Ainda não morri (madadayo)

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「親譲りの無鉄砲で子供の時から損ばかりしている。」

Ou, em inglês (e você pode traduzir facilmente): Ever since I was a child, my inherent recklessness has brought me nothing but trouble.

Esta é exatamente a primeira frase do clássico da literatura japonesa, Botchan, de Natsume Souseki, publicado no Japão de 1905. Eu me lembro da primeira vez em que tive contato com a história. Foi em um dos filmes que a nossa colônia trazia e exibia no auditório do Banco Nacional, ali na Rua Espírito Santo logo após a Avenida Afonso Pena.

Acho que a última coisa importante nesta história é a rotina do professor, nosso “Botchan”, um termo de difícil tradução, mas que carrega um tom irônico já que se refere a um adulto. Não sei como e nem o porquê, mas sempre que experimento momentos de intensa alegria junto a ex-alunos, eu me lembro de Botchan, desta frase e também do clássico do Kurosawa – e último filme dele – Madadayo. Quanto a este, não é difícil entender o porquê de momentos como este me lembrarem do filme. Mas há algo que não consigo entender acerca de meus sentimentos quanto à primeira frase de Botchan.

Tentarei algumas hipóteses para acalmar um pouco de minha alma confusa.

Botchan (坊ちゃん) – hipóteses

H.1 – Eu queria ter sido mais cabeça dura quando criança.

Talvez a leitura desta frase invoque em mim uma frustração acerca da minha infância. Eu deveria ter sido mais cabeça dura, brigado um pouco mais do que briguei quando criança. Mas como isso me ajudaria a entender a relação da frase com a profissão de lecionar? Botchan não era bem meu modelo de ensino. Não há dicas de pedagogia no livro. A relação com os alunos é simples, bem no estilo tradicional de outras histórias japonesas sobre a vida escolar. A trama toda está entre o professor maquiavélico, seu serviçal e os outros dois professores, vítimas destes. Claro, Botchan está inserido nesta trama de um jeito que …deixa para lá. Você tem que ler o livro.

H.2 – A frase evoca a atuação de Botchan, lutando para crescer como ser humano

Pode até ser. Mas o que tem isso a ver com lecionar? Ok, eu sei que tem muito a ver, mas na época em que vi o filme eu era muito jovem. Devia estar no colégio ou algo assim. É verdade que só fui ler o livro depois, em inglês, com uns 14 anos de intervalo. Afinal, a economia não era muito globalizada e não era fácil encontrar este livro por aí. Só em São Paulo, e em livrarias especializadas. Como eram tristes os anos pré-abertura…a cultura do brasileiro não se comparava ao que temos hoje, com funk e tudo o mais. Basta querer e você lê praticamente quase tudo…em inglês. É, não melhorou tanto assim.

H.3 – A atitude de Botchan é um símbolo do contraditório…mas importante

Ao me sentar à mesa com meus alunos eu vi o quanto eu tive de lutar para melhorar um curso (um dia eu conto para vocês a história da biblioteca que “escondia” os textos para discussão…). Foram anos de muito envolvimento emocional com um projeto que não vingou. É uma história longa, que ainda será contada em detalhes para alguns, em outros almoços, jantares ou cafés. Coisa para amigos. Sim. Envelheci. Tenho memórias de projetos que deram certo, outros que fracassaram.

Vou contar uma coisa: era preciso ter atitude. Não bastava seguir as regras porque muitos que faziam as regras não as cumpriam. Graças a nosso trabalho, introduzimos o sistema de monitorias e, um belo dia, um aluno – bem conhecido por sua reduzida capacidade de estudar… – veio se queixar: achava um absurdo ter que ir à monitoria, já que pagava a faculdade. Como? Não, você não leu incorretamente. Foi exatamente isto.

Então, ficamos com H.3 (o teste de hipóteses, o erro tipo I, tipo II e… a pizza)

É, acho que é isto. Conversar com o Helger, Ronaldo, Juliana, Igor e Aurea naquela mesa me lembrou que, pela atitude deles, em muitos momentos, eu notei que precisava ser um pouco mais firme. Ser educado demais é confundido, por imbecis, com ser covarde. Para ajudar os alunos a descobrirem o seu próprio caminho, é necessário, paradoxalmente, ensinar um caminho. Digamos, uma metodologia, um “meta-caminho”. Para todos eles, e tantos outros ao longo dos anos, houve puxões de orelha, conselhos, bengalas, placas de sinalização, empurrões, sorrisos e, bem, acho que é isto que esta frase inicial evoca.

A luta para ensinar bem não é fácil. Nem o professor é perfeito – longe disto – mas o importante é que, após tudo isto, as pessoas aprendam que não se confunde o professor com o colega: há respeito. Mas também há uma amizade – e eu reconheço que sou péssimo para amizades, um defeito congênito, creio – que, plantada, eventualmente brota aqui e ali.

Citando Mário de Andrade (para variar…)

Cada um dos meus ex-alunos nesta foto tem uma história de vida. Um deles, inclusive, acaba de ampliá-la com um filho. Quanta alegria pode um ex-professor pode sentir ao testemunhar tanta homenagem à vida? Não sei. Mas sei que beira ao infinito (positivo).

Bem, o Ronaldo me disse que repetiríamos a dose se a foto viesse para o blog. Então, já viu, né? Meu interesse maximizador e auto-interessado me trouxe para esta foto, este texto e, não vou mentir, a muitas recordações.

Eis minha comemoração, rememorando Mário de Andrade, que era uma leitura confusa e interessante nos meus tempos de aluno que, sim, subia a rua da Bahia para o estágio e, depois, voltava para casa por diversos caminhos, conforme o que havia para fazer:

Alegria da noite de Belo Horizonte!
Ha uma ausencia de males
Na jovialidade infantil do friozinho.
Silêncio brincalhão salta das árvores,
Entra nas casas desce as ruas paradas
E se engrossa agressivo na praça do Mercado. [Mário de Andrade, “Noturno de Belo Horizonte” (trecho), 1934]

Este Mário de Andrade precisava mesmo era ter dado aulas por aí. De certa forma, ele as deu. Ou não aprendemos nada com este belo trecho? Nosso Nazaré tem um filho. Não é a cidade que sorri ao nascimento de mais um novo cruzeirense?

Pois então, Ronaldo. Cumpri a promessa. Quando é a próxima pizza?

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