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Ainda o Numerário (continuação)

Só para brincar com os dados, peguei uma das rendas nominais do IBGE. Seguindo a lógica do texto anterior – mas limitando a amostra (por conta da série de rendimento nominal, que começa em 2002) para 2002.02 – 2014.12 – obtemos os seguintes gráficos (para preços de boate e motel, só para exemplificar).

boate

motel

Então, explicando: eu gerei a série dividindo o valor do rendimento médio nominal (R$) pelo índice de preços do item que pesquisei (lembre-se do post anterior). Assim, vemos que a vida do brasileiro medido na amostragem do IBGE, grosso modo, melhorou em termos do poder real de compra para estas opções de lazer.

Mas, espere aí!!

Entretanto, está claro que ambas as séries possuem dois aspectos marcantes: tendência e sazonalidade. Obviamente, o efeito que aprendemos em Microeconomia não está sozinho nesta história. Não aprendemos, na teoria microeconômica (básica, de graduação, e mesmo na avançada, exceto em cursos bem específicos, creio) a lidar com variações de preços relativos que não estejam limpas de efeitos de mudanças na média (a tal tendência) e sazonais (que são específicos).

Por isso, prezados, é que a galera adora ver gráficos de taxas de variações, já descontadas de impactos sazonais. Assim podemos identificar rapidamente o efeito teórico (supondo, claro, que não ocorram mais outros efeitos não previstos pelo nosso modelo básico) nos dados. Só de curiosidade, então, as fórmulas, no R, para construir as variáveis:

renda_real_motel<-((rend_nominal)/(1+motel/100))
renda_real_boate<-((rend_nominal)/(1+boate/100))

E, finalmente, vamos fazer o seguinte para tirar a tendência (há vários métodos): vou calcular a taxa de variação da variável e depois vou aplicar um destes métodos simples de dessazonalização. Aí podemos nos voltar para o gráfico. Façamos apenas com o rendimento real em termos do preço da boate.

drenda_real_boate<-diff(log(renda_real_boate))

sazon<-decompose(drenda_real_boate)

plot(drenda_real_boate-sazon$seasonal)

renda_sem_sazonal_correto

A diferença dos logaritmos, como sabemos, é uma aproximação da taxa de variação de uma variável (e se você multiplicar por 100% terá a variação percentual, ok?). Sobre esta série apliquei um método simples de decomposição (um que citei no blog do Nepom, acho) e, assim, obtive o gráfico acima tirando da variação da renda real em termos do preço da boate seu efeito sazonal.

Agora, veja, você pode fazer a mesma coisa com os outros dados e, aí, eu diria, poderá comparar a diferença que um ou outro numerário faz na análise. Neste breve texto, o que fizemos foi ver a renda média real em termos do preço da boate. Quem quiser brincar mais com os dados, recomendo replicar o exercício com outros sub-índices do IPCA, só para pegar o jeito da coisa, ok?

Avançando mais…

Para os leitores mais familiarizados com a função de autocorrelação, fica aqui o gráfico da mesma.

acf_pre

Não vou discutir muito este gráfico, mas ele certamente poderá suscitar comentários dos leitores.

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O final de semana da turma e o numerário

Namorados e namoradas chegam ao final de semana sem pensar muito em gráficos ou em R. Mas, deveriam? Estão perdendo algo? Não sei.

Alguns se divertem indo ao cinema, outros a motéis. Outros preferem uma boate, outros, jogos de futebol. Uma rápida pesquisa pelo IPCA nos dá uma idéia dos preços relativos. Qual preço relativo você quer analisar?

Diversão no sábado

O sujeito que deseja comparar suas opções de lazer com relação ao motel, digamos, pode fazer a hipótese de que o índice de preços é uma média do preço (preço médio). Assim, para o subitem do IPCA referente ao motel, ele calcula o índice. A mesma coisa ele faz para o índice de preço dos subitens boate, jogos e cinema.

Então ele pode verificar algumas coisas. Por exemplo:

relativos1

Ah sim, a amostra é de (1999.08 a 2014.01, dados, obviamente, mensais). Repare no eixo vertical. Ele tem o que seria o índice de preços relativo entre boate e motel. Quando ele estiver acima de um – supondo que o índice é a média – então diríamos que a média do preço da boate é maior que a média do preço do motel. Em outras palavras, está mais caro ir para a boate. Parece-me que, em Julho, o relativo é o mais baixo, ou seja, se você quer economizar…

Ignoramos, é claro, diversas diferenças, já que o índice de preços é, ele mesmo, uma média brasileira. Alguém mais preocupado com sua realidade local deveria trabalhar com as regiões metropolitanas levadas em consideração pelo IBGE.

Ok, outra escolha seria ir ao futebol ou ao cinema. Ceteris paribus, o incentivo do preço parece tender sempre para o futebol.

cinema_Relativos2

Ok, ok. Teríamos que olhar muito mais coisas para uma boa escolha de lazer no final de semana. Mas os preços relativos não têm moral ou censura: não me importa se você quer ir ao futebol ou ao motel, ao cinema ou à boate. O fato é que você pode construir preços relativos e expressar os preços dos outros bens em relação ao seu numerário.

O pessoal que teve aula hoje de manhã me perguntou isto e eu não poderia deixar de ir para meu sábado sem tentar lhes dar uma explicação mais intuitiva.

Citando da Wikipedia cujo link acabei de indicar:

Numéraire is a basic standard by which value is computed. Acting as the numéraire is one of the functions of money, to serve as a unit of account: to measure the worth of different goods and services relative to one another, i.e. in same units. “Numéraire goods” are goods with a fixed price of 1 used to facilitate calculations when only the relative prices are relevant, as in general equilibrium theory or in effect for base-year dollars. When economic analysis refers to goods (g) as the numéraire, typically that analysis assumes that prices are normalized by g’s price. In general equilibrium theory setting the price of one good to be 1 has the problem that this presumes (unwarrantedly) that this good will not be a free good in equilibrium. This is typically avoided by using the sum of the prices of all goods to be 1, that is, by restricting prices to the unit simplex.

Pois é. As coisas podem ficar bem mais complicadas quando você resolve estudar uma economia com mais bens, não? Por enquanto, estamos com dois bens e em equilíbrio parcial. Por isso, preocupe-se apenas com o início da definição. Com ela, podemos visualizar alguns relativos de preços. Bem, mais ou menos, porque estou, novamente, assumindo que o índice de preços é uma média dos preços do produto, né? Uma hipótese simplificadora, bem simplificadora, mas que todos fazem quando querem explicar o relativo de preços com dados com este.

Ficamos assim então. Aproveite seu final de semana e visite o blog do Nepom. Caso dê, volto aqui para conversar mais.

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Sinalização

Diz-se que um sujeito sinaliza seu tipo em Teoria dos Jogos quando ele deseja mostrar a alguém que ele é um sujeito do tipo X ou Y (mesmo que não o seja: lembre-se, por exemplo, do clássico problema de falsificação de preferências). 

Pois é. Então, em uma prova de questões abertas você, professor, espera ver um texto organizado, contas organizadas, com coerência e um português que seja legível por qualquer adulto que não seja um analfabeto funcional.

Mas e em um pedido de socorro escrito às pressas em um twitter ou Facebook da vida? Aí você espera o contrário, não é? Principalmente se a pessoa disser que está prestes a ser sequestrada. 

Entretanto, não foi bem assim que esta moça redigiu seu pedido de socorro. Bom, nem todas as provas também são redigidas como deveriam. Eis o pior dos mundos: um recado redigido como um poema clássico e uma prova respondida com um português quadrúpede. 

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Tá achando difícil seu IS-LM, tá? Vem resolver este modelo “menos irrealista”, vem?

