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História também é Economia: três “puzzles” no escravismo da mineração

Nada como um pouco de História para refrescar a leitura. Façamos um passeio por Luna & Klein (2010) [Luna, F.V. & Klein, H.S. Escravismo no Brasil, EDUSP/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo], em sua descrição da economia escravista no século XVIII.

Então a Coroa portuguesa concedia áreas para que particulares explorassem (leia-se: minerassem) usando o seguinte critério: o número de escravos dos particulares. Não apenas isto, mas “(…) a Coroa decidiu criar um imposto sobre a mineração baseado não na produção de ouro, mas em uma taxa per capita sobre os escravos” (p.54).

Por que é que a taxa per capita foi adotada? Por que usar o número de escravos e não a área em alguma medida simples (metros quadrados, por exemplo)? Quais os incentivos econômicos para se desenhar este tipo de arranjo?

Mais ainda:

A Coroa reservava as datas minerais para seus descobridores e para os mineiros possuidores de doze cativos ou mais; os que tinham número menor de escravos podiam obter áreas menores, proporcionais ao tamanho de seu plantel, mas a maioria desses mineiros pequenos proprietários de escravos tendia a concentrar-se na exploração itinerante, o que significava uma liberdade extraordinária para seus poucos cativos empregados na mineração: eles eram pagos pela produção de ouro”. [p.56]

Por que pagar pela produção em ouro para estes escravos de pequenos mineradores? Quais os incentivos econômicos?

Mais um pouco da Organização Industrial da coisa:

Mineiros com pouco capital para explorar uma lavra, ou sem cativos suficientes para obter uma concessão da Coroa, recorriam a faiscação itinerante, individualmente ou com poucos escravos. Os escravos na faiscação costumavam passar um tempo considerável longe de seus senhores garimpando ouro e entregando-lhes um(a) quantia fixa; eventualmente pagavam seu sustento e podiam acumular recursos até mesmo para comprar sua liberdade. [p.57]

Por que cobrar de um escravo uma quantia fixa? Por que não cobrar pela produtividade marginal?

Tenho três perguntas para você

Então estas são minhas três questões para você, que curte História Econômica. Vou rascunhar algumas hipóteses, mas espero mesmo ouvir comentários interessantes.

1. Por que é que a taxa per capita foi adotada? Por que usar o número de escravos e não a área em alguma medida simples (metros quadrados, por exemplo)? Quais os incentivos econômicos para se desenhar este tipo de arranjo?

A taxa per capita sobre escravos me parece um jeito de maximizar a eficiência do plantel de escravos. Caso a Coroa cobrasse pela produção – muito mais aleatória, inclusive – total, perderia o incentivo individual. Ao cobrar por cabeça, você incentiva o senhor de escravos a cobrar mais individualmente. É uma forma simples de combater os free-riders.

2. Por que pagar pela produção em ouro para estes escravos de pequenos mineradores? Quais os incentivos econômicos?

Como a mineração era itinerante, uma forma de incentivar o escravo a buscar ouro seria recompensá-lo com parte da produção. A produção do ouro é incerta e não se sabe até quando você conseguirá extrair o recurso.

3. Por que cobrar de um escravo uma quantia fixa? Por que não cobrar pela produtividade marginal?

Os autores afirmam que havia muito mais liberdade para os escravos. Isto significa que os escravos poderiam, inclusive, “roubar” ouro de seu patrão. Estabelecer uma quantia fixa é uma forma de garantir um mínimo de esforço do escravo. Problema clássico de agente-principal quando não se observa o esforço do agente? Parece. A produtividade marginal funciona bem quando você observa o esforço do agente.

Não gostou? Comente aí com sua sugestão!

Serão aceitos comentários com ênfase econômica, ok? Nada de comentários que dizem que “nem tudo é economia” ou que “o homem não é racional”.

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Abenomics – notícias

Segundo noticiam os jornais, grandes empresas japonesas concordaram em dar um aumento de salário de forma compatível com a política econômica de Abe.

Então, recapitulando: (i) desvalorização cambial, (ii) inflação, (iii) maior imposto em Abril, (iv) aumentos de salários em algumas indústrias.

Como o mercado reagirá a isto? Os Market Monetarists estão todos otimistas – juntamente com Paul Krguman – sobre estas medidas. Outros são mais céticos. A política de Abe, a Abenomics, como já vimos aqui várias vezes, não está completa: faltam algumas medidas.

Será que veremos uma recuperação econômica japonesa mais robusta neste ano do que no ano passado? Vejamos o humor do mercado.

nikkey_recente

Pois é. Parece que a vamos ter alguma novidade mais para o final do dia. Entretanto, a bolsa de lá está em um humor melhor desde o mês passado ou é impressão minha?

A taxa de câmbio (todos os dados do Quandl, cujo uso no R foi explicado em um texto anterior de hoje) está aqui.

cambiojapao

A inflação e outras variáveis você pode ver no Quandl ou em outros locais, na Internet. A bem da verdade, eu já dei várias dicas aqui, neste blog, sobre como encontrar dados da economia japonesa, sem falar do uso do R. Então, agora é com você.

