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Plano Real faz aniversário dia 27

Muita gente deve estar comemorando. Alguns nunca negaram sua participação e apoio no plano. Outros, claro, foram contra e depois fizeram de conta que eram amigos do Plano Real desde o início.

Existe um Plano Real hoje? Acho que o que temos é uma economia que se favoreceu imensamente deste plano. Talvez o blog faça algo mais detalhado sobre o plano. Acho que visão da inflação em queda já é algo digno de ser notado. Quem iria conseguir fazer um programa como o Bolsa-Família em uma economia com inflação que atingiu marcas históricas como 80% ao mês?

A estabilização é tão boa que até gente irresponsável consegue destruir instituições monetárias com suas políticas alucinadas. Enfim, a estabilização é democrática: não favorece somente os bons e justos, mas também os canalhas e ignorantes. Talvez esta seja a maior virtude de uma estabilização de um processo inflacionário. Uma virtude que alguns parecem querer deixar para trás agora.

Eu me lembro bem do início do Plano Real. Eu tinha uma bolsa de mestrado (um importante sujeito que votava em listas fechadas enviadas pela sua célula em um certo partido, hoje, muito importante no Tesouro Nacional, também vivia assim, mas vamos preservá-lo, né?). Era aquela vida maluca em que os preços não paravam de subir.

Quem nasceu depois de 1999 não pegou – graças a Deus – aquela época terrível.

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E no Brasil? Qual a visão do brasileiro acerca do comércio exterior?

Nossa Receita Federal, eu sei, acha que o comércio exterior é uma imensa desculpa para tributarem qualquer importação. Agora, o que o brasileiro pensa? Será que a resposta será similar à dos norte-americanos?

Alguém conhece uma pesquisa similar? Este bando de políticos que fazem campanha e que dizem representar os brasileiros têm alguma pesquisa a respeito? Eu gostaria de saber. Jovens brasileiros parecem insistir em uma noção de comércio que eu diria, até, esquizofrênica. Mais ou menos assim: o brasileiro adora consumir mais produtos, mas sofre de um certo chavismo infantil – talvez fruto de uma doutrinação tímida misturada à falta de informação – no qual ele percebe qualquer produto estrangeiro como uma ameaça.

Em resumo: um IPAD é ótimo, mas um IPAD é uma ameaça (maligna) contra nossa nação.

Epílogo: “nação”, cara-pálida?

Aliás, o que é mesmo uma nação? Vamos subverter um pouco o sujeito que está em sua zona de conforto.

Consider two nations, each claiming the same piece of territory. Each may try to gain its ends by force, threats, or offers of payment or exchange. It seems reasonable to suppose that the outcome will be efficient, that the territory will end in the control of the nation willing to pay the higher price. The alternative conjecture would be that the stronger nation will usually be the winner, since it can, if necessary, annihilate the other. Under circumstances of total war, this is doubtless true. But in a world of many nations, the winner of a war of annihilation, although better off than the loser, may be seriously disadvantaged with regard to all other nations. The use of such tactics is then unprofitable and the threat of them implausible. So it seems reasonable to suppose that what determines the winner is not the total resources possessed by each nation but the resources each nation is willing to spend to gain its end and that this will correspond roughly to the value of the end. 

Territory may be of value to a nation for many reasons of strategy, sentiment, politics, or economics. We will assume that the reason of chief importance for the phenomena we wish to explore is economic. More specifically, we assume that the value to a nation of any territory is the increase in tax collections made possible by control of that territory, net of collection costs. 

Sensacional, não? Neste artigo de 1977, David Friedman faz a pergunta que nem sempre ocorre às pessoas: não seria uma nação aquilo que foi conquistado por alguém, com fins de maximização de riqueza? Assim, não é uma nação aquilo que se caracteriza por uma “cultura”, “língua”, “povo”. Na verdade, o que prevaleceu na conquista foi alguma “cultura(s)”, “língua(s)” ou “povo(s)”. Acha estranho? Então me explica a diversidade cultural, linguística e de populações da China comunista.

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O famoso poder real de compra encontra o baile funk: prostitutas, calcinhas e a pizza

Digamos que você ainda não entendeu a diferença de grandezas nominais e reais porque está, penso eu, no primeiro ano de curso e não lê muito fora de sala de aula. Ok, vou te ajudar usando aquela música “maravilhosa” (não para mim): o funk.

Uma postagem no Facebook, anunciando um evento chamado “Funk de Segunda Apresenta: Baile Funk de Carnaval”, circulou e chamou a atenção do público frequentador da casa de shows Granfinos, na tarde desta quinta-feira (20).
O evento anunciava como ação promocional que 50 mulheres que            fossem ao evento sem calcinha (sem explicar qual seria o critério               de comprovação), ganhariam um drink por conta da produção.