PaperArtist_2014-02-21_21-16-22

 

Não sei se vocês conseguem enxergar, mas são 171 equações no total, 96 delas não-estocásticas. O modelo é o MPS, tal como se encontrava em 15 de Abril de 1969, conforme se lia na p. 502 do velho Modelos econométricos, técnicas y aplicaciones, do Michael D. Intriligator, na versão em língua espanhola.

Mais espantoso, talvez, é pensar no modelo DRI, de 718 equações!

2014-02-21 21.26.01

 

Houve um tempo em que os economistas depositaram sua fé nestes modelos de larga escala (nome bem adequado, não?). Um resumo sobre os modelos encontra-se aqui.

Outra hora eu volto para conversar sobre isto. É um tema interessante, não?

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Plano Real faz aniversário dia 27

Muita gente deve estar comemorando. Alguns nunca negaram sua participação e apoio no plano. Outros, claro, foram contra e depois fizeram de conta que eram amigos do Plano Real desde o início.

Existe um Plano Real hoje? Acho que o que temos é uma economia que se favoreceu imensamente deste plano. Talvez o blog faça algo mais detalhado sobre o plano. Acho que visão da inflação em queda já é algo digno de ser notado. Quem iria conseguir fazer um programa como o Bolsa-Família em uma economia com inflação que atingiu marcas históricas como 80% ao mês?

A estabilização é tão boa que até gente irresponsável consegue destruir instituições monetárias com suas políticas alucinadas. Enfim, a estabilização é democrática: não favorece somente os bons e justos, mas também os canalhas e ignorantes. Talvez esta seja a maior virtude de uma estabilização de um processo inflacionário. Uma virtude que alguns parecem querer deixar para trás agora.

Eu me lembro bem do início do Plano Real. Eu tinha uma bolsa de mestrado (um importante sujeito que votava em listas fechadas enviadas pela sua célula em um certo partido, hoje, muito importante no Tesouro Nacional, também vivia assim, mas vamos preservá-lo, né?). Era aquela vida maluca em que os preços não paravam de subir.

Quem nasceu depois de 1999 não pegou – graças a Deus – aquela época terrível.

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E no Brasil? Qual a visão do brasileiro acerca do comércio exterior?

Nossa Receita Federal, eu sei, acha que o comércio exterior é uma imensa desculpa para tributarem qualquer importação. Agora, o que o brasileiro pensa? Será que a resposta será similar à dos norte-americanos?

Alguém conhece uma pesquisa similar? Este bando de políticos que fazem campanha e que dizem representar os brasileiros têm alguma pesquisa a respeito? Eu gostaria de saber. Jovens brasileiros parecem insistir em uma noção de comércio que eu diria, até, esquizofrênica. Mais ou menos assim: o brasileiro adora consumir mais produtos, mas sofre de um certo chavismo infantil – talvez fruto de uma doutrinação tímida misturada à falta de informação – no qual ele percebe qualquer produto estrangeiro como uma ameaça.

Em resumo: um IPAD é ótimo, mas um IPAD é uma ameaça (maligna) contra nossa nação.

Epílogo: “nação”, cara-pálida?

Aliás, o que é mesmo uma nação? Vamos subverter um pouco o sujeito que está em sua zona de conforto.

Consider two nations, each claiming the same piece of territory. Each may try to gain its ends by force, threats, or offers of payment or exchange. It seems reasonable to suppose that the outcome will be efficient, that the territory will end in the control of the nation willing to pay the higher price. The alternative conjecture would be that the stronger nation will usually be the winner, since it can, if necessary, annihilate the other. Under circumstances of total war, this is doubtless true. But in a world of many nations, the winner of a war of annihilation, although better off than the loser, may be seriously disadvantaged with regard to all other nations. The use of such tactics is then unprofitable and the threat of them implausible. So it seems reasonable to suppose that what determines the winner is not the total resources possessed by each nation but the resources each nation is willing to spend to gain its end and that this will correspond roughly to the value of the end. 

Territory may be of value to a nation for many reasons of strategy, sentiment, politics, or economics. We will assume that the reason of chief importance for the phenomena we wish to explore is economic. More specifically, we assume that the value to a nation of any territory is the increase in tax collections made possible by control of that territory, net of collection costs. 

Sensacional, não? Neste artigo de 1977, David Friedman faz a pergunta que nem sempre ocorre às pessoas: não seria uma nação aquilo que foi conquistado por alguém, com fins de maximização de riqueza? Assim, não é uma nação aquilo que se caracteriza por uma “cultura”, “língua”, “povo”. Na verdade, o que prevaleceu na conquista foi alguma “cultura(s)”, “língua(s)” ou “povo(s)”. Acha estranho? Então me explica a diversidade cultural, linguística e de populações da China comunista.

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O famoso poder real de compra encontra o baile funk: prostitutas, calcinhas e a pizza

Digamos que você ainda não entendeu a diferença de grandezas nominais e reais porque está, penso eu, no primeiro ano de curso e não lê muito fora de sala de aula. Ok, vou te ajudar usando aquela música “maravilhosa” (não para mim): o funk.

Uma postagem no Facebook, anunciando um evento chamado “Funk de Segunda Apresenta: Baile Funk de Carnaval”, circulou e chamou a atenção do público frequentador da casa de shows Granfinos, na tarde desta quinta-feira (20).
O evento anunciava como ação promocional que 50 mulheres que            fossem ao evento sem calcinha (sem explicar qual seria o critério               de comprovação), ganhariam um drink por conta da produção.

Calcinhas e Economia

Primeiro, deixa eu lembrar o leitor que a Economia pode ser definida como a ciência das trocas (um dia destes eu exponho meu ponto de vista sobre a definição de nossa ciência, aliás, meu não, mas de Demsetz ou Alchian). Não nos achamos superiores a outros seres humanos para julgar valores individuais. O que nos importa é entender o papel dos incentivos. Então, sim, meu caro, se eu tivesse uma filha de 12 anos que me falasse do baile, eu não deixaria ela ir ou criaria incentivos muito fortes para que ela mudasse de idéia.

Então, acho que não há motivos para críticas. Não gostou? Não deixe sua filha ir. Ponto. Mas quanto à estratégia de mercado, é uma bela iniciativa. Nada de novo, é bom dizer, exceto que agora é só baixar a calcinha para o felizardo do segurança (caso ele não seja homossexual, claro). Ah sim, não vou nem discutir a opinião de alguns que vão se achar discriminados porque não podem baixar a cueca para ganhar uns drinques. Haja paciência…mas vamos à parte divertida: a economia!

Calcinhas e drinques

Suponha uma moça não muito chegada a valores morais quanto ao sexo. Digamos que ela imagine que a Bruna Surfistinha é um modelo de mulher moderna. Novamente, se fosse minha filha, ia ouvir poucas e boas. Mas vamos supor esta moça hipotética, convexa, bem-comportada, contínua e muito sexualizada para a sua idade (se é que me entendem). Então esta moça provavelmente já se livraria desta “opressora calcinha machista” por uns R$ 100,00, à noite, ali perto da avenida Afonso Pena em BH. Eu sei, eu sei, você também está chateado com esta história aqui no blog. Mas meu objetivo não é incentivar a prostituição ou a audiência às pregações de Marcos Feliciano. Isto é problema seu. Meu ponto é puramente econômico.

Agora, imagine que esta donzela ganhou uma grana no dia anterior com sua profissão paralela  é uma das primeiras a chegar ao baile funk. Suponha que o drink custe R$ 5.00. Então, veja só, a dona moça aumentou seu poder de compra duas vezes. Sua renda nominal (digamos que ela tinha apenas R$ 50.00 que ganhou dos pais…que nada sabem sobre sua vida verdadeira) que eram R$ 5.00 agora são R$ 150.00. Mais ainda: ela deixou de pagar R$ 5.00 no drinque. Ganhou um drinque com preço R$ 0.00.

