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Momento R do Dia (sem dica, só para te provocar)

Por que usar o R?

As pessoas me falam de outros pacotes econométricos, etc. Mas nenhuma delas consegue me apresentar um gráfico como este.

cronismo_filantropia

 

Ok, o tamanho da “bolinha” é função do indicador de capital humano (sim, do Robert Barro!). O eixo vertical é o ranking do índice de cronismo que eu citei mais cedo hoje. No eixo vertical o score do país no índice de “giving” que podemos traduzir como filantropia. Há aí um ajuste linear só para você ter uma noção da média da coisa toda.

Agora, vem cá, vai lá fazer isso em três linhas de comando na sua planilha, vai? Quero ver. Ah, você quer usar o R? Quer mostrar para seu professor de Econometria I que há um modo melhor de se visualizar as relações entre os dados de sua amostra? Então, meu caro, comece a migrar o quanto antes. Barreiras à entrada existem e alunos PREGUIÇOSOS gastam mais tempo do que alunos QUE ESTUDAM nestas horas.

A diferença de produtividade é brutal no início. Depois de aprender o básico do R, aí é até humilhante comparar seu trabalho com o do seu colega. Honestamente, você, ceteris paribus, tendo um trabalho correto, feito decentemente, com uma regressão nos moldes que seu professor pediu, mas com um gráfico como este aí em cima…você realmente acha que a meritocracia é um valor “burguês”? Não preciso nem dizer, né?

Claro que gráficos bonitos, sozinhos, não são nada. Mas, convenhamos, foram três linhas de comando porque me deu preguiça de escrever apenas uma linha. Hoje a Roseli me citou e fiquei muito contente que uma das pessoas mais sérias que conheço começou a usar o R e está usufruindo de algumas dicas que dou aqui.

Tá se achando? Vai aprender a mexer no R antes que alguém te humilhe!

Repare que nem sou “o cara” do R. Apenas tento repassar um pouco do que tenho de conhecimento em Econometria e em R – adquirido, sim, com muito trabalho – para leitores que também querem ser pessoas que adquirem as coisas com muito trabalho. Gente que vai encher os pais de orgulho e que, certamente, será parte daquela parcela de profissionais que arruma emprego em qualquer lugar do mundo.

Eu pensava em falar de raízes unitária hoje, mas este gráfico aí em cima me deixou muito feliz. Foi uma pesquisa pela internet somada a alguns livros e ao bom uso do meu tempo. Vou para o final do dia contente. Claro que ajuda você ouvir que alguns ex-alunos falaram para seus alunos atuais sobre como eles aprenderam algo útil comigo, Salvato, Hamdan e outros. 

Antes de me despedir, fiquem com este outro gráfico, similar ao anterior, mas considerando a liberdade econômica medida em 2013.

crony_freedom

 

Até a próxima.

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Mercantilismo: Zanella

Apesar do podcast ser de um pessoal que não curte o uso de estatística em Economia, o entrevistado, Fernando Zanella, dá uma ótima entrevista ao Bruno. Para quem gosta de História Econômica, Zanella é um nome – injustamente – pouco conhecido aqui.

Curiosamente, ele é brasileiro, daqui do Rio de Janeiro, e Zanella é um conhecido meu de longa data. Muita gente fala sempre sobre brasileiros que estão no estrangeiro, mas raramente eu ouço alguém falar do Zanella. Acho que parte disto é porque há desconhecimento mesmo. Bem, então, se você não o conhecia, eis o Fernando Zanella.

Melhor frase: “Eu uso Econometria, quando eu preciso”. (hic, fanático preconceituoso contra a Econometria, hic, salta!)

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Capitalismo de Compadres: não parece compatível com o individualismo ou o liberalismo

The Economist, sempre ela, tem jornalistas inteligentes que vão além da simples notificação dos fatos, ou mesmo da emissão de suas opiniões: eles trabalham para testar suas convicções.

Então, vejam só, agora fizeram um índice de capitalismo de compadrio (crony capitalism index). Confesso que ainda estou surpreso com o resultado, mas a metodologia do índice poderia ser diferente, não é? Não sei se esta história das “grandes fortunas” é uma medida que me convence. Mas, sim, achei super interessante a idéia. Gostaria de tê-la tido antes.

Também gostaria de ter tido recursos para medi-la mas os supostamente ricos think tanks libertários brasileiros ou não gostam de Estatística, ou não têm recursos, ou não os aplicam em construções de indicadores. Tem gente que fala de IBASE, com aquelas teorias da conspiração (“li no jornal que X jantou com Y, é golpe da direita”…embora “li que acharam fulano com dólares na cueca e tem até foto….é golpe da direita) engraçadas que vendem livros (de ficção) e roteiros de filmes. Mas o fato é que os libertários brasileiros ou estão embolsando todo este dinheiro ou são péssimos para usar os mecanismos de mercado. Ou então não há tanto dinheiro assim. Ou, claro, uma combinação convexa destas hipóteses.