Calcinhas e Economia

Primeiro, deixa eu lembrar o leitor que a Economia pode ser definida como a ciência das trocas (um dia destes eu exponho meu ponto de vista sobre a definição de nossa ciência, aliás, meu não, mas de Demsetz ou Alchian). Não nos achamos superiores a outros seres humanos para julgar valores individuais. O que nos importa é entender o papel dos incentivos. Então, sim, meu caro, se eu tivesse uma filha de 12 anos que me falasse do baile, eu não deixaria ela ir ou criaria incentivos muito fortes para que ela mudasse de idéia.

Então, acho que não há motivos para críticas. Não gostou? Não deixe sua filha ir. Ponto. Mas quanto à estratégia de mercado, é uma bela iniciativa. Nada de novo, é bom dizer, exceto que agora é só baixar a calcinha para o felizardo do segurança (caso ele não seja homossexual, claro). Ah sim, não vou nem discutir a opinião de alguns que vão se achar discriminados porque não podem baixar a cueca para ganhar uns drinques. Haja paciência…mas vamos à parte divertida: a economia!

Calcinhas e drinques

Suponha uma moça não muito chegada a valores morais quanto ao sexo. Digamos que ela imagine que a Bruna Surfistinha é um modelo de mulher moderna. Novamente, se fosse minha filha, ia ouvir poucas e boas. Mas vamos supor esta moça hipotética, convexa, bem-comportada, contínua e muito sexualizada para a sua idade (se é que me entendem). Então esta moça provavelmente já se livraria desta “opressora calcinha machista” por uns R$ 100,00, à noite, ali perto da avenida Afonso Pena em BH. Eu sei, eu sei, você também está chateado com esta história aqui no blog. Mas meu objetivo não é incentivar a prostituição ou a audiência às pregações de Marcos Feliciano. Isto é problema seu. Meu ponto é puramente econômico.

Agora, imagine que esta donzela ganhou uma grana no dia anterior com sua profissão paralela  é uma das primeiras a chegar ao baile funk. Suponha que o drink custe R$ 5.00. Então, veja só, a dona moça aumentou seu poder de compra duas vezes. Sua renda nominal (digamos que ela tinha apenas R$ 50.00 que ganhou dos pais…que nada sabem sobre sua vida verdadeira) que eram R$ 5.00 agora são R$ 150.00. Mais ainda: ela deixou de pagar R$ 5.00 no drinque. Ganhou um drinque com preço R$ 0.00.

Calcinhas, drinques e pizzas

Eu espero que nem tudo termine em pizza, mas a simpática rapariga desta história, mas veja como funcionam os incentivos. Inicialmente, a restrição orçamentária da moça era: tudo o que eu posso gastar em drinques e no restante com apenas R$ 50.00. Temos que sua restrição era, inicialmente:

50 = 5x + D

em que x = quantidade de drinks (ou, alternativamente, mililitros do tal drink) e D é o gasto com outros bens, em reais (R$). Como o preço de R$ 1.00, obviamente, é R$ 1.00, isto é a mesma coisa que escrever: 50 = 5x + 1*D no qual 1*D = D, claro.

Agora, o que acontece quando ela se prostitui? A restrição orçamentária dela se transforma em:

150 + 5x + D

Mas lembre-se que a história não terminou aqui. Ela conseguiu chegar entre as 50 “felizardas” da fila e ganhou um drinque de graça. Apenas um, claro. Então, para o primeiro drinque, o preço é zero. É como se a restrição dela fosse:

D = 150 para x  ≤  primeiro drink (em mililitros).

A partir daí, a restrição é: 155 + 5x + D

Em poucas palavras, ela ganhou R$ 5.00 no orçamento. Por conta do que ela ganhou com a prostituição, já poderia comprar um número de drinks equivalente a R$ 150/5. Com o desconto, R$ 155/5 (a partir do segundo drink). Toda a história está resumida na figura abaixo.

bailefunk

Tudo parece terminar em pizza, não? Digo, este exemplo é muito parecido com aquele da pizza sobre o qual falei em sala de aula.

Mas isto não é repugnante?

Como já disse antes, eu concordo com você que não é um incentivo que me agrade. Mas é justamente por ele funcionar que tantos se incomodam. A pergunta anterior, portanto, é: como você sabe que ele funciona? Está aí em cima, de forma estilizada, com um pouco de drama porque tornei nossa personagem uma prostituta para mostrar como ela ganhou duas vezes com uma mudança de preço relativo (para 0 < drinks ≤ 1) e com a grana de sua atividade em venda de seu próprio corpo da noite anterior.