Calcinhas, drinques e pizzas

Eu espero que nem tudo termine em pizza, mas a simpática rapariga desta história, mas veja como funcionam os incentivos. Inicialmente, a restrição orçamentária da moça era: tudo o que eu posso gastar em drinques e no restante com apenas R$ 50.00. Temos que sua restrição era, inicialmente:

50 = 5x + D

em que x = quantidade de drinks (ou, alternativamente, mililitros do tal drink) e D é o gasto com outros bens, em reais (R$). Como o preço de R$ 1.00, obviamente, é R$ 1.00, isto é a mesma coisa que escrever: 50 = 5x + 1*D no qual 1*D = D, claro.

Agora, o que acontece quando ela se prostitui? A restrição orçamentária dela se transforma em:

150 + 5x + D

Mas lembre-se que a história não terminou aqui. Ela conseguiu chegar entre as 50 “felizardas” da fila e ganhou um drinque de graça. Apenas um, claro. Então, para o primeiro drinque, o preço é zero. É como se a restrição dela fosse:

D = 150 para x  ≤  primeiro drink (em mililitros).

A partir daí, a restrição é: 155 + 5x + D

Em poucas palavras, ela ganhou R$ 5.00 no orçamento. Por conta do que ela ganhou com a prostituição, já poderia comprar um número de drinks equivalente a R$ 150/5. Com o desconto, R$ 155/5 (a partir do segundo drink). Toda a história está resumida na figura abaixo.

bailefunk

Tudo parece terminar em pizza, não? Digo, este exemplo é muito parecido com aquele da pizza sobre o qual falei em sala de aula.

Mas isto não é repugnante?

Como já disse antes, eu concordo com você que não é um incentivo que me agrade. Mas é justamente por ele funcionar que tantos se incomodam. A pergunta anterior, portanto, é: como você sabe que ele funciona? Está aí em cima, de forma estilizada, com um pouco de drama porque tornei nossa personagem uma prostituta para mostrar como ela ganhou duas vezes com uma mudança de preço relativo (para 0 < drinks ≤ 1) e com a grana de sua atividade em venda de seu próprio corpo da noite anterior.

Então, você tem que deixar de lado a questão de se isto é ou não repugnante em primeiro lugar, caso contrário não conseguirá entender como os incentivos operam. Por que você precisa entender isto? Bem, se você quer combater este tipo de coisa, tem que usar os incentivos adequados.

Em minha opinião, não é coibinido a prática por meio de algum tipo de lei. Isto não muda os incentivos, apenas mostra que você não consegue lidar com eles e que forçar a barra proibindo uma troca voluntária. Parece fácil pensar que tudo ser resolve com uma canetada, mas mesmo bons juízes têm dificuldades com seus filhos e filhas em casa e sabem muito bem que não é assim que você resolve o problema.

Pense bem: não é proibindo a prostituição (ou ofertas de pizzas gratuitas na compra da primeira pizza) que você diminui a ocorrência destas trocas.  Acho que a solução passa por uma conversa muito simples que também envolve incentivos. Vou ajudar os pais que não conseguem conversar com suas filhas.

a) Andar sem calcinha em baile funk nos sábados – a moça que faz isto sinaliza para todos os amigos e conhecidos o seu tipo e, o tipo é o de que não valoriza muito a monogamia. Aliás, é alguém que corre mais riscos, porque prefere a promiscuidade (ou aparenta preferir, já que, bem, está sem calcinha todo final de semana e todos sabem disto). Converse com sua filha sobre o futuro. O mundo não termina com a festa de quinze anos dela. O mundo continua e um dia ela pode querer arrumar uma pessoa para uma convivência mais duradoura. A reputação ajuda, não? Embora olhar para o futuro seja importante, o fato é que olhamos para o passado das pessoas.

b) Andar sem calcinha e seu valor – a moça tem um corpo e o corpo tem valor. Falando friamente, é como um capital qualquer. Cuide bem de seu carro e ele anda mais. Cuide bem de seu corpo e ele funciona melhor. Pode ser muito fácil ganhar dinheiro saindo por aí se prostituindo. Mas não existe almoço grátis, minha cara. Mais sexo pode ser sexo mais seguro (como nos ensina Steven Landsburg em um capítulo polêmico do livro que leva justamente este nome), mas também pode significar (até para ser mais seguro), mais custos com prevenções de doenças. Quem vai pagar por isto? Você mesma? Seus pais? Qual o tamanho do custo de oportunidade?

Pensando, portanto, até em futuras relações com outras pessoas, o mais razoável é buscar preservar seu ativo, o corpo. Evidentemente, imagino que os pais tenham argumentos até melhores do que os meus mas, novamente, não estamos analisando aqui o aspecto moral da matéria sobre o baile funk. Estamos usando o fato para aprendermos mais sobre Economia (e ninguém precisa tirar a calcinha ou a cueca para aprender Economia, né? Basta sentar, abrir um livro, ler, estudar, fazer exercícios, ler de novo, estudar, etc).

Do fundo do meu coração (se é que tenho isto), espero que você tenha uma vida menos desregrada, ok?

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O FED e a vulnerabilidade do Brasil

Recebi um link de um ex-membro do Nepom com um pequeno texto do Armando Castelar em que ele confirma os resultados do FED que eu havia citado e que uns políticos resolveram criticar (mesmo sem sequer entenderem como o cálculo é feito).

Castelar calcula, ele mesmo, o indicador, já que a metodologia não é explicitada em detalhes lá no FED, tal como comentei. Ele faz um favor adicional aos leitores de seu blog (e de qualquer outro honestamente interessado em debater o tema): ele amplia o índice com mais itens para checar umas críticas dos burocratas do governo sobre o tema e, adivinhe o que ele encontrou?

O posicionamento do Brasil também não muda quando ampliamos o conjunto de medidores de vulnerabilidade, para incluir três medidores de vulnerabilidade a que o Ministro Mantega fez referência nas suas críticas à análise do Fed:[iii] o resultado fiscal, o crescimento do PIB e o fluxo de investimento estrangeiro direto. Como se vê na última coluna da Tabela 2, com esse indicador ampliado de vulnerabilidade a Turquia continua sendo o país mais vulnerável, o Brasil o segundo e a Índia o terceiro. A ordem muda, porém, a partir da quarta posição, com a Polônia passando a quarto lugar, a Rússia a quinto e a Colômbia a sexto.

Bem, aparentemente o que se vê é que a Fazenda não ganhará uma nota muito elevada no quesito dever de casa. Para finalizar, a lição de tudo é a mesma que eu apontei em “Simples assim, senadora!

No todo, os números mostram que os técnicos do Fed chegaram a uma conclusão coerente com os indicadores econômicos e que o governo não parece estar apreciando corretamente nossa vulnerabilidade à mudança na situação externa e aos desafios que a normalização da política monetária americana vai impor ao país. Melhor do que brigar com os números seria fazer as reformas necessárias para corrigir esse quadro.

Tentar torturar os números é uma acusação que sempre se fez aos economistas não-heterodoxos. Parece-me, contudo, que esta tradição verborrágica de reclamar sem fazer contas, tão cara a nossos heterodoxos nos anos 80 segue firme e forte entre os maiores usuários da mesma: seus aliados políticos.

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Pensando na Abenomics…

Eu sei que vocês estão cansados desta minha insistência com a Abenomics, mas eu não consigo deixar de pensar nela. Vamos só ver as coisas numa perspectiva mais recente?

