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Gerdau, e aí?…Sachsida, e aí?

Carta aberta a Adolfo Sachsida, chamando-o à razão diante de tão insidiosa pergunta feita a um simples empresário.

Carta a Adolfo Sachsida (21.03.2014)

Meu caro Adolfo Sachsida,

Faz tempo que não nos falamos. E eu vi que você tem uma excelente pergunta em seu blog hoje. Permita-me citar o trecho:

Bom esta ai uma boa lista para começar a perguntar o que ocorreu. Só um último detalhe GUIDO MANTEGA e JORGE GERDAU JOHANNPETER faziam parte do Conselho de Administração em 2006, e estão no Conselho de Administração atual. Nada mais natural do que começar por eles com a simples pergunta: dado o prejuízo de 1 BILHÃO DE DÓLARES em decorrência do negócio, você ainda se considera qualificado para fazer parte desse conselho? Se sim, então de quem foi a culpa? E qual a punição que os culpados receberam? Ou será que uma vez mais a culpa foi de ninguém?

Em especial tenho uma pergunta para JORGE GERDAU JOHANNPETER: nas suas empresas você age com a mesma benevolência para com os que cometem erros de 1 BILHÃO DE DÓLARES?

Mais do que pura retórica, sua pergunta procede. Os conselheiros recebem para…aconselhar. Sei que não é a mesma coisa de ser dono da empresa, mas não é a mesma coisa de ser um gerente ou um analista.

Por um lado, Mantega nunca foi empresário e não saberia mesmo responder à pergunta que você fez, Adolfo, mesmo que ele quisesse. Mas de um empresário a gente espera uma resposta coerente com sua trajetória. Em uma empresa, numa economia de mercado, o que acontece se um funcionário comete um erro que faz a empresa perder um bilhão de dólares?

Eu imaginava que a pergunta fosse surgir de algum seguidor de Mises, mas veio do Adolfo. Engraçado como algumas questões óbvias nem sempre surgem nos lugares óbvios, não? O silêncio da galera, por outro lado, mostra que eles entendem bem como funciona a liberdade. Você, meu amigo, não.

Em defesa do governo, Adolfo, devo lembrar-lhe que Paul Krugman recebeu uma bolada (uma dilmabolada, dizem as más línguas) para vir ao Brasil nos dizer que o Brasil não está vulnerável. Bem, talvez ele tenha razão. Em que país do mundo um sujeito admite errar em um bilhão de dólares e não perde o emprego? Nem vai preso? Nem é questionado pelos jornalistas que sempre investigam até se tem um Fiat Elba na garagem de um presidente? Ora, só pode ser um país rico.

Pense comigo, Adolfo: você já viu um país no qual um, digamos, Honda Civic custa três vezes mais do que no Chile e…ainda assim, vende? O que dizer dos preços dos imóveis? Não tem demanda? Eu sei que você fala de bolha imobiliária (a gente discorda nisto, mas tudo bem), mas olha aí como são as coisas.

Então, acho que o país é rico. Muito rico. Na verdade, Adolfo, Gerdau pode até se dar ao luxo de não demitir um empregado que perde um bilhão de seu dinheiro. É porque somos muito ricos. Muito mais ricos do que os norte-americanos, etc. Não acredita? Ouça os discursos da presidente. Ouça todos eles. Ache-me lá, nas palavras da sincera estadista, uma única palavra de pessimismo. Até conta de luz mais baixa nós temos!

Ah, se não a temos mais, somos ricos! Podemos aumentar os impostos e pagar uma conta mais alta. Não apenas isto. Somos ricos e podemos financiar “campeões nacionais” como as empresas do grupo “X”. Quando elas quebram, novamente, somos ricos: nós podemos salvá-las!

Eu sei, Adolfo, você anda com estas idéias estranhas, não-marxistas, coisa de gente burguesa, que não gosta do povo e é a favor do pagamento da dívida externa. Abre os olhos, Adolfo!

pantheon_crony

Veja aí o gráfico, Adolfo! O país está mal no ranking de rent-seeking (cronismo). Veja o eixo vertical. Agora, veja que estamos mal naquele interessante pantheon do MIT. Nossa desigualdade de gênero, nossas injustiças (embora sejamos ricos!) ainda não nos permitem termos tantas brasileiras colaborando para a cultura da humanidade. Mas esqueça a desigualdade de gênero por um instante, Adolfo.

Veja só que somos tão ricos que podemos até ficar mal no ranking de cronismo! Temos dinheiro de sobra para empresários que buscam o lucro e também para os que buscam apenas a redistribuição do nosso bolso para os deles. Somos ricos!

Diante de tantas evidências, Adolfo, só posso concluir que você não enxergou o óbvio fato de que…somos ricos. Ricos demais. Resultado dos doze anos de escravidão, governo que mudou para sempre nossa forma de encarar o funcionamento da economia de mercado. Para que segurança jurídica? Para que satisfazer o consumidor? Que papo é este de escassez? Temos abundância aqui, Adolfo. Um bilhão, dois, nada disso importa. O que importa é que temos que amarrar a internet, censurá-la para que os pessimistas não contaminem os outros (uma idéia similar ao congelamento de preços, só que aplicada à alta variância de idéias, inflacionando excessivamente a diversidade de opiniões, tornando difícil ao governo controlar tudo isto que está aí…). O que importa é continuar enriquecendo com mais arrecadação e mais dívida.

Qual é o caminho da riqueza? É este, Adolfo. Liberdade econômica? Liberdade econômica é isto, Adolfo. É a liberdade de perder um bilhão de dólares e não se preocupar com isto! É o desapego! O não ao materialismo, Adolfo. É o homem se libertando do fetichismo diabólico da moeda, do dinheiro. Vade retro, moeda estável!

Agora, se depois de tudo isto você não entender o verdadeiro significado de liberdade econômica, então vou ter que chamá-lo a assistir diversas edições do Fórum da Liberdade. Vá assistir alguns deles, Adolfo. Vá lá e aprenda o óbvio. Qual é mesmo a frase? Sim, isso mesmo: estamos ricos!

Espero que tenha entendido, Adolfo, que você está errado e que Gerdau não tem com o que se preocupar.

Abraços

Claudio.

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4 comentários em “Gerdau, e aí?…Sachsida, e aí?

  1. Convém lembrar a péssima tradução que o termo ‘Board of directors’ recebe no Brasil de ‘Conselho de Administração’, como se os membros dele fossem simples conselheiros, sem responsabilidade alguma.

    Prefiro tratar os seus membros não por ‘conselheiro’, como se faz no Brasil, mas sim como ‘Diretor não-executivo’, uma tradução literal do ‘Non-executive director’, uma das formas utilizadas para se referir aos membros do Board, quando estes não são também diretores da companhia, como é o caso de todos os ‘conselheiros’ da Petrobrás.

  2. Também seria importante lembrar que os dos conselheiros nessa época era o Cláudio Haddad, que deveria ser ainda mais questionado que o Gerdau, já que aparentemente defende ideais liberais. Só que já apareceu defendendo a operação que deu todo esse prejuízo.

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