Então, você tem que deixar de lado a questão de se isto é ou não repugnante em primeiro lugar, caso contrário não conseguirá entender como os incentivos operam. Por que você precisa entender isto? Bem, se você quer combater este tipo de coisa, tem que usar os incentivos adequados.

Em minha opinião, não é coibinido a prática por meio de algum tipo de lei. Isto não muda os incentivos, apenas mostra que você não consegue lidar com eles e que forçar a barra proibindo uma troca voluntária. Parece fácil pensar que tudo ser resolve com uma canetada, mas mesmo bons juízes têm dificuldades com seus filhos e filhas em casa e sabem muito bem que não é assim que você resolve o problema.

Pense bem: não é proibindo a prostituição (ou ofertas de pizzas gratuitas na compra da primeira pizza) que você diminui a ocorrência destas trocas.  Acho que a solução passa por uma conversa muito simples que também envolve incentivos. Vou ajudar os pais que não conseguem conversar com suas filhas.

a) Andar sem calcinha em baile funk nos sábados – a moça que faz isto sinaliza para todos os amigos e conhecidos o seu tipo e, o tipo é o de que não valoriza muito a monogamia. Aliás, é alguém que corre mais riscos, porque prefere a promiscuidade (ou aparenta preferir, já que, bem, está sem calcinha todo final de semana e todos sabem disto). Converse com sua filha sobre o futuro. O mundo não termina com a festa de quinze anos dela. O mundo continua e um dia ela pode querer arrumar uma pessoa para uma convivência mais duradoura. A reputação ajuda, não? Embora olhar para o futuro seja importante, o fato é que olhamos para o passado das pessoas.

b) Andar sem calcinha e seu valor – a moça tem um corpo e o corpo tem valor. Falando friamente, é como um capital qualquer. Cuide bem de seu carro e ele anda mais. Cuide bem de seu corpo e ele funciona melhor. Pode ser muito fácil ganhar dinheiro saindo por aí se prostituindo. Mas não existe almoço grátis, minha cara. Mais sexo pode ser sexo mais seguro (como nos ensina Steven Landsburg em um capítulo polêmico do livro que leva justamente este nome), mas também pode significar (até para ser mais seguro), mais custos com prevenções de doenças. Quem vai pagar por isto? Você mesma? Seus pais? Qual o tamanho do custo de oportunidade?

Pensando, portanto, até em futuras relações com outras pessoas, o mais razoável é buscar preservar seu ativo, o corpo. Evidentemente, imagino que os pais tenham argumentos até melhores do que os meus mas, novamente, não estamos analisando aqui o aspecto moral da matéria sobre o baile funk. Estamos usando o fato para aprendermos mais sobre Economia (e ninguém precisa tirar a calcinha ou a cueca para aprender Economia, né? Basta sentar, abrir um livro, ler, estudar, fazer exercícios, ler de novo, estudar, etc).

Do fundo do meu coração (se é que tenho isto), espero que você tenha uma vida menos desregrada, ok?

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O FED e a vulnerabilidade do Brasil

Recebi um link de um ex-membro do Nepom com um pequeno texto do Armando Castelar em que ele confirma os resultados do FED que eu havia citado e que uns políticos resolveram criticar (mesmo sem sequer entenderem como o cálculo é feito).

Castelar calcula, ele mesmo, o indicador, já que a metodologia não é explicitada em detalhes lá no FED, tal como comentei. Ele faz um favor adicional aos leitores de seu blog (e de qualquer outro honestamente interessado em debater o tema): ele amplia o índice com mais itens para checar umas críticas dos burocratas do governo sobre o tema e, adivinhe o que ele encontrou?

O posicionamento do Brasil também não muda quando ampliamos o conjunto de medidores de vulnerabilidade, para incluir três medidores de vulnerabilidade a que o Ministro Mantega fez referência nas suas críticas à análise do Fed:[iii] o resultado fiscal, o crescimento do PIB e o fluxo de investimento estrangeiro direto. Como se vê na última coluna da Tabela 2, com esse indicador ampliado de vulnerabilidade a Turquia continua sendo o país mais vulnerável, o Brasil o segundo e a Índia o terceiro. A ordem muda, porém, a partir da quarta posição, com a Polônia passando a quarto lugar, a Rússia a quinto e a Colômbia a sexto.

Bem, aparentemente o que se vê é que a Fazenda não ganhará uma nota muito elevada no quesito dever de casa. Para finalizar, a lição de tudo é a mesma que eu apontei em “Simples assim, senadora!

No todo, os números mostram que os técnicos do Fed chegaram a uma conclusão coerente com os indicadores econômicos e que o governo não parece estar apreciando corretamente nossa vulnerabilidade à mudança na situação externa e aos desafios que a normalização da política monetária americana vai impor ao país. Melhor do que brigar com os números seria fazer as reformas necessárias para corrigir esse quadro.