A economia japonesa pode não ser assim tão mais exportadora como antes, mas é interessante ver como a desvalorização da taxa de câmbio deles tem um movimento bem próximo ao da Bolsa (índice Nikkei). Ok, deve ter a ver com a composição das empresas no índice e tudo o mais. Honestamente, eu não faço idéia. Mas uma coisa me parece estar sendo dita por estes gráficos: o humor com a política do Primeiro-Ministro parece estar em alta, mas não tão aceleradamente como no início.

É sempre bom mudar a janela para ver os fenômenos mais de perto.

Percebe-se como as oscilações se correlacionam, mas não tanto assim como parecem em uma janela maior (prazo mais longo), não? Eu não consegui fazer um diagrama de dispersão por um detalhe na frequência dos dados (dados diários e dados diários de fechamento).

Agora, convenhamos, bonito mesmo é o gráfico da correlação dos dados diários (04/01/1971 a 14/02/2014). Parece um dragão, não?

dragao

「日経平均と為替の龍」

円高が
経済の海
龍を見る

Durmo com esta imagem.

UPDATE: Veja se não parece?

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Liberdade econômica, caridade e capital humano: uma lição de como se começar uma pesquisa

caridade_liberdadeconomic

 

Eu já disse aqui que uma correlação não faz verão, mas resolvi colocar este resultado aqui para despertar a curiosidade das pessoas. Então, no eixo vertical temos o último índice de liberdade econômica do Fraser Institute e, no eixo horizontal aquele índice de caridade que o pessoal gosta de discutir de vez em quando. Só, que desta vez, eu coloquei os pontos da correlação ponderados pela medida de capital humano de 2010 do Barro (Barro & Lee) que são os anos médios de estudo.

Existe uma correlação positiva entre caridade e liberdade econômica? Eu diria que, caso exista alguma, ela parece ser fracamente positiva. O que istor quer dizer? Não sei. Mas sei o que isto não quer dizer.

1. Mais liberdade econômica inibe a caridade: Não sei. Com uma base de dados cross-section, apenas, não posso dizer muito. Além disso, níveis de variáveis fraca ou fortemente relacionadas não significam que variações das variáveis se relacionem.

2. Menos liberdade econômica favorece a caridade: Olha, meu caro, se não há correlação clara, ou se ela é fracamente positiva, não me parece também que isto seja sinônimo de dizer que existe uma forte correlação negativa. Veja o gráfico. Isto sem falar das outras observações feitas.

3. Caridade não tem a ver com anos de estudo: Talvez sim, talvez não. Não dá para dizer com o gráfico acima. Aliás, nem sei porque anos de estudo teria alguma relação com a caridade. Qual é a sua teoria?

Assim, no mínimo, você precisa de duas coisas: (a) uma teoria a ser testada e (b) uma base de dados maior que considere a possibilidade de outras variáveis interferirem nesta correlação simplória.

Quero fazer uma pesquisa sobre o tema! Devo sair correndo atrás de um orientador?

Calma que o mundo não vai acabar amanhã (eu acho).

Primeiramente, não incomode seu provável orientador com uma correlação sobre a qual você ainda sequer pensou. Veja, é muito importante ter alguma hipótese a ser testada. Eu até imagino que existam teorias para nos dizer que a caridade pode ser desincentivada pelo aumento no tamanho do governo (aliás, estas teorias existem e, se não me engano, existem artigos científicos sobre o tema).

Outra coisa: o que compõe cada um destes índices? Este é outro trabalho pré-encontro-com-o-provável-orientador que você deveria fazer. Trata-se do que poderíamos chamar de eu sei sobre o que estou falando. Você conhece seus dados? Pensou sobre eles? Entendeu a metodologia? Nem precisa concordar com a metodologia de coleta dos dados, por exemplo, mas tem que entender como ela é feita ou o que ela nos diz (e, o mais importante, o que ela não nos diz).

Bem, eu não sei se fiz uma caridade com este texto, mas pelo menos espero que alguém tenha entendido um pouco melhor sobre o início de uma pesquisa. Talvez até tenha ajudado a melhorar um pouco seu capital humano. Viu só como estas coisas são complicadas? ^_^

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Cicero e a Escolha Pública

There were four respectable ways for a prominent Roman to gain wealth: land-owning, booty from war, money lending and bribery. Cicero pocketed over two million sesterces (three times the sum he had previously quoted to illustrate ‘luxury’) from his governorship of Cilicia in 51 and 50 BC – and he had a reputation as an especially honest governor. (The Rational Optimist)

Vida boa esta a dos senadores…romanos em 50 AC. Não me entendam mal. Agora, cá para nós, heim, dizer que a Escolha Pública é “invenção neoliberal para falar mal do governo” é a maior mentira do mundo. Podem existir imbecis aqui e acolá, claro, mas vir com este papo de que o senador quer um mundo melhor, que ele é altruísta, bondoso, mais preocupado com os homens do que os empresários malvados…não, não dá. As evidências históricas (e eu diria: arqueológicas) são mais fortes.

Foi mal, gente. James Buchanan e Gordon Tullock estão certos.

UPDATE: E vejam o Cícero, em grande momento:

O que mais se deve evitar, portanto, é a vida desleixada e preguiçosa. E, se o luxo e os prazeres parecem mal em qualquer idade, com mais razão, se fazem abomináveis na gente velha  (…). Nem é fora de propósito falar sôbre as obrigações dos magistrados, das pessoas particulares e dos estrangeiros. Quem governa deve compreender que representa a pessoa da cidade e que está obrigado a sustentar a dignidade e o decôro da mesma, a conservar as leis, a fazer a justiça, e lembrar-se de que tudo está entregue à sua fidelidade e ao seu zêlo [Gonçalves, M.A. “De Officiis” de Cícero, Livraria H. Antunes Ltda., Editora, Rio de Janeiro, p.210]

É, realmente o homem era um “humilde” servidor público…

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Simples assim, senadora!

Occam’s razor applies to this science, just as it does to all sciences: do not invoke a complicated hypothesis to explain the observations, if a simple hypothesis will suffice.

Assim nos explica Gary Taubes em seu livro. Certamente, o ponto importante é aqui é a lâmina do Occam, né? Eis a história do termo. Neste ótimo resumo encontramos o sempre importante Karl Popper:

Karl Popper argues that a preference for simple theories need not appeal to practical or aesthetic considerations. Our preference for simplicity may be justified by its falsifiability criterion: We prefer simpler theories to more complex ones “because their empirical content is greater; and because they are better testable” (Popper 1992). The idea here is that a simple theory applies to more cases than a more complex one, and is thus more easily falsifiable. This is again comparing a simple theory to a more complex theory where both explain the data equally well.

A simplicidade, no sentido descrito acima, portanto, é uma questão de humildade, mas não de burrice. O falecido prof. Simonsen nos mostra exatamente onde Popper queria chegar:

A lição mais importante da teoria de Popper é que um modelo que não seja passível de falseamento empírico simplesmente não é uma ciência. Pode, na melhor das hipóteses, suprir uma crença. O alvo escolhido por Popper nesse sentido foi o determinismo histórico, segndo o qual a história seguia suas leis inexoráveis, da mesma maneira que os corpos celestes dançavam segundo as leis da astronomia, que permitiam até a previsão dos eclipses solares e lunares com extrema precisão. (Ensaios Analíticos, cap.1, p.17, 1994)

A metodologia da Ciência Econômica deve muito à idéia do Occam e também à idéia de que devemos testar hipóteses. Nem todos concordam com isto, mas este blogueiro é simpático à idéia de Occam e também à de Popper.