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Descubra se você precisa fazer vestibular novamente

O comércio é um jogo de soma:

a) Zero
b) Positiva
c) 3.1415
d) Todas as alternativas acima estão erradas
e) Todas as alternativas acima estão corretas

Antes que você corra para o gabarito, tente responder. Pode levar uns cinco minutos pensando. Depois, veja isto.

E aí? Leu só o título? Ou leu com cuidado?

Então, precisa fazer vestibular de novo?

“Aprenderam, amiguinhos?”
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Angus Maddison e seu legado…Momento R do Dia

Vamos ver uma aplicação simples: importar usando o pacote Quandl. Primeiro, crie uma conta no Quandl e adquira seu código de autorização. Em seguida, faça como este exemplo.


require(Quandl)
require(ggplot2)
Quandl.auth("seucodigo.....veja o que falei acima")
maddison=Quandl("MADDISON/GDPPC_BRA")
head(maddison)
new<-data.frame(maddison)
ggplot(new, aes(x = Year, y = GDP.Per.Capita)) + 
  geom_point() + geom_line()+
xlim(as.Date(c("1800-12-31", "2008-12-31")))

Estude este código calmamente. Repare que estudar esta série como uma série de tempo exigiria mais do que simplesmente fazer um gráfico bonito (que é, notadamente, a grande vantagem de se usar ggplot: gerar gráficos esteticamente bonitos). Admire o PIB per capita do Brasil, resistindo a governos e mais governos… maddison_brasil Ah sim, este exemplo é muito mais simples do que sua inspiração. Vale a pena você estudar o outro exemplo para aprender a fazer mais com estes dados.  Antes que você me pergunte sobre Angus Maddison, ele fois simplesmente o melhor amigo dos estudantes de História Econômica no último século. Seu trabalho de coleta e sistematização de dados agora continua, nas mãos de outros pesquisadores. Com uma base de dados desta, mais algumas outras que temos, oriundas de outros trabalhos e pesquisas, não é difícil fazer algumas análises bacanas. Ok, digamos que você gostou do que viu. Aí você me pergunta: e o Brasil? Tem dados lá? No R, simplesmente, digite: Quandl.search(“Brazil”). Caso você faça algo interessante e queira compartilhar, conte para este blog depois. Comentários, como sempre, abertos.

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Excesso de opções? Eu diria: maior diversidade!

O título da matéria parece carregar na conotação negativa implícita. Eu reescreveria para: ampliação das opções de consumo faz com que diminua o consumo relativo de uma das opções. Fica meio óbvio, mas é isso.

A matéria, contudo, lembra-nos de algo muito interessante sobre teoria do consumidor: a questão das preferências e a própria definição de “bem”. Afinal, como sabem os estudantes do primeiro ano, “um copo de água” e “um copo de água no deserto após dois dias de caminhada” não são o mesmo bem.

Então, sim, “sucos e achocolatados” não é a mesma coisa de “sucos e achocolatados no café da manhã” e, de novo sim, a ampliação das opções faz com que o mesmo consumidor tenha mais itens para serem gastos com sua renda (permanente) o que, portanto, faz com que caia a proporção do item no total do orçamento.

Eu, por exemplo, não conhecia alguns tipos de cerveja e, após conhecer, passei a apreciar um pouco mais o produto. Obviamente, outras cervejas perderam espaço em minha restrição orçamentária, como eu disse a esta repórter.

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Imigrantes…

Interessante discussão: os imigrantes carregam consigo normas sociais que podem ter impacto econômico? Trecho:

Our results support the notion that social norms are deeply rooted in long-standing cultures, yet are nonetheless subject to adaptation when there are major changes in the surrounding circumstances and environment.

  • The effect of source country social trust is strongly significant, with a size about one-third as large as that from trust levels in the destination countries where the migrant now lives.
  • Migrants from low-trust environments are especially affected by the low trust in their country of origin even after migration, while migrants from high-trust environments are less likely to import the high trust of their country of origin to their current country of residence.
  • Holding constant the effects of imported trust, immigrants and the native-born have similar levels of social trust.
  • The footprint effects for generosity are similar as those for social trust, but smaller.

To help confirm that the footprint effects for social norms represent more than just the time it takes to learn about new surroundings, we undertake similar tests for trust in national institutions, where we would not expect to see footprint effects. In contrast to our social trust and generosity results, and consistent with our expectations, we find no footprint effects for opinions about domestic institutions in the new country.

Então, sim, pode ser que aquela diferença que você intui haver em certas comunidades de descendentes de imigrantes seja, de fato, algo relevante para nossa compreensão dos processos econômicos. Pode ser que sim, pode ser que não. No mínimo, a bibliografia do artigo vale a consulta para os interessados em debater temas de fronteira como este.