Tentar torturar os números é uma acusação que sempre se fez aos economistas não-heterodoxos. Parece-me, contudo, que esta tradição verborrágica de reclamar sem fazer contas, tão cara a nossos heterodoxos nos anos 80 segue firme e forte entre os maiores usuários da mesma: seus aliados políticos.

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Pensando na Abenomics…

Eu sei que vocês estão cansados desta minha insistência com a Abenomics, mas eu não consigo deixar de pensar nela. Vamos só ver as coisas numa perspectiva mais recente?

A economia japonesa pode não ser assim tão mais exportadora como antes, mas é interessante ver como a desvalorização da taxa de câmbio deles tem um movimento bem próximo ao da Bolsa (índice Nikkei). Ok, deve ter a ver com a composição das empresas no índice e tudo o mais. Honestamente, eu não faço idéia. Mas uma coisa me parece estar sendo dita por estes gráficos: o humor com a política do Primeiro-Ministro parece estar em alta, mas não tão aceleradamente como no início.

É sempre bom mudar a janela para ver os fenômenos mais de perto.

Percebe-se como as oscilações se correlacionam, mas não tanto assim como parecem em uma janela maior (prazo mais longo), não? Eu não consegui fazer um diagrama de dispersão por um detalhe na frequência dos dados (dados diários e dados diários de fechamento).

Agora, convenhamos, bonito mesmo é o gráfico da correlação dos dados diários (04/01/1971 a 14/02/2014). Parece um dragão, não?

dragao

「日経平均と為替の龍」

円高が
経済の海
龍を見る

Durmo com esta imagem.

UPDATE: Veja se não parece?

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Liberdade econômica, caridade e capital humano: uma lição de como se começar uma pesquisa

caridade_liberdadeconomic

 

Eu já disse aqui que uma correlação não faz verão, mas resolvi colocar este resultado aqui para despertar a curiosidade das pessoas. Então, no eixo vertical temos o último índice de liberdade econômica do Fraser Institute e, no eixo horizontal aquele índice de caridade que o pessoal gosta de discutir de vez em quando. Só, que desta vez, eu coloquei os pontos da correlação ponderados pela medida de capital humano de 2010 do Barro (Barro & Lee) que são os anos médios de estudo.

Existe uma correlação positiva entre caridade e liberdade econômica? Eu diria que, caso exista alguma, ela parece ser fracamente positiva. O que istor quer dizer? Não sei. Mas sei o que isto não quer dizer.

1. Mais liberdade econômica inibe a caridade: Não sei. Com uma base de dados cross-section, apenas, não posso dizer muito. Além disso, níveis de variáveis fraca ou fortemente relacionadas não significam que variações das variáveis se relacionem.

2. Menos liberdade econômica favorece a caridade: Olha, meu caro, se não há correlação clara, ou se ela é fracamente positiva, não me parece também que isto seja sinônimo de dizer que existe uma forte correlação negativa. Veja o gráfico. Isto sem falar das outras observações feitas.

3. Caridade não tem a ver com anos de estudo: Talvez sim, talvez não. Não dá para dizer com o gráfico acima. Aliás, nem sei porque anos de estudo teria alguma relação com a caridade. Qual é a sua teoria?

Assim, no mínimo, você precisa de duas coisas: (a) uma teoria a ser testada e (b) uma base de dados maior que considere a possibilidade de outras variáveis interferirem nesta correlação simplória.

Quero fazer uma pesquisa sobre o tema! Devo sair correndo atrás de um orientador?

Calma que o mundo não vai acabar amanhã (eu acho).

Primeiramente, não incomode seu provável orientador com uma correlação sobre a qual você ainda sequer pensou. Veja, é muito importante ter alguma hipótese a ser testada. Eu até imagino que existam teorias para nos dizer que a caridade pode ser desincentivada pelo aumento no tamanho do governo (aliás, estas teorias existem e, se não me engano, existem artigos científicos sobre o tema).

Outra coisa: o que compõe cada um destes índices? Este é outro trabalho pré-encontro-com-o-provável-orientador que você deveria fazer. Trata-se do que poderíamos chamar de eu sei sobre o que estou falando. Você conhece seus dados? Pensou sobre eles? Entendeu a metodologia? Nem precisa concordar com a metodologia de coleta dos dados, por exemplo, mas tem que entender como ela é feita ou o que ela nos diz (e, o mais importante, o que ela não nos diz).

Bem, eu não sei se fiz uma caridade com este texto, mas pelo menos espero que alguém tenha entendido um pouco melhor sobre o início de uma pesquisa. Talvez até tenha ajudado a melhorar um pouco seu capital humano. Viu só como estas coisas são complicadas? ^_^