Eu estaria muito feliz em continuar esta conversa sobre humildade científica e testes de hipóteses, mas aí eu leio que uma senhora política resolveu mostrar quem é quem tem a moral no mundo. Poderíamos aplicar as idéias acima aqui? Vejam só que bombástico:

A senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) anunciou, nesta terça-feira (18), que apresentará no Plenário do Senado voto de censura a uma avaliação do Federal Reserve (FED), banco central americano, que classifica a economia brasileira como a segunda mais vulnerável de uma lista de 15 países emergentes, à frente apenas da Turquia. O anúncio da senadora foi debatido na reunião desta terça da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE).

Cada um tem o direito de falar o que quiser e também ouvir o que não quer e isto não vale apenas para os analistas do FED que, convenhamos leitores(as), fizeram um ótimo trabalho técnico. Vale também para a senadora, que quer invocar “sabe-se-lá-qual-moralidade” para pedir um voto de censura do Senado contra o FED.

Ciência não é religião, e não se deve censurar resultados científicos. Eu poderia, diante de tamanha indignação com um trabalho técnico do FED, de forma similar, pedir um voto de censura contra o Senado Federal por não educar seus membros explicando-lhes a diferença de um trabalho gerado no FED e um panfleto do sindicato dos bancários de Pindorama que acusa os EUA de tentarem dominar o mundo.

Há quem admire o trabalho de gente estranha que, como na Argentina, culpa os economistas ou os consultores por medirem a inflação sem escondê-la dos eleitores. Merece voto de censura da Bauducco (que não me patrocina) aquele ranking da revista do final de semana encartada no jornal que não deu ao seu ótimo panetone o primeiro lugar?

Enquanto o Parlamento britânico teve a honra de ter, em sua composição, William Ewart Gladstone, que desenvolveu uma original teoria sobre o uso das cores na Odisséia e na Ilíada de Homero (*) – que inveja! – nossos políticos preferem ocupar o tempo para o qual são pagos para debater problemas nacionais com apelos por votos de censura para uma ou duas páginas de um informe do Banco Central dos EUA (que, aliás, eu comentei aqui).

Parece-me que a senadora quer enveredar por um caminho complexo demais para mim, para vocês e para ela, que envolve uma visão politizada do trabalho alheio. Tenho uma sugestão mais simples que poupará recursos ao Itamaraty e que também nos permitiria testar a hipótese semi-implícita (ora, não podem eles falar de meias-verdades?) no discurso revoltado da representante do povo paranaense. Ei-la: ao invés de um voto de censura ao FED, vamos financiar o nosso Banco Central do Brasil (que, devo dizer, também não me patrocina) para que seus técnicos nos forneçam uma resposta técnica ao relatório do FED.

Muito mais simples, econômico e, convenhamos, faz mais sentido, não faz? E olha que eu não sou pago pelo povo brasileiro para dar sugestões aos nossos políticos. Não mesmo. Aliás, esta aqui é por pura generosidade e pelo meu desejo de ver nossos representantes justificando melhor o pagamento que lhes fazemos mensalmente em seus contracheques.

p.s. (*) Ver o cap.1 de Through the Language Glass – why the world looks different in other languages do Guy Deutscher. Editora Pincador, 2010.

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Eleitores medianos, profissionais de marketing e políticos: qual a relação entre eles?

Diante destes últimos resultados divulgados pelo Gallup, você já imagina onde está o eleitor mediano dos EUA em termos do assunto “China”, não é? Por exemplo, digamos que a análise seja em torno da dimensão “poder militar”. Segundo a pesquisa:

Though Gallup last year found that most Americans regard China as more friend than foe, many Americans regard China’s military strength and economic power as a threat to the vital interests of the U.S. Americans are more likely to perceive China’s economy (52%) than its military (46%) as a “critical” threat to U.S. vital interests over the next 10 years, suggesting that, for now, U.S. residents see China’s growing influence through more of an economic lens.

Então temos 46% dos entrevistados imaginando que o poder militar chinês é uma ameaça aos interessos dos EUA. Obviamente, aqueles que já ouviram falar em Teorema do Eleitor Mediano não podem deixar de pensar no tema. Afinal, o que um político norte-americano fará ao perceber que 46% dos seus potenciais eleitores temem o poder militar chinês? Aliás, você conhece o teorema?

O eleitor mediano

É muito interessante pensar no significado do eleitor mediano em termos das preferências. Um exemplo disto está aqui. Na verdade, é um resultado bem interessante. Duncan Black fez sua prova nos anos 50. Você já viu o Teorema? Eis aqui a tradução do mesmo, tal como em Ordeshook (1986):

Se todos os cidadãos têm preferências de pico único em uma única dimensão, então a preferência ideal mediana é um vencedor de Condorcet e a ordenação da preferência social sob a regra de maioria simples é transitiva, com o seu ponto máximo na mediana. (p.162)

A dimensão única a que ele se refere nos diz que esta versão do teorema é a mais simples, ou seja, ele é demonstrado apenas em uma única dimensão. Digamos que a dimensão em discussão seja o valor mensal a ser pago como subsídio para blogueiros de economia que escrevem poesias e elogios para governantes do Brasil. Imagine que estes valores são contínuos no intervalo [0, 100]. Pronto. Então estamos discutindo os subsídios para estes sicofantas.

Imagine que existam diversos políticos, cada qual com um ponto máximo de utilidade. Por exemplo, o político Zé Cirneu prefere acha ideal que que estes blogueiros tão simpáticos ao seu governo recebam R$ 100,00 mensais. Este é o ponto que lhe dá maior utilidade. Já Zelúbio estará mais satisfeito se seus amigos receberem R$ 50,00. Há também a Narima Selva, que não vê com muitos bons olhos este programa. Para ela, o ideal são R$ 10,00. Há mais políticos na mesa de negociação, digamos, com propostas de valores menores do que R$ 10.00 e outros, mais gastadores, com propostas de valores maiores do que R$ 100,00.  Digamos que R$ 50,00 seja a mediana destas propostas.

Narima, que prefere R$ 10,00, sabe que R$ 50,00 é a proposta mediana, ou seja, aquela que divide os votos dos parlamentares em 50% para cada lado. Assim, se ela votar em R$ 10,00, ela atrai votos dos outros deputados que preferem dar pouco subsídio aos blogueiros, mas perde os votos daqueles que desejam pagar mais do que R$ 10,00. Caso Narima resolva fazer um sacrifício e votar por R$ 100,00, junto com Zé Cirneu, ela perde votos na outra ponta. Note que o mesmo raciocínio vale para Zé Cirneu e para todos os outros deputados.

Isto acontece porque a regra de votação é a de maioria simples (ganha quem tiver 51% dos votos). Então, se a proposta mediana é R$ 50,00, a tendência é que todos votem muito perto de R$ 50,00. A proposta de R$ 50,00, aliás, é o vencedor de Condorcet.

Aqueles que já estudaram um pouco de Ciências Econômicas percebem que estamos trabalhando com uma preferência do tipo ponto de saciedade (que é o ponto de maior satisfação gerado para uma dada cesta, no caso, uma cesta de um único bem chamado “bolsa para blogueiros sicofantas”). E o que acontece quando as preferências não têm pico único? Simplesmente não será possível construir uma preferências social, que agregue as preferências individuais destes políticos.

Preferências com mais de um pico

Fiquemos apenas com nossos três candidatos para facilitar. Assim , usaremos a letra “P” para denotar a relação de preferência. Por exemplo, 10 P 3 será lido como “10 é preferido à 3”. Então, para Zé Cirneu, as preferências são: {100 P 10 P 50}. Para Zelúbio, as preferências são {50 P 100 P 10}. Finalmente, Narima ordena suas preferências como {10 P 50 P 100}.

O ponto importante é que cada um dos políticos envolvidos neste debate possuem, cada qual um único valor de subsídio ao qual atribuem a sua maior utilidade. Ou seja, cada um tem preferências de pico único (o pico máximo de utilidade). Repare o que acontece quando estes três políticos negociam. Digamos que eles se falam ao telefone. Como são políticos, são desconfiados e negociam separadamente.