Mas o pessoal da The Economist deu um belo passo na discussão sobre rent-seeking no mundo.

Vocês já sabem, né? Eu gostaria de ver algumas correlações. Entretanto, só temos um ano para esta série. Como tirar conclusões mais detalhadas assim? Simples: não dá.

Tem muita gente falando de rent-seeking por aí, na imprensa. Há o livro do Lazzarini – que preciso comprar e/ou ganhar de presente – e há um papo aí que finalmente chegou aos bons restaurantes paulistas, sobre este tema.

Como sempre, lembro que esta questão foi tratada pela minha primeira publicação científica (e também pelo meu primeiro artigo escrito com alguém que eu não conhecia) lá nos idos dos anos 2000.

Meu co-autor, um destacado economista do IPEA hoje em dia, é um sujeito cujo blog você deveria acompanhar. Ele anda mais quieto no mundo que chamamos de “blogosfera”, mas é sempre alguém com quem vale a pena conversar – inclusive sobre Economia.

Mas eu olho para estes dados, para esta tabela, e a vontade de fazer alguma coisa com ela é grande. É tão fácil fazer correlações hoje em dia. Vou te dizer, já que a The Economist fez uma correlação com esta medida de qualidade institucional, vou olhar para uma outra medida de instituição informal.

cronismo

 

Olha aí o índice de cultura usado pela Claudia Williamson em um de seus trabalhos (pesquise em sua página…nós usamos a mesma variável aqui) e o ranking de cronismo. Em resumo, o índice de cultura mostra valores pró-mercado (caso você seja contra o “individualismo”, pode começar a chorar…). Achei interessante a correlação, apesar dos poucos dados desta amostra. Com todas as limitações (e eu não vou reclamar do tamanho da amostra porque eu não construí uma amostra maior…se você quiser, be my guest), a correlação parece fazer sentido com as teorias econômicas que abordam o papel das instituições: sociedades com valores mais liberais também são as que estão nos últimos lugares no ranking de cronismo.

Será que esta correlação é robusta a outras variáveis? Bom, aí tem que trabalhar mais e e eu nem almocei (a Lorena e a Charline, minhas orientandas, fazem monografias em temas correlatos, então, um dia destes, eu volto com novidades sobre o tema, ok?). Então é isto. Até mais.

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Momento R do Dia – Regressão Simples

Alô, você, aluno de Econometria I!

Tenho feito vários “Momentos R do Dia” para meus alunos de Econometria II (que não aproveitam muito, pelo que me dizem alguns deles) e para quem quer que deseje aprender um pouco de R. Mas, confesso, acho que o aluno de Econometria I poderia aprender um bocado sbore Econometria usando…o R.

Então, farei aqui um exercício para este aluno. Meu amigo Salvato que me desculpe, mas acho que ele vai até gostar disto.

Demanda: Vamos usar a Internet para arrancar uns excedentes dos consumidores?

Um importante exercício de Teoria do Consumidor aplicada é o de estimar a demanda de um consumidor. Qualquer aluno de Marketing sério sonha com isto. Aluno de Economia, então, nem se fala. A não ser que tenha um problema sério com o curso que faz, no mínimo quer estimar uma demanda.

A primeira coisa a se fazer é procurar um jeito de fazer isto. Graças a Deus, existem professores como David M. Kreps, de Microeconomia, que são extremamente didáticos e criativos em seus exercícios. Assim, considere este, retirado de seu livro, Microeconomics for Managers, editado pela Norton. Trata-se do exercício 4.15 cujo enunciado traduzo de forma livre, ok?

4.15. Uma companhia de marketing da internet resolveu fazer um teste. Quando os consumidores perguntam por um determinado artigo de vestuário, para o qual se cobra $50 por um período de 6 semanas, aleatoriamente se apresentam preços de $48, $49, $50, $51, $52, um número igual de vezes. Você pode assumir que a firma tem formas de ter certeza que uma vez que ela apresente um dos preços ao consumidor, ela continua com este preço para ele quando o mesmo retornar ao website da firma. Após um período de 6 semanas, a firma salvou os dados de venda que estão na tabela abaixo. Estime a função de demanda da firma.

Já vou apresentar a tabela, mas repare no que a firma fez: ela salvou informações de cada consumidor, individualmente, e, para conhecer uma aproximação da curva de demanda, fez pequenas variações em torno do preço de referência. Sensacional, não acha? Não sei você, mas amo muito tudo isso…de caçar as preferências dos consumidores com suas ações.

