8Hn7y9NW.dpuf

Estão aí todos os elementos para se pensar no problema da educação da gurizada. Com habilidades cognitivas e socioambientais (dois bens) produzimos a educação do menino (e, portanto, bem-estar).

Mais ainda, sabemos que as curvas de indiferença podem ter diferentes formatos, conforme estejamos observando resultados de bem-estar em aprendizado de português ou de matemática (isto tudo sem falar no papel dos pais). Algo como:

cognitivas = X
socioambientais  = Y
papel dos pais = Z
P = desempenho em português
M = desempenho em matemática

Finalmente, (D)esempenho é definido como:

U = u(P(X, Y, Z)), M(X, Y, Z)).

Eu diria que, para o processo tem duas etapas. Para maximizar U, temos que nos preocupar com o processo produtivo. Assim, pelo que vimos acima, as relações entre as duas matérias básicas e os insumos é tal que:

P = p(X(Z), Y(Z)) e M= m(X(Z), Y(Z)) com um ponto importante que é o de que, em P ou M, dX/dZ > dY/dZ. Imagino que a X e Y não sejam substitutos ou complementares perfeitos em nenhum dos casos, mas isto é com quem entende de educação.

Ah sim, a obtenção de impactos de Z em X ou em Y, conforme vimos no texto acima, é função de uma restrição orçamentária (a diferença entre “ricos e pobres”).

Bom, eu só queria mostrar como esta conversa toda pode ser pensada como um problema de maximização de utilidade típico. A solução do problema ou o refinamento do modelo não são meu foco principal aqui (mas seria uma boa idéia tentar resolver o problema, não? Supor alguns sinais de derivadas, etc). Eu queria mesmo era só destacar o ponto interessante disto tudo que é: a Ciência Econômica tem um papel social notável e não-desprezível. Afinal, quem pode ser contra a educação das pessoas?

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