Assim, numa negociação estratégica, qual seria o acordo entre Zé e Zelúbio? Repare que 50 e 10 são as piores opções para Zé e Zelúbio. Então, um acordo entre eles seria possível com 100 que é a melhor opção de Zé e a segunda melhor de Zelúbio. 

Como ficaria a negociação entre Zé e Narima? Seguindo a mesma lógica do exemplo anterior, 50 e 100 provavelmente serão descartadas e o resultador seria 10, a primeira opção de Narima e segunda de Zé. Finalmente, Zelúbio e Narima. Neste caso, 10 e 100 serão descartadas e o resultado será 50.

Então, neste caso, perceba, não há como obter uma proposta que satisfaça os três ao mesmo tempo. Este é a forma simplificada do conhecido resultado da impossibilidade de Arrow, vale dizer, o resultado de que não há como obter uma preferência social (a não ser que um dos três imponha sua preferência sobre as dos demais, de forma ditatorial).

Por que investir em pesquisas de opinião?

Garanto que você sempre imaginou que investir nestas pesquisas fosse importante para empresários. Mas, não se engane, políticos adoram pesquisas de opinião. Claro que a exigência quanto à qualidade da pesquisa é função do quão importante é atender as preferências dos eleitores afim de ganhar uma eleição, por um lado, e da qualidade daqueles que ofertam as pesquisas, de outro. Não é coincidência que testemunhemos mais casos de perigosas amizades entre gente barra pesada do meio publicitário e políticos do que entre empresários e gente de agências de comunicação, não?

Aliás, isto nos faz pensar em outros problemas como os que tratei anteriormente, sobre liberdade de imprensa e liberdade econômica, mas isto é uma outra conversa (e é uma conversa antiga neste blog).

Finalmente…

Claro, o Teorema do Eleitor Mediano pode ser demonstrado também sob uma realidade multidimensional e o leitor interessado poderá achar mais em Ordeshook, Peter C. Game Theory and Political Theory – an introduction. Cambridge University Press, 1986.

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Em homenagem a Maduro

Eis o sub-índice do IPCA referente ao produto mais usado no Brasil: o papel higiênico.

papelhig_againAntes que você se espante com o dado em Ago/2001, adianto que o pessoal do IBGE não errou. Há alguns anos atrás eu fiz a piada de que poderia ter havido uma grande crise de diarréia em 2001 mas, na verdade, houve uma explicação para este aumento (e eu não me lembro agora qual era, mas tinha a ver com o mercado de papel e algum evento no lado da oferta, mas posso estar enganado).

O leitor interessado em questões de higiene pessoal pode admirar esta obra de arte aí no alto. Aliás, ele pode, inclusive, baixar os dados no IBGE para as regiões metropolitanas cobertas pelo índice. Taí um bem que, realmente, podemos chamar de bem de necessidade, independentemente do que digam os livros de Microeconomia.

Com o perdão do trocadilho, as políticas econômicas heterodoxas (pré-Real) não ajudaram muito o brasileiro deixando-o em uma m###a muito grande. Isto sem falar na idéia heterodoxa suprema que foi a do Plano Collor, de passar a mão na poupança dos brasileiros. Eu nunca tinha parado para pensar em quão feio e engraçado é pensar na inflação. É, a vida tem destas coisas.

 

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Câmbio e Conta Corrente – Abenomics novamente!

Voltando ao tema da Abenomics, eis aqui algo a se pensar: será que existe uma correlação entre as Conta Corrente (CA) e a Taxa de Câmbio (E)? Bem, eu já fiz as contas e sei que existe um certo padrão (já falamos disto antes, não?).

Veja aí a correlação, com os dados ajustados em escala logaritmica. A amostra vai de Jan/1999 a Out/2013, ou seja, temos dados mensais.

correlationAE

Embora este seja um gráfico útil, mais útil ainda é pensar na correlação cruzada entre as duas séries de tempo. Em outras palavras, eu não quero apenas ver a correlação amontoando os dados ignorando suas propriedades específicas de séries de tempo (ou séries temporais).

Por que isto seria interessante? Bom, pode-se perguntar sobre qual a correlação entre as duas séries em diferentes pontos do tempo. Quero dizer, uma coisa é a correlação contemporânea entre as duas séries, CA e E ser baixa. Outra é saber se a correlação entre elas com um mês de diferença, é igualmente baixa.

Digamos que você acredite que o impacto de E sobre CA seja defasado. Será que a taxa de câmbio de hoje está mais fortemente correlacionada com a CA de amanhã? Supondo que este efeito, caso exista, seja um padrão para toda a amostra, podemos testá-lo por meio da correlação cruzada. Pode-se fazer isto

Os dois conjuntos de gráficos abaixo ilustram a interpretação da correlação cruzada. Primeiro, observe as correlações entre diferentes defasagens de CA sobre E.

abenomics1

Por exemplo, no alto, à esquerda, temos uma correlação positiva de 0.36 entre E e CA no mesmo período de tempo. Já com um período de defasagem de CA, a correlação com E já é um pouco menor, 0.33. Com dois, 0.30. Com três, 0.26. E assim por diante.

Podemos fazer o correlograma das defasagens de E sobre CA.

correlation2

Neste segundo conjunto de gráficos, observamos que a correlação contemporânea é de 0.36. Entretanto, a primeira defasagem de E se correlaciona de forma ligeiramente mais intensa – 0.38 – com a CA. A CA também está fortemente relacionada com E de dois meses antes – 0.39 – e, claro, o mesmo vale para três defasagens de E.

Estes resultados parecem indicar que os impactos das defasagens de E sobre CA são mais fortes do que as de CA sobre E, não? É, como ensina este professor, algo compatível com alguma noção de causalidade. Digo, parece que estamos vendo defasagens de E serem mais fortemente correlacionadas com CA atual do que defasagens de CA sobre o E atual.

Alto lá!

Entretanto, é importante ter muito cuidado com este exercício. Estas séries podem estar impregnadas de tendências ou ciclos que, se não previamente filtradas, “confundem” as correlações calculadas. Em outras palavras, você pode estar subestimando ou sobrestimando estes impactos porque está misturando uma tendência de alta ou uma ciclo sazonal com o legítimo sinal que cada série emite.

Ficou confuso? Bem, nada que umas horas de estudo não ajudem.

Agora, a ferramenta, a visualização da correlação cruzada, pode nos ser útil em diversas situações em que analisamos duas ou mais séries no domínio do tempo. A Abenomics, aqui, foi mais uma desculpa para ilustrar o conceito. Para não ficar tão chato, ficam as dicas do R aí embaixo.

Momento R

Para calcular os conjuntos bonitos de correlações cruzadas:

library(astsa)
lag2.plot(CA,E,12,corr=TRUE)
lag2.plot(E,CA,12,corr=TRUE)

Para ver a função de correlação cruzada, em um único gráfico, pode-se usar o comando básico do R, ccf:

ccf(E,CA)
ccf(CA,E)

Ah sim, o primeiro gráfico, com a escala ajustada de forma logaritmica:

library(lattice)
library(latticeExtra)
xyplot(CA~E, grid = TRUE, scales = list(x = list(log = 10, equispaced.log = FALSE)),
auto.key = TRUE, type = c(“p”, “r”), lwd = 4)

 

 

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Primavera Venezuelana

Honestamente, é difícil ter paciência com gente que acha bonito um político que tem acesso às listas de votação e usa isto em proveito próprio não pode ser alvo de admiração de um ou outro estadista. Este alguém foi Chávez (leia este artigo, pelo menos o resumo, para ver como se mede o preço da oposição sob um regime autoritário).

A ele se sucedeu um tal Maduro, que fez questão de dizer em rede de TV nacional que havia visto o falecido candidato a ditador, Chávez, em um muro e, depois, em um passarinho. Uma piada pronta, eu sei, embora nossa diplomacia pareça achar isto tudo muito normal. Bem, até aí, nenhum problema.

Mas no momento seguinte, o senhor Maduro se candidata a ser mais um daqueles que cometem democídio no mundo. Não, aí não é mais tudo bem. Você pode até falar que seu chefe do Banco do Brasil é do PT e, suponha, o PT censura quem fala contra Maduro. Eu aceito este argumento, embora lamente muito que você esteja sujeito a uma mordaça. Pior para você. claro.

Agora, novamente, o que é curioso nesta história toda é a tentativa de Maduro em lutar contra a realidade: a inflação venezuelana é um fato e o modelo redistributivista (este, em que uma espécie de “bolsa-família” vira um subsídio grego enquanto durar o patamar favorável do preço do petróleo) está falido. Já fizeram de tudo: expulsar o capital estrangeiro e lhe tomar os ativos, xingar o Bush, o Obama, etc. Querem congelar preços e calar a imprensa que lhe faz oposição. Resultado? A Venezuela caminha para os piores lugares em todos os indicadores sócio-econômicos que existem.

A Economia Política desta história toda me diz que esta história não terá final feliz. Infelizmente. Mas engraçado mesmo é que nossa imprensa resiste bravamente a chamar isto tudo de uma legítima primavera venezuelana. Para o bem ou para o mal, isto me lembra muito a Primavera de Praga (compare a Wikipedia em língua portuguesa e a inglesa para ver se há viés, se há conteúdo melhor, etc).

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Mais Abenomics

Em alguns dos últimos posts eu falei um pouco da Abenomics. O leitor já notou que estou usando o tema como um exemplo didático para quem realmente acredita que o professor pode ensinar fora da sala de aula. Digo “realmente” porque tem uns alunos que adoram usar a internet, mas não conseguem saber o que é, digamos, a Wikipedia ou onde fica a seção de downloads do IBGE.

Mas nossos leitores são um pouco mais loucos e interessantes do que a massa comedora de brioches que infesta nosso Febeapá (que, por sua vez, infesta nosso país, como nos disse o saudoso Stanislaw Ponte Preta). Hoje, vou aproveitar para citar rapidamente um pequeno artigo que bem poderia ser usado por alguns mais chegados em dados de painel. O artigo é de Toshihiko Hayashi e foi publicado no último número do International Advances Economic Research que é um dos dois journals da International Atlantic Economic Society. Acho que o journal não tem um fator de impacto muito alto, mas, enfim, é um lugar bom para se encontrar alguns artigos pequenos, de leitura rápida e, muitas vezes, interessante.

Abenomics, novamente!

Assim, do que trata Hayashi (2014)? Cito o resumo (abstract):

Abstract: This study is an attempt to assess the impact of policy initiatives launched by Japan’s new Prime Minister Shinzo Abe on Japan’s real gross domestic product (GDP) in his first quarter in office. We use as a benchmark for measurement a counterfactual estimate of GDP. Since the Japanese economy is also in the midst of reconstruction from the 2011 Tohoku disaster in the first quarter of 2013, we first estimate the counterfactual GDP that would have materialized in the absence of that disaster. We will use a dummy variable method and the statistical method proposed by Cheng Hsiao and others. We check the validity of these methods with regard to the Kobe earthquake of 1995 and then estimate the post-disaster counterfactual GDP in the absence of the Tohoku disaster. We measure the impact of government policies as the difference between the actual and counterfactual GDP. By doing so, we conclude that government policies have failed to lift Japan’s GDP to the expected level. Even with the help of Abenomics, the gap remains in the range of 6 to 14 trillion yen per year.

Para alguns leitores, imagino, a novidade é o termo contrafactual, um conceito que eu diria “inventado” por Robert Fogel para estudos similares a este, em História Econômica e que, hoje, é a moda do pessoal que faz análise de políticas públicas. Há um belo texto, já citado aqui, que faz um contrafactual sobre a economia cubana. O contrafactual, naquele caso, é: como teria sido o desempenho da economia cubana caso não tivesse havido a implantação da ditadura de Castro (uma versão do artigo, de 2011, é esta)?

É óbvio que não é simples construir um contrafactual e há diversas metodologias disponíveis para tal (eu recomendo o estudo do Felipe, Thomas e Stein, inclusive, pela inovadora forma como tratam do tema). Isto sem falar no aspecto temporário ou permanente de grandes choques naturais.

A pergunta de Hayashi (2014) faz todo o sentido. Afinal, ao lançar sua política, o governo japonês já se empenhava na reconstrução do país, gerando estímulos do lado da demanda. Logo, como distinguir entre este incentivo e o outro gerado pela política de Abe? Afinal, no mundo real, ceteris paribus é difícil de se ver e, claro, é importante demais para não ser trabalhado (de certa forma, os controles em uma regressão têm esta função, creio).

As três flechas

Já citei aqui, brevemente, alguns pontos. Mas o autor faz um ótimo resumo sobre a política.

The policy program consists of “three arrows,”a well understood reference to a legendary saying of a medieval lord to his three sons: a bundle of three arrows is unbreakable even though each one may be snapped individually. Prime Minister Abe’s three-arrow agenda consists of: 1) putting pressure on the Bank of Japan (BOJ) to launch unprecedented monetary easing, 2) a deficit-financed budget with a focus on public works spending, and 3) a deregulation program for growth to encourage private investment.

Em poucas palavras, não parece ser algo muito diferente de uma política expansionista comum, não? Claro, acrescida de uma leve reforma microeconômica (o ponto (3)) para acelerar o investimento privado, o que tem consequências não apenas na demanda agregada, mas também na evolução do estoque de capital do país, portanto, na oferta agregada (não é à toa que Krugman e Stiglitz estejam, por assim dizer, enamorados desta política).

Este artigo na Business Insider, fornece-nos um útil diagrama explicativo da Abenomics (ironicamente, as flechas são os quadrados de borda dupla):

Acho que este diagrama nos ajuda um bocado, em termos dos grandes efeitos esperados. Mas não vi ali a taxa de juros. De qualquer forma, ontem eu comentei um pouco sobre o tema, e tentei resumir alguns dos argumentos em termos de um modelo intertemporal simples. Mas, claro, Hayashi (2014) já tinha feito um resumo muito mais breve. Repare na observação sobre a taxa de juros real no final do trecho (ontem eu falei um pouco sobre isto, mas pensando no consumo):

In academia, the bureaucracy, and financial institutions, people started to talk about confidence and expectations intilled by Abenomics. They point to the possible channels through which the capital market hype will trickle down to the markets for goods and services; the collateral effect and the asset effect. With improved balance sheets, companies would be willing to invest in plant and equipment because they could afford to take larger risks. Besides, the real interest rate is expected to go down even further.

Ah, o mercado de capitais, as expectativas e todo aquele papo que tantos alunos acham inócuo sobre os mecanismos de transmissão entre a política monetária e o mercado de ações. Ironicamente, um dos artigos mais importantes sobre o tema é o de Fumio Hayashi, sobre “q” de Tobin. Mas, veja, expectativas não são apenas um fetiche de macroeconomistas (eu diria, um fetiche microfundamentado…). Em um país como o Japão, preços de terrenos podem já incorporar a expectativa de catástrofes naturais, não? Em outro artigo, o prof. Saito e seus associados, por exemplo, nos dizem que (grifos meus):

In this paper, we explore how asset pricing reflects public perceptions of earthquake risk using officially appraised prices of land situated along the Uemachi fault, lying along a north-south axis in the east of Osaka prefecture in Japan. We find that active fault risk has been included significantly in land pricing, only since residents and even policymakers first realized considerable earthquake risk involved in the land along the Uemachi fault by observing that in January 1995, the earthquake driven by the Rokko-Awaji fault had catastrophic damages on the southern part of Hyogo prefecture. We estimate that nonresidential land prices along the Uemachi fault are discounted by 4 percent for every 100 meters closer to the fault line.