Mas deixemos o tesão de lado (ohhhh!) e vamos aos dados. A tabela do autor é esta aqui.

p week 1 week 2 week 3 week 4 week 5 week 6 total
$48 458 447 424 429 419 412 2589
$49 422 435 400 400 438 428 2523
$50 420 386 414 417 381 404 2422
$51 400 367 404 375 399 365 2310
$52 369 363 378 375 357 402 2244

Observe-a com calma. O que nós temos são as quantidades “clicadas” a cada semana para os diferentes preços, o que nos livra de um grande problema (alunos de Econometria II sabem do que falo).

Como nosso objetivo é apenas fazer o que o exercício pede, vamos usar Mínimos Quadrados Ordinários nesta base de dados (o autor sugere isto, inclusive). Claro que você tem que rearrumá-los! Lembre-se: é uma espécie de curva de demanda de mercado medida a cada semana.

Dica de amigo do Shikida #1: Jovem leitor, Econometria não é só apertar botões. Tem que pensar antes de fazer as coisas!

Certo, é um exercício de R. Mas nem por isto você vai se comportar como se fosse um macaco, sem pensar no que faz, né? Então, aqui estão os dados reordenados.

q p
458.00 48.00
447.00 48.00
424.00 48.00
429.00 48.00
419.00 48.00
412.00 48.00
422.00 49.00
435.00 49.00
400.00 49.00
400.00 49.00
438.00 49.00
428.00 49.00
420.00 50.00
386.00 50.00
414.00 50.00
417.00 50.00
381.00 50.00
404.00 50.00
400.00 51.00
367.00 51.00
404.00 51.00
375.00 51.00
399.00 51.00
365.00 51.00
369.00 52.00
363.00 52.00
378.00 52.00
375.00 52.00
357.00 52.00
402.00 52.00

Após importar os dados para o R, estimamos a curva de demanda. Os comandos são simples.

kreps <- read.table(file = "clipboard", sep = "\t", header=TRUE)
head(kreps)
lm(kreps$q~kreps$p)
summary(lm(kreps$q~kreps$p))

Não é um exercício difícil. Eis a saída completa destes comandos.

> kreps <- read.table(file = “clipboard”, sep = “\t”, header=TRUE)
> head(kreps)
q p
1 458 48
2 447 48
3 424 48
4 429 48
5 419 48
6 412 48
> lm(kreps$q~kreps$p)

Call:
lm(formula = kreps$q ~ kreps$p)

Coefficients:
(Intercept)     kreps$p
1155.43        -15.05

> summary(lm(kreps$q~kreps$p))

Call:
lm(formula = kreps$q ~ kreps$p)

Residuals:
Min    1Q     Median    3Q    Max
-22.883 -15.383 1.617 13.504 29.167

Coefficients:
Estimate    Std. Error    t value    Pr(>|t|)
(Intercept)          1155.433   104.194   11.089     9.37e-12 ***
kreps$p               -15.050      2.083     -7.225      7.28e-08 ***

Signif. codes: 0 ‘***’ 0.001 ‘**’ 0.01 ‘*’ 0.05 ‘.’ 0.1 ‘ ’ 1

Residual standard error: 16.14 on 28 degrees of freedom
Multiple R-squared: 0.6509, Adjusted R-squared: 0.6384
F-statistic: 52.2 on 1 and 28 DF, p-value: 7.278e-08

E agora?

Agora tem muita coisa. Caso você queira mais detalhes econométricos, pense no que fez e consulte seu professor de Econometria I, o Salvato. Ele vai te dizer o que fazer. Para os alunos de Microeconomia, acho que a melhor coisa seria calcular elasticidades-preço da demanda para cada preço da tabela. 

É como se fosse a elasticidade-média em torno daquele preço! Veja, com esta demanda estimada – e ignorando outros problemas como já disse antes – podemos dizer que, ao preço de $50, a quantidade média demandada é: D(50) = 1155.43 – 15.05*(50) que nos dá, aproximadamente, 402.9. Para a elasticidade-preço da demanda neste ponto, temos: e = (-15.05)*(50)/(402.9) = -1.87.

Quer continuar o exercício? Bem, então divirta-se. Gostou? Deixe um comentário. Aproveitou para aprender algo? Deixe um comentário.

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A economia aplicada – um caso clássico (de novo a restrição orçamentária)

Para alunos de Microeconomia 

Caso você não seja um deles, desista. Ou aceite o desafio, mas veja algum livro-texto antes. Vamos lá?

A esposa que não queria dar subsídios…mas não queria pobres analfabetos

Outro dia cheguei em casa do serviço e encontrei minha esposa muito nervosa. Ela havia lido o jornal e esbravejava a respeito de alguma política do governo. Levou um tempo até que ela se acalmasse (um bom tempo).

Como sempre, a questão era algum uso dos nossos impostos. O debate que ela havia assistido na TV era sobre alguma discussão como estas de programas assistencialistas: devemos dar dinheiros aos pobres? Não devemos? De qualquer jeito? Tem que exigir que o filho vá para a escola? Tantas questões, não?

O que fazer? Chame o economista!

Mas existe uma segunda opção que é a do voucher. O voucher é simplesmente uma espécie de vale, um presente (ou, se quiser, um “vale-presente”) que deve ser gasto no bem em questão. Digamos que o debate seja sobre a educação no país. Então, suponha que o governo esteja debatendo se vai ou não vai gastar para aumentar o número de gente matriculada. Vamos analisar estas duas opções.

Subsídios…

A primeira é o subsídio. O que o subsídio faz? Ele diminui o preço do bem. Imagine a nossa restrição orçamentária entre dois bens: o gasto com outros bens, “D” e a educação, “X”. A renda nominal do consumidor é “M” e, assim, supondo que ele tenha separado esta quantidade de dinheiro para gastar com estes dois bens, temos:

M0=pxX +D

Ok. O subsídio seria financiado via impostos (suponha que os impostos sejam sobre a renda dos mais ricos). Então, temos:

M0=(px-t)X +D

Percebe o que acontece? O conjunto orçamentário do pobre aumenta com um viés por gastos em educação. Caso o consumidor queira viver de aulas e outros bens, certamente escolherá uma nova alocação de seus gastos. Eu diria que é bem provável que gaste mais com educação.

E o Voucher?

Agora, imagine o caso do voucher. O sujeito que o recebe tem que gastar um mínimo X0 com a educação. Para isto, ele recebe um voucher de valor “g”. Então, sua restrição é um pouco diferente da que acabamos de ver. Ela fica assim:

D=M0  para 0 < X ≤ X0

M0 + g = pxX + D para X > X0

Veja que há uma descontinuidade. Com sorte, o consumidor conseguirá aumentar seu gasto em educação e em outros bens, de forma similar ao caso anterior. Entretanto, há uma diferença: o voucher pode levar um indivíduo que não estudava a gastar em educação.

Preferências Quase-Lineares! 

Suponha o caso de preferências quase-lineares com solução de canto em D, de forma que existe um consumidor que pode viver numa boa sem gastar um tostão em educação. Mesmo que você lhe dê aumentos de renda, não há qualquer impacto em seu consumo de educação.

Mas o voucher pode alterar isto. Em uma situação em que | TMS | < | px |, pode haver uma solução em que o consumidor gasta alguma quantidade positiva em educação. Ótimo, não?

E no mundo real?

Bom, a questão interessante é empírica. Um governo inteligente (e no qual o desejo de educar supera o de apenas fazer a política tal como ela é…) permitiria a adoção de um ou outro mecanismo para várias escolas, afim de coletar dados e buscar padrões de comportamento. Você quer um exemplo empírico? Eu te dou um. Aqui. Scott Susin, neste estudo de 2002, diz-nos:

Since the early 1980s, low-income housing subsidies have increasingly shifted towards
vouchers which allow recipients to rent in the private market. By 1993, vouchers subsidized as many households as lived in traditional housing projects, although most low-income households did not receive any subsidies. This study investigates whether this policy has raised rents for unsubsidized poor households, as many analysts predicted when the program was conceived. The main finding is that low-income households in metropolitan areas with more vouchers have experienced faster rent increases than those where vouchers are less abundant. In the 90 biggest metropolitan areas, vouchers have raised rents by 16 percent on average, a large effect consistent with a low supply elasticity in the low quality rental housing market. Considered as a transfer program, this result implies that vouchers have caused a $8.2 billion increase in the total rent paid by low-income non-recipients, while only providing a subsidy of $5.8 billion to recipients, resulting in a net loss of $2.4 billion to low-income households.

Legal, não? Dá uma lida no texto dele se isto te interessar mais.

Mas não poderíamos dar um tipo de transferência em dinheiro (“cash transfer“) para ele?

Assim me perguntou a minha esposa. Bem, não é difícil ver que a solução é bem interessante. Pode ser melhor que esta história de voucher. Mas estou cansado. Então, veja o exemplo deste blog. Viu porque algumas pessoas acham que o melhor mesmo é ganhar dinheiro, ao invés de vouchers?

Conclusão?

Sem conclusões. O negócio é pensar em quem demanda e em quem oferta políticas públicas como estas. A quem interessa receber dinheiro? A quem interessa ofertar dinheiro? Ou vouchers? Ou subsídios? Bem, esta é uma outra questão. Vai ficar para outro dia.

Bibliografia

A aula de hoje beneficiou-se de Hirshleifer, J.; Glazer, A. & Hirshleifer, D. Price Theory and Applications. 7th ed, Cambridge University Press e de alguns outros materiais que li ao longo do tempo.