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A juventude se diverte mais no carnaval, trabalha mais ou estuda mais?

Em suas aulas de Macroeconomia, lá no início do curso, você já deve ter ouvido falar de “estoques” e “fluxos”. Deve ter visto um diagrama, ouvido umas histórias e, se aprendeu algo, nem precisa ler este texto porque vou apenas usar estes conceitos com uma reportagem que li hoje de manhã. É, você já notou que o “carnaval” do título foi só para te enganar…

Vamos lá?

Estoques e fluxos: mercado de trabalho

Diz lá o Estadão, citando o IBRE:

Os reajustes salariais tiveram, em 2013, o menor peso no crescimento da renda do trabalho desde 2005. Do aumento de 1,8% no rendimento (também o menor avanço desde 2005), 0,7 ponto porcentual, ou 40% do total, deveu-se ao fato de menos jovens estarem entrando no mercado de trabalho, segundo estudo inédito do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV).

Sim, é verdade que estamos tendo menos filhos, mas não é este, ainda, o ponto central desta queda. A matéria não é sobre o fluxo de jovens, mas sobre o estoque atual e, neste, um bocado deles resolveu esticar seus estudos. Como se diz lá em casa, “trabalhar que é bom, nada”.

Mas isso é ótimo por um lado (embora os pobres pais tenham que pagar, geralmente, para o moleque um almoço, janta e até uma ajuda para as farras…): o número de anos estudados por indivíduo está aumentando.

Duas mudanças socioeconômicas acompanham o fenômeno: o aumento da escolaridade e o crescimento real da renda das famílias nos últimos anos. “Antes do fim da década de 1990, se você pegasse pessoas de 22 anos de idade, só 30% chegavam ao ensino médio. Hoje, são mais de 70%”, diz o economista Naercio Menezes Filho, coordenador do Centro de Políticas Públicas (CPP) do Insper.

O crescimento econômico com crescimento da base da pirâmide da classe média.

Sem a frieza dos dados estatísticos, Ricardo do Nascimento Reis, gerente de metodologia do Grupo Multi, sente essas mudanças na demanda pelos cursos técnicos. Segundo Reis, entre os jovens, sobretudo entre 15 e 20 anos, há uma pressa latente de alcançar cargos mais altos. Por isso, muitos preferem se afastar do mercado de trabalho ou atrasar o início da profissão para se qualificar e conseguir cargos melhores.

Há jornalistas e jornalistas e alguns não parecem ter superado o preconceito de associar “dados estatísticos” com “temperaturas polares”. O Estadão é um ótimo jornal, mas de vez em quando você lê estas frases estranhas. A ironia da coisa é que os jovens estudam, estudam, mas nem sempre aprendem tudo. Por exemplo, alguns continuam com a idéia de que dados estatísticos são “frios”. Um aumento do PIB em 2% é frio, uma desvalorização da taxa de câmbio em 1% é fria, mas, um “black bloc” espancando jornalista, bem, isto é quente.

Fluxos, Estoques…intertemporais…

Mas vamos seguir em frente, sem a frieza do preconceito contra dados estatísticos (a matéria é bem escrita, exceto por esta frase).

Além disso, há também um fator demográfico estrutural por trás do fenômeno. “Está caindo o porcentual de jovens na população em idade ativa (PIA), e aí, logicamente, você tem um menor contingente de jovens no mercado de trabalho”, ressalta Moura, do Ibre/FGV.

Eu já havia falado lá em cima, né? Aqui está a questão do fluxo. O fluxo de jovens está diminuindo. O estoque futuro, portanto, deve ser menor do que o atual, diz o pesquisador do Ibre implicitamente. Não apenas isto, mas este estoque tem a característica de alongar seu período de estudos. Nem discutimos a qualidade do ensino, mas tão somente a quantidade de tempo que o sujeito fica sem trabalhar (ou trabalhando pouco) para estudar. Por exemplo, o garçom – oriundo da classe média – que resolveu estudar mais, daqui a um tempo, anotará seu pedido em um português que todos entendam? Espero que sim.

Repare como a alteração nos estoques (via fluxos) dá-se por meio de milhares e milhares de decisões descentralizadas individuais não apenas de jovens que decidem estudar, mas também de pais que decidem ter mais ou menos filhos. Não é meio óbvio que as consequências macroeconômicas são fundamentadas em decisões microeconômicas? Por que é que você acha que economistas desenvolveram pesquisas em tópicos como a economia da família (veja também este texto), etc?

Ok, vamos em frente.

Possíveis reflexos de um melhor capital humano? Digressão idiossincrática.

Tenha em mente que o estoque de capital humano de um país é parte integrante do desenvolvimento econômico do mesmo (basta lembrar do modelo de Solow, né?). Quer ver algo que eu esperaria de um país que se quer desenvolvido com um capital humano decente? Eu esperaria:

1. Comentários civilizados: Páginas de jornais e outras páginas estão cheias de comentários mal escritos, curtos, sem conteúdo e/ou com apenas xingamentos. Isto sem falar nas frases desconexas. Melhorar o capital humano significa melhorar o conteúdo dos comentários em todas estas dimensões.

2. Aumento na produção de vídeos educativos: Meu amigo Diogo sempre comenta sobre sua decepção com a quantidade de vídeos educativos produzidos aqui e (como diriam os nacional-desenvolvimentistas) alhures. Acho que ele pretende fazer um post sobre isto no blog dele, então não vou me aprofundar (mas se ele demorar…).

3. Banheiros mais limpos: Espero que a educação escolar, lá na creche complemente a educação doméstica e a civilização geralmente vem acompanhada de gente que não chuta catracas, quebra paredes ou deixa as privadas em estado calamitoso.

Ok, o último ponto é menos relacionado com os anos de estudo, mas não é menos importante…certo?

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