Ou seja, não é tão simples assim, não é? Dá uma olhada no artigo dele para descobrir mais coisas interessantes sobre o tema dos desastres naturais e preços da terra.

Concluindo

Hoje aprendi um pouco mais sobre a Abenomics. A pesquisa por alguns artigos e notícias já me rendeu um pouco de material que necessita ser digerido para poder entender um pouco melhor o que se passa lá. Uma coisa, entretanto, já ficou clara: é apenas uma política macroeconômica expansionista no estilo keynesiano/monetarista tradicional do termo. A sensação que fica é que sem as desregulamentações do lado da oferta, ela terá fôlego curto e não adianta fazer discursos nacionalistas porque pessoas aprendem e expectativas podem mudar muito rapidamente (como vimos no texto do Prof. Saito sobre desastres naturais citado acima).

Sim, comentários são bem-vindos.

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Japoneses intertemporais e a Abenomics

Para mim, a resposta é simples: sim. Embora isto seja correto, o governo japonês – que já anunciou o aumento faz algum tempo – implementará este aumento de uma forma que nem todo consumidor entendeu corretamente, na opinião dos autores deste blog. Vejamos (grifos meus):

At Isetan, these notices are posted prominently in the furniture and bedding sections, as well as the eyeglass section, meaning departments where people order merchandise and then take delivery later. As one Isetan employee explained to the paper, the consumption tax is applied on the day of receipt of merchandise, not on the day it was ordered or even on the day it was paid for. A good portion of department store sales are order-made products, and the notices are cautioning customers to make sure they understand the date their stuff will be ready to pick up, otherwise they may end up paying more than they thought they would.

Então a história é assim: você pode encomendar um produto hoje e recebê-lo amanhã. Mas se o cartão de crédito só fizer o débito na sua conta dois dias depois do dia do novo imposto, você paga o imposto. Simples assim.

Obviamente, não se pode ignorar a oferta e a demanda:

However, a related article in the weekly Aera says that consumers shouldn’t worry that much, since there’s a good chance people will buy something now to avoid the tax hike only to end up paying more. Some retailers are not as straightforward as the above-mentioned department stores, using the rush as a means of getting customers to sign up for credit cards in order to compound their savings without realizing that in the end they’ll probably have to pay handling fees that will negate such savings, unless they happen to be frequent patrons of the store, in which case they probably already have a card. The magazine interviewed a few housewives who plan to make big purchases ahead of the tax hike.

Não é só uma questão de evitar o imposto, mas sim uma questão de se maximizar o seu excedente do consumidor, aproveitando sua liquidação (como sabemos, o excedente do consumidor é uma medida imperfeita, mas razoavelmente aceita, da satisfação do consumidor).

Posso estar enganado, mas acho que os blogueiros parecem comprar muito rapidamente esta história de que consumidores seriam bobos ou que os mesmos não seriam, digamos, tão racionais assim. Mas, calma lá. Temos que pensar no que o consumidor faz quando vai às compras. Informar-se sobre o imposto é fácil pois, como os próprios blogueiros relatam, as lojas buscam levar esta informação aos consumidores.

Em segundo lugar, não podemos nos esquecer daquela pergunta antiga, do George J. Stigler, sobre a demanda do consumidor. Mais ou menos assim é o problema: suponha que você quer comprar uma geladeira e quer comprá-la ao menor preço possível. Caso você a compre por um preço diferente do menor preço encontrado no mercado, então poderíamos dizer que você seja irracional? Não.

Obviamente, o consumidor tem que alocar seu tempo para diversas atividades em um dia (lembre-se do modelo de Household Production do Becker, por exemplo) e, portanto, só buscará o preço mais baixo até o ponto em que o benefício marginal de seu tempo se igualar ao seu custo marginal, o que não significa, portanto, que ele necessariamente encontrará o menor preço da cidade, mas o que lhe otimiza o uso do tempo. Simples assim.

Mesmo que alguns consumidores errem aqui ou ali, no sentido de se afastarem deste nosso modelo do consumidor racional, ainda assim o fato é que eles se anteciparam ao anúncio da política como a própria matéria no blog afirma. Interessante, não?

O governo japonês, como se sabe, está preocupado com sua dívida interna, realmente muito grande. A sustentabilidade dela não pode se perder e, afirmam, isto é um bom motivo para aumentarem o imposto sobre o consumo.

Um pouco de Microeconomia…

A antecipação dos consumidores pode ser pensada, em parte, como uma tentativa de suavizar o consumo. Afinal, parte do aumento do consumo busca manter o padrão de vida da família (já que estão pensando em queda de renda no futuro). Pensando em um modelo de dois períodos (sem inflação ou incerteza), o que ocorre é que o valor presente do consumo deve ser igual ao valor presente da renda total do indivíduo (ou família).

C1 + C2/(1+r) = (Q1 – T1) + (Q2 – T2)/(1 + r)

O governo anuncia que T2′ = T2 + d (d > 0). Poderíamos falar da expectativa de imposto futuro, Te2, mas como o anúncio do governo é crível (no caso do Japão, acho que ninguém reclamaria desta hipótese…), então o fato é que T2′ = Te2. Assim, o consumidor sabe que, agora, o valor presente de sua renda caiu.

Em dois períodos, a análise é simples porque o consumidor fará o seguinte: ele deixará de consumir um pouco hoje e poupará para manter seu padrão de vida amanhã, com o imposto mais alto.

Mas o problema pode ter mais de dois períodos e, neste caso, o que parece um aumento “temporário” (apenas em um período) é muito mais parecido com um aumento permanente (por vários períodos) no futuro. Neste caso, movimentos de poupança podem até existir, no curto prazo, mas não no longo. O que pode acontecer é um ajuste do consumidor à nova situação.

Entretanto…

Repare em um detalhe: na política do primeiro-ministro Abe, várias medidas são feitas para se estimular a inflação. Deseja-se chegar à meta de uma inflação de 2% ao ano. Então, outra expectativa que o consumidor japonês tem na cabeça é que os preços dos produtos vão subir. Isto significa que a taxa de juros relevante para ele é a taxa real, não a nominal. Com esta expectativa em mente, ele deve refazer suas decisões de consumo não apenas com o novo imposto, mas com a perspectiva de que os produtos ficarão mais caros.

Uma variável mais incerta é a renda do trabalho. Embora o primeiro-ministro esteja buscando acordos com sindicatos, é mais incerto que a renda do trabalho vá subir. Digamos que o consumidor espere um aumento de sua renda no futuro. Então, precisamos rever os parâmetros de nossa restrição. Em dois períodos:

C1 + C2/(1+r’) = (Q1 – T1) + (Q’2 – T’2)/(1 + r’)

Com r’ < r, T’2 > T, Q’2 > Q2.

Honestamente? Eu aposto que a renda disponivel ficará mais ou menos igual e que o aumento da inflação será sentido mais fortemente (estou sendo conservador: eu realmente acho (sou esquizofrênico, lembra?) que a renda disponível diminuirá um pouco, como falei no início desta análise…). Desta forma, para mim, o movimento mais forte, no momento, deve ser o da queda da taxa de juros real, que estimula o consumo presente.

Claro, eu ignorei aqui a taxa de desconto intertemporal, mas você pode fazer seus comentários aí embaixo, ok?