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Abenomics: efeito-renda e efeito-substituição e mais algumas outras reflexões a partir de uma notícia

Abenomics, novamente!

Fazia algum tempo que não falava da Abenomics. Muitas coisas aconteceram ultimamente e eu fiquei sem tempo ou disposição para voltar ao tema. Mas hoje apareceu uma nova notícia sobre a politica econômica japonesa. Curiosamente, coloca-se como tema central do artigo um suposto efeito inesperadamente fraco da desvalorização da moeda japonesa sobre as exportações.

No meio do artigo, uns argumentos ingênuos que tentam passar a mensagem de que “a economia ortodoxa não funcionou como deveria”. Mesmo? Vejamos os próprios argumentos do texto.

Much of the blame can be laid on soaring imports of fossil fuels to compensate for the suspension of all the nation’s commercial nuclear power plants in the wake of the meltdowns at the Fukushima No. 1 plant in 2011.

 

Nevertheless, the cheaper yen has not put a charge into exports, in terms of the overall amount, Ueno said.

 

“The reason why the quantity of exports remains sluggish despite the yen’s depreciation has been explained in terms of the economic slump in emerging economies such as ASEAN countries, structural changes in Japan’s economy, and a change in pricing strategies of Japanese exporters,” Ueno said by email.

Ueno está correto…e a teoria ortodoxa também. Afinal, a importação de petróleo, mais do que nunca, é importante. O quanto disto tem impacto na balança comercial é algo que depende, dentre outras coisas, da elasticidade-câmbio do petróleo e eu diria que este produto está bem mais inelástico atualmente do que antes nas importações japonesas.

Ainda há a questão da mudança estrutural citada por Ueno. Ele fala da estratégia de empresas japonesas de transferir suas plantas para outros países da Ásia. Obviamente, ao fazer isto, usando a mesma “teoria ortodoxa”, vamos concluir que a desvalorização cambial não terá um efeito igual ao que teria se a fábrica estivesse no Japão, certo?

Em outro trecho, os economistas do governo usam um argumento que eu acho ruim: o fato de existirem feriados. Feriados podem ser importantes, mas eles sempre existiram.

At the subsequent press conference, BOJ Gov. Haruhiko Kuroda attributed the sluggish exports to temporary factors such as cold weather in the United States, the lunar New Year holiday season observed in East Asian countries and products diverted to meet surging domestic demand before the consumption tax hike.

 

But economist Nobuo Ikeda is not persuaded by this rationale. Although he believes those factors may have played a role in hobbling exports, he had expected both exports and imports to improve.

 

“No one really expected export growth would remain so sluggish despite the yen’s depreciation,” Ikeda said.

 

“Normal economic theory holds that when the yen depreciates, it helps exports recover. . . . This time the yen has dropped about 20 percent, but exports have not grown as expected.”

 

Eu não entendo esta pressa do Ikeda. Ele não deixa claro porque acha que tudo está “lento demais” (qual seria a velocidade adequada, então?) no ajuste do câmbio com a balança comercial.

Mas, e o crescimento da renda?

Agora, esta análise toda parece olhar apenas para um pedaço do efeito total de uma mudança do câmbio sobre a balança comercial que é o efeito-substituição. Mas o que dizer da renda mundial relativa à japonesa? As exportações podem crescer também porque o PIB mundial cresceu. O PIB japonês, como sabemos, explicaria o crescimento das importações. Então, primeiro problema: não se fala disto na notícia e sabemos que isto é importante (veja este estudo para a Turquia).

Em segundo lugar: quanto tempo leva para a mudança do câmbio surtir efeito sobre a balança comercial? Mais ainda: leva quanto tempo para afetar as exportações? E as importações? Qual é a elasticidade-câmbio (e a elasticidade-renda) da demanda de exportações japonesas? Para as importações, mesmas perguntas.

E as defasagens??

Eu não sei qual é o tempo “ótimo” de reação das exportações ou das importações à taxa de câmbio. Aliás, quando comecei a série de posts sobre o tema, uma das primeiras coisas que eu discuti foi exatamente o problema das defasagens (veja aqui). O exercício que fiz lá atrás poderia ser ampliado para seguir com novos testes de novas especificações e com mais atenção aos testes de diagnósticos (veja, por exemplo, este trabalho sobre a China). O leitor que gosta do R pode aproveitar os nossos Momentos R do Dia para se inteirar do assunto.

De qualquer forma, a análise acima fala de uma mudança estrutural na economia japonesa: a realocação de firmas. Será que isto realmente é tão importante assim para explicar o que acontece com a defagem dos impactos da desvalorização cambial sobre a balança comercial? A história parece razoável (parece ser uma boa hipótese). Mas, como testá-la?

Pois é, muita coisa interessante para se pensar